# A virtude laureada Drama Recitado no Theatro do Salitre

## Part 2

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C'roai-o, ó Ninfas, pranteai-lhe a morte: E ao menos, Jove, que em prazer transbordas, Deixa vêllo de cá na etherea Corte.

_Do mesmo._

* * * * *

*SONETO.*

Pungido pela dor, banhado em pranto, Desato, Elmano, minha voz truncada, Que de gemer, de suspirar cançada, Acha o rouquejo no lugar do canto.

Debalde em pragas mil a voz levanto Contra o Cypreste, lúgubre morada, Que de funereas Aves carregada, Te condensa o pavor, o susto, o espanto.

Para baldar o agoiro, em vão tentára Loiros dispôs em mimo esperançoso, Que na aridez não vinga a ténue vara.

Rouba-me embora, ó Fado rigoroso, Esse que Lysia, o Mundo assoberbára, Que o pranto he meu, prantearei saudoso.

_Do mesmo._

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage._

*SONETO.*

Embebido na sólida Verdade, Zombas dos Impios, que sem pejo ou mêdo, Decifrão de Mysterios o segrêdo; Trévas a nós, e Luz á Eternidade:

Adoras a Suprema Divindade, (Teu futuro Juiz ou tarde ou cêdo) Na fé se adóça teu remórso azedo, Esp'rando a divinal Tranquillidade.

Loucas Paixões, que fomentaste outr'hora, (Feiticeiro Manjar dos flóreos annos, Que o Juizo maduro não vigóra)

Esses gostos fataes, gostos mundanos, Expiando na dor, que te devora, Ganhas hum Deos, e choras os Profanos.

_Joaquim Antonio Soares de Carvalho._

* * * * *

*ELOGIO AO PUBLICO*

_Em nome de huma Actriz da Rua dos Condes._

A Musa, que nas Scenas de Ulysséa, Não sem gloria, ajustava o métro á Lyra, De Elmano o só thesoiro (a Sócia mésta Da quasi muda cinza, aérea sombra) Inda hum salvé tremente á luz envia, E dá versos á Patria, ou dá suspiros, Da nobre Gratidão pelo orgão puro. Oh Lysia! Escuta os sons, talvez extremos; Que do seio affanoso, a custo, exhála: (O Cysne diviniza os sons da Morte) Ouve, em métro não baixo, ouve alto affecto, Que me honra o coração, na voz me ferve, E no Patrio favor a ardencia nutre. Recente Arvoresinha em chão bravio, De humor celeste definhando á mingoa, (E mimosa jámais de hum Sol fágueiro) Eu para a Terra, para a Mãi pendia, Que os succos mesquinhava ao tenro Arbusto, Talvez de produzillo arrependida. Eis braço, a que apiedou meu ser já murcho, Me extráhe, propicio, do Terreno avaro, E em liberal torrão me põe, me arreiga. Súbito espérta, súbito enverdece A Planta moribunda, e qual sé, ó Lethes, Afferrasse a raiz nas margens tuas, Que das Furias o bafo esteriliza. Influxo animador me altêa, e fólha; Hálito ameno de vivaz Favónio Com macios vaivens me embala os ramos, Flores me adornão, fructos me atavião: Os sorrisos da Patria, os mimos della Estas boninas são, são estes fructos. Das trévas, e da Morte as Aves feias, (De atra voz, em que o Fado ás vezes sôa) Fogem d'entorno a mim, carpindo agouros, Nas agras, negras furnas vão summir-se; E na coma louçã gorgêa encantos Teu Cantor, Primavéra, o vosso, Amores. Quanto sou, quanto valho, á Lysia devo, E á Lysia o coração na voz consagro. Acólhe com ternura, acólhe, ó Patria, As Offrendas por mim do triste Vate, Que para te cantar surgio da Morte, E em ancias balbucía o tom dos Numes: Honra déste ao Cantor, dá honra ao canto.

_Bocage_

* * * * *

*ODE*

_Ao Senhor Manoel Maria Barbosa du Bocage._

Do boto engenho a sequidão, e a mingoa Suppri, vós Amizade, e sentimento, E a frase ingenua, a Candidez saudosa, Tebêos thesouros valhão.

Tinta sempre de negro a Fantasia, Em vão tactêa o viço dos Prazeres; As sombras medrão, desaparece o esmalte Dos Parnásidos sonhos.

Anciado o coração, palpita, e pede Amenos quadros, que o vigor lhe abonem; Mas, o seu oppressor, o Pensamento, Se produz, produz lucto,

E como affugentar, banir-lhe as trévas Se de hum, se de outro lado eu sinto, eu vejo Duros arremessões, pendentes golpes Do meu verdugo, o Fado.

Daqui me aponta a pálida Amizade, O Amigo, o Vate, o Pensador, o Tudo (Socio nas ditas, e nas mágoas socio) Desviado, e penando.

Dalli me punge o indomito Destino: Novo Tantalo eu sou! Vejo a Ventura, Cresce o desejo, esfórços se redobrão, Mas não posso abrangella.

Impertinentes, faceis Conselheiros, Sizudo Aristocrata me pertendem Systema, e Genio me prohidem; soffro Affanoso contraste.

Nos grilhões de hum dever, que me flagélla, Nem do meu coração disponho livre! Quantas vezes me vês, Amor, oh quantas! Cobiçar-te, e fugir-te

Na varia compressão, no cerco infando De Pezar, e Pezar conheço o pouco, Que resiste a Razão, e quanto, e quanto Filosofia he futil!

A Sensassão dispotica ensurdece Da sã Prudencia ao madurado Aviso, E contra a innata propensão dos Entes Politica o que avulta?

Mente quem me disser, que em homens cabe Não gemer, se Afflicção irrita, e lacera: Não mais póde o Atilado, o Sapiente, Que evitar-se ao naufragio.

Eu, que desde a bemvinda Primavera, Em que a Luz da Razão dourou meu clima, Tive sempre comigo, e meus Destinos Atinada pelêja.

Votado desde então a Amor, e ás Musas, Filosofo, os espinhos acamando, Horas tenho, assim mesmo, em que a meus olhos A existencia negreja.

Ditoso tempo aquelle, Elmano, o caro, Que em amiga união (volvendo a teia Do Porvir, do passado, e do presente,) Nos davamos constancia!

Então (oh! tempos, que valeis saudades) Amizade interesses enlaçando, Delicias extrahia ás mãos da sorte, Que trovejava inutil.

Então as Nynfas do Pierio esquivo, Com teus Olympios sons extasiadas, Folgavão de me ver medrado Alumno, Rastear-te, e com gloria.

Ah! bem que nos separa occulta força, Inda te segue o socio Pensamento:[1] Se Poder, e Vontade condissessem, Moniz fôra comtigo.

Menos agros talvez teus dias forão, E os turvos dias meus, que enlutão mágoas, Com doce languidez amenizára O Prazer fugidio.

Matiz equivalente a Paraisos, Variado entre Amor, entre Amizade, Me enchera o vácuo da existencia ensôssa, Que se definha inerte.

Eu amo, eu sou amado, eu lucro, eu gózo; Mas, aí! que a hum dia de prazer succedem Dias, e dias de Afflicção teimosa, Que o coração me azédão.

Amas, como eu tambem, tambem amado, Mas avesso Poder te engelha os fructos, Que já colheste em tempos fortunosos De perpétua lembrança!

Cumpria, que a Amizade suppridora Instantes affagasse amargurados, Mesmo d'entre os negrumes do Destino Tirasse hum riso a furto.

Infelizes de nós, se não restasse No fundo d'alma, de sofrer cansada, Divino não sei que, que aos males todos Nos torna sobranceiros.

Eia, pois ao porvir se appelle, Elmano, Fonte de gostos, ideaes amenos, O Fôlego alargando ao soffrimento, Leda Esperança ondêa.

Ella espinhos crueis em flores torna, Sustenta o fio, e dá sabor á vida; Retem suicidas mãos, angustias doura,[2] Deve ser nosso Numen.

Se dize com Ovidio: "Eu perdi forças,[3] Perdi côr, e mal cobre a pelle o osso," Tambem com elle eu digo: "Immensos males[4] A velhice me avanção."

A Aurora do Prazer talvez que enflore, Ermo invernoso da existencia nossa, Á Fama vividoura, assombros novos Na Lyra então daremos.

_Por Nuno Alvares Pereira Moniz._

[1] _Affectus que animi, qui fuit ante manet._ Ovid. Trist. lib. 5. Eleg. 2. [2] _Me quoque conantem gladio finire dolorem, Arguit, injectas continuit que manus._ Ovid. de Pont. lib. I. Eleg. 6. [3] _Nam neque sunt vires, nec qui color ante solebat, Vixque habeo tenuem, quae tegat ossa, cutem._ Ovid. Tris. lib. 4. Eleg. 6. [4] _Me quaque debilisat series immensa laborum, Ante meum tempus, cogor et esse senex. Ovid. de Pont.

* * * * *

_Carminibus quaero miserarum oblivia rerum._ Ovid.

*ODE*

_Ao Senhor Nuno Alvares Pereira Moniz_

Já meu estro, Moniz, apenas sólta Desmaiadas faiscas; Em que as frôxas idéas mas se aquecem; Elmano do que ha sido Qual no gésto desdiz, desdiz na mente; Diástole tardia Já da fonte vital me esparge a custo O licor circulante, Que he rosa entre os jasmins de virgem Face, Que outr'ora esperto, accezo De santa Agitação, de Ardor sagrado, No cérebro em tumulto (Estancia então de hum Deos!) me borbolhava. Respiração Divina, Enthusiasmo augusto, alma do Vate! Que rápidos portentos, Portentos em tropel, não déste á Fama, Não déste á Natureza, Á Patria, ao Mundo, a Amor na voz de Elmano! Ora, aplanando os sulcos, Com que a Saturnia mão semblantes lavra, A Razão pensadora Erguia aos graves sons o grave aspecto: Ora ao ver-se anteposto Por deleitosa insânia, a Ella, a Tudo, O grato, Cyprio Nume, Fadava docemente o doce canto No Coração de Anália. Oh extase! oh relampagos da Gloria! Faustos momentos de ouro, Com que meu gráo comprei na Eternidade! Do Tempo meu voando, Do Tempo que anuvião negros Males, Brilhais inda em minha alma, Entre sombrias, áridas Idéas, Qual entre Aves escuras, (Orgãos do Agouro, Interpretes da Morte) Requebros annulando, Das Aves de Cithéra o coro alveja...! Mas ah, saudosos Dias, Vós sois memoria só, não sois influxo! Não me reluz comvosco O Espirito, abysmado em funda trévas, Com gasto, debil fio Prêzo á Materia vil, que rálão Dores! Ante meus olhos tristes, (Que já d'amiga luz se despedírão) Sahe de eterna Voragem Vapor funéreo, que exhalais, oh Fados! Eis meu termo negreja, Eis no Marco fatal meu fim terreno!... Mas surgirei nos Astros Para nunca morrer: com riso impune Lá zombarei da sorte. Moniz! oh puro Amigo: oh Socio! oh Parte Do já ditoso Elmano! Ás Musas, como a mim, suave, e caro! De lagrimas, e flores Honra-me a cinza, o túmulo me adorna, Não só longa Amizade, Novo Sacro Dever te exige extremos: Da Lyra minha herdeiro Menu Nume Fébo, e teu te constitue; Fébo apôs mim te augura Vasto renome, que sobeje[1] aos Evos: (He dos Annos vantagem, Não vantagem do Engenho a precedencia) Teu metro magestoso, Que já, todo fulgor, zoilos deslumbra, Teu metro scintilante, Das virtudes mimoso, acceito ás Graças, Turvem saudades: canta Alguma vez de Elmano, e chora-o sempre, E Amor, e Anália o chorem: Amor, e Anália, meus piedosos Numes. Sem, por mim suspirem.

_Bocage_

[1] Em Lucena, e em outros Quinhentistas de summo apreço, vem sobejar por exceder.

* * * * *

Por largo campo, indómito, e fremente, Corre o Nilo espumoso: Feroz alaga a rápida corrente O Egypto fabuloso:

Mas se na grã carreira, ás ondas grato, Tributo de caudaes rios acceita, Soberbo não regeita Pobre feudo de incógnito regato.

_Diniz._ Ode I.

* * * * *

*ODE*

_Por occasião da noticia, que grassou no Porto, das melhoras do Senhor Bocage._

Cisne de immenso vôo! ave, que rója, A medo se abalança aos teus louvores.

D'entre a que, eterna, lá no abysmo estala Immensa chamma, que accendeo o Immenso, Tôrva ullulando, á região do dia Surge a myrrhada Invéja.

Seu hálito empestado a luz suffóca, E sécca, e mirra as arvores, as flores; Dragão, de linguas tres, na dextra arrôcha, Alça na outra o facho.

Silvão-lhe horrendas na tostada fronte Viboras crespas, de que está coalhada; Nutre nos peitos ávida serpente, De insaciavel fome.

Atro veneno a lingua lhe destilla, A lingua, que de vibora parece: Vós Górgonas, vós Furias, tu Medusa, Não sois mais horrorosas.

De espaço meneando as azas longas, Demanda vagarosa a Estygia margem; E alli, prendendo o vôo, descendo á terra, Que, ao sentilla, estremece.

Alli em subterranea, em ampla furna, Desde a infancia dos seculos formada, Dura, immutavel lei impondo a tudo, Reside a Morte horrenda.

Montão enorme de esbulhados ossos, De crâneos seccos lhe compõem o throno, Assôma no alto o descarnado Monstro, A ferrea fouce em punho.

Voão-lhe em roda Lémures, Espectros, Jazem-lhe aos pés as lividas Doenças: O silencio, o pavor, a escuridade Alli, perennes, mórão.

Nos quatro cantos de horrorosa estancia Quatro cyprestes lúgubres se elevão; Aves sinistras, rouquejando agouros, Entre os ramos se aninhão.

Para aqui se encaminha a Invéja tôrpe: Tremendo, aos pés do throno se apresenta; Frio terror os membros lhe entorpece Ao encarar o Nume:

Mas, assanhando a roedora serpe, Que no peito lhe pásce, a dor vehemente Lhe esperta o coração, lhe volve o acôrdo; E assim troveja a Furia:

"Deosa, dominadora do Universo, Cujo imperio vastissimo confina Co'a muralha da immensa Eternidade: Branda meu rogo affaga.

Já vezes mil o tétrico veneno Das serpes, que me toucão, que alimento, Fêz em teus lares borbulhar o sangue De victimas sem conto,

Serviço não vulgar, que te hei prestado, Jús me confere a não vulgar indulto: Vinga-me, ó Deosa, de hum Mortal soberbo, Que ousa affrontar-me impune.

Elmano, o caro a Febo, e caro a Lysia, C'roado ha muito de immurchavel louro, Sobre o ludibrio meus alçou ufano Troféo de eterna dura.

Com pé robusto esmigalhou valente (Da peçonha mortal nem foi tocado) Viboras, que arranquei da trança horrenda, Para arrojar-lhe ao seio.

Tentei vãmente ennegrecer-lhe a Fama, Que nivea, e pura os Orbes divagava! Meus baldados projectos só servirão De aviventar-lhe o lustre.

Chusmas de Zoilos, meus fieis Ministros, Em vão em meu favor as armas tomão: Relampaguêa o Vate, e nos abysmos Baqueão, aterrados.

Myrrhada de pezar, baixei ao Orco, E alli fui prantear a injúria minha: Gritos, que então soltei de dor, de raiva, Inda nelle retumbão.

Foi-me comtudo balsamo suave Á dor cruel, que me ralava o peito, O grato annúncio, de que o Vate odioso Roçava o ponto extremo.

Mortifero aneurisma promettia Romper-lhe antes de muito os nós da vida! Meu coração folgou, desaffrontado, Co'a proxima ventura.

Já com soffregas mãos, tintas em sangue, No Báratro compunha atróz peçonha, Para ensopar-lhe as socegadas cinzas No tácito jazigo.

Porém, ó Deosa, se, exercendo a Fouce, O demorado golpe não desfechas, As, que alimento, gratas esperanças, Qual fumo, se esvaecem.

Sim, ás contínuas súpplicas de Lysia, Como que o Fado a fronte desenruga; Brado, macio já, como que intenta Deferir-lhe propicio.

Ah! e quanto, inda assim oppresso, enfermo, Quando me affronta, me assoberba Elmano! Seu Estro sempre o mesmo, sempre em chammas, Raios me vibra intensos.

Todos de Lysia abalizados Cisnes Melifluo canto em seu louvor modúlão; Rôto ao porvir (mercê de Apollo) o seio, Vida fádão-lhe eterna.

E serei, ai de mim! assim calcada, Sem que possa vingar-me!.." Aqui lhe brótão As lágrimas em fio, entre soluços Suffocada, emmudece.

Depois de curto espaço, a Morte horrenda, A fronte definada meneando, Alça a medonha voz, e assim responde Á consternada Furia:

"Não te desdenho, ó Filha: do meu throno Tu és robusto apoio; os teus serviços A obrigação me impõe de ser-te grata: Morrerá quem te affronta"

Disse; e n'astea da Fouce o corpo firma, Ergue-se, e ensaia para o vôo as azas: Nos cantos da caverna os negros Mochos Soltão da morte o grito.

Eis que estranho clarão, rompendo as trévas, Súbito inunda a lôbrega morada; Eis apparece (mortal raio á Invéja) Em branca nuvem Lysia.

Brando surriso esmalta-lhe o semblante, Nos olhos o prazer lhe reverbéra, Luz-lhe na dextra lâmina de bronze, Qual astro, fulgurosa.

Com garbo magestoso a vestidura Sobraça roçagante; e assim que arrósta O Nume aterrador, na voz suave Taes expressões lhe envia:

"Chorosa, amargurada, longo tempo Curva ante o Solio do adoravel Fado, Ferventes rogos, humidos de pranto, Fiz subir-lhe á presença.

De Elmano, do meu Vate a vida em risco: Meu coração materno consternava: Elle era a gloria minha; ella morrêra, Se morresse o meu Vate.

Regeitado, porém, não foi meu rogo: O Fado para mim sempre benigno, Risonho me outorgou (mercê não tenue) O suspirado indulto.

Eis o Decreto seu:" (e entrega ao Monstro A lâmina de bronze.) Ao vê-lo a Parca, Depondo a curva Fouce, inclina a frente, E reverente o beija.

"Cumpre-se, ó Lysia, (diz) a Lei do Fado." Exulta Lysia, e presurosa surge Da habitação medonha: opácas sombras De novo alli se espessão.

Oh que horrendo espectaculo não era A Invéja furiosa, ardendo em raiva! Da dextra, da sinistra a serpe, o facho Arreméça convulsa.

As melenas, frenéticas, arrepéla, E de áspides alastra o pavimento; Na boca, onde as espumas são veneno, As maldições lhe fervem.

Torcendo, e retorcendo os vesgos olhos, Vaguêa delirante a vasta furna: A Morte, a propria Morte, ao ver-lhe as furias, Treme no throno horrendo.

O Fado, contra quem vomita o Monstro Negra turma de pragas, indignado Manda ronque o trovão, fuzile o raio, E sobre ella desabe.

A Furia, remordendo-se, baquêa, E no bojo inflammado o Inferno a sorve. Em tanto a grande Lysia, exultadora Vôa a abraçar seu Filho.

* * * * *

*EPISTOLA*

_Feita no julgado ultimo periodo de vida do Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._

EPIGRAFE.

_Rebus angustis animosus as que Fortis appare._ Horat. Od. 7. liv. 2.

Se póde hum mocho, piador nas selvas Brancas plumas cobrar, surgir de noite, E dos pios colher vozes sonóras, Tendo assumpto sem par, Heróes cantando! Não sou ave infeliz, odeio as trévas; Minha essencia mudei; encaro o dia, O dia, que nasceo na luz d'Elmano. Ó tu Dominador, de quem domina No medonho poder d'escuro pégo, Onde morre o Vulgar, existe o Grande; Em que ufana de Ti a Eternidade, Dos limites sahio, mandou soberba Aos Futuros pasmar, tremer aos Fados; E nos Livros ao tempo sobranceiros O teu nome esculpir, dar vida ás letras; Que sedentas té'li de iguaes talentos, Sem a mira lançar a mais, ou tanto, Novo campo não dão a novo entalhe. Accolhe os versos meus, os meus louvores, Que o pêjo suffocou; mas cede o pêjo Á voz da Gratidão, que em mim resôa. Que inaudito prazer me surge n'alma!.. Elmano, Elmano meu, do Mundo gloria, Quando penso que os sons adormecidos Da Lyra (que em temor céde á vontade) Vão dos Astros romper luzente Espaço, Indo aos Numes levarão, que he dos Numes Esta empreza, que os Ceos no seio acolhem, De que hes justo crédor, que humilde off'reço, Hade a Jove aprazer, durar em Jove. Se ao jugo dos Mortaes, se ao Fado, á Morte Inda liga tua alma a terrea massa, Se em tormentos, se em ais, se em dor, se em pranto A substancia languece, que te anima, E de humano a pensão (dever custoso) No continuo pular do sangue ardente[1] Encaras com temor; temor não tenhas! A morte para o Sabio he gosto, he vida. Assim o grão Camões, de Lysia esmalte, E das grandes Nações portento, espanto, Na desgraça morreo, viveo na morte! E o Nume atroador de Pólo a Pólo, Por cem aureos canaes fendendo os ares, Inda o nome do Heróe espalha ufano, Inda alentos lhe dá, vida mais nobre. Quebradas as prizões aos ser terreno, Que te véda subir de Vate a Nume, Hade os tubos encher com sôpro estranho, E teus versos mandar ao Ceo da Gloria. Não julgues, que se, Heróe, zombas da morte, Encarando teu mal desdenho o pranto Hade Lysia chorar, darão os Lusos Do pranto, que a razão sanar não sabe, Grossas agoas ao Téjo caudaloso, Que dos limites seus fugindo irado, Vá ao Ganges levar, levar ao Nilo A noticia cruel, que humanos punge: E Josino (que a vida assás molesta Nos hombros lhe suppeza alonga os dias Que, d'Elmano vivendo assim distante, Hãode o manto roubar á noite escura!) A tristeza dará da morte o premio. Revive, Elmano, pois no Ethereo Reino; Que eu, em quanto tiver vitaes alentos, Heide em ti prantear d'Amigo a falta, E de Vate, e de Heróe ceder ao pasmo.

_José Joaquim Gerardo de Sampaio._

[1] Alludo ao aneurisma, huma das principaes molestias, que o atormentão.

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, achando-se o A. molesto._

*EPISTOLA.*

O Sabio não vai todo á sepultura, Na memoria dos homens brilha, e dura. _Rim. du Bocag. T. a._

Hum triste, hum infeliz, da Sorte avêssa Tragando o fel dos ais, o fel da vida, Saúda hum triste, que abraçar não póde, Penhóra em letras, mensageiras d'alma, Os effluvios da candida amizade, Os saudosos gemidos, que te envia, Elmano, que em soluços te evapóras, Que atroppelado pela dor intensa, Sóltas dos lumes teus acerbo pranto, Que em vão te banha as faces enlutadas, Que tenta em vão desenrugar teus Fados. Mas ah! cobra valor; constancia, Amigo: Esforçada razão represe as mágoas, Que a horrenda fantasia, nebulosa Avulta em quadros, em que tudo he negro. Se ella dá brilho, se a existencia affaga, Debuchando na idéa deleitosa Glorias, prazeres, jubilos, encantos; Tambem nos males nos accurva a mente Com duplicados, horridos pavores. Baldar o sentimento ao corpo afflicto Não quero, Elmano, que tambem sou homem. Se Zêno, se Platão sorrindo em ancias, Não mostrárão na face a côr do medo, Que erão diremos corações de bronze? Sentirão, que a desgraça a todos punge; Porém soffrêrão com tenaz constancia, Engolfados na sãa Filosofia. Se qual vivêrão, tal morrêrão lêdos; Porque não seguiremos os seus passos? Forão d'outra materia, que não somos? Forão d'outro talento, que não tenhas? Quem da convulsa natureza, opressa Falsêa em parte os horridos embates, He sobranceiro á morte em gloria firme: Se tu com ella nos degráos luzentes, Librado sobre os extasis divinos, Nectar libaste na Apollinea Mêza; Porque tremes das soffregas voragens, Em que se abysma a Natureza toda? Que saudades do Mundo te acompanhão? Por quantos males se não comprão ditas, Que bem qual o relampago se esváem! Que te valeo na Patria modulando, Da bocca deslizar thesoiros d'alma; Ora cantando de Marilia a face, Aonde se remóça a florea Gnido; Ora abrazado em ralador ciume, Praguejando o rival de teus amores; Detestando a cruel, a fementida; Ora carpindo a[1] flor cortada em breve, Que acordava o botão medrando em risos; Enriquecendo em fim a Patria, o Mundo Nos vivos quadros da Moral prestante? Se horrorosos baldões o premio forão; Se isto se diz viver... se o Mundo he isto... Não tens que suspirar; esquece a Terra! Não succumbas ao pêzo da desgraça: Se te borbulha hum Deos na mente acceza, Quem 'sta cheio d'hum Deos não teme a Morte.

_De Pedro José Constancio._

[1] Alludo ao Idyllio da Saudade Materna, feito pelo Senhor Bocage.

* * * * *

_Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage._

_Tu ne cede malis; sed contra audentior ito, Quam tua te Fortuna sinet......_ Æneid. 6. vers. 95.

