Chapter 5
E em torno aos fulgidos brazeiros Onde um bom Deus, poderoso e justo Rebenta as almas aos milheiros, Como as castanhas n'um magusto,
Pincham selvaticos fandangos Satans freneticos e maus, Rabudos como ourangotangos, Cornudos como Menelaus!
E é por não dar uns seis ou sete Tostões ao odre de um abade Que a Providencia vos derrete, Impios, por toda a eternidade!
Congrua e folar--palha e bolota Ao teu abade, impio, não dás? Pois bem, Deus põe-te de compota N'um molho ardente de aguarraz.
Ah, tu rebelde, ah, tu faminto, Nunca a chorar foste depor Tres mil remorsos com um pinto Nas mãos d'um padre confessor?
Ah, tu mandaste a Egreja á fava? Nunca compraste uma cartilha? Cose-te em pez, torra-te em lava. Anda, meu besta, meu pandilha!
É em quanto Deus te frita os untos E o coração n'uma panella, Que vida airada os bons defunctos Passam no céo!... que vida aquella!
Pois cá por baixo aos maganões Nunca tambem lhes faltou nada; Tiveram crenças e milhões... Deus gosta assim de gente honrada.
Comeram optimos jantares, Perfeitamente digeridos; Foram christãos e titulares. Bons paes, bons filhos, bons maridos.
Aos seus palacios luculianos (O que é virtude e pundonor!) Durante quasi oitenta annos Não bateu nunca um só credor!
Amaram todos os pecados, Que são mortaes, mas são gentis, Com todo o encanto fabricados Para os banqueiros, em Pariz.
Dormira sempre n'um bom leito Co'as mais formosas cortezãs. E o ventre sempre satisfeito, E livre... todas as manhãs.
Gozaram sim, mas na verdade Foram á missa muitas vezes, Com toda a pompa e magestade Dentro dos seus _landeaus_ inglezes.
Se algum remorso impertinente As almas castas lhes mordia, Catava-o logo com um pente Um bispo n'uma sacristia.
Crendo nos dogmas mais profundos, E achando a vida um bom lameiro Tiveram sempre Auctor dos Mundos Por um perfeito cavalheiro.
Deram de graça a varios santos, A Jesus Christo e á mãe das Dôres C'roas, chinós, tunicas, mantos, Burseguins d'oiro e resplendores.
Por isso o tal Author, que acabo Do vos citar, os tratou bem; Deus é levado do diabo Só para os pulhas sem vintem.
E quando ao cabo da funcção, --Velhos sem dentes, já na espinha, A Morte, de chapeu na mão, Lhes foi tocar á campainha,
Para espicharem dignamente, Agasalhados na sua cama, O papa enviou-lhes de presente A benção n'este telegrama:
«Remete benção Divindade. Legado Pedro quinze contos. Escrevi céo Hotel Trindade Tenham chegada quartos promptos.»
E após um grande funeral, A que assistiu o _high-life_ inteiro, Desde o arcebispo ao general E desde o principe ao banqueiro,
Seus corpos, onde não remexe O verme vil que trinca os parias Embalsamados do escabeche Em grandes latas funerarias,
No palacete d'uma campa Foram guardados, qual thesoiro, Dentro d'um cofre em cuja tampa Ha versos maus em letras d'oiro.
E as almas, promptas para a festa Do seu olimpico noivado, Com uma aureola na testa E azas soberbas no costado,
Partiram leves, subrepticias. Entre o esplendor de cem auroras, Lá para o Reino de Delicias. Onde estarão a estas horas
Feitas bebés, comendo um keque, Tocando frauta ou tamboril, Ou arrastando a aza em leque Ingenuamente... ás _onze mil_.
Ah, miseravel, ah precito, Que lá dos baratros christãos Ergues ao Tigre do infinito Os dois archotes das tuas mãos,
Vê tu como é conveniente, E justo em todos os sentidos, Herdar um homem d'um parente Seiscentos contos garantidos,
Gozar, sem medo á vida eterna, Toda esta bella patuscada, Desde a luxuria mais moderna Á gula mais civilisada,
E ao terminar tão bom fadario Morrer, ouvindo alguns latins, Com treze kilos de calcareo, --Onze na alma, e dois nos rins;
E, na mais intima harmonia Com Satanaz e com Jesus, Ir para a cova á luz do dia, De farda rica e de gran-cruz,
E entre tocheiros deslumbrantes Ser bem comido e bem jantado Por alguns vermes elegantes N'um gabinete reservado!...
A SÈSTA DO SNR. ABADE
O meio dia bateu já na torre da Egreja. A aldeia é silenciosa e triste. O sol flameja. Entre o surdo murmurio abrasador da luz, Como n'um grande forno, os grandes montes nus Recosem-se, espirrando as urzes d'entre as fragas. Um mendigo demente e coberto de chagas Dorme estirado ao sol n'uma modorra espessa; E o mosqueiro febril nas lepras da cabeça Enterra-lhe zumbindo o caustico das lanças. Andam só pela rua os porcos e as creanças. Fome, desolação, luto, viuvez, miseria Na aldeia morta. A terra esqualida e funerea Em logar das canções da abundancia e do amor, Do trigo verde a rir dentro da sebe em flor, Calcinada e cruel cospe violentamente Só o cardo torcido, epilectico, ardente, Rompendo duro e hostil, como a praga blasfema D'um assassino quando um carcereiro o algema. Secaram-se de todo as fontes e os regatos. As cobras na aridez crepitante dos matos Silvam. O ar carboniza as arvores sequiosas N'uma rutila poeira intensa de ventosas. Dos montes nus além nas seccas epidermes Os rebanhos são como um pulular de vermes. E a bobada do céo, concha de zinco em braza, Onde não passa a nodoa aerea d'uma aza, Implacavel contempla a terra solitaria, Como um sultão fitando a carcassa d'um paria!
E o tifo germinou n'esta miseria adusta. A epedimia, a alma errante de Locusta. Diabolica e subtil fermenta envenenada No asfixiante esplendor da atmosphera esbrazeada. D'entro da escuridão soturna dos casebres Os velhos aldeões, minados pelas febres. Agonisam; e em seu delirio derradeiro, Entre o concavo som da enxada do coveiro E o rouco psalmodear dos latins agoirentos, Ouvem loucos de dor os funebres lamentos Dos magros bois de olhar moribundo e sereno. Que estão là baixo ao pè do estabulo sem feno, A mugir, a mugir, por terra, abandonados Juncto ao velho esqueleto inutil dos arados!
A espaços da profunda e tragica nudez D'uma choupana irrompe um grito de viuvez, Um clamor de orfandade... E o sino chora então Lagrimas sepulcraes de bronze na amplidão. A colera de Deus, cujo olhar encendeia, Correu como uma loba hidrophoba na aldeia. Não ha lume no lar, nem ha pão nos armarios. Entre os dedos das mães famintas os rosarios Passam piedosamente e inutilmente, em quanto A Morte, a hiena magra e vesga, espreita a um canto Um berço onde agonisa um anjo, ho dor cruel! Como um roto mendigo á porta d'um vergel Sofregamente espreita algum fructo outoniço A tombar já sem côr d'um ramo já sem viço!
E a aldeia invoca, implora os anjos tutelares. Morre de fome e veste as santas nos altares Com oiro e com brocado, Os cirios noite e dia Alumiam a branca imagem de Maria, Como tremulos ais de luz agonisantes A erguer-se para o céo! Procissões ululantes De penitencias vão convulsas, desgrenhadas, Esfacellando os pés nas pedras das calçadas, Dilacerando o peito, arrancando os cabellos. E com mil visões torvas de pesadellos, Uivando a Deus em rouco e barbaro clamor Que seja pae que veja essa infinita dór, E lânce áquella immensa angostia, áquella magoa Um olhar onde emfim brilhe uma gota d'agua! ............................................... Em vão, em vão, em vão! A tarde o sol frenetico Morre congestionado, estonteado, apopletico, E de manhã explue na lividez do oriente, Caustico, a chammejar como um remorso ardente! E nas noites febris, sem ar, sem roxinoes, E que o azul é um brazeiro esplendido de soes E em que parece que ha dispersas na atmosphera As vaporisações surdas d'uma cratera, Por detraz da montanha asperrima, escalvada, A lua cheia, rubra, opaca, ensanguentada, N'um silencio soturno, esmagador, que opprime, Rompe sinistra--como a apparição d'um crime!
E comtudo n'aquella aridez flamejante, Sem um ramo frondoso em que uma ave cante, N'aquelle illimitado incendio abrasador, Oh sarcasmo cruel! ha dois oasis em flor, Com duas tropicaes plethoras de verdura:
Um é o cemiterio, o outro o passal do cura.
No cemiterio a Vida impetuosa e forte Rompe a cantar do ventre uberrimo da Morte. Pampanos, silveiraes, cardos, ortigas, rosas, Plantas meigas de idilio e plantas tenebrosas, A mandragora, a murta, a madresilva, o feto, Tudo isto a latejar, a fecundar, repleto, N'um emaranhamento anarchico pulula Doido de sol, febril de seiva, ebrio de gula! Ha uma saturnal juncto de cada cova, Um cadaver que chega é uma iguaria nova, Que os vermes decompõem em gangrenas protervas Para a sofreguidão muda, obscura das hervas. E quando do seu antro a larva tumular Diz á planta: «Aqui tens na meza o teu jantar, Vem comel-o!» milhões de raizes--reptis, Sanguesugas que tem por bocas bisturis, Vão haurir, absorver, vampirisar no fundo D'essa cloaca obscena esse banquete immundo, Um fetido e viscoso esterquelinio de horrores, Que é o pão que Deus fez para engordar as flores! E da tumba do hospicio hora a hora resvalla Uma carga de entulho humano para a valla. Juntam-se aos nove e aos dez, rimas de carne morta, Na mesma cova. A edade e o sexo pouco importa. Confundem-se no podre açougue subterraneo. E em quanto uma raiz de lirio suga um craneo E uma pustula dá o perfume a um nectario, No azul celeste paira o corvo sanguinario, O tumulo suspenso, o esquife que se eleva, Brandindo em cada flanco uma foice de treva! .................... Dir-se-hia que o Destino, O velho Thug, o velho e tragico assassino, Depois de uma hecatombe insensata e brutal, A escondera, lançando em cima um madrigal, Um manto de verdura e corolas vermelhas, Todo estrellado do oiro em brasa das abelhas.
E o presbiterio? Olhae:
Branco como um noivado. Trepadeiras á porta e pombas no telhado. Ha n'esse ninho occulto em verdura frondosa Como que um bem-estar simples e côr de rosa. Era um ninho discreto, um bom ninho fiel, Para sugar um favo a tres luas de mel. Anacreonte, o velho erotico divino, Contente encerraria alli o seu destino, Pobre, alegre, feliz, sem remorsos, sem dores, A calvicie jovial sob um chinó de flores, O copo sobre a meza, a musa sob os joelhos, Ao ar livre, a cantar os desejos vermelhos, A belleza, o prazer, a juventude e o sól, Com a graça d'um merlo e a voz d'um rouxinol.
Vejamos essa estancia idilica e tranquilla. Mas cuidado! ha lá dentro um padre e um cão de fila. E ambos mordem. Mas, como ambos roncam a sesta, Entremos. Logo aqui no pateo pela fresta Da tenebrosa adega aberto um poucachinho Sahe um aroma intenso e rico de bom vinho. O abade é beberrão. Casca-lhe muito e bem. Lá pinga como a d'elle isso ninguem na tem. Sabe da poda, é mestre! A adega até dá gosto Entrar a gente lá n'uma tarde de Agosto. Que frescura, que aceio e que nectar! Noé Precisaria ali da capa de Japhet A todo o instante, e o proprio abade e mais a ama Tem feito d'essa adega o seu quarto de cama Varias vezes... O amor pella-se por bom vinho. Se Venus foi sua mãe, Bacho foi seu padrinho. Sensata opinião que o nosso abade aprova, Sobretudo se o vinho é velho e a mulher nova. Nos rotundos toneis e nas cubas inchadas, Panças monumentaes prenhes de gargalhadas, Dormem alegremente e silenciosamente Os trinta mil pifões que o Padre-Omnipotente, Em seu alto designio e enfinita bondade, Destinou para o odre insaciavel do abade. E na fresqueira--um rico e secular thesoiro-- Ambrosias ideas velhissimas, côr do oiro, Mormuram baixo em voz cristalina e maviosa Uma canção de amor entre um beijo e uma rosa, E em que a rosa abre ao beijo as petalas vermelhas Sob frèmito alado e diaphano de abelhas. Com tão raro elixir, que è como um sol poente, Que já não dá calor, mas que illumina a gente, O proprio Satamaz, faço-lhe essa justiça, Não tinha repugnancia alguma em dizer missa, E eu mesmo, é minha vergonhosa conficção, Mas em suma, que diabo!... eu dava em sachristão!
E junto á dega existe a tulha sempre cheia... Mas subamos depressa emquanto o abade orneia A dormir pois se acorda e me conhece, foi-se A visita e per cima arruma-me algum coice. Vamos pé ante pé, de vagarinho. A salla É vasta e branca. Tem nos muros a adornal-a Sagrados corações de Jesus flamejantes, Mães, de Deus com olhar no céo e dez trinchantes, A traspassar-lhe o peito, um Pio nono a cores. Cordeirinhos pascaes, anjos, araras, flores, Tudo em missanga, e emfim um D. Miguel primeiro A froque, que eu comprava a peso de dinheiro. Do tecto enegrecido em bategas jucundas Pendem bellas maçãs camoesas rubicundas, Cachos d'uvas ainda a rir, peras marmelas, Encaixilhado tudo á volta com morcellas. Em seis bahús de coiro e em arcas de castanho Guarda o cura o bragal precioso, o rico amanho Caseirinho,--lençoes d'uma finura extrema, Ás grozas, rescendendo alecrim e alfazema! E, segundo se diz, tambem deve haver n'essas Arcas monumentaes muita somma de peças. Ao fundo a livraria: uma pequena estante N'uma banca ordinaria e simples de estudante. No centro tem um vão com um Christo inaudito Nas vascas do caruncho agonisando afflicto, Burlesco manipanço alvar de fórmas toscas, Negro--das dejecções sacrilegas das moscas. Soltos na estante em quatro ou cinco pratelleiras Ripanços de orações, de sermões e de asneiras, Que fornecem ha já trinta annos exactos Pão de espirito ao cura e pão do corpo aos ratos. E entre os livros ha tudo. É uma loja de adéllo. Pacotes com rapé, um baralho, um marmelo, Esporas, saquiteis com semente, de ervilha, Garfos, um grande corno, um copo, uma rodilha. Malgas com marmelada e frascos com compotas, E até mesmo um chapeu sebento e um par de botas! Sobre a mesa o tinteiro e o solideo. E aberto Um breviario tal, que cheirado de perto Fulmina, um breviario exotico, onde emfim Ha já muito mais sebo e traça que latim!
E a todo e qualquer canto em rumas assassinas, Marmeleiros, bordões e mócas e clavinas. E pendendo sombria e, tragica d'um muro, Come se fosse a pel' d'um grande monstro escuro, A loba, um balandrau de dobra espectraes, Feito para espantar as almas e os pardaes,
Contigua á salla existe a alcova. É lá que dorme O hipopotamo. Vede: O catre e desconforme; Cabiam n'esse vasto enxergão á vontade A preguiça d'um porco e a luxuria d'um frade, O cura espapaçado, esbandalhado, ronca, Inuda-lhe o suor odioso a testa bronca, O cachaço taurino e as papeiras que vão Desde o queixo ao umbigo em graça ondulação. A bôca comilona, erotica, sensual Traz á lembrança o fauno obsceno e o canibal. E a dentadura podre, esse armazem de guano, É qual desmantelado aqueducto romano. Que sordido animal! que bandulho! que bojo! Tem cerdas na cabeça e nas orelhas tojo! E o nariz? o nariz! que farol! que obelisco! Pantagruel deu-lhe a cor, Gargantua deu-lhe o risco. É o nariz de Falstaff, epico, em grando gala, Purpureado e incendiado a fogos de bengala. De quando em quando a ama, herculea mocetona, --Um peixão!--sempre alegre e sempre brincalhona, Vem ligeiro enxotar com precauções imensas Os insectos sem fè e os moscamos sem crenças, Que ousam depòr, que horror! a tal coisa indecente Nos rubros alcantis d'esse nariz ingente. Eu nunca vi, meu Deus, nariz tão exquisito! Ruge como um trovão, silva com um apito! É talvez o nariz por onde tocará Trombeta o Creador no val' de Josaphat! Dos mais complexos sons percorre a escala... alcoolica: Umas vezes imita uma frauta bucolica E outras um cavernoso orgão de Rilhafolles, Com um grande Titan bebado a dar as folles. As vezes um fragor rouco de temporal Quer bramir atravez do Himalaia nasal Do abade, mas achando os dois toneis do monte Entupido de esterco infecto e de simonte, Retrocede e lá vai por outro sorvedoiro Expluir--com profundo e tremebundo estoiro!... .............................................. Mas que sastifação beatifica se nota Na vasta estupidez d'aquella cara idiota! E sabeis porque dorme olimpico e risonho O abade? É porque teve inda ha pouco esse sonho: Sonhou ver desfilar, oh ventura illusoria! Um prestito pagão, um cortejo de gloria, A acclamal-o. Na frente uma vara sombria De bacoros roncava em côro esta poesia:
Deus fez o porco para o frade. Deus destinou-nos os presuntos Para os seus untos, Senhor abade. Grunhamos, pois, grunhamos todos juntos: Viva o abade! Viva o abade!!
Succediam-se logo em manadas e em bando Perdizes e perus e patos conclamando:
Patos, perus, galinhas e perdizes Somos felizes! Oh, que ventura! Como é doce morrer tendo a certeza De bem assados em manteiga ingleza Ir para a meza Do senhor cura! Oh, que ventura! oh, que ventura!...
N'um carro triumphal trovejava depois Um tonel arrastado a cem juntas de bois:
O sonho, o canto e a dança Vivem na minha pança, Que trilogia! Sonhar, dançar, cantar! A tristeza morreu um bello dia N'um lagar. Vá, Padre-mestre, com bizarria! Cantaro á bôca, toca a virar!
Meu Padre mestre, nunca o teu bico Provou ainda vinho tão rico, Sem confeição! Vinho como este Nunca o bebeste, Não!
Vá Padre-mestre, põe-me um repuxo, Muda-me todo para o seu buxo, Meu tubarão! Depois rolemos, ás gargalhadas, Dando umbigadas, Dando pançadas No chão!...
Um gracioso tropel de donzellas formosas, Frescas e virginaes como botões de rosas, A saia curta, o rir breigeiro, o arzinho honesto, Deixando vêr a perna e fantasiar o resto, Vinha cantando atraz esta canção feliz, Ao som de theorbas d'oiro e avénas pastoris:
Somos tresentas sessenta e seis, Olhos maganos, bocas em flor... Dignas de reis! E vimos todas, senhor Prior, Dar-vos aquillo que vós sabeis... Somos tresentas sessenta e seis! Um calendario d'anno bisexto, Feito d'amor! Livro novinho!... papel e testo!... Abra-lhe as folhas sem medo ao sexto, Abra-lhe as folhas, Padre Prior!
Caminhavam por fim, ronceiros, de vagar, Os grandes carroções da Congrua e Pé de Altar, Puxados a duas mil parelhas de jumentos, Zurrando esta epopeia heroica aos quatro ventos:
Senhor Parocho, toda a freguezia, Uns quatro mil onagros, Muito magros Vem trazer isto a Vossa Senhoria. Desculpe, senhor Parocho, a ousadia... A offerta é bem mesquinha, é desgraçada. Uns oitocentos moios simplesmente De milho, de feijão, trigo e cevada. E nós sabemos que um tão mau presente Para o seu dente Não chega a nada! não chega a nada! Mas é boa a intenção: Nós reservamos para si o grão, E para nós a palha unicamente Dar ao senhor Prior Miseria assim, é vergonhoso até... Mas aceite este mimo sem valor... Senhor Parocho aceite-o, por quem é!... E agora, senhor Parocho, a sua benção, Porque os onagros pensão Que ella salva das chammas infernaes; E em paga de tal dom, de tal carinho Rogaremos ao céo pelo focinho Lhe permitta engordar cada vez mais. Boa pinga e bom porco alentejano, E sempre nedio e alegre e satisfeito!... Senhor Parocho, viva!... até p'ró anno... Até p'ró anno... e muito bom proveito!...
O abade, vendo aquella espandosa ovação, Cresceu como uma torre e inchou como um balão. E ao mirar-se com garbo heroico e triumphal Surprehendeu-se de annel e cruz episcopal! E, impando de vangloria e atonito de espanto, Inchou mais meia legua e cresceu outro tanto! Contemplou-se depois com magestade ufana, E, oh céos! viu-se vestido em porpura romana! Cardeal! cardeal! cardeal! que honra, que posição! E subiu de tal forma ovante na amplidão Que o Himalaia, envolto em suas neves eternas, Disse a um condor:--Vai ver lá cima aquellas pernas;-- --Cardeal! Não será sonho ou magico feitiço?! Eu Cardeal!!...--Apertou entre as mãos o tontiço, E em logar d'um chapeu tingido com zurrapas, Encontrou o diadema olimpico dos papas! Papa!... E de tal maneira ergueu a fronte sua Que com ella partiu os chavelhos da lua! Em torno do nariz e á volta das orelhas Zumbiam-lhe tremendo os astros, como abelhas. Ser papa! ser rei do céo e o rei do mundo! E lá do alto do abysmo esplendido e profundo Lançou o mar e á terra a sua benção sagrada. E o mar mudou-se em vinho e a terra n'uma empada! E o colosso voraz, de vêr coisas tão bellas, Debruçou-se, agachou-se, escancarou as guelhas, E enguliu d'uma vez o assombroso follar, Bebendo-lhe por cima o vinho todo--o mar! Depois empanturrado, inflado, um pouco torto, Atirou-se a dormir mais pesado que um morto, Arrotando trovões.............................. ............................................... E em quanto o abade ronca e grunhe sem cuidados Dobram plangentemente os sinos afinados, Cortam o espaço os ais do estertor derradeiro, E entre as germinações frescas do bom lameiro A ègoa abacial c'oa respectiva cria, (A quem, se fosse d'elle, o abade chamaria Afilhada) lanzuda opipara, pacata, Livre, sem albardão, sem freio e sem arreata. Na monastica paz dos ventres satisfeitos Com luserna viçosa e tenra até os peitos Envolta no esplendor fulvo do sol poente, Mansa, fitando o azul,--rincha orthodoxamente!
O GENESIS
Jehovah, por alcunha antiga--o Padre Eterno Deus muitissimo padre e muito pouco eterno, Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz: Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz, Tirou d'esse nariz o que um nariz encerra, Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra. Em seguida tirou da cabeça o chapeu, Pol-o em cima da terra, e zás, formou o céo. Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente Era um velho penante, um penante indecente, Já muito carcomido e muito esburacado, E eis ahi porque o céo ficou todo estrellado. Depois o Creador (honra lhe seja feita!) Achou a sua obra uma obra imperfeita, Mundo serrafaçal, globo de fancaria, Que nem um aprendiz de Deus assignaria, E furioso escarrou no mundo sublumar, E a saliva ao cahir na terra fez o mar. Depois, para que a Egreja arranjasse entre os povos Com bulas da cruzada alguns cruzados novos, E Tartufo podesse inda d'essa maneira Jejuar, sem comer de carne á sexta feira, Jehovah fez então para a crença devota A enguia, o bacalhau e a pescada marmota. Em seguida metteu a mão pelo sovaco, Mais profundo e maior que a caverna de Caco, E arrancando de lá parasitas extranhos, De toda a qualidade e todos os tamanhos Lançou sobre a terra, e d'este modo insonte Fez elle o megatheiro e fez o mastodonte. Depois, para provar em summa quanto póde Um Creador, tirou dois pellos do bigode, Cortou-os em milhões e milhões de bocados, (Obra em que elle estragou quatrocentos machados) Dispersou-os no globo, e foi d'esta maneira Que nasceu o carvalho o platano e a palmeira. ..................................................
Por fim com barro vil, assombro da olaria! O que é que imaginaes que o Creador faria? Um pote? não; um bicho, um bipede com rabo, A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo O pobre Creador sentindo-se já fraco. (Coitado, tinha feito o universo e um macaco Em seis dias!) pensou:--Deixem-nos de asneiras. Trago já uma dôr horrivel nas cadeiras, Fastio... Isto dá cabo até d'uma pessoa... Nada, toca a dormir uma sonata boa!-- Descalçou-se, tirou os oc'los e chinó, Pitadeou com delicia alguns trovões em pó, Abriu, para cahir n'um somno repentino, O alfarrabio chamado o livro do Destino. E enflanelando bem a carcassa caduca, Com o barrete azul celeste até á nuca, Fez ortodoxamente o seu signal da cruz Como qualquer de nós, tossiu, soprou á luz, E de pança p'ro ar, n'um repoiso bemdicto, Espojou-se, estirou-se ao longe do infinito N'um immenso enxergão de nevoa e luz doirada.
E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.
FANTASMAS
I
O vigario de Deus na terra disse um dia Aos batalhões do clero: Tragam-me o manto d'oiro e seda que cobria As espaduas de Nero.
E trouxeram-lhe o manto, um manto do brocado, Da purpura mais fina, Com escarros de lodo obsceno, inda empastado No sangue de Agripina.
E o papa continuou: «Preciso armar o braço, Para dictar as leis; Fabriquem-me uma espada enorme com o aço Das espadas dos réis.»