A virtude laureada Drama Recitado no Theatro do Salitre
Part 3
He nos revézes que apparece o Sabio, Que d'hum peito atravéz, que a Dor crucîa, Reluz hum coração, virtudes todo: Nunca d'Athenas o lustroso esmalte, O Mestre da Moral, o Deos dos Sabios, D'alma heroica mostrou mais nobres rasgos, Que ao entrar na prizão com rosto alegre, E ao beber a cicuta airoso, e forte. De Roma nos Annaes, que o Mundo assombrão, Não teve cabimento Heróe mais claro, Que hum Séneca, fiel ás leis sagradas Da Virtude, e Dever , aos pés calcando Cruas perseguições, desterro iniquo, Sobranceiro ao rigor dos Ceos, da Terra. Nem sómente entre as horridas refregas Do procelloso mar, ou nos combates D'alma forte resumbra ardor valente: Da virtude he tambem theatro o leito; Neste mais de huma vez provou-se o Sabio: Encara com desdem o Sabio a morte, Certo que a preço tal se merca a vida. Temos mui nobre, e remontada Essencia, Viemos povoar Terraqueo Globo De mui alto lugar; e a prova, Elmano, Em nós mesmos se dá, julgando escassa Humilde habitação, d'arte os portentos, De Arquitectura, e luxo assombros claros, Que hum leve sopro esbrôa, esmaga, e prostra; Não temendo largar tão baixa esfera. He das dores crueis o termo a morte! Entre desgraças mil sempre vagando, De molestias sem fim alvos constantes; Bem como acontecer deve aos que aberrão Do seu clima natal, e estranho habitão. Só depois de existir puras substancias, Despidas do grosseiro, e terreo manto, Gostaremos prazer sadio, estreme. Filosofia, és tu, quem dás ao Homem Do sepulcro despir-lhe o medo, o tédio; Por ti (qual déstro nauta exp'rimentado, Que rasgado o velame, os mastros rotos, Co'as ruinas da náo prosegue a rota), Não succumbe o Mortal da morte á face, Não lhe desbóta do semblante as côres, Da constancia o vigor não lhe entorpece Buido ferro, que centelhas vibra; Da vida o termo com sorriso encara, Como se alheio fosse, e não seu termo. Genios transcendentaes, que o mundo honrárão, Não temêrão largar barrenta capa, Que mesquinha entorpece os vôos d'alma: Do divino Platão, o Sol da Grecia, Ouve attento o clamor, no peito o encerra: "O espirito do Sabio anhéla a morte, Nella medita, e a quer: sempre que tende Fóra de si; taes são seus appetites."[1] Quanto ao summo chegou do fim jaz pérto: Fructo, que sazonou co'a Primavera, Do Outono na estação não orna as mezas! Quanto mais clara resplandece a chamma, Tanto mais prompta affraca, e se amortece: Taes os Engenhos; quanto mais sublimes, Tanto mais breves são; que he perto o Occaso, D'onde falta o lugar ao crescimento. E pois, Elmano, te guindas-te ao cume Do Horizonte, onde és Sol de Lysia aos Vates, Cujas centelhas dão calor aos Genios, Dão brio, dão vigor para ir á gloria, Postergando montões de vis insectos De ephemerico ser, d'aspecto ingrato; Não deves estranhar, que Atropos dura Se antecipe a cortar-te o fio á vida; Ella, que sem respeito ao Môço, ao Velho, Se apraz de encher de lucto, e pranto o Mundo. Ah! Se a vozes de dor se move a Parca, Se do Destino as leis transtornos soffrem, Verás, Elmano, decorrer teus dias A par dos de Nestor, Tu, que o semelhas No mel, que vertem teos divinos labios. Lysia, desfeita em ais, banhada em pranto, Ante as aras de hum Deos mil preces sólta Pela conservação do seu esmalte, Do seu Genio melhor, da Gloria sua, E aos de Lysia Filinto une os seus votos.
_Fr. Francisco Freire._
[1] _Sapientes animum tetum in mortem prominere, hoc velle, hoc meditari, hoc semper cupidine ferri in exteriora tendentem._ Senec. Consol. ad Marciam.
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_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._
*EPISTOLA.*
Ruindo lá do Bárathro medonho Lúgubre som, motivador do pranto, Que as faces mólha de enlutada Lysia, De ti, ó Vate, reclamava o feudo; Já lá do Abismo horrendo as furias torpes, Por ordem de Plutão na terra surgem; Da vil materia, do que he pó, que he nada, Opaco manto de endeosados genios, Rabidas rompem o ordenado todo. "Murchas esp'ranças mais a mais fraquejem, Sentimento mortal, tristeza baça Nos Lusos corações a dor espalhe; Apenas cinza, o que já foi Elmano." Esta do Averno a voz, a lei da Morte, Que ás funeraes Irmans o Monstro intima! Do Sena pelas margens saborosas, Pelas praias do Ganges, do Aureo Téjo, Assustadas de horror as Ninfas clamão; A lei maldizem, que lhes rouba a gloria, Carpindo o mimo, que as honrava tanto. Os alumnos de Apollo ao nume envião Entre cortados ais, sentidas vozes, Votos provindos do profundo d'alma, Quaes os da Gratidão, e os da Verdade: Co'as mentes cheias de saudade infinda, Teu nome, ó caro Elmano, a Jove lembrão; No fogo ardente de sonóros Hymnos, Escudados da candida amizade, Da justiça, é dever, da gloria Tua, Hum Nume Creador, que uniu os Entes, Hum Deos, hum justo Deos piedoso dobrão. Eis de repente na brilhante Esfera Risonho assoma o dia, a noite fóge; Raia alegre o prazer, somem-se as trévas; Abrem-se as portas do sulfureo Averno, E á feia escuridão as Furias tornão. Esforça-se a razão, estudo, e arte Das garras a salvar a prêza excelsa: Angelico tropel ao leito adeja; Da Sacra Região baixando os vôos Do Vate aos lares, a melhora guia. No Olympo os Numes a harmonia prézão, Affeitos a escutar da terra os Vates. Oh como de prazer exulta o peito! E mano, Elmano vive, oh Ceos, oh dita! Por elle a gloria, e honra em Lysia abundão; Cisne do Téjo, que trespassa a méta, Licita a raros de adejar cançados. Fadem teus dias fortunosos lances. Praza aos Ceos compassivos, que inda eu possa Ver-te immune ao mal, que te consterna; Porque possas tambem dar vida á Fama De deslizado Heróe, que a cobardia Pendura nos portaes do Esquecimento; E as azas desprender em canto altivo, (Dos Voltaires, Camões, dos Tassos digno) Em lustres de Varão, que immortalizes. Virente louro não me cinge a frente; Tolhem meus gressos as varedas ínvias Ao bipartido Cume, ao sacro asilo Dos almos Genios, onde entrar não posso: A ser-me dado, intrepido verias Em duravel engaste, em Padrão d'oiro Ir assomar teu nome além dos Evos; A ardentes Vates, que o Porvir esconde, Engenhos como Tu, mover-lhes pasmo; Mostrar-te como exemplo ás Plagas Lusas, Disparando o trovão, vibrando os raios, Imagens vivas, que dão alma ás pedras; Em quanto as graças em Gertruria bella Co'os doces folgazões amores brincão; Quando surge da Estancia a torva invéja, Ou trilhas sem desdouro o Lacio augusto: Do filho de Sulmona unindo a cinza, Fazendo-o reviver com pompa egregia Em veste alheia; mas tão nobre, e rica, Que equivale ao valor dos proprios trajes. Quizera agora ter o dom de Elpino, Invadir com teu nome a Eternidade...... Mas ah que delirei: oh mente louca! Não precisas de quem de ti precisa: Rite, rite de mim, ó grande Elmano Mas dos desejos não, dos sãos desejos.
_De João Galvão Mexia de Sousa Mascarenhas._
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_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._
*EPISTOLA.*
Vate, que adoro, portentoso Elmano, Imagem do Saber, do Pindo gloria, Apollineo Cantor, Cantor divino Dos Jardins, onde impéra a Natureza; Escuta os versos meus, escuta os versos, Que dicta o coração, dicta a amizade. Depois, com que pezar o pronuncio! Que entrei na estancia triste, onde succumbe, Aos impulsos da Dor, Razão, Constancia,[1] Diluvio amargo de saudoso pranto, Me innunda as faces, me consterna o rosto. Já mais hum só instante, ó caro Elmano, Se minóra a tristeza, que me opprime; Meu activo pezar, minha amargura, Bem não podem narrar toscas palavras: Excede a dor humano soffrimento! Saudades que a minha alma afflicta sente, Podem-se imaginar; mas não dizer-se. Ah quando penso em ti, eu me arrebato: Futuras producções imaginando, Não césso de chorar a falta, a perda, Que as Bellas Letras, Seculos vindouros Chorarão, como eu, se a morte horrivel Inda em flor decepar teus caros dias. Deste asilo da lúgubre Tristeza, Onde os dias, ás noites semelhantes, Eu passo envolto em luto, envolto em pranto,[2] Te envio tristes ais, ternas lembranças, Que meu peito fiel a ti consagra; Escuta-as, se he possivel, (pois o triste, Com as queixas do triste se consola,) No meigo coração grato as acolhe; E conhecendo a dor, que assim me fere, Pondéra as mágoas, que supporta, e sente Falmeno, que sem ti vive morrendo. Sugeito ao mando teu por lei, por gosto, Te envio (como amargo talvez util) O Folheto de meus insulsos versos: Quem quer escravo ser de teus preceitos, Sem já mais hesitar, deve cumprillos Embora o Zoilo vil louco me chame, E pura sugeição julgue vaidade.[3] Adeos, meu caro Elmano, adeos amigo, Os teus ais, aos meus ais unidos sejão; Unidos vão soar na azul esfera, Augurando amizade além da morte.
[1] Alludindo á exasperação em que o vi lutando, na occasião em que excessivas dores muito o atenuavão. [2] A grave molestia do Amigo, e o proximo falecimento da minha Mãi, me inspirou os tres versos acima, em tudo conformes aos meus sentimentos.
[3] Já mais me atrevera a enviar o Folheto dos meus insipidos versos a tão abalizado Mestre, se a sua determinação me não obrigasse a tanto: as desculpas que exijo, e as causas que allego no Prologo do dito Folheto, não bastão a evitar a critica, que na verdade merece a publicidade de semelhantes Poesias, ás quaes ao presente não dou valor algum.
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*SONETO.*
Nesta horrivel morada da saudade, Onde chóro, e lamento o teu Destino, Dirijo preces mil ao Ser Divino, Que dicta o coração, dicta a amizade.
Fiel inclinação, pura verdade Repete ardentes votos de contino: Tranquillo supportára o mal ferino, Se podésse escusar-te a Enfermidade.
Quanto fôra feliz, meu caro Elmano, Se a vida, que te offerto, vida escura, En teu lugar soffrêra o cruel dano;
Então com gosto olhára a sepultura; E resgatando o Heróe, alegre, e ufano, Meus dias entregára á Morte dura.[1]
_Por Felisberto Ignacio Januario Cordeiro._
[1] Se os versos dos dous tercetos parecerem affectados, e excessivos; para se pensar de modo contrario, baste a lembrança, de que o homem verdadeiramente Filosofo, que tem huma existencia triste, e pouco interessante, não terá nunca dúvida (sendo possivel) em sacrificar a sua vida á duração da dos homens sabios, uteis, e necessarios á Republica das Letras, e á Sociedade Civil.
FIM.