A Vista Alegre: apontamentos para a sua historia

Part 3

Chapter 31,739 wordsPublic domain

Á direita d'aquelle corredor fica a lithographia. Montada, segundo todas as exigencias do fim a que é destinada, funcciona apenas de 1880 em diante. São bastante satisfatorios os resultados obtidos pelo processo lithographico, que tem a grande vantagem de ficar muito mais barato do que o geralmente seguido na pintura da porcelana, e aqui desde principio adoptado.

Em seguida á lithographia fica o deposito da louça que hade ser pintada e do lado fronteiro a casa das _muflas_ onde ha tambem duas estufas para seccar a louça pintada.

Da sala da pintura desce-se para o deposito do barro preparado e casa da amassadura, e d'aqui para a officina de trituração, onde se acham montados as galgas e pisões a que dá movimento uma machina a vapor.

Para além da machina estão as estufas para seccar areia, alimentadas com o calor perdido das caldeiras, um torno a que ella dá movimento, e as officinas de serralheria. Parallela com esta parte do edificio, que é a mais vasta de todo elle, fica a estancia do carvão e differentes telheiros para a secca do barro. Proximo, está a officina de lavagem e escolha de materiaes empregados no fabrico da porcelana.

Os fornos, esses, tres ficam pouco acima d'estas ultimas officinas, e o outro que é o maior, junto ao deposito da louça branca, ao pé do qual fica tambem a officina de vidrar.

Ao norte da casa dos tres fornos e do lado fronteiro do caminho do serviço da fabrica fica a officina de esculptura, o laboratorio em que se opera a solução do oiro e preparação de algumas tintas. Está tambem ahi junto a caldeira para a calcinação do gesso.

As materias primas empregadas no fabrico da porcelana são em toda a parte, em que ella se fabrica, as argilas kaulinicas, o quartzo e o feldspatho. Aquellas, vêem para a Vista Alegre, de Valle Rico, concelho da Feira e este de Villa Meã, Mangualde e Porto.

As argilas kaulinicas são aqui lavadas e passadas por peneiras a fim de se separarem os corpos em diversos estados de aggregação. As areias grossas que dellas ficam são depois empregadas como quartzo.

O quartzo e o feldspatho são escolhidos primeiramente tambem afim de evitar que levem grandes porções d'oxido de ferro, que ordinariamente lhe anda unido, depois calcinam-se e levam-se para as galgas.

Os differentes materiaes que hão de compôr a porcelana, depois de devidamente moidos e lavados são compostos e em seguida levados ás mós horisontaes para os moer e misturar, e em seguida guardados em depositos até adquirirem um certo grau de consistencia.

D'estes depositos vae a massa para a casa da amassadura onde é lançada em vasos de barro poroso, de fórma de pyramides conicas troncadas, a que se dá o nome de _coques_.

D'estes _coques_ é a massa levada para uma larga banca de pedra, a fim de ser amassada a pés. São dois ou mais homens que amassam a porcelana na banca referida; amassada ella dividem-a em muitas fracções, com a fórma de cones, e que denominam _pélas_.

Estas _pélas_ são em seguida levadas para a officina das rodas de oleiro, onde são separadamente amassadas á mão sobre uma pequena banca de marmore, a fim da massa ficar mais unida e homogenea, e bem assim desapparecerem alguns veios escuros que ás vezes adquire, ficando assim apta para ser obrada.

O methodo empregado na Vista Alegre na execução das differentes peças de porcelana, é o de _encher_ e o de _moldar_.

As caixas refractarias--_gazetas_--onde se mettem as peças para serem levadas aos fornos são fabricadas por meio de moldes de gesso, variando as suas dimensões conforme as peças que devem conter.

Bem seccas as peças que sahiram da roda do oleiro, ou dos moldes, procede-se ao seu enfornamento, collocando-se primeiramente dentro das gazetas ou sem ellas.

Levadas ao forno são collocadas no segundo pavimento, pois agora só recebem o calor brando, a que chamam--_chacote_.

Recebida esta primeira cosedura, vão para a officina de vidrar. O vidrado é dado por immersão das peças dentro d'uma grande tina em que se acham diluidos em agua os corpos que compõem o esmalte.

As peças mettem-se e tiram-se rapidamente ficando tambem logo seccas como se não houvessem recebido banho algum.

O vidrado é tirado dos pontos de contacto e dado nos pontos em que a peça não o poude receber na parte coberta pela mão. Os retoques são feitos com pincel.

Mettidas novamente dentro das _gazetas_, sobre cujo fundo, se lança alguma areia, afim de que a elle ellas se não peguem, são outra vez enfornadas mas agora no outro pavimento do forno, a fim de receberem o grande calor que termina a cosedura.

As _gazetas_ são collocadas umas sobre outras, formando pilhas em toda a altura do forno, a que se dá o nome de _fios_.

Feito o enfornamento, em que trabalham oito forneiros e um trabalhador, accendem-se as quatro fornalhas que tem o forno, fazendo para que a intensidade do lume, seja a mesma, e ao mesmo tempo em todas as fornalhas, a fim de estabelecer a uniformidade da temperatura.

Passadas 10 horas de lume brando, a que chamam _lume de esquenta_, tapam-se as boccas dos fornos com tijolos refractarios, afim de concentrar a força do calor interiormente, começando então o grande calor, a que dão o nome de _lume de calda_, renovando successivamente a lenha nas fornalhas em maior quantidade que para lume brando, conservando-se assim o fogo bem activo e uniforme ordinariamente por espaço de vinte e quatro horas, chegando algumas vezes a trinta e seis.

Conhecendo-se que está completa a cosedura, tira-se a lenha das fornalhas, diminuindo gradualmente d'este modo o calor dentro do forno, e conservando a louça dentro d'elle até que esteja completamente fria, para então se começar a desenfornar.

De entre as peças vidradas separam-se então as que tem de ser pintadas, para o que são conduzidas para um armazem junto ás salas da pintura.

São muitas as côres usadas na pintura da porcelana, quasi todas vitreficaveis e obtidas por meio de combinações de oxidos, saes metallicos e fundentes.

Os oxidos empregados de preferencia são o oxido de choromio, o de ferro, o de uranio, de manganez, de zinco, de cobalto, de antimonio, de cobre, de estanho e de iridium.

Os principaes saes empregados são o chromato de ferro, de barita, de chumbo e algumas vezes o chloreto de prata.

Depois de pintada a louça vae á estufa para seccar as tintas e em seguida para dentro das _muflas_ a fim de fixar em si as tintas, ganhando as respectivas côres, as quaes se vetrificam com os fundentes.

MACHINAS E FORNOS

A machina a vapor, collocada na officina de trituração, a que já nos referimos, foi feita em Lisboa por Bachelay. Tem duas caldeiras de fogo central e força de 14 cavallos. Foi assente em 1855 por Daniel Werlong, artista de raro merito com o curso de artes e officios em Paris, que durante alguns annos dirigiu a officina de serralheria da fabrica.

A chaminé que dá vasão ao fumo das caldeiras tem 14,m de altura e foi construida em 1879, por operarios do estabelecimento.

A machina communica movimento por meio d'uma correia sem fim, a um tambor fixo no veio principal o qual o transmitte por meio de engrenagens aos differentes engenhos destinados a moer e misturar os materiaes, empregados no fabrico da porcelana.

Ha quatro fornos destinados para coser a porcelana, todos com a fórma cylindrica, construidos com tijolos refractarios fabricados no estabelecimento. Cada um d'elles tem quatro fornalhas e dois andares; o maior tem cinco.

No inferior colloca-se a louça que tem de ser esmaltada, elevando-se a temperatura ao rubro branco, e no superior a que tem apenas a receber o calor brando ou pequeno fogo que lhe dá o poder absorvente para ser vidrada.

No _chacote_ a cosedura adquire o rubro cereja proximamente a temperatura da fusão de ferro. O _chacote_ é aquecido pela chamma perdida do primeiro compartimento.

Sobre as fornalhas dos fornos ha aberturas rectangulares, chamadas _vigias_ por onde se _observa_ o grau de calor e se tiram as amostras, sobre as quaes se verifica directamente o estado da cosedura.

Além dos quatro grandes fornos ha outros mais pequenos destinados a fixar as tintas, que são as _muflas_. Estes fornos, se tal nome se lhe pode applicar, são caixas feitas de argila refractaria, separadas umas das outras por paredes de igual natureza.

Contém varios compartimentos formados por folhas de ferro, a que servem d'apoio calços tambem d'argila refractaria.

São oito as _muflas_, tendo cada uma d'ellas fornalha independente.

* * * * *

Escripta a historia da fabrica e feita a descripção d'ella, nada mais nos resta do que apresentar uma resenha dos seus administradores, directores, mestres de pintura e manufactura de porcelana, que é o que vamos fazer. Eil-a:

Administradores:--Os snrs. Augusto Ferreira Pinto Basto, de 1824 a 1828; Alberto Ferreira Pinto Basto, de 1828 a 1856; Duarte Ferreira Pinto Basto, de 1856 a 1861; Domingos Ferreira Pinto Basto, de 1861 a 1882; Duarte Ferreira Pinto Basto Junior, de 15 de maio de 1882 em diante.

Directores:--Os snrs. Antonio d'Almeida Ferreira Duque, de 1836 a 1840; João Maria Rissoto, de 1840 a 1878: Duarte Ferreira Pinto Basto Junior, de 1878 a 1882; João Antonio Ferreira, de 15 de maio de 1882 em diante.

Mestres de pintura:--Os snrs. Victor Francisco Chartier Rousseau, de 1836 a 1852; Gustavo Fortier, de 1853 a 1856; Filippe Fortier, de 1857 a 1860; Gustavo Fortier, de 1861 a 1865; Joaquim José d'Oliveira, de 1866 a 1881; Francisco da Rocha Freire, de 1881 em diante.

Mestres de porcellana:--Os snrs. João da Silva Monteiro, de 1826 a 1833; João da Silva Monteiro Junior, de 1833 a 1838; João Antonio Ferreira, de 1838 a maio de 1882. Presentemente não ha mestre de porcelana, mas sim dois contra-mestres, os snrs. Antonio Augusto Affonso, que tem a seu cargo a preparação das materias primas, fórmas e modelos, e Manoel da Silva Marianno, que dirige a manufactura.

Fim.

PREÇO 200 REIS

* * * * *

OBRAS DO MESMO AUCTOR

Memorias de Aveiro.

D. Duarte de Menezes--esboço biographico.

O Districto de Aveiro; noticia geographica, estatistica, seraldica, archeologica e biographica da cidade de Aveiro e todas as villas e freguezias do seu districto.

A mulher atravez dos seculos; estudo historico sobre a condição politica, civil, moral e religiosa da mulher: 1.ª parte--sociedades primitivas, China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.

D. Joanna de Portugal (a princeza santa) esboço biographico.

* * * * *

EM VIA DE PUBLICAÇÃO

Luctas caseiras--Portugal de 1836 a 1851.

Aveiro e o seu concelho.

JOAQUIM DE VASCONCELLOS E MARQUES GOMES

Exposição districtal de Aveiro em 1882--Reliquias da arte nacional.