A Verdade a Passo Lento ou Guerra do Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto

Part 2

Chapter 23,269 wordsPublic domain

Senhor Redactor, vou continuando a primeira parte do meu Discurso, ou do meu Sermão: ficou elle substancialmente nas duas interrogações; 1.ª se Fr. Gabriel he innocente? 2.ª se as testemunhas, que deposérão na devassa, e os Juizes, que dérão a Sentença, serão culpados? Da verdade de huma destas proposições segue-se necessariamente a falsidade da outra: Logo, se o primeiro for culpado, devemos concluir de certo que os segundos são innocentes, e impio o tal papel da Borbolêta; pois a torto, e a travez quer que os Padres sejão «barbaros, crueis, tyrannos,» e por consequencia merecedores de mais alguma cousa, que serem enterrados vivos. Entremos primeiro na descripção de Fr. Gabriel, ou do seu caracter, que prometti, e eu a dou em tudo confórme ás participacões delle, nem mais, nem menos. «Agoente agora hum pouco, Sr. Borbolêta, e venha vindo a passo.» Fr. Gabriel de Santa Theresa, de idade de 53, a 54 annos, pouco depois de professo no Convento do Porto, e logo no principio do seu Coristado mostrou huma indole tal, que nunca a sua Religião se servio delle, nem o promovêo a Ordem alguma, por não dar, nem sequer, esperanças para o desempenho do menor gráo do Sacerdocio. Já no tempo de Noviço as deu bem fracas de cumprir os devêres da profissão, e foi admittido a ella, presumindo-se que com a frequencia dos Exercicios Religiosos, bons exemplos, exhortações, e com o tempo em fim se ligaria aos seus devêres; mas enganárão-se os bons Padres, porque = de pequeno verás o Boi que terás. = Suas propenções, falta d'amor á observancia, de sentimentos religiosos, e até christãos, erão taes que, por exercicio á Caridade, e respeito á sua Corporação, não os especifico. Repetidas vezes arguio, e castigado de mil infracções do que tinha professado, seu genio inquieto, seu coração endocil tudo atropelava, zombava de tudo. Seu entendimento rombo, e ao mesmo tempo manhoso, só inclinado ás cousas da terra o affoutou a pedir aos Prelados que, da profissão, que fizéra para Religioso do Côro, o passassem para a de Leigo. «Toupeira nos sentimentos quiz trocar os olhos pelo rabo, estimando mais ser bicho de cosinha, do que pegar no Breviario.» Que tal he o Rmo. da Borbolêta!!! Em varios tempos, e por varias vezes mostrou o «séstro» de rapinante, não sei porque infeliz e funesto fado! Em 1804 foi convencido de haver tirado huns cordões d'ouro, e algumas peças á tal Senhora, a quem chama a Borbolêta, como de mófa, = Rica Proprietaria; e, de mais a mais, de abrir com gasua, ou chave falsa os mealheiros, ou caixinhas, em que os Fieis devotos deitão as suas esmolas aos Santos: (talvez julgasse erradamente lhe competia este espolio, por ser elle mais santo, ao menos na razão de simples) Convencido deste crime foi então prezo, e do tempo da prizão nada nada me informão de positivo. Não se emendou com esta pena a tal «ave de rapina:» deu traças a huma chave, a que chamão mestra, a qual abre as portas das Cellas todas, e em horas, que lá sabia, hia sisando o que achava bem guardado: houve alguns queixosos, e entre elles o Comprador da Communidade, que se via afflicto, por lhe faltar muitas vezes o dinheiro da Cella, e a Cella sempre fechada. Depois de longo tempo, desconfiado do tal merlo, armou-lhe a ratoeira, e logo á primeira vez cahio nella a «Ratasana.» He galante esta historia, e mostra bem quanto são finos os taes Fradinhos. Hum dia fingio o Comprador sahir para fóra, e no tempo de Vesperas foi ao Côro tomar a benção ao Prelado; mas, em lugar de sahir, foi meter-se em huma Cella fronteira á sua, e pôz-se á espreita, tendo avisado a não sei quantos, que perto e disfarçados acudissem á primeira voz. Serião três horas pouco mais ou menos, eis que, cantando ao som de Esgueira, ou Borda-d'agoa = trai, li, la-ro, veio correndo o Dormitorio o Reverendissimo Fr. Gabriel, que suppunha fóra o Comprador, e os demais na Cerca divertindo-se: feitas as tentativas para que ninguem o visse metêo a chave, abrio a porta, e entrou affouto deixando a tal chave na fechadura; fatal descuido! Sahe depressa como galgo sobre lebre o Comprador, juntão-se os outros, que pilhárão o Reverendissimo mechendo, se não foi já embolçando algum dinheiro. Eis-aqui o innocente, que tanta piedade merece á Borbolêta! Deos por sua alta piedade lhe encha a casa dellas, ainda que [ persuado-me ] não terão muito que levar. Castigado novamente o Reverendissimo teve a soffrer o carcere, e tãobem não me dizem por quanto tempo, mas sim que o fôra por Sentença. Estes Padres tem lá suas Leis, e Judicatura particular, e por ella costumão processar os Réos; e, a fallar verdade, fazem bem; porque aonde não ha castigo ha huma tropa de levantados, e cada qual faz o que quer. O homem de honra dirige-se pela nobreza dos sentimentos, que o animão, e quem a não tem atropella tudo, e para estes he necessario aguilhão, e hum chusso. Na colisão de dous Governos hum molle, e outro rijo deve preferir-se este ao molle; porque no rijo o homem de bem nada teme, porque obra por decóro, e honra propria e o malévolo contem-se pelo temor de que o castiguem: pelo contrario no Governo molle o mesmo homem de honra muitas vezes se relaxa, e o máo que neste estado não teme o castigo, faz-se pessimo, audaz, e insolente. A vara, e o freio doma os cavallos, e para os homens máos são necessarios os castigos: mas a Borbolêta he tão boa que não quer hajão máos no mundo, nem que elles se castiguem; os bons isso sim, esses sejão sepultados vivos, e ainda alguma cousa mais. Eis-aqui huma politica estranha, ou huma piedade verdadeiramente impia; e, a valer esta regra, tem de viver muitos seculos a Borbolêta, ainda que o seu sustento sejão «acelgas, e beldroegas.» Na sua linguagem he Fr. Gabriel hum infeliz barbaramente encarcerado, e os Padres são huns hypocritas, crueis, solapados, huns verdugos, e verdugos infernaes. «Apague! Este rasgo de eloquencia pedantesca escandalisa, ainda que seja hum Fariseo. He huma verdade, pois o diz Espirito Santo [ por ser de tal author julgo o não negará a Borbolêta, ainda que tem cabedal para muito mais ] diz o Espirito Santo, que a boca falla da abundancia do coração, e quem lança taes fezes pela boca [ digo eu ] he sinal que foi meter a lingua em parte bem nojenta. Acho-me tãobem agora com vagar, e por isso contarei a minha anecdota.» Ahi vai, acredite quem quizer, e quem não quizer não acredite. Em certa terra deste Reino entrou hum homem alta noite em huma casa a não sei que pertenção; porem sentido pelo dono, e não podendo escapar-lhe d'outro modo, descêo de hum golpe por hum buraco a huma loja, onde infelizmente se enterrou até á cinta: o pobre miseravel forcejando como burro em atoleiro, pôde escapar á inundação, e aos fios da espada, com que o outro o perseguia: atravessou algumas ruas, e para mais desgraça veio dar aonde estava huma sentinella; gritou este como era de costume = quem vem lá para á guarda? = mas o tal homem fez-se mouta, e com pés de lã deu mais hum passo adiante porem o Sentinella gritou mais alto = quem vem lá para á guarda? Então o miseravel, vendo que o voltar atraz era cahir nas mãos do inimigo, e que os gritos de sentinella o descobrião, disse em voz submissa = he o diabo carregado d'esterco, = (por decencia não se diz a palavra) ao que respondêo o Sentinella, = passe de largo, que o cheiro bem o mostra. = Tornemos agora ao Reverendissimo Fr. Gabriel, [dar-lhe-hei sempre este titulo que de tão boa mente lhe concede a Borbolêta] e ao facto de 1813, que ella conta em ar dogmatico, e decisivo. Muito perdêo o Patriarcha Grego em não ter ao pé de si esta rica Borbolêta! passaria por hum homem inspirado, e a força da sua loquella faria scismatico o mais emperrado Turco. Em 1813, no dia 14 de Junho ás 5 horas da manhã, appareceo roubada a Senhora da porta, como diz a Borbolêta, mas não diz tudo; he velhaca, ou não teve informações exactas, e escrevêo ao Deos-dará: appareceo tãobem roubada a Senhora do Altar Mór, Calices, Custodia, e demais prata da Sacristia, e até a Patena dos Santos Oleos, que estava fechada n'hum cantinho.... Foi esta apparição, de menos, da fórma que vou dizer, e do modo que me informão pessoas de todo o credito, que a presenciárão ellas mesmas. Os Padres Carmelitas Descalços tem por instituto, o levantarem-se em todo o anno hum pouco antes das 5 horas da manhã; e no tempo que toca o sino juntão-se no Côro para fazerem Oração. Costumão nas terras grandes descer nesse tempo alguns Padres a dizer Missa ao Povo, que no Porto he sempre em quantidade: abrio o Porteiro a Igreja, e o Sacristão a porta da Sacristia, e eis-aqui o pasmo, e o assombro em huma e outra parte ao mesmo tempo... Os Padres não achão Calices, e o Povo vê o Nixo da Senhora aberto, o Menino aos pés da Mãi, e ambos despojados de corôas, joias, e dinheiro, e tãobem a Senhora, e Menino do Altar Mór sem as suas corôas. Armou-se tal barulho na Igreja, que os Padres, deixando a Oração, correrão á grade do Côro para saberem a causa do motim: então hum delles [dizem-me que se chama Fr. Manoel de S. Lourenço, e que ainda móra no dito Convento] perguntou ao visinho, que era o Reverendissimo Fr. Gabriel--isto que he? que succedeo?.. He disse o tal Reverendissimo, he que roubárão a Igreja, e Sacristia. Como assim, lhe replicou o Padre, se a porta da Sacristia he páo ferro, e só á força de machados, e com muito estrondo he que podia arrombar-se? Não foi por essa porta, respondeo o Reverendissimo, forão pela escada da Sacristia, arrombárão a porta do Presbyterio, e dahi forão pela Capella do Sacramento á Sacristia. N. B. Os Padres, regularmente recolhem-se ás Cellas das déz ás onze horas da noite, e levantão-se para o Côro ás cinco, como já disse: a Communidade estava então no Côro, e lá estava tãobem o Reverendissimo; os demais ignoravão o que se passava, e o que era, e o Reverendissimo Fr. Gabriel, sem sahir do Côro, já sabia não só do roubo, mas de tão miudas circunstancias como = o terem ido pela escada da Sacristia, o arrombamento da porta do Presbyterio, a passagem á Capella do Sacramento &c. &c. Se não foi elle o ladrão, parece que andou com elles; ou, aliás, advinhou. Seria isto porque estes Padres tem por brasão o ser filhos dos Profetas, e Fr. Gabriel, entrando nesta successão por artes de «berliques berloques,» consultou alguma bruxa, que tendo o espirito d'Apollo Pythio, lhe revelou de noite tantos segredos; pois dizem [valha a verdade] que os espectros costumão apparecer, e fallar huns aos outros. Conhecido o furto, (digo a verdade, e só esta he que he verdade, diga quantas mentiras quizer a Borbolêta) desconfiárão os Padres dos Soldados, pois, sendo feito o roubo pelo interior da Casa; tinhão motivos racionaveis para isto. Chamárão o Sargento, perguntárão aos Guardas da Portaria se virão entrar, ou sahir alguem em toda a noite; e, respondido que ninguem entrára nem sahíra, dous Padres com o dito Sargento derão huma busca ligeira ás Cellas, onde os Soldados estavâo aquartelados, e nada apparecêo: foi busca ligeira, por que huma grande Custodia, sete, ou oito Calices, Patenas, Corôas, &c. &c. não erão trastes, que se metessem no bolço, ou na patrona. Nessa manhã veio ao Convento o Chanceller, a quem o Prior foi rogar para isso, o qual, examinando o lugar, por onde se fez o roubo, os sitios onde as cousas estavão, e demais circunstancias, disse por fim ao Prior, e Padres, que o acompanhavão--Padre Prior, tenho experiencia porque tracto de semelhantes causas ha muitos annos; pelo que observo o furto foi feito por pessoa, que sabia muito dos escaninhos, sitios, chaves, e lugares: veja se tem em casa alguem capaz disto, e não se escandalize, porque taõbem no Apostolado houve hum Judas. Ora este sim, que foi Profeta! Nós veremos como elle advinhou. Para o Correio, Senhor Redactor, continuarei o meu aranzel, assim como continuo a ser

Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.

CARTA IV.

«Impietas impii erit super eum.»

Senhor Redactor, já lhe remetti a descripção do caracter de Fr. Gabriel, e o modo como se fez o furto, e ficámos em ver como advinhou, sem ser bruxo, o Illustre Chanceller. A pezar do seu pronostico tão claro e decisivo, nem por isso se declárão os Padres contra o Reverendissimo, ainda que lá no coração muitos o suspeitarião: assim mesmo, apenas hum, ou dois por entre dentes disserão que desconfiavão delle; porem a perturbação, a mágoa, e o sentimento em todos era tal, que os não deixava discorrer: andavão como attónitos, e assombrados, e foi tão grande a pena, que o pobre do Prior em três dias deu á casca, isto he, morreo de apaixonado. Descobrio-se o furto nesse mesmo dia, ou no seguinte, e foi da maneira que vou contar, nem mais nem menos. Recolhidos depois de cea os Religiosos, erão pouco mais de onze horas, quando vem á Cella do Superior aquelle sujeitinho, que tinha pilhado da outra vez a «Ratasana» era o mesmo Comprador, de que acima fallámos, e lhe disse desta maneira «Padre Superior, eu já estava deitado, e não posso dormir, nem descançar com a lembrança de que o furto está em casa, e de que o ladrão de certo, ao que me parece, foi Fr. Gabriel; (perdoe que me esquecêo agora o Reverendissimo, fique para outra vez) lembro-me que por cima da abobada da Igreja ao lado da Epistola, e sobre o Altar da Santa Theresa ha hum profundo escondrijo, onde escapárão muitas cousas aos Francezes [não escapou depois disso huma mala, e parece que o Reverendissimo lhe deitou a fatexa de cinco pontas, pois me dizem anda appensa aos Autos huma carta delle a certo amigo da Cidade, em que o avisa tenha muito cuidado na mala, e a não dê a ninguem para o não perderem &c.] Certamente ahi está o roubo: venha comigo, e vamos ver.» Foi com elle outro Religioso, e mesmo, lá mesmo no tal sitio mesmo, lá estava, mas não tudo: Corrêo logo com tal alvoroço o tal Comprador, que, sendo alta noite, e tempo de silencio assim mesmo gritou nos Dormitorios em altas vozes = Padre Superior, apparecêo; cá está; venha, venha que appareceu.... Ao estrondo destas vozes levantou-se o Superior á pressa meio vestido; levantárão-se os demais como em tumultos e todos, á maneira de quem acode ao fogo, correndo cada qual mais depressa, se dirigião ao sitio para ver o tal «achado.» Todo este barulho passou pela porta do Reverendissimo, e á porta delle he que gritou o Comprador; mas deixou-se ficar quietinho, e estirado como bom cação; talvez tivesse escrúpulo de quebrantar o silencio, porque foi sempre mui observante neste ponto: póde ser que nada disto o acordasse; mas, a ser assim, hum sono tão profundo indica bem a necessidade de descanço; elle o precisava, pois tinha perdido a noite antecedente. Cumpre notar que até os Padres mais velhos, e venerandos se levantárão para assistir ao acto da «achada,» e o Reverendissimo, e venerabundo Fr. Gabriel devia ficar-se pelo pouco, ou nenhum interesse, que lhe resultava de hum roubo tão consideravel, e que tanta magoa causou aos seus Irmãos. Apparecêrão Calices, Patenas, Custodia, a pequena Alampada, e a Corôa grande, mas não as colherinhas dos Calices, joias, dinheiro, e tudo o mais que não era volumoso. Depois desta descoberta encaminhou-se o Prior, e Padres do Governo á Cella do Reverendissimo Gabriel, e o forão condusindo para outra, que tinha grades, servio, e serve algumas vezes de hospedaria: aqui o deixárão ficar em quanto elle não teve arrombados os ferros, porque então foi preciso muda-lo para outra Cella taõbem de grades, e, se vê já de forro. Metido nesta Cella deu traças a fugir, e para isto furou a abobada, o que deu motivo a fazer-se-lhe hum segundo solho, ou pavimento sobre o primeiro. Ao Religioso, que o servia, em quem achou alguma confiança, e demasiada benevolencia, deu 2400 para que lhe comprasse huma lima surda, ou serra d'asso, afim de cortar os ferros da janella, e por-se ao fresco; pedio mais ao dito Padre lhe levasse hum Gabinardo, que tinha em certo sitio, e huma corda a qual lhe disse a tinha escondida detraz dos folles do Orgão, e lá se achou. «Estes trastes denotão que elle costumava fazer suas sortidas; ou que já os tinha de prevenção para o que désse, e viesse.» Nada se achou na Cella do Reverendissimo concernente ao furto, nem era da esperar, porque já estava destro; com tudo, depois de alguns dias, lhe mandárão despisse toda a roupa, e apparecêo cosida na fralda da camisa a quantia de 12$ e tantos reis. Tãobem isto, dirá a Borbolêta, que he fingidi? Estes Padres são mui finos, e certamente por alguma nova magica forão-lhe lá coser o dinheiro, mas este remendo botado assim he mal cosido. Nada apparecêo até ao dia de hoje, de cordões, joias, dinheiro, «que foi em quantidade o que levou da gaveta da Sacristia,» e d'outras miudesas, e he crivel, que tudo enterrasse na Cerca, e ha razão de o desconfiar; por quanto, propondo o Reverendissimo ao Padre, que o servia, os intentos de fugir pela janella para a Cerca, este lhe aconselhava o não fizesse por esse lado; que de noite, arrombando a delgada taipa, que divide a Cella, podia escapar-se muito bem, pois a Portaria estava aberta, e os Soldados o deixarião ir livremente, dizendo-lhes que era Religioso; a estes e outros conselhos repugnava sempre o Reverendissimo, teimando sahir pela janella, e pela Cerca; ora isto [dizem-me] são motivos para desconfiar, de que as joias, dinheiro &c. estão na Cerca enterradas, e que elle os queria levar comsigo quando fugisse; por quanto, perdida esta occasião, não lhe ficava outra para as levar sem muito risco, e grande perigo de ser pilhado, se voltasse. Não damos porem como certo o enterramento, para sermos em tudo sinceros, e não cahir nos absurdos da Borbolêta: o facto he veridico; mas, se estes erão os seus intentos. Deos o sabe, e cada qual ajuize como quizer.

Foi do modo que fica exposto o furto, e o seu achado, ao que se seguio depois huma devassa, que lá fizerão os Padres, conforme determinão seus Estatutos, e o que depozerão as testemunhas nem o sei, nem se me communica: Sei sim que foi sentenciado, e que a norma da Sentença foi dada por hum Juris-consulto Secular á vista dos Autos; homem tal que, disse ao Prior o honrado Juiz do Crime no dia 14 de Outubro, era a melhor cousa que tinha Portugal em materias criminaes: [se mentio por alma lhe preste, pois agora mente-se muito, e custa saber de que parte está a verdade.] Sendo pois testemunhas de probidade as que depozérão, porque forão Religiosos, e não se póde dizer sem blasfemea, que todos jurassem falso, e sendo a Sentença dictada por hum Ministro desinteressado, e sem suspeita, segue-se legitimamente que o Reverendissimo Fr. Gabriel foi «irté» pronunciado criminoso no furto, e por consequencia igualmente legitima, os demais Religiosos innocentes. Ora, e deverão elles, por castigarem o Reverendissimo depois de sentenciado, ir todos lá para essa Ilha dos mortos, ou dos Lagartos, e serem sepultados vivos? Admiro a grande caridade para soltar hum preso, e ao mesmo tempo o esforço, e energia em enterrar os sôltos. Quem não vê que isto he huma grande impiedade?..