Alexandre Herculano

Chapter 1

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_CALDAS CORDEIRO_

Alexandre Herculano

MONTEIRO & C.ª--editores

Agencia Universal de Publicações

_Rua dos Retrozeiros, 75_

_LISBOA_

MDCCCXCIV

ALEXANDRE HERCULANO

_CALDAS CORDEIRO_

Alexandre Herculano

MONTEIRO & C.ª--editores

Agencia Universal de Publicações

_Rua dos Retrozeiros, 75_

_LISBOA_

MDCCCXCIV

_Typ. da Companhia Nacional Editora_

Escorço Biographico

_Alexandre Herculano nasceu no Pateo do Gil, na rua de S. Bento, em 28 de março de 1810. Estudou com os padres de S. Filippe Nery, nas Necessidades; mas em 1831 envolveu-se na revolta do 4 d'infanteria contra o governo de D. Miguel e teve de fugir de Lisboa a bordo da fragata franceza «Melpomène.» D'aqui embarcou num navio inglez e visitou Plymouth, Folmouth, Jersey, S. Malô, Rennes, Granville. Tomou parte na expedição do Mindello. Em 1833 foi nomeado bibliothecario da bibliotheca do Porto, logar que conservou até 1836, data em que, espicaçado já pela mania burgueza do «descargo da consciencia e dos deveres cumpridos», se demittiu para não prestar juramento ao governo da contra-revolução. Em 1837 publica a «Voz do Propheta» e dois annos depois é nomeado pelo rei Fernando seu bibliothecario. É nesta epoca que dirige e escreve no «Panorama», onde publicou numerosos artigos, incluindo os romances: «O Monge de Cistér», «o Eurico», «O Bobo», «A Dama do pé-de-cabra», «O Parocho d'Aldea», etc, etc. Este periodo vae até 1846, em que sae o 1.º tomo da «Historia de Portugal», contendo as origens historicas de Portugal até ao reinado do 1.º rei; em 1847 apparece o 2.º que alcança até ao reinado de Sancho II; em 1849 o 3.º, que vae até D. Diniz; em 1853 o 4.º, que trata da descentralisação municipal. Depois publica a «Historia da Origem e Estabelecimento da Inquisição». Em 1853 é encarregado de dirigir a publicação dos «Monumentos Historicos de Portugal» com a dotação annual de 1.000$000 de réis. Como porém em 1856 fosse nomeado guarda-mór da Torre do Tombo um tal Joaquim José da Costa Macedo, Alexandre Herculano, que o odiava e estava muito atacado da monomania da perseguição, demitte-se de socio e secretario perpetuo da Academia, affirmando que «não podendo entrar no archivo da Torre do Tombo deixava por isso de trabalhar nos «Monumentos!» A Academia em outubro do mesmo anno reelege-o, e em dezembro nomea-o vice-presidente, mas Herculano escreve nova epistola persistindo no seu proposito, Na questão «Eu e o clero» leva ao apogeu essa monomania da perseguição, que toda a vida o dominou. Em 1861 regeita a nomeação de par do reino; em 1862 a de grã-cruz de S. Thiago, ordem que ultimamente se tem pendurado ao peito d'alguns actores. Ao regeitar esta ultima mercê, escreve com pacata ironia:_

_«No immenso consumo que se está fazendo, que se tem feito ha 30 annos, de distincções, de fitas, d'insignias, de fardas bordadas, de titulos, de graduações, de tratamentos, de rotolos nobiliarios, o homem do povo que queira e possa morrer com esta qualificação deve adquirir em menos de meio seculo extrema celebridade»._

_Em 1867, enojado do viver, recolhe-se a Val-de-Lobos, a celebre quinta perto de Santarem em que se dedicou á cultura do azeite. Vinha a miudo a Lisboa e os seus logares predilectos eram a livraria Bertrand e a casa do duque de Palmella. De vez em quando quebrava o silencio a que se obrigou, publicando um ou outro opusculo sobre as questões d'occasião._

_A 13 de setembro de 1877 morre em Val-de-Lobos, victima d'uma pneumonia. E doze annos depois é transferido da egreja d'Azoia, com official solemnidade, para os Jeronymos, onde hoje repousa num sumptuoso mausoléu, quasi visinho do tumulo mais modesto que Portugal reservou aos suppostos ossos de Camões._

_É costume dizer-se com algum abuso da metaphora, que ha mortos que se resuscitassem, vendo os escandalos contemporaneos, tornariam a morrer de vergonha. Qualquer critico carrancudo podia, seguindo esta tradicção, affirmar com algum bom senso que, se Herculano resuscitasse quando o trasladaram de Azoia para Belem, correria o discursador e os assistentes a cacete._

I

IDÉAS GERAES

Pontifice das lettras, Alexandre Herculano não teve, como muitos, a benevolencia, a fraqueza, uma cynica bondade de confundir os mediocres e os de talento; e perseguiu com o seu rancor todos os que a inutilidade levantara, elevados pela politica, pela camaradice, pela intriga. Foi um amarguroso e um triste. Por despeito? por tedio da sua epoca? por cançaço do seu espirito! Interrogações irrespondiveis, antes de se analysarem as causas que levantaram este homem á imminencia, d'onde nunca cahiu, e d'onde tanta vez lançou sobre o seu tempo os threnos e as maldições d'um propheta que não pede perdão para a miseria humana, antes invoca a colera de Deus sobre as velhas cidades corrompidas. Ezequiel d'uma epoca indigna de historia, só começou a rugir, não por mando de Jehovah, mas depois de conhecer os homens e de se ter entediado d'elles. O seu temperamento soturno, a sua mente convulsiva, o seu caracter d'uma rectidão, tão inabalavel, tão egoista--que hoje nos chega a parecer estudada--eram o producto d'uma hereditariedade que nunca se desmentiu e lhe deu esse bello cunho de portuguez, inquebrantavel e forte.

Aos vinte annos, viu-se obrigado, por uma revolta militar do corpo a que pertencia, a refugiar-se no estrangeiro, por onde pairou algum tempo, visitando a Inglaterra e a França. Não sei se foi decisiva para a sua vocação essa viagem; o estado em que então se encontrava a Europa pode fazel-o crer. Uma outra era abria-se aos espiritos inquietos e convulsionarios. As nações, que durante quarenta annos se tinham agitado em guerras terriveis, nas epicas campanhas de Bonaparte, nas guerrilhas da Italia, na politica da Austria, sentiam a necessidade de pacificar-se. Começou pois a revolução na arte.

O inquieto Chateaubriand e o desesperante Byron tinham feito as suas obras no meio das agitações d'essa Europa, de que elles invocaram o passado, poetisando-o com as saudosas melancolias que desperta em todas as mentes doloridas. Na Allemanha Goethe e os irmãos Schlegels, Leopardi na Italia, cunhavam os seus escriptos com esse desespero de descontentes, de sempre tristes. O sol das batalhas apagara-se em Santa Helena ao mesmo tempo que o sol da poesia expirava ao avistar a Grecia, que ia libertar. Bonaparte e Byron foram os deuses d'essa geração; e, para completar a trindade, poder-se-hia juntar-lhe Leopardi. Mas o poeta do _Amor e da Morte_, o atheu sem esperança, o heroico resignado, não teve a influencia dos dois primeiros, nem a quiz. O vencedor de Marengo e o poeta de _Manfredo_, convulsivos e desesperados, tiveram o enthusiasmo e a acção; o triste que escreveu essa admiravel elegia ao _Passaro Solitario_, em nada acreditava, senão na inutilidade da vida e no repouso da morte. Não era portanto um guia que escolhessem os que viam a existencia mais complicadamente.

Byron, Vigny, Goethe, Musset, Shelley, Moore, Hugo, punham no que escreviam a nostalgia d'epocas remotas da historia, que elles lembravam com saudade. Outras indoles, partilhando o mesmo enthusiasmo, tentaram estudar esses seculos para reconstituil-os com os documentos e as memorias. D'aqui a historia e o romance historico.

O seculo XVIII foi para Portugal e para França o seculo da decadencia da arte.

Entre nós, á poesia das escolas chamadas _italiana_ e _hespanhola_ succedeu a _Arcadia_, agrupamento onde alguns vates semsaborões e massadores inventavam os meios de torcer a lingua em versos duros e corneos. A Francisco Rodrigues Lobo, a Sá de Menezes, a Santa Ritta Durão succederam Antonio Diniz, o engraçado do _Hyssope_, que hoje ninguem lê sem bocejar, o barbeiro Quita, Garção, Francisco Dias Gomes, e o nunca esquecido Filinto Elysio, o mais monstruoso escangalhador da simples e bella lingua portugueza, o mais inevitavel hymnifero de pindaricas, de epithalamios, de dithyrambos. Na prosa o abysmo era tão profundo: depois de Francisco Manoel de Mello, de fr. Luiz de Souza, de Manoel Bernardes, o padre Theodoro d'Almeida e o Candido Lusitano!

O seculo XIX iniciou-se sem presagios de mudança. O velho Lafões na Academia chamada das sciencias, fazia propaganda hypocrita das graçolas semsaboronas de Voltaire; mas, cousa sempre digna de ser observada nos philosophos portuguezes que applaudiam os encyclopedistas:--todos assistiam ás novenas, aos _lausperennes_, ás procissões com que n'essa epoca caprichavam em passar o tempo. A essa Academia podia-se juntar outra, tambem ainda florescente: a Arcadia.

Qualquer d'estas duas corporações eram gremios recreativos, onde o culto das musas era um passatempo e o escrever prosa um trabalho mechanico. Apenas o bilioso José Agostinho, o obsceno Bocage e o assucarado Tolentino, lançavam no concerto de numes uma nota alegre e discordante.

Bocage escrevia:

«Camões, grande Camões, quão semelhante «Acho teu fado ao meu quando os cotejo!»

Respondia-lhe com uma tremenda descompostura o padre, que queria arranjar um Camões para uso da côrte de João VI e dos frades gracianos. O Tolentino, que nunca entendeu nada de litteratura, rabiscava versos, pedindo jantares e dinheiro.

Não se levantava uma voz dolorosa ou eloquente, um grito de convulsivo desespero, uma poesia d'arrebatadora inspiração. Tudo era pautado, mesquinho, uniforme como uma ceremonia da côrte. O povo apenas, heroico resignado, conservava o grande refugio no desdem e na indifferença. Nenhum vate da Arcadia o cantou; nenhum escriptor punha a penna ao serviço da sua causa, para o despertar. Massa inconsciente, que formigava n'um zumbido, sempre insistente, sempre pavoroso, como onda de temporal quebrando-se em rochedo terrivel--que lhe importava a elle que D. João VI fugisse e os francezes invadissem o reino? Atrophiado durante dois seculos--o decimo septimo e o decimo oitavo da nossa era--que tão inexoravelmente começam a ser julgados por uma historia mais visualisadora--sem poder tirar d'entre os seus uma das altivas figuras que fazem revoluções; enterrado até á crapula, ao asco, á immundice, á lama, mas n'uma immundice quasi aterradora, tanto era enorme, quasi epica, tanto era medonha, ninguem lhe poude infiltrar energia, ninguem lhe soube provocar coragem. Paulino Cabral, Thomaz Pinto Brandão, Bocage poetisaram (e de que maneira!) a viéla, a boneja, a marafona, a meretriz, o frade vicioso e o fadista; Nicolau Tolentino, professor de grammatica e empregado publico, era o cantor dos papelinhos dos frizados das senhoras, das reuniões burguezas, dos chás, dos namoros a altas horas com despejos de fezes em cima do peralvilho embasbacado. Curiosos de certo, caracteristicos, pittorescos mesmo, e muito mais interessantes do que os Arcades, bachareis e magistrados que se apellidavam «pastores» e «cysnes», nenhum ainda assim deu ás obras o cunho e o relevo do talento que as torna impereciveis. E Bocage, José Agostinho, Tolentino eram os que representavam a litteratura livre e sem peias; eram os idolos de que o povo sabia os versos e a vida, e se apontavam nas ruas.

Esses temperamentos que ficam assignalados n'uma epoca pelo amor, pelo heroismo, pela tristeza, pela infelicidade, já Portugal os não podia produzir. As lyricas de Camões e Bernardim Ribeiro, as desditas de Francisco Manoel de Mello, eram substituidas pelas piadas eroticas d'Elmano Sadino e as aventuras burguezas dos dois padres Macedos. Dos humildes que então soffriam, dos resignados que supportaram a vida, não chegou até nós um grito, um arranco, uma palavra. Almas desditosas e obscuras, ninguem soube pôr no papel os vossos desalentos, as vossas dores, as vossas hesitações! Quando a vossa crença era tentada, tinheis _Te-Deums_ para não cairdes na desconfiança do intendente Pina Manique; e para as humilhações heroicas, das vidas obscuras, as suaves melancolias, os crueis desesperos, Filinto Elysio entoava um epithalamio ou um dithyrambo, Bocage versejava sobre um mote brejeiro, Tolentino escrevia a _Funcção_, etc.

Castilho em 1830 era ainda um arcade, Garrett quasi um ignorado. Em 1837 Herculano publicou anonymamente a _Voz do Propheta_--uma especie de threnos biblicos, d'uma eloquencia solemne e triste. Ahi se adivinhava a inclinação do novo escriptor para a historia, poetisada pela saudade e pelas recordações. Era a primeira chamma que se ateava n'esse espirito. Altivo, insoffrido e taciturno, resignando-se n'um trabalho em que as mais das vezes tinha de martellar o cerebro e soffrear os impetos da imaginação poetica, é com enthusiasmo e vibração que escreve as paginas mais alentadoras da sua _Historia_, os quadros mais artisticos e definitivos dos seus romances, os versos mais ricos das suas poesias.

Visitando a Inglaterra e a França, a saudade da patria amargurou-lhe o prazer da forçada viagem. Nas horas vagas d'essa vida de tribulações e cuidados, vida errante, refugiada apenas em longos labores e lentas meditações, pezou bem o seu destino. Tinha um temperamento de ferro; em cousas que a sua vontade decidisse, era inquebrantavel. Não se bandeou na politica, não se apulhou na litteratice. Pobre chimerico! acreditou na honra, desdenhoso dos estadistas e dos parlamentares; teve esperança na arte pura, e cultivou-a como o seu unico idolo. Depois tambem cultivou o azeite de Val-de-Lobos com idolatria, por que estava farto da epoca e dos homens. «Dá vontade de morrer!» disse elle. Hoje qualquer noticiarista, tendo apanhado alguma indigestão de lagosta ou sardinhas, repete a miudo a exclamação, confundindo assim a vontade de morrer com a de vomitar.

Joseph Prudhomme disséra em tempos que «a invasão das diversas attribuições produz em tudo a anarchia», e como elle ainda é autoridade para as classes burguezas e dominantes, não nos é licito duvidar. Que a litteratice ou a monomania litteraria invade tudo e todos, é inegavel. Ainda ha pouco, uma notabilidade medica, o sr. Manoel Bento de Souza, apercebendo-se d'isto, fez no _Elogio do Doutor Antonio Maria Barboza_ a comparação de tres medicos-operadores com tres litteratos, explicando que usava d'esse meio para que os que não entendiam de medicina o comprehendessem melhor.

Imagine-se Sainte-Beuve, Taine e o sr. Oscar Wilde applicando este processo á critica! O esthetico inglez, por exemplo, comparando Morel-Makenzie com Dante Gabriel Rossetti; o philosopho das _Origens da França Contemporanea_ approximando a maneira d'operar de Robespierre (e que medonho operador!) da do velho anatomista Bichat.

Para quê insistir sobre as surprezas que este methodo provocaria a cada momento?

Ao espirito severo d'Herculano, cerrado ao moderno, o espectaculo das contradicções e das inconsciencias da nossa epoca repugnava. Por isso a sua obra foi uma evocação do passado e dos tempos gloriosos. Elle escrevera no _Bobo_ (pag. 13-14) estas linhas:

«Pobres, fracos, humilhados, depois dos tão formosos dias de poderio e renome, que nos resta senão o passado? Lá temos os thesouros dos nossos affectos e contentamentos. Sejam as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revoque á energia social e aos sanctos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da historia, se dediquem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma especie de sacerdocio. Exercitem-no os que podem e sabem; porque não o fazer é um crime.

E a arte? que a arte em todas as suas formas externas represente este nobre pensamento; que _o drama, o poema, o romance sejam sempre um echo das eras poeticas da nossa terra_. Que o povo encontre em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus antepassados. _Ser-lhe-ha amarga a comparação_. Mas como ao innocentinho da Jerusalem Libertada, homens da arte, aspergi de suave licor a borda da taça onde está o remedio que póde salval-o.»

Cumpriu a missão que impozera ao espirito? É analysando-lhe as diversas phases da obra que se póde responder á interrogação.

II

O POETA

N'uns a poesia nasce com as primeiras illusões da mocidade, os primeiros amores, as suaves chimeras; n'outros, quando as desillusões começam a enevoar a alma, as tristezas a pairar na mente, o coração a seccar-se, a ser fugitivas as horas alegres, continuos e uniformes os dias funebres, e o sopro da traição envenena os amantes, é que a poesia ergue os primeiros vôos, triste e amargorosa, como as aves da tempestade. Dos primeiros são raros os que conservam a frescura e pureza da musa; os annos augmentam, as flôres murcham, e quando se quer voltar, por saudade ou por distracção, ao trabalho mitigador, as palavras embrulham-se, as rimas escasseam e o cerebro torturado só consegue periodos tortuosos e seccos, concepções alambicadas e banaes. Alguns, ensaiando a rima e o verso, procuram adquirir á custa d'um trabalho seguido, a magnifica força da forma solida e quasi definitiva: são os artistas, e as suas estrophes sonoras teem sons musicaes.

Byron, Moore e Shelley alliaram os primores da forma á sublimidade da imaginação. Mesmo a lingua ingleza, dulcificada pela cuidadosa versificação de Milton, Pope, Chatterton e Cowper, attingiu com os grandes poetas do começo d'este seculo uma perfeição inegualavel.

Em França, ao contrario, teve de operar-se um completo trabalho de renovação. Os pequenos abbades libertinos e poetastros, os fazedores de novellas patetas e assucaradas, nunca cuidaram do estylo. O verso cultivaram-n'o os padres Florian e Delile, a quem Rivarol disse uma vez, vendo-o com um rôlo de manuscriptos «Ah, senhor, se não o conhecessem, roubavam-n'o!» A prosa era manejada por Voltaire. Se o enorme talento de Diderot e o doloroso genio de Jean-Jacques, estavam distantes do lodaçal em que se afogavam quasi todos, o chistoso Piron, Gresset e toda essa horda de pandegos semsaborões, concorreram para escangalhar a lingua, que Montesquieu, La Fontaine e os escriptores ligados pela tradicção aos do seculo XVII, tinham enriquecido.

Coube a gloria d'iniciar essa revolta contra as velhas formas, a estreita syntaxe, a poetica convencional e restricta, ao homem contradictorio e enigmatico que se chamou Chateaubriand.

Em 1801 appareceu o _Genio do Christianismo_. A geração inquieta e guerreira, exhausta da materialidade dos insipidos deuses do seculo anterior, comprehendeu que nascera um escriptor, um coração insoffrido, um espirito pairante. A forma d'esse livro é quasi classica; mas no emtanto, atravez aquellas paginas, quanta melancolia, quanta amorosidade; ás vezes phrases dignas de Shakespeare, Balzac ou Byron, como essa do episodio de _René_: «foule, vaste désert d'hommes!»

Hugo veio fazer no verso o que Chateaubriand fizera na prosa; deu á lingua assucarada e debil, vibração, enthusiasmo e consistencia.

Appareceu ainda outro, embebido nos poetas inglezes, um cysne, mirando-se nos limpidos lagos de crystal, com o olhar todo offuscado pelas grandes paysagens dos Pyrineos. Era Vigny, o cantor d'_Eloa_ e _Dolorida_, o philosopho da _Colera de Sansão_, esse grande e symbolico poema do fatalismo no amor, que começa pelos versos celebres:

«Prés de ce compagnon, dont le coeur n'est pas sur «La femme, enfant malade et douze fois impur.»

Estes revolucionarios deram á prosa e ao verso uma symetria, uma profundeza, uma sumptuosidade desconhecida.

Muitas das obras d'esta epoca trazem um cunho d'invocação historica em bloco. Vigny formulara o seu processo no prefacio de _Cinq Mars_: «tudo _devia_ ter succedido assim.»

Portugal até 1836 seguira distanciadamente o movimento de renovação.

As primeiras poesias d'Herculano resumbram a nostalgia da patria e recordam as suas luctas de soldado. O sentimento que em todas ellas repassa é uma tristeza de saudoso, uma vibração de descontente. A forma é frouxa como em quasi todos os seus versos.

Ha um phenomeno curioso a observar nas grandes individualidades litterarias: sentem, transplantam o sentir, alcançam a nota mais elevada do pathetico, mas os seus versos são coxos e maus, e muitas vezes inferiores, segundo as regras da poetica, aos d'um banal poeta de lyrismos discretos e perfumados. Camillo e Herculano são d'isso exemplos culminantes. Estes dois grandes homens tinham demasiado pudor e orgulho para encherem columnas de versos de vulgarismos falsos e mystificações irritantes.

Herculano, apezar de tudo, attinge os acumes da elevação poetica nas poesias religiosas, essas meditações profundas e serenas, em que elle se identifica com Klopstock, misturando a taciturnidade da sua indole aos arrebatamentos do seu espirito. N'esta indole triste os primeiros vôos da musa pairam por sobre as velhas torres gothicas e mouriscas, as cathedraes rendilhadas, os castellos agoirentos e enegrecidos. Era a primeira chama que se ateava n'esse insoffrido.

A _Cruz Mutilada_ testemunha eloquentemente como o seu talento attinge o sublime, elevado nas azas da crença e da saudade; e o velho cerro de Cintra e a gruta que avista o mar, d'onde se enxergou a primeira caravela vinda da India, foram o amphitheatro escolhido por este homem para ahi se inspirar no maravilhoso canto, que mais parece um hymno de Santo Agostinho ou S. Thomaz.

_Deus_, a _Semana Santa_, a _Arrabida_ são, como a _Cruz_, o grandioso da sua obra em verso. E não direi da sua obra poetica, por que todos os seus trabalhos respiram poesia--a mais altiva, a mais elevada. É curioso como este homem, acusado de secco, duro, rancoroso, incapaz d'abrir o seu coração ao amor, fosse o artista que escreveu as paginas arrebatadas e potentes de ciume, de paixão, d'embates amorosos entre o espirito e a carne; paginas, que dilaceram, fazem tombar lagrimas e constituem as mais admiravelmente escriptas do _Monge de Cistér_, do _Bobo_, do _Eurico_.

III

O ROMANCISTA

Em Inglaterra os romances de Scott invocavam a idade-media as cruzadas, os velhos burgos.

Poetas, romancistas, escriptores pendiam para os estudos e para a critica historica.

Os romances mesmo e as memorias, que tão cultivadas teem sido nos ultimos cincoenta annos d'este seculo, são apenas variedades da historia e da critica. O pensamento do romancista é identico ao do critico e do historiador. Tem de documentar e historiar um meio, uma epoca, onde se agitam personagens contemporaneos ou remotos. É assim que nos livros do sr. Henry James, n'esses pequenos contos, que nos parecem rabiscados na meza de fumar d'algum rico hotel das grandes cidades, está toda a vida, toda a ancia, toda a nostalgia, e todas as hesitações nervosas d'essa geração fluctuante, que emigrou para a America, se regenerou e fortificou ao contacto d'outro meio e d'outro clima, e só se definha e soffre, quando inveja e macaqueia essa velha Europa, onde tantos vêem matar as saudades e desedentar a sede dos vicios morbidos que herdaram.

Quando ha cincoenta annos appareceu o _Monge de Cistér_, o romance historico não existia em Portugal. Como reflexo pallido da litteratura ingleza, apparecera entre nós uma ou outra tentativa isolada e obscura. Foi Herculano que o vulgarisou; elle mesmo nas _Lendas e Narrativas_ o confessa, orgulhando-se que os seus ensaios provocassem a publicação do _Arco de Sant'Anna_, do _Anno na Côrte_, _Odio Velho_, _O Conde de Castella_, _Irmãos Carvajales_, _O que foram Portuguezes_. Estes trabalhos, excepto o primeiro, são productos mediocres de cerebros cançados; a curiosidade que os recebeu tombou, com o tempo, em gelida indifferença.