Alexandre Herculano

Chapter 2

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Quem lê os romances d'Herculano não póde procurar n'elles nem a analyse da vida, nem mesmo o estudo exacto da epoca em que se passam. O poeta triumpha sempre e, se aqui e ali, apparece o historiador--ou melhor o cerebro transbordando de conhecimentos historicos e obrigado a revelal-os em tudo quanto escrevesse--o visualisador sempre nos arrasta e empolga com as suas illusões. O que vibra com uma intuição admiravel nos seus romances, é a nota desesperante do amor. As paixões d'esses personagens eram um fogo que os minava e consumia. A religião e o despotismo medieval carregaram ainda mais funebremente o espirito dos barbaros. Qualquer sentimento que os escravisasse, era para esses brutaes uma força, como que sobrehumana, contra a qual luctavam, subjugados pelas superstições e pelos prejuizos.

O Egas Moniz do _Bobo_, o Eurico, o Vasco do _Monge de Cistér_, o D. Fernando das _Arrhas por fôro d'Hespanha_ são entes que se movem na vida sob a acção dominadora d'um amor, tão despotico como a tyrannia d'essa idade de ferro. Estes amorosos são como leões algemados que a cada instante rugem o seu desespero.

O sempre triste Eurico[1] escreve a Theodemiro:

«Examina bem a consciencia e diz-me qual é para os corações puros e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições do poder, da opulencia, do renome? É um só--a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações.»

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«Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim, e o resumo de todos os effeitos humanos.

Theodemiro eu amei como ninguem, talvez, ainda amára. Este amor foi desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso assim recalcado?--Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois d'isso, que possa restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem, porventura, luz de consolação; porque o passamento do corpo precedeu a morte do espirito.»

[1] _Eurico_ pag. 76, Lisboa, 1864.

D. Fernando, o doloroso apaixonado, conhecendo a ignominia a que desceu, diz a Leonor Telles:

«É por que sabes que esse amor não pôde perecer, que esse amor é como um fado escripto lá em cima--interrompeu D. Fernando--que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer as tuas crueis vinganças; é por que sabes que esgoto sempre o calix das ignominias quando as tuas mãos m'o apresentam, que me sacias de deshonra. Terás, acaso, algum dia piedade d'aquelle que fizeste teu servo, e que não póde esquivar-se a ser tua victima[2].»

[2] _Lendas e Narrativas_, 1.º vol. Lisboa, 1865.

O sombrio Egas, despedindo-se de Dulce, diz-lhe:

«Vae-se o vulto do meu corpo Mas eu não; Que a teus pés cá fica morto O coração.»[3]

[3] _O Bobo_, pag. 145, Lisboa, 1878.

Herculano tocou como poucos na eterna chaga da alma apaixonada:--a duvida, a desconfiança. E como o ciume e o desespero se manifestam psychologicamente n'uma inalteravel uniformidade em todas as epocas, segue-se que um Egas, um Fernando, um Vasco, um Eurico, são typos caracteristicos dos amorosos e tristes.

IV

O HISTORIADOR

Vimos como as principaes figuras intellectuaes do começo do seculo penderam para as reconstituições do passado. Em Inglaterra Hume abrira no seculo anterior a corrente que depois Lingard e Macaulay proseguiram; em França Augustin Thierry, Quinet, Guizot dão aos estudos historicos uma nova phase. Herculano seguiu esta corrente, que dominou toda a obra. O investigador surgiu primeiro do que o poeta ou poeta fez surgir o investigador? Um e outro apparecem tão confundidos em todos os seus livros que é impossivel responder á interrogação. Que o historiador não destruiu a alma poetisadora, vê-se logo no 1.º volume da Historia de Portugal, que fecha com estas saudosas palavras sobre o nosso primeiro rei:

«Se uma crença de paz e de humildade não consente que Roma lhe conceda essa corôa, outra religião tambem veneranda, a da patria, nos ensina que, ao passarmos pelo pallido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas d'aquelle homem, sem o qual não existiria hoje a nação portugueza, e, porventura, nem sequer o nome de Portugal.»

O trabalho sobre a descentralisação municipal da idade-media, inserto no 4.º volume da _Historia_ tem sido, até hoje, considerado como obra definitiva.

O peso da investigação carregara a indole d'este homem d'estudo; o seu cerebro transbordou. Planeando apenas escrever sobre Portugal na idade-media, viu que podia alargar os seus trabalhos; mas a polemica provocada pela publicação do 1.º tomo da sua _Historia_, serviu-lhe de pretexto para fingir que truncava um trabalho, que elle mesmo talvez--apenas um momento--pensasse em proseguir.

V

O POLITICO

Quando em 1840 Herculano foi eleito deputado por Cintra, teve occasião de pedir a palavra no parlamento; tinha uns apontamentos que consultava, á medida que ia falando.

O que seria a camara dos deputados em 1840?

Cheia d'abbades somnolentos, de provincianos ridiculos, de bachareis grotescos e analphabetos inconscientes, não é hoje muito facil fazer uma idéa approximada do que era então esse antro de palradores.

No meio do discurso, um pouco interrompido, do deputado por Cintra ouviu-se o grito de: «larga a sebenta!» que produziu o riso contido d'aquella camara patusca. O homem que pronunciou esta phrase symbolisou depois a tagarelice parlamentar e petulante no seu apogeu; palrou durante vinte e tantos annos, acclamado por uma burguezia que lhe admirava a cabeça e a careca, fez discursos que são o mais irresistivel narcotico dos poucos que teem a coragem de consultal-os, morreu conhecido e feliz. Tem duas estatuas--uma defronte de S. Bento, d'essa casa de cuja inutilidade prejudicial elle foi o mais triste e curioso symbolo, outra em Aveiro. Chamou-se José Estevão.

Alexandre Herculano, ferido no seu orgulho, nunca mais quiz frequentar aquella feira de gado.

Os seus trabalhos resumbram todos um invencivel rancor aos politicos e á politica. A sua indole triste sombreou-se. O despeito e o tedio azedou-lhe o caracter. Adivinhou a vulgar corrupção que se alastrava por todas as classes e, com a integridade inherente ao seu espirito, fugiu. Esta deserção d'um campo, onde o paiz lhe podia merecer tantos serviços, era inevitavel. O presente não o tentava. Com uma ancia vulgar nos espiritos que chegaram ás cumiadas da cultura intellectual, tentou brutificar-se na vida do campo, beber a grandes tragos a alegria que a natureza entorna na alma dos animaes e das plantas. Mas estava muito intellectualisado.

O brado que levantou a favor dos monges e dos padres pobres, foi recebido pelos livres-pensadores burguezes como uma contradição com os ataques na celebre questão _Eu e o Clero_. A Herculano, temperamento religioso por educação, repugnava, o abandono e a miseria em que o governo deixara os antigos frades, negando-se mesmo a pagar o insignificante subsidio que promettera aos que se secularisassem. Á sua indole, estreita e inquebrantavel em questões de rectidão, custava a comprehender que os ministros renegassem todos os programmas com que subiam ao poder e faltassem a todas as promessas, como se elles tivessem sido inventados para outra cousa! Esta surpreza n'um homem ambicioso, transformou-se mais tarde n'um rancor que, nos ultimos annos da sua vida, se affogou em desprezo por tudo que dissesse respeito á politica. D. Pedro V, de quem Herculano foi o mentor, consultava-o a miudo sobre os negocios do estado e a maneira de resolvel-os. Herculano gostava d'este papel de ministro do culto e, póde affiançar-se que se o tivesse exercido por mais tempo, muitos dos que elle desprezava, teriam sentido por detraz do manto do rei, a pata do leão, atirando-os á insignificancia d'onde nunca deviam ter saido. Este poder, exercido por um mais longo prazo, se o reinado de D. Pedro V tivesse sido duradouro, é forçoso dizel-o, embora não muito democratico, seria benefico e talvez evitasse a lenta agonia em que Portugal agora se revolve. Mas quiz o destino que tal não succedesse. Herculano, apenas chegou a Lisboa a rainha Estephania, sentiu o espirito accesso em ciume contra a mulher que ia dominar o rei com o mesmo, ou talvez maior, prestigio com que elle--o grande intellectual--tinha dominado. Este resentimento explica-se bem: Herculano olhava D. Pedro com o carinho affectuoso d'um pae e, o que mais é, d'um pae que houvesse podido identificar á sua alma a alma d'esse filho do espirito. A rainha fôra para a indole religiosa e casta de D. Pedro a esposa, a symbolisadora do amor santo; Herculano julgou que ella vinha roubar-lhe uma parte do dominio que elle exercia no rei--e odiou-a. Este odio, comprehende-se bem, nunca revestiu as formas bruscas d'um completo rompimento; e, como provinha d'um sentimento do espirito que, se não era muito elevado, estava muito longe de ser mesquinho, manifestou-se apenas por pequenos embates de palavras e dois ou tres casos anecdoticos mais ou menos conhecidos.

Por morte da rainha e do rei, Herculano, que já quasi se affastara do paço, foge e vae isolar-se em Val-de-Lobos.

A historia em Portugal acaba no reinado de D. Pedro V.

Com Luiz I começa essa longa opera-buffa, ridicula e sinistra a um tempo, com um cunho tão enorme de corrupção e de infamia, a que se assiste n'um suffocamento de indignação e lagrimas, que arrastou Portugal a este fim desesperado.

O centenario de Camões foi o unico ponto claro no horisonte negro. Mas Herculano morreu tres annos antes de se realisar esse grande acontecimento nacional--onde Portugal affirmou pela ultima vez a sua força desesperada no meio da agonia.

Herculano, podendo desempenhar um elevado papel na politica portugueza, nada fez. O unico homem em quem elle exercera uma salutar influencia--o rei--morreu, deixando o seu mentor afogado em nojo pelos homens e pela existencia.

N'algumas maneiras de pensar e de sentir, Herculano revelou-se superiormente; depois a nausea pela vida e pelos viventes, communicou-lhe esse desprezo que pareceu tão grande porque tombava de muito alto, e lhe deu o cunho d'intransigencia e de força, n'um tempo em que todos são maleaveis e fracos.

Analysei as manifestações intellectuaes da altiva personalidade a quem a burguezia idolatrou, mais por ouvir contar certas particularidades rudes do seu viver, do que por lhe ter lido as obras.

Homem d'um seculo convulsionado e contradictorio foi, como elle, impersistente e convulsivo. O critico exclusivista que condemnasse qualquer obra por trazer uma rajada d'azedume, esquecendo-se da epoca em que foi feita, seria tão extraordinario como o medico que quizesse persuadir um agonisante de que estava curado.

É impossivel exigir d'alguem que seja alegre, que tenha saude e fé em tempos de tristeza, de desalento e de duvida.

Herculano podia repetir a phrase d'um homem muito diverso d'elle, o melancolico Amiel: «sem ter ainda morrido, sou uma alma d'outro mundo; os outros parecem-me sonhos, e eu sou um sonho dos outros.»

O homem que foi um poetisador sombrio e solitario, não devia amar um seculo de sciencia e d'industria. Não o amou Herculano, como o não amam os espiritos atormentados a quem o tedio do viver exagerou a nostalgia pelos tempos que passaram--e onde tantos doloridos põem o ideal d'uma felicidade, chimerica e impossivel para os grandes taciturnos.

INDICE

_Escorço biographico_ 5

I--Idéas geraes 13

II--O poeta 31

III--O romancista 40

IV--O historiador 49

V--O politico 51

Obras de Caldas Cordeiro

_O Marquez de Pombal._ Porto, 1890. 100

_Envelhecer_, (contos).--Lisboa, 1892. 300

_Corações inquietos_, (romance).--Lisboa, 1893. 500

_Alexandre Herculano_, (estudo).--Lisboa, 1894. 300

End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Manuel Caldas Cordeiro