Chapter 6
E trouxeram-lhe o gladio. O papa ficou mudo, N'um assombro d'espectro. De subito exclamou: «Ainda não é tudo; Tragam-me agora um sceptro!»
Trouxeram-lh'o. E depois d'um silencio profundo Rugiu como um leão: «Tragam-me agora o mundo!» E pozeram-lhe o mundo Na palma da sua mão.
E sopesando o globo e arrancando o montante Enorme da bainha, Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante! Humanidade, és minha!
Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla; Sou o Deus, sou a Fé. Miseravel reptil, Humanidade, oscula A ponta do meu pé!»
E sentando-se sobre o coração da Italia O satrapa romano Estendeu desdenhoso o bico da sandalia Para o genero humano!
II
N'esse instante um fantasma entrou nos regios paços. Sereno e formidavel. Encarou fixamente o rei, cruzando os braços No peito inabalavel,
E trovejou, deixando o papa sacrosanto Livido, espavorido: «Sou a Fraternidade. Entrega-me esse manto E essa espada bandido!»
Despedaçou-lhe o gladio e a tunica purpurea, E sahiu triumfal. E o papa horrorisado, espumando de furia, Uivou como um chacal:
«N'esta invencivel mão d'abutre encarquilhada Guarda o melhor thesoiro. Ficou-me ainda o sceptro. Era de ferro a espada... Prefiro o sceptro... é d'oiro!»
E o papa viu então, oh tragica anciedade Um vulto sobrehumano Avançar e bramir:--O meu nome é Egualdade; Dá-me o sceptro, tyranno!--
Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa, como um lobo Sombrio respondeu: «Na minha forte mão ainda sustento o globo... Ainda o globo é meu!...»
E desatou a rir... um riso sanguinario De panthera. Depois Surgiu novo fantasma herculeo, extraordinario, Maior que os outros dois.
E como o rebentar potente d'um trovão Que abala a immensidade O fantasma rugiu:--Não me conheces, não! Chamo-me a Liberdade!
«Venho buscar o mundo. Entrega-o, salteador! É meu o globo, harpia!» E arrancou-lh'o. Soltando um grito, no estertor Convulso da agonia,
Tombou por terra o papa. E repentinamente Viu surgir-lhe do lado Um esqueleto a rir, todo fosforecente, Podre, desengonçado,
Que he disse:--Morreu, ó Papa, o nosso imperio, Morreu o mundo antigo. Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me Tiberio... Vem-te deitar commigo!...
E como um caçador fantastico que leva, Sangrenta e moribunda, Uma hyena a gemer, de rastos, pela treva N'uma noite profunda,
O esqueleto levou para a crypta sombria O cadaver do irmão, Indo dormir os dois na eterna mancebia Da mesma podridão!
Post scriptum
Quando eu morrer abram-me o peito E d'esta jaula, onde houve um leão, Tirem, o carcere era estreito, Meu velho e altivo coração.
Depois sem dó e sem respeito, Sem um murmurio de oração, Lancem-no assim, vai satisfeito, Á valla obscura, á podridão,
Para que durma e se desfaça No lodo amargo da Desgraça, Por quem bateu continuamente,
Como um tambor que entre a metralha Estoira ao fim d'uma batalha, Rouco, furioso, ancioso, ardente!
Nota
Em seguida á _morte de D. João_ comecei a escrever um novo poema--_A Morte do Padre Eterno_,[1] cujo plano completo, até aos minimos detalhes, estava de ha muito elaborado no meu espirito.
Mas em torno d'esta ideia principal germinou um grande numero de ideias acessorias, d'onde nasceu um livro novo _A Velhice do Padre Eterno_, collecção de 50 poesias, que são 50 balas que, partindo de diversos pontos, vão todas bater no mesmo alvo.
Em 1879 estava adiantada a _Morte do Padre Eterno_ e quasi concluida a _Velhice_.
Uma enfermidade de quatro annos successivos interrompeu a obra.
Volvendo a saude, voltou o trabalho. O trabalho nasce espontaneamente da alegria, como um fructo nasce espontaneamente d'uma flôr.
Publico hoje o 1^o volume da _Velhice do Padre Eterno_. O 2.^o, já na imprensa, sahirá a luz com brevidade. No 1.^o volume predomina a satyra, no segundo a epopeia. Os dois completam-se. A critica, só reunidos, os poderá julgar inteiramente.
Creio, se a saude me não faltar, que a _Morte do Padre Eterno_ dentro de um anno estará impressa.
E depois de morto D. João e morto Jehovah, resta-me resuscitar Jesus e desagrilhoar Prometheu.
Esse ultimo poema, o _Prometheu Libertado_, será o fecho da trilogia, o complemento da minha obra.
Terei os annos de vida necessarios para escrever esse livro? Não sei; no entanto rogo a Deus do fundo da minha alma que me deixe terminar com um hymno de esperança e de harmonia uma batalha de coleras e de sarcasmos.
O plano está concebido ha muito. A ideia é simples e creio que bella. A primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometheu pela humanidade e pela natureza.
Na segunda parte de Jesus Christo, levantando-se do seu tumulo, vem fulminar o abutre e desacorrentar Prometheu.
O heroe é libertado pelo santo. A crença e a sciencia, a rasão e a fé, depois d'um combate do milhares de seculos reunem-se finalmente n'uma paz luminosa, n'uma communhão indestructivel.
A liberdade de Prometheu significa o desaparecimento de todas as tyranias, e a resurreição de Jesus a morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana, e outro a aspiração immortal para uma justiça absoluta. O Caucaso e o Golgotha ficam sendo para a humanidade os dois grandes altares da religião eterna Futuro!
Julho--1885.
Guerra Junqueiro.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+---------+--------------------+--------------------+ | | Original | Correcção | +---------+--------------------+--------------------+ |#pág. 26| da ladrão | do ladrão | |#pág. 33| Atrajectoria | A trajectoria | |#pág. 34| nolte | noite | |#pág. 59| Daz | Das | |#pág. 67| haptisados | haptisados | |#pág. 69| flu'do | fluido | |#pág. 86| rollar não chão | rollar no chão | |#pág. 90| Acharam-se | Acabaram-se | |#pág. 112| babojar-lhe á anel | babojar-lhe o anel | |#pág. 142| feitia | feita | |#pág. 146| sandalla | sandalia | |#pág. 147| encar | encarquilhada | |#pág. 150| espontaneanente | espontaneamente | +---------+--------------------+--------------------+
A indicação da primeira secção dos poemas "_Como se faz um monstro_" e "_Fantasmas_" foi adicionada, uma vez que existia referência a uma segunda secção.
Foram efectuadas correcções no índice, onde os títulos de poemas se encontravam omissos ou trocados e onde as páginas indicadas não estavam associadas correctamente.
Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados.
Os hífens "supostamente" em falta não foram adicionados.
End of Project Gutenberg's A velhice do padre eterno, by Guerra Junqueiro