Chapter 3
N'esse «quinto imperio de mentecaptos dissertadores e mexediços»[41], em que por sua desgraça se via involvido e de cuja inanidade e degradação tremia, n'essa liberdade de especulação e impudor que foi a primeira das liberdades asseguradas ao fim de tantas batalhas e sacrificios, já aterrado pela ruina e devastação de toda a casta, material e moral, no meio da qual se debatia, tropeçando e ensanguentando-se a cada passo nos destroços de tanta cousa querida e digna de ser amada, clamava aos homens de espirito são e coração puro que corressem a defender e guardar o patrimonio das nossas infinitas riquezas, desbaratadas pelas mãos ignorantes e sacrilegas de ambiciosos depravados e sordidos, e de imbecis não menos funestos do que os mercantes ingenuamente avidos e cynicos. «Com a rapidez da colera ou da peste corria por todos os angulos de Portugal e encasava-se em todos os povoados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do passado e do futuro, se chamava illustração; que tendo por logica o escarneo e por syllogismo o camartello, se chamava philosophia. Deus a mandára ao mundo como mandou Attila e a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mistér era apagar todos os santos affectos da alma, e incarnar no coração, em logar d'elles, um cancro para o qual nossos avós não tinham nome, e que estranhos designaram pela palavra _egoismo_. Que se apressasse aquelle que quizesse guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do futuro; porque a illustração do vapor e do atheismo social alli ia livelando o que foi pelo que era, a gloria pela infamia, a fraternidade do amor da patria pela fraternidade dos bandos civis, as memorias da historia gigante do velho Portugal pelo areal plano e pallido da nossa historia presente, a obra artistica pelos algarismos do orçamento, o templo de Christo pela espelunca do rebatador. Que se apressasse; porque esses rastos dos antepassados que o tempo e os incendios, e os terremotos nos deixaram, não nol-os deixaria o descrer brutal d'aquelle seculo, que a historia distinguiria pelo epitheto de bota-abaixo, e cujo legado monumental para os seculos que viriam após elle seria um cemiterio immenso; mas cemiterio sobre o qual não se elevará sequer a humilde distincção d'uma cruz»[42].
Elle, por sua parte, dava-lhes exemplo. No sagrado trabalho a que chamava os outros era o primeiro, infatigavel no ardor com que lhe votára uma energia e capacidade de todo o ponto raras, e copioso na abundancia com que desentranhava diamantes de filões obscuros e nunca encetados, e até muitas vezes desprezados, estando aliás bem patentes á luz do sol, de continuo pisados pela vulgaridade obtusa. Foi assim que nos deu o _Eurico_, o _Monge de Cistér_, _Lendas e Narrativas_, _O Bobo_ e mil outras pequeninas joias prodigamente dispersas onde quer que o seu genio passasse, em qualquer assumpto sobre que discorresse.
Sem duvida, nem sempre o fez com perfeição. Muitas d'essas joias ficaram por lapidar, ou melhor, foram lapidadas de modo que não lhes poz em evidencia todo o seu brilho. As suspeitas de Alexandre Herculano quanto á sua obra d'arte imaginativa, eram fundadas. «A singeleza da invenção» tocou por vezes a pobreza de esqueleto; «a pouca firmeza nos contornos de alguns caracteres» aqui e além se manifesta, enfraquecendo-os por insuficiencia d'accentuação, não lhes facultando ensejo de intervirem em situações tão multiplicadas e diversas que a diversidade de conjunctura, coincidindo com a identidade de proceder, ponha bem clara a invariabilidade das feições; e ao dialogo, embora habitualmente «bem travado», contra o que o auctor aventa, acontece com frequencia encurtar-se e terminar muito áquem do desenvolvimento necessario ao pleno effeito de impressão. Mas todas essas faltas, que em outros seriam grandes, porque a magreza das creações não lhos dispensava cuidados de trajo, a debilidade da estructura carecia de se occultar na opulencia do adorno e só por si, sem o amparo e esmero do involucro, não se sustinha nem realçava, todas essas faltas em Alexandre Herculano somem-se na torrente d'um cabedal avultado, cuja enorme somma nos confunde e avassala. Ou procure esboçar-nos o quadro d'uma epoca, como no _Monge de Cistér_, ou se restrinja ao desenho de simples incidentes, como nas _Lendas_ e demais obras d'igual natureza, a exuberancia da seiva que as nutre, a intensidade de vibração psychologica que as anima e o grau de concentração em que tudo isso se nos revela, são um facto unico na litteratura portugueza, um limite nunca antes nem depois de Alexandre Herculano excedido ou sequer alcançado. O que nos fica na lembrança quando pousamos qualquer d'esses livros, por magia igualmente deliciosos e severos, é um torvelinho indescriptivel de objectos estranhos e não menos estranhos espiritos. Se a riqueza é grande em materia descriptivel, trajos, moveis, armas, habitações, combates, festas, jogos, banquetes e bens do mundo, movimento e côr, não é inferior na prodigalidade de aspectos moraes; n'esse tropel de servos e senhores, no conflicto de dependencias e instituições, a violencia do drama, riqueza tambem e preciosa em todos os tempos, não cessa de jorrar um instante, agitando de ondas humanas as materialidades ambientes, espargindo-se em uma atmosphera de ambições, de cobiças, de hypocrisias, de traições, de heroismo e dedicação a par da mesquinhez e da perfidia, de grandeza e de miseria, de todas as paixões emfim que constituem e eternamente hão de constituir o supremo mysterio e seducção suprema da nossa alma. Porque todas essas cousas que Alexandre Herculano resuscitou as tirou das cinzas, não para por si só reviverem mas para de novo se mostrarem nas suas relações com os homens; por isso que no passado adivinhou problemas d'uma actualidade perpetua, por isso os seus romances nos prendem e vencem, rendendo-nos á apreciação e ao peso de forças immortaes, communs ao passado e ao presente, mostrando-nos docemente o passado no presente e o presente no passado. Esta unidade da historia realisada na unidade do coração humano atravez de todos os tempos e modos, ergueu-lhe a phantasia litteraria a tal altura que não podia perturbar-se-lhe a grandeza por escassez de adornos, de refolhos de expressão ou fertilidade de invenção--revestimento, tantas vezes enganoso, d'uma real e profunda inanidade, supprida por alimento succulento para os que por sua fortuna e gloria foram dotados de excellencia authentica de faculdades.
Mas «no meio de estudos tediosos e positivos é impossivel que o imaginar não descore», dizia-nos o mestre no escrupulo da sua franqueza; e, por certo, dizendo-o tinha em lembrança a sua propria experiencia. Emquanto se afferrava a compulsar e a interrogar a historia, e o amor da patria lançára-o n'esse caminho e ahi o mantinha quasi sem admittir desvio, o espirito tornou-se cada vez menos indulgente com os errores da imaginação, menos docil para as suas exigencias, menos affeiçoado aos seus prazeres; enamorado de realidade extrema, deixava affrouxar sem saudades impulsos creadores, e nem sequer tentara conservar-lhes a vivacidade primitiva. De facto, o sonho ia descorando; desvanecia-se. As tendencias, de sua natureza divergentes e algum tempo conciliadas por muito e subtil engenho, recobravam independencia e em campo proprio abrigavam-se da rudeza dos attritos que as enfraqueciam, inutilisando largo capital, sacrificando a embates e antagonismos bens valiosos, perdidos em restricções obrigadas e concessões mutuas indeclinaveis. O novellista e o poeta tinham de abdicar nas mãos do historiador, para o deixarem livre de toda a coacção, não todavia tão absolutamente que lhe privassem as obras dos reflexos da presença de tão leaes servidores, nunca de todo affastados, mas apenas distanciados o bastante para o dominio e evidencia da robustez herculea do mineiro e escriptor do passado. Desembaraçou-se do enleio em forças estranhas, e, desprendido das paixões e artificios que abalavam a affirmação e a impediam de accentuar-se e dilatar-se, foi então até onde o incitavam a chegar uma abundancia e valor de materiaes desentranhados dos archivos e uma lucidez de interpretação, até aquella data ignoradas em terras portuguezas. Embora os caprichos de narrativas romanticas muito encantassem, estorvavam todavia o inteiro desenvolvimento da capacidade de revelação, justamente avida de ostentar-se na plenitude do seu vigor. Necessario se tornou ceder-lhe a preponderancia.
Singular fortuna! Exactamente quando a arte não buscava e só d'uma extrema exactidão historica cuidava, Alexandre Herculano produziu a sua mais bella obra d'arte. Em nenhum dos seus trabalhos, e é de notar que em toda a ordem do pensamento humano discorreu, alcançou a lucidez, a ponderação, a singeleza e a elasticidade de forma que attingiu na _Historia de Portugal_. Olhamos com temor para os seus quatro volumes bem providos de citações, de factos e referencias, tumidos de velharias extravagantes e termos obsoletos na linguagem e nos objectos que significavam, suspeitamos do peso do saber e agouram-se-nos enfados de repetições e minucias, de analyses prolongadas e discussões infinitas; e vamos encontrar uma suavissima lição, rapida sem insufficiencias levianas nem obscuridade de precipitações e lacunas, profunda sem oppressão e cansaço de dissertações ociosas, sem a fadiga de esforços de attenção e applicação á destrinça de elementos agglomerados ao acaso e mal ordenados, lição tão segura quando tem motivos de affirmar como discreta quando pressente alguma duvida, infundindo-nos um encanto e confiança que d'um só golpe nos subjugam e nos arrancam applausos de admiração e de affecto sorridente e grato a quem nos concede um elevado e purissimo prazer e o fabricou, para nosso bem e cultura, á custa d'um trabalho gigantesco.
Exemplifiquemos. É desnecessario escolher, ou antes, é inutil. O tecido é d'uma tão unida igualdade que em todo o ponto ostenta a homogeneidade e o bem ligado da trama, a constancia da côr e a suavidade e rythmo da ondulação:
«A actividade de Sancho ou, talvez antes, do seu habil ministro, o chanceller Julião, é na verdade admiravel, se attendermos aos multiplicados objectos pelos quaes naquella epoca essa actividade se repartia. No meio de uma guerra violenta com Leão tratavam-se as graves questões politicas de que procurámos acima dar uma ideia, bem que necessariamente imperfeita. Não era, porém, só isso. Na mesma conjunctura em que se promovia a povoação por uma e outra margem do Tejo, entregando-se ás ordens militares, principalmente aos templarios, vastos territorios, onde estas corporações poderosas pouco a pouco iam estabelecendo aldeias e granjas e fazendo arroteamentos, saiam de Portugal agentes encarregados de conduzir das regiões centraes da Europa novas colonias que supprissem a escasseza das que desciam das provincias septemtrionaes do reino. Este encargo devia ser dado com preferencia aos estrangeiros já estabelecidos no paiz e cujas relações com a sua patria natural os habilitava para atrairem novas migrações á patria adoptiva. A doação de Pontevel feita em 1195 ás antigas colonias da Lourinhã e de Villa Verde, presuppõe um incremento de população mais rapido do que poderia resultar do seu desenvolvimento natural: e assim cremos que esses municipios haviam augmentado com os aventureiros que vinham buscar melhor fortuna n'este paiz hospitaleiro. Entre as providencias que se davam já em 1198 para tornar menos solitarias as provincias meridionaes, devastadas pela longa e variada lucta da conquista e pelas recentes invasões dos almohades, foi uma das mais importantes diligencias a vinda de novos colonos. Offerecia esta gente duas utilidades; porque, não só servia para ir desbravando os logares ermos, mas era tambem seminario d'onde se podiam transplantar para os campos de batalha valentes homens de guerra. Guilherme, deão de Silves, que, segundo parece, ahi ficára com o bispo Nicolau na occasião da tomada d'aquella cidade aos musulmanos, expulso da nascente diocese pela terrivel reacção de Yacub, passou a Flandres, d'onde voltou com bom numero de companheiros, deixando muitos outros alistados para depois o seguirem. Era o chefe principal d'esta colonia flamenga um certo Raolino (Raulin?). Destinaram-lhes para se estabelecerem uma parte dos largos campos que se estendem entre Santarem e Alemquer, dando-se-lhes por termos as varzeas que o Tejo fertilisa com as suas enchentes e que já eram conhecidas n'aquelle tempo pelo nome de Leziras. Entre elles fundaram a villa-dos-francos (Villa-franca), designação que depois se mudou na de Azambuja. Raolino foi feito alcaide-mór do novo municipio e, homem talvez pobre e obscuro no seu paiz natal, honrado e enriquecido agora pelo principe portuguez, viu prosperar no processo de uma dilatada existencia aquelle simulacro da patria que levantara para si e para os seus em terra estrangeira, mas amiga»[43].
Passemos algumas paginas. Não teria sido esta lucidez e serenidade maravilhosas um momento de feliz disposição, e porventura toda a obra estará repassada de igual encanto? Experimentemos uma outra passagem:
«Aquillo em que o reinado de Sancho tem acaso mais subida significação historica é em ter então começado esse facto tão variado como complexo que se protrae por tres seculos e que constitue a principal feição publica da nossa edade-media. Falamos da alliança do rei e dos concelhos contra as classes privilegiadas, o clero e a fidalguia. N'estas primeiras phases da lucta ha não só um começo, mas tambem um resumo ou, antes, um symbolo de toda ella. Os burguezes do Porto, acomettendo o seu bispo e o seu senhor com os officiaes da coroa, sequestrando-lhe os bens, expulsando-o coberto de ignominia e affrontando a colera dos membros da poderosa familia de Martinho Rodrigues, são o typo da resistencia e da má vontade que nos municipios e nos reis acharam geralmente as duas altas classes do estado, até a monarchia obter d'ellas final e decisiva victoria. Sancho, abandonando os habitantes do Porto, transportando, digamos assim, a sua força inerte de moribundo para o campo adverso, associando-se, até, ao clero para ajudar a submetter os burguezes, dava um deploravel exemplo aos seus successores e entibiava os animos populares para as futuras contendas. Não póde, apesar d'isso, condemnal-o a historia, pois que tudo parece indicar que os ultimos mezes da sua vida foram uma dilatada agonia; e se ainda n'estes nossos tempos, em que o sentimento religioso se acha atenuado e frouxo, almas que se dizem rijamente temperadas vacilam ao aproximar-se a morte e se acurvam, não só aos terrores salutares e santos da religião, mas até muitas vezes ás crenças supersticiosas da infancia, que revivem então importunas, como deixaremos de desculpar um homem ignorante e credulo, nascido numa epoca ferrea, de sacrificar á voz dos remorsos, muitos dos quaes seriam legitimos, tanto as conveniencias como a lealdade politica?»[44].
Não foi, porém, esta arte incomparavel na subtileza de analyse, de conjuncção e de expressão, não foi esta virtude que os contemporaneos e a posteridade reconheceram mais promptamente na _Historia de Portugal_. A impressão do pasmo pela renovação da historia e pela fortaleza de verdade que a acompanhava e a tornava subsistente, esse foi o impeto que de subito lhe deu um logar de excepcional proeminencia. Consideravamos a nação uma tarefa cavalheiresca do genio militar rematada com bom exito, questão de audacia militar e fortuna na peleja, de paixão da guerra e de conquista, consequencia dos dotes dos reis e principes, do seu temperamento e do seu querer, uma intriga de acções generosas e de cobiças vãs; raras arremetidas de justiça atropeladas por muita traição e vingança, revoluções e luctas saidas de roubos, violencias e especulações de senhores ambiciosos, despoticos, mais rudes ainda na alma insensivel e sem escrupulos do que no corpo prompto a toda a fadiga, dureza e excessos. Consideravamos a historia patria obra da vontade d'alguns homens, e Alexandre Herculano, sem lhes contestar a intervenção, antes examinando-a e verificando-a em toda a latitude, rasgava-nos caminhos novos para a descoberta de origens da vida nacional inteiramente occultas. Graças a processos de investigação e methodos de correlação aprendidos no estudo paciente dos mestres estrangeiros e por elle nacionalisados, importando-os e empregando-os com uma habilidade que o collocava a par dos maiores e mais destros n'essa ordem de conhecimentos e nos seus espantosos progressos, mostrava-nos a multiplicidade das forças que haviam cooperado na constituição da nação portugueza, a influencia de tradições seculares e até da simples fatalidade, a pressão de massas anonymas da villanagem e do povo ao lado das façanhas dos capitães, o destino e o instincto das raças superior ás ambições dos chefes prepotentes, que em seu proveito proprio as guiavam e serviam, a surda e lenta elaboração do sentimento da collectividade, confuso e frouxo, sobrepondo-se, em uma ascenção penosa, á absorpção de tyrannias d'um ferino egoismo despotico, embriagando astuciosamente as multidões em fumos de gloria emquanto as acorrentava aos seus insaciaveis apetites. Collocando nas suas relações de existencia e dependencias logicas os factores da vida nacional, muitos dos quaes foi exumar do acervo informe de documentos e chronicas onde jaziam inuteis e suffocados no logar para que o acaso os atirará, juntando um trabalho colossal de investigação a um talento de organisação e interpretação sem precedentes na litteratura portugueza e entre os seus raros e apagados pensadores e philosophos, Alexandre Herculano fez para alguns seculos do passado o que mais tarde Oliveira Martins conseguiria para algumas decadas da politica contemporanea.
Note-se--a impressão de surpreza foi nos dois casos identica, como identicos foram o louvor e a condemnação que se lhe seguiram; louvor dos que prezam a lucidez de entendimento e a clareza de consciencia; e creem na sua efficacia para a fortuna dos povos; e condemnação dos que, fanatisados e tresloucados pelo interesse de castas, de classes, dos bandos e das clientelas, só esses veem e sabem defender com acrimonia exaltada, quando o bem publico lhes exige o cerceamento e a quebra de regalias ou o espirito de justiça lhes denuncia as oppressões, os crimes e torpezas a que recorreram e recorrem para acrescentar e conservar o seu predominio nefasto.
II
Porventura tinham razão esses muitos que deixaram passar sem reparo a delicada e peregrina belleza de arte na _Historia de Portugal_, para attentarem sómente na soberba e tremenda lição que ella encerrava, lição moral sobretudo. Os primores litterarios, por muito notaveis que se tornem e por muita suavidade que deem á vida, são na verdade cousa inferior perante as forças intimas que regulam o coração humano e determinam a nobreza ou a degradação, conforme triumpham ou são vencidas. Tinham razão. A lição que Alexandre Herculano para si mesmo tirava do estudo da historia, mostrava cabalmente aos estranhos o que tinham a aproveitar na meditação da sua obra. Se é certo, como algum disse, que a historia é a philosophia ensinada pelo exemplo, alli tivemos uma extraordinaria demonstração da justeza de semelhante conceito.
Foi folheando a historia patria que Alexandre Herculano concebeu e nos desvendou na terribilidade tragica do seu inferno as profundezas da injustiça social. Foi alli que, registando os conflictos de classes e os desmandos, abusos e rapinas dos senhores, conheceu e nos denunciou os crimes da sociedade, acautelando-nos contra a nossa propria quéda em orgulhosas demencias de virtude, satisfeita e pedante nas commodidades da sua condição e alheia de sensibilidade e intelligencia aos males gerados d'ella mesma. «Mentirosa, corrupta e má, cheia de erros, preoccupações e vicios, damnada nas instituições e nas leis, nas crenças e nos costumes», a sociedade, disse-nos Alexandre Herculano em conclusão do estudo dos factos que lhe corroborava os impulsos do coração, «educa as gerações e os individuos, legando-lhes largo capital de perdição; e quando os arbustos plantados em terra peçonhenta, tendo bebido uma seiva venenosa produzem seus fructos de morte, o mundo, ao mesmo tempo malvado e hypocrita, horrorisa-se, abomina a sua obra, e ajuntando-se á roda do cadafalso dos suppliciados, que elle proprio lá conduziu, saúda uma cousa, a que pôz por nome justiça, e que não é mais que uma desculpa embusteira da ignorancia e de perversidade, não do individuo criminoso, mas desse vulto hediondo e informe chamado sociedade, para o qual não ha nem leis, nem punição nem algozes»[45].
Se, hoje, um alto espirito caustico da actualidade[46], definindo a noção corrente de justiça entre os que se orgulham de a praticar, nos diz que, «quando o homem mata o tigre é um sport e quando o tigre mata o homem é uma ferocidade, e a relação entre crime e justiça é pouco mais ou menos isso», comparamos o seu indignado escarneo com a maldição inflamada do poeta e verificamos que o poeta não leu menos claro nas paginas da historia do que o moralista na observação do espectaculo quotidiano d'um mundo turvado de violentissimas paixões e possuido de pretensões estultas de haver encarnado a rectidão. Por ahi podemos avaliar a natureza do scismar do grande historiador, quando nas vigilias se curvava sobre os pergaminhos da terra natal: que cordas vibravam então no seu peito, que divino e solemne canto ellas soltaram, redemptor e austero.
Tudo aquillo que o apostolo carecia de saber e confirmar em sua consciencia, tudo a historia lhe dizia.
A obra demolidora da revolução, a que se associou com tão claro applauso, não seria um acto de ruina e destruição, mas sómente o desafogo e desobstrucção das tendencias evolutivas nacionaes. Para se continuarem e perfazerem, careciam d'essa violenta remoção de obstaculos que as prendiam e paralysavam. Aborrecia o modernismo. Detestava a mania das imitações estrangeiras. «Deplorava profundamente essa abdicação vergonhosa da razão nacional».
A liberdade, aspiração suprema da sua geração e da sua alma, não seria uma innovação trazida de terra alheia pela phantasia aerea de sonhadores: era uma planta nascida e creada no solo da sua patria e apenas calcada e esmagada, mas não morta, aos pés da crueldade despotica dos reis e dos ministros do estado.