Album chulo-gaiato ou collecção de receitas para fazer rir
Part 2
Immoralidade nos moços. Os rapazes e as raparigas andam por essas ruas aos beijos e abraços, cantando cantigas indecentes e immoraes; ainda eu hontem ouvi a filha do Thomaz da Horta e o filho do Ignacio do Dente a cantarem o Pirolito que bate que bate! Ora não ha maior pouca vergonha, uns fedelhos que ainda cheiram a coeiros e já sabem o que isto quer dizer!
Immoralidade nos grandes. Esses mariolões e essas mocetonas que vão todos os dias para o matto, sob pretexto de que vão buscar lenha, e por fim fazem por lá couzas do arco da velha... Lenha no forno queriam ellas, malditas!
E quando vão aos figos! O que acontece?
As raparigas sobem para cima das arvores e os mariolões ficam em baixo, a olhar para cima e a dizer: Olha Antonia vejo-te os calcanhares, e as pernas, e os joelhos, e o...
Ponham cobro a este escandal-o, amados irmãos, são couzas que se não devem ver senão em certas occasiões. Eu não pego aos rapazes e ás raparigas que vão ao matto e comam por lá o seu figuinho e mesmo que subam ás figueiras, mas para evitar indecencias, as raparigas fiquem debaixo e os rapazes que lhes vão acima.
Immoralidade nos pequenos. Essa gaiatada miuda que anda todos os dias a correr pelo adro cá da freguezia, onde estão as campas dos nossos antepassados, e que depois vão fazer as suas necessidades mesmo á porta da sachristia. Se não teem respeito pelos mortos, tenham ao menos compaixão pelos vivos, não póde uma pessoa entrar na egreja pela porta de traz sem ficar a bem dizer atolado até o nariz. Já disse ao sr. regedor da freguezia que pozesse mão n'estas cousas, mas por ora continúa a mesma marmelada á porta da sachristia.
Tambem é digno de reprehensão o comportamento d'essas mulheres casadas, que sem nenhuma consideração pelos seus maridos, se levantam do leito conjugal de madrugada, sob pretexto de levarem o gado ao campo, e depois de andarem lá por fóra a laurear, em pernas, recolhem-se para casa frias de neve, e vão-se outra vez metter na cama com os maridos e arripial-os sem piedade! Pobres homens! Se fosse comigo, que coça que ellas não levavam...
Tambem ha certa moça cá na freguezia, que eu trago d'olho ha dias, cá por certa cousa. Eu devia já dizer quem é, mas emfim por hoje limitar-me-hei só a mettel-a na sachristia e arrumar-lhe um lembrete... domingo direi quem é, se não tomar juizo... por agora saibam unicamente que é a unica na freguezia que usa ligas encarnadas... (_Pausa, rumor na egreja._)
Domingo, de hoje a oito dias, me alargarei mais sobre os homens, coçarei as mulheres casadas, e caírei em cima das solteiras, se não tomarem juizo d'aqui até lá.
Sendo hoje dia de festa e estando a chuver far-se-ha a procissão só por baixo da egreja, pois eu não estou para apanhar alguma porrada d'agua. Não precisa vir toda a gente a ella, basta que de cada familia venha um varão.
A proposito de procissão, tenho a dizer-vos, amados ouvintes, que os santos cá da freguezia vão estando muito chimfrins. Eu não dava tres vintens por elles. O São Miguel é que está assim mais direitinho, mas o diabo que está por baixo já não tem cornos; pois olhem, não ha na freguezia poucos homens ricos no caso de lh'os darem. O calvario tambem não está mau; todos os instrumentos da paixão estão em bom estado, falta-lhe só o gallo, mas a isso não direi nada, porque ha poucos na freguezia e as gallinhas precisam d'elles: no entanto se houver por ahi alguma dona de casa que tenha dois, que me mande para cá um.
Esta semana não ha jejum, podem comer tudo quanto quizerem e bebam-lhe melhor; ha só a bemaventurada santa rainha, que cura a tinha; é quinta feira, sexta feira ha feira e domingo é a festa de São Simão e São Judas. Tambem, não sei quem foi o diabo do animal que se lembrou de pôr Judas no calendario. Juro-vos, amados ouvintes, que se não fosse domingo não lhe fazia festa, era o que merecia o senhor S. Simão por caír na asneira de se ir metter com similhante tratante.
Mas acabemos com esta maçada.
Ó _seu Zé_, accenda os sinos e mande tocar as vellas, accenda a agua benta e bote agua no thuribulo... não, enganei-me, faça o contrario de tudo isto.
No entretanto façamos as nossas costumadas e ordinarias orações.
Oremos pela conservação da nossa bemaventurada mãe catholica, apostolica e romana; pela _estripação_ da _cisma_ e abaixamento da hydropisia; oremos tambem pelos ricassos cá da freguezia, a fim de que Deus os mantenha na sua honesta pobreza; pois se fossem mais ricos punham-nos o pé no pescoço. Oremos pelos ausentes e pelos viajantes, afim de se deixarem por lá estar, se estão bem; oremos pelo feliz successo das mulheres pejadas, afim de que Deus lhes faça a mercê de largarem o fructo com a mesma facilidade e doçura com que o comeram. Oremos, n'uma palavra, pela conservação dos bens da terra, como salada, couves, batatas, pepinos e tomates, e pela extincção dos seus males, como formigas, lagartos, ortigas, pulgões e ratazanas... etc.
*A opinião publica*
Depois de longo derriço Casou João com Maria, E passados quatro mezes Tem um filho já Maria. Fallam do caso as visinhas Chora João, ri Maria. «Casei bem tarde, já vejo», Diz o coitado a Maria, «Fui eu que cedo pari» Ao marido diz Maria. O mundo ri de João E acha razão a Maria.
*Carta corographica do reino do hymeneu*
Esta carta, resultado das pesquizas e estudos dos viajantes que teem visitado aquelle reino, é de muita utilidade para aquelles que se quizerem abalançar a emprehender viagem para sítios tão amenos e escabrosos ao mesmo tempo. Eil-a:
O reino do hymeneu, fica a dois graus de longitude e cincoenta e um de latitude, meridiano de Pariz, de sorte que fica justamente sobre a zona dos Paizes Baixos. Não obstante, o seu clima, principalmente o das provincias mais ferteis, é o da zona torrida.
O aspecto do paiz é encantador, visto de longe, mas vae perdendo a belleza á medida que uma pessoa se aproxima das suas costas. A primeira terra que se encontra, logo nas fraldas das suas montanhas, chama-se o _porto desejado_, o qual dá entrada para o _cabo da saciedade_, cabo este mui difficil de dobrar, e todos aquelles que emprehendem esta viagem, se espedaçam muitas vezes nos baixios do aborrecimento. Aquelles que escapam ao perigo, ficam por muito tempo em calmaria primeiro que cheguem á _bahia da conveniencia mutua_.
Os campos aqui apresentam de fóra um aspecto muito insipido. Antes de chegar a este porto é frequente experimentar os violentos safanões dos ventos do ciume e do mau humor. A maior parte dos navegantes, chegados que são a esta ultima bahia, desejam voltar para traz, mas em taes alturas isso é cousa inteiramente impossivel. Abordando á _bahia da conveniencia mutua_ muitos soffrem terriveis furacões e correntes rapidas, que os lançam nos gurgulhões da velhice prematura, onde geralmente os navegantes perdem as agulhas e ficam com agua aberta á mercê das ondas, appellando todos os dias para o favor dos ventos.
Felizes d'aquelles que podem constantemente conservar-se nas alturas da _affeição mutua_, as quaes ficam entre o _porto do desejo_ e o _cabo da saciedade_.