Chapter 4
Andando no quintal um certo dia Lendo em voz alta o _Velho Testamento_ Enxergou por acaso (que alegria! Que ditoso momento!) Um ninho com seis melros escondido Entre uma carvalheira.
E ao vel-os exclamou enfurecido:
«A mãe comeu o fructo prohibido; Esse fructo era a minha sementeira: Era o pão, e era o milho; Transmittiu-se o peccado. E, se a mãe não pagou, que pague o filho, É doutrina da Egreja. Estou vingado!»
E engaiolando os pobres passaritos Soltava exclamações: «É uma praga. Maldictos! Dão-me cabo de tudo estes ladrões! Raios os partam! andai lá que emfim...»
E deixando a gaiola pendurada Continuou a ler o seu latim Fungando uma pitada.
* * * * *
Vinha tombando a noite silenciosa; E caia por sobre a naturesa Uma serena paz religiosa, Uma bella tristesa Harmonica, viril, indefinida. A luz crepuscular Infiltra-nos na alma dolorida Um mysticismo heroico e salutar. As arvores, de luz inda doiradas, Sobre os montes longiquos, solitarios, Tinham tomado as fórmas rendilhadas Das plantas dos herbarios. Recolhiam-se a casa os lavradores. Dormiam virginaes as coisas mansas: Os rebanhos e as flores, As aves e as creanças.
Ia subindo a escada o velho abbade; A sua negra, athletica figura Destacava na frouxa claridade, Como uma nodoa escura. E introduzindo a chave no portal Murmurou entre dentes:
«Tal e qual... tal e qual!... Guisados com arroz são excellentes.»
* * * * *
Nasceu a lua. As folhas dos arbustos Tinham o brilho meigo, avelludado Do sorriso dos martyres, dos justos. Um effluvio dormente e perfumado Embebedava as seivas luxuriantes. Todas as forças vivas da materia Murmuravam dialogos gigantes Pela amplidão etherea. São precisos silencios virginaes, Disposições sympathicas, nervosas, Para ouvir estas fallas silenciosas Dos mudos vegetaes. As orvalhadas, frescas espessuras Presentiam-se quasi a germinar. Desmaiavam-se as candidas verduras Nos Magnetismos brancos do luar. ...................................
* * * * *
E n'isto o melro foi direito ao ninho. Para o agasalhar andou buscando Umas pennugens doces como arminho, Um feltrosito assetinado e brando. Chegou lá, e viu tudo. Partiu como uma frecha; e louco e mudo Correu por todo o matagal; em vão! Mas eis que solta de repente um grito Indo encontrar os filhos na prisão.
«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito Todo tremente, murmurou então:
«Foi aquelle homem negro.--Quando veio Chamei, chamei... Andavas tu na horta... Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!... Tive-lhe tanto medo!... Abre esta porta, E esconde-nos debaixo da tua aza! Olha, já vão florindo as assucenas; Vamos a construir a nossa casa N'um bonito logar... Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas Para vôar, vôar!»
E o melro hallucinado Clamou:
«Senhor! Senhor! É por ventura crime ou é peccado Que eu tenha muito amor A estes innocentes?! Ó natureza, ó Deus, como consentes Que me roubem assim os meus filhinhos, Os filhos que eu criei! Quanta dôr, quanto amor, quantos carinhos, Quanta noite perdida Nem eu sei... E tudo, tudo em vão! Filhos da minha vida! Filhos do coração!!... Não bastaria a natureza inteira, Não bastaria o céo para voardes, E prendem-vos assim d'esta maneira!... Covardes! A luz, a luz, o movimento insano Eis o aguilhão, a fé que nos abraza... Encarcerar a aza É encarcerar o pensamento humano. A culpa tive-a eu! quasi á noitinha Parti, deixei-os sós ... A culpa tive-a eu, a culpa é minha, De mais ninguem!... Que atroz! E eu devia sabel-o! Eu tinha obrigação de adivinhar... Remorso eterno! eterno pesadello!... ........................................... Falta-me a luz e o ar!... Oh, quem me dera Ser abutre ou ser féra Para partir o carcere maldicto!... E como a noite é limpida e formosa! Nem um ai, nem um grito... Que noite triste! oh noite silenciosa!...»
* * * * *
E a natureza fresca, omnipotente, Sorria castamente Com o sorriso alegre dos heroes. Nas sebes orvalhadas, Entre folhas luzentes como espadas, Cantavam rouxinoes.
Os vegetaes felizes Mergulhavam as sofregas raizes A procurar na terra as seivas boas, Com a avidez e as raivas tenebrosas Das pequeninas feras vigorosas Sugando á noite os peitos das leoas. A lua triste, a lua merencorea, Desdemona marmorea, Rolava pelo azul da immensidade, Immersa n'uma luz serena e fria, Branca como a harmonia, Pura como a verdade. E entre a luz do luar e os sons e as flores, Na atonia cruel das grandes dores, O melro solitario Jazia inerte, exanime, sereno, Bem como outr'ora a mãe do Nazareno Na noite do calvario!... Segundo o seu costume habitual, Logo de madrugada O padre-cura foi para o quintal, Levando a biblia e sobraçando a enxada. Antes de dizer missa, O velho abade inevitavelmente Tratava da hortaliça E resava a Deus Padre Onipotente Varios trechos latinos, Salvando d'esta forma juntamente As ervilhas, as almas e os pepinos.
E já de longe ia bradando:
--«Olé! Dormiram bem?... Estimo... Eu lhes darei o mimo, Canalha vil, grandissima ralè! Então vocês, seus almas do diabo, Julgavam que isto que era só dar cabo, Da horta e do pomar, E bico alegre e estomago contente, E o camello do cura que se aguente, Que engrolle o seu latim e vá bugiar!... Grandes larapios!... Era o que faltava. Vocês irem ao milho, E a mim mandar-me á fava! Pois muito bem, agora que vos pilho Eu vos ensinarei, meus safardanas! Vocês são mariolões, são ratazanas, Tem bico é certo, mas não tem tonsura... E nas manhas um melro nunca chega Ás manhas naturaes d'um padre-cura. O melhor vinho que encontrar na adega É para hoje, olé!... Que bambochata! Que petisqueira! Melros com chouriço!... E então a Fortunata Que tem um dedo e um geito para isso!... Heide comer-vos todos um a um, Lambendo os beiços, com tal gana enfim Que comendo-vos todos, mesmo assim Eu fico ainda quasi que em jejum! E depois de vos ter dentro da pança, Depois de vos jantar, Vocês verão como o velhote dança, Como elle é melro e sabe assobiar!...»
Mas n'isto o padre cura titubiante, Quasi desfallecendo, Atonito de horror, parou deante D'este drama estupendo:
O melro, ao ver aproximar o abade, Despertou da atonia, Lançando-se furioso contra a grade Do carcere. Torcia, Para os partir os ferros da prisão, Crispando as unhas convulsivamente Com a furia d'um leão, Batalha inutil, desespero ardente! Quebrou as garras, depenou as azas E hallucinado, exangue, Os olhos como brazas, Heroe febril, a gotejar em sangue, Partiu n'um vôo arrebatado e louco. Trazendo dentro em pouco Preso no bico um ramo de veneno, E bello e grande e tragico e sereno Disse: «Meus filhos, a existencia é boa Só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a aza, mas a alma vôa... Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!--»
E mais sublime do que Christo quando Morreu na cruz, maior do que Catão, Matou os quatros filhos, trespassando Quatro vezes o proprio coração! Soltou, fitando o abade, uma pungente Gargalhada de lagrimas, de dôr, E partiu pelo espaço heroicamente, Indo cahir, já morto, de repente N'um carcavão com silveiraes em flôr.
E o velho abade, livido d'espanto, Exclamou afinal:
«Tudo que existe é immaculado e é santo! Ha em toda a miseria o mesmo pranto, E em todo o coração ha um grito igual. Deus semeou d'almas o universo todo. Tudo o que vive ri e canta e chora... Tudo foi feito com o mesmo lodo, Purificado com a mesma aurora. Ó misterio sagrado da existencia, Só hoje te adivinho, Ao vêr que a alma tom a mesma essencia Pela dôr, pelo amor, pela innocencia, Quer guarde um berço, quer proteja um ninho! Só hoje sei que em toda a creatura. Desde a mais bella até á mais impura, Ou n'uma pomba ou n'uma fera brava, Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!... .......................................... .......................................... Ah, Deus é bem maior do que eu julgava!...»
E quedou silencioso. O velho mundo, Das suas crenças antigas, n'um momento, Viu-o sumir exhausto, moribundo Nos abysmos sem fundo Do tenebroso mar do Pensamento. E chorou e chorou... A Egreja, a Crença. Rude montanha pavorosa, escura, Que enchia o globo com a sombra immensa Dos seus setenta seculos d'altura; O Himalaia de dogmas triumphantes, Mais eternos que o bronze e que o granito, Onde aos prophetas Deus falava d'antes Entre raios e nuvens trovejantes Lá dos confins siderios do infinito; Esse colosso enorme, em dois instantes Viu-o tremer, fender-se e desabar N'uma ruina espantosa, Só de tocar-lhe a aza vaporosa D'uma avesinha tremula, a expirar!... ...................................... ...................................... E, arremessando a biblia, o velho abade Murmurou:
«Ha mais fé e ha mais verdade Ha mais Deus com certeza Nos cardos secos d'um rochedo nú Que n'essa biblia antiga... Ó Natureza, A unica biblia verdadeira és tu!...»
Nota
O facto em que se baseia este poemeto, com quanto pouco conhecido, é absolutamente verdadeiro.
Os melros e algumas outras aves, como os pintasilgos e os rouxinoes, quando lhes encarceram os filhos, envenenam-n'os. Muitas vezes, (sarcasmo tragico, crueldade sublime!) deixando-os vivos, arrancam-lhes a lingua!
Ora nem todos os melros, pintasilgos e rouxinoes assassinam os filhos, quando lh'os prendem. Só o fazem os mais extraordinarios, os mais heroicos. O que nos demonstra que a acção é livre e responsavel, e não um simples producto d'uma fatalidade organica.
É pena que Michelet ignorasse este facto. Que paginas divinas que elle não teria escripto! _L'Oiseau_ ficou incompleto.
CIRCULAR
(_Fragmento_)
Deus & Filho. Bazar da fé. Venda forçada. Pela barca de Pedro, a Judas consignada, Chega um rico sortido em modas da estação. Vêr para crêr! Surpreza! Attenção, occasião Unica! aproveitai, comprai! Pechincha certa! Ao bazar do Calvario! Ao Nazareno! Alerta, Christãos! É o desfazer da feira. Ultimo dia! Toda a casta de objecto ou de quinquilharia Que esteja em relação com negocios de egreja. Vellas especiaes para quando troveja, Aplacando de prompto a colera divina. Sem cheiro e sem mistura alguma de stearina. Santa Barbara, a quem a fé christã se roja, Quando atrôa, não gasta as vellas d'outra loja, Nem outras recommenda o concilio de Trento. Em pacotes de seis. Por junto abatimento.
Agua de Lourdes, fresca. Em pipas, ao quartilho E em garrafa. Exigir a marca--Deus & Filho-- Na etiqueta, e na rolha, a fogo--Providencia-- Genuina só a ha á venda n'esta agencia. Dez annos de successo e mil milhões de curas Efficaz contra a caspa e contra as mordeduras De cobra cascavel ou cão damnado ou pulga Ou percevejo. Faz, Tartufo assim o julga, Nascer ao mesmo tempo o apetite e o cabello, Bôa no hemorroidal e util no serampello. Reumatismos, terçãs e outras molestias varias Cura-as n'um prompo. Expulsa as bichas solitarias E expulsa o Demo. Purga: os ventres desentupe-os. Sem colicas, com tres ou quatro semicupios. Em cegos de nascença e tisicos de peito Isso então é instantaneo, é certo o seu effeito. Uma perna amputada unta-se, e em dois instantes Torna a crescer e fica inda maior que d'antes. Em leicenços não falha. Em dôr de dentes, isso É bebel-a e ficar sem dôr. Não ha feitiço Que resista. Uma vez uma morta tomou-a, Espirrou e ficou inteiramente boa! Prevenimos no entanto o publico defuncto Que casos d'estes ha uns trinta e dois por junto Apenas. Endireita a espinhela cahida, Extrae callos, reduz fleimões, prolonga a vida, Marca a roupa, e sem damno algum e sem fedor Tórna o cabello e a barba á primitiva côr.
Reliquias. Sortimento a capricho. Em ossadas Dos apostolos, hoje as mais acreditadas No mercado, chegou variedade infinita, Cabeças de S. João, só vendo se acredita, Onze mil! onze mil, e damol-as sem ganho! Os preços é segundo o feitio e o tamanho. (E convem declarar e advertir desde já Que ossos de imitação não se encontra por cá. Atestados legaes e autenticos o provam.) Ha um monumental e rico S. Christovam, Oito metros de largo e uns oitenta de altura, Que, como não tem tido até hoje procura, Decidimos vender, para liquidação, A retalho. É de graça: o kilo a meio tostão. O publico achará sempre n'este bazar De qualquer santo, ainda o mais particular, Um esqueleto ou dois continuamente á venda. Desejando porção, fazem-se de encommenda. Desconto extraordinario em transações por grosso. Garante-se o fabrico e a solidez do osso Que empregamos. A todo o esqueleto montado N'esta casa vai junto, e em forma, um atestado Escripto sobre a pel' e pela propria mão Do proprio santo, a quem a carcassa em questão Pertencera, e que diz:--Eu juro á fè de Deus Que estes ossos, tal qual estão, eram os meus.-- Aviso: é bom comprar peças sobrecellentes: Pelo menos um sacro, um nariz e alguns dentes. Encontram-se tambem avulso qualquer d'ellas Coccixs, peroneus, omoplatas, costellas. Tibias, tarsos, enfim tudo que uma alma pia Possa achar n'um manual christão de osteologia. Em dedos do Destino ha um soberbo exemplar: É o mesmo que escreveu outr'ora a Balthasar No salão do festim a tragica sentença, Dá-se por dez tostões essa caneta immensa Do Destino ha tambem o olho verdadeiro, Em vidro ou em cristal, por duzia ou por milheiro, Negros, verdes, azues, obra muito barata, Engastado em oiro, em nickel ou em lata. E hoje a grande moda, e são d'um bello effeito Para botões de punho e alfinetes de peito. Ha emfim mais de dez milhões de toneladas, De craneos sem valor, e de antigas ossadas, Que o caruncho roeu e converteu em cisco, Como são vinte mil braços de S. Francisco, Et cet'ra... Esse calcareo, (inutil n'esta casa,) Vende-se para esterco a trez vintens a raza.
Vera-cruz. Qualidade esplendida, extra-fina Authentica; a melhor que vem da Palestina. Em pó, em serradura, em lascas, aos boccados, E posta em obra--desde a cama de casados, Desde o piano d'Erard ou da credencia até Ao baculo do bispo e ao _steeck_ do _crevé_. Trabalhada a primor em mil objectos varios: Em facas de cortar papel ou em rosarios, Em imagens do papa ou em boquilhas, em Cabides, castiçaes, prezepes de Bethlem, Bandejas para chá, agnus-Dei, cruxifixos, Lavatorios, etc. Ao _rabais_. Preços fixos. Nos nossos armazens com serras a vapor Vendemol-a igualmente, a cruz do Redemptor, Em ripas; em pranchões e em traves collossaes Para marcenaria e construcções navaes. ........................................... ...........................................
Como hoje o negocio está muito bicudo, Trespassa-se o armazem do Calvario com tudo Que tem dentro. Escrever para o nosso bazar, Largo dos Intrujões, 5, 1.^o andar.
A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA
A obra está completa. A machina flameja, Desenrolando o fumo em ondas pelo ar. Mas antes de partir mandem chamar a Egreja Que é preciso que um bispo a venha baptizar.
Como ella é com certeza o fructo de Cain, A filha da razão, da independencia humana, Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim, E convertam-n'a á fé Catholica Romana.
Devem n'ella existir diabolicos peccados, Porque é feita de cobre e ferro; e estes metaes Sahem da natureza, impios, escommungados, Como sahimos nós dos ventres maternaes!
Vamos, esconjurai-lhe o demo que ella encerra, Extrahi a heresia ao aço lampejante! Ella acaba de vir das forjas d'Inglaterra, E hade ser com certeza um pouco protestante.
Para que o monstro corra em fervido galope, Como um sonho febril, n'um doido turbilhão, Além do machinista e necessario o hyssope, E muita theologia... além d'algum carvão.
Atirem-lhe uma hostia á bocca famulenta, Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-n'a a resar, E lancem na caldeira um jorro d'agua benta, Que com agua do céo talvez não possa andar.
A HYDRA
(Vendo passar seminaristas)
Olhae, vede-os passar em legiões escuras, Intonsos, apezar de todas as tonsuras, Com um ar imbecil, caliginoso, estranho, Marcados a tesoira assim como um rebanho, E envoltos em crueis balandraus de entremez, --As lobas, sob as quaes ha lobos muita vez!... Ó galuchos da Fé, recrutas do Divino, Que um chocalho de bronze hiperbolico--um sino-- Faz erguer, faz dormir, faz deitar, faz andar, Eu não sinto por vós, _marionetes_ do altar, Nem odio nem rancor. Sois victimas. Loyola Dobra-vos a cerviz com a canga da estola, E jungindo-vos, bois nocturnos, ao arado, Rasga comvosco o negro e funebre vallado Aonde o vosso Deus semeia para a infancia A flôr da estupidez e o trigo da ignorancia. A Egreja, a cortezã sensual de ventre obeso, Hontem mulher de Christo e hoje mulher de Creso, Para a rapina odiosa e vil de que se nutre Mochos, deu-vos a calva ortodoxa do abutre! Matilha de Leão XIII a vossa preza é o mundo, Tartufo, bode obsceno e theologo profundo, Ensina-vos, conforme o ritual mais perfeito, A cruzar, como S. Francisco, as mãos no peito, Sob a sotaina arqueando a gravidez das panças, A impor jejuns, benzer caixões salgar creanças, A grunhir, a ladrar sermões, missas cantadas, E a escripturar o céo por partidas dobradas. Não vos odeio não, palidos salafrarios; Vós sois unicamente os comparsas mortuarios Do papa, esse Barnum que assombra a multidão, Com o Espirito Santo a vir comer-lhe a mão Satanaz a frigir (sarrabulhada tragica!) Heresiarchas de estopa em caldeirão de magica, E Jehovah, um urso estupido e cruel A lamber-lhe a sandalia, a babojar-lhe o anel, E a ameaçar furibundo este mundo precito A rufos de trovões no tambor do infinito. A Egreja é uma serpente escura, bicho immundo, Gigantesco reptil que dá a volta ao mundo, E em cujas espiraes ebrias de raiva insana Um Lacconte immortal--a consciencia humana; Ha seculo se estorce em convulsão atroz. Os ellos d'esse monstro implacavel sois vós, Sacristas. A cabeça é o papa. Ora as serpentes Tem a força na cauda e o veneno nos dentes.
A VALLA COMMUM
I
Valla commum--tasca nojenta, Mesa redonda sepulchral, Aonde a toalha crapulenta É um lençol roto do hospital,
E aonde as larvas proletarias Devoram--lugubres festins!-- Craneos de heroes, ventres de parias, Carcassas podres de arlequins,
Ao contemplar-te, ó libertina, Um nojo immenso me accomette: Tens a avidez de Messalina Na boca negra de Machbet!
Na treva aziaga o crime o os vicios, Para o _menu_ do teu jantar, Dão-te as creanças dos hospicios E as barregãs do lupanar.
Em teu estomago de hyena Vão-se abysmar, monstro cruel, Rios de sangue com gangrena E ondas de lagrima com fel.
Cloaca putrida e funerea, Feira da ladra edionda e vil, És o saguão onde a miseria Despeja á noite o seu barril.
Trituras, lobrega sargeta, Sem que o horror te engasgue e abafe Os seios virgens de Julieta E a pança obscena de Faltstaff.
Cinismo atroz que a alma oprime, Fetida e funebre impudencia! A boca esqualida do crime Posta na boca da innocencia!
O abutre e a pomba, o cardo e a anemona Na mesma leiva apodrecida: Tropman chegando-se a Desdemona, E Papavoine a Margarida!
Virtude, amor, crime, deboche Promiscuamente a fermentar! Mimi Pinson e Rigolboche! Cain e Abel! estrume e luar!
Oh, _bulimia_ tenebrosa! Monstruosidade apocalyptica Tudo te serve: ou cancro ou rosa, Ou flôr doirada ou flôr syphlitica.
Anjos que vem do paraiso, Candura etherea e perfumada, Feitos d'um beijo e d'um sorriso, N'algum jardim, de madrugada.
Vão confundir-se n'essa guella, N'essa pestifera anarchia Com quantas lepras uma viella Possa escarrar n'uma enxovia!
As guilhotinas homicidas Pelo carrasco, o fiel criado, Mandam-te o _lunch_ ás escondidas No seu _panier_ ensanguentado,
E o cadafalso, um salteador, Na noite livida estrangula Feras, que arroja no estertor Aos antros podres da tua gulla.
Nada que te encha ou te sufoque. Monstro, absorver é o teu destino. Depois da ceia de Moloch, Ruges co'a fome de Hugolino
Sempre a comer, monstro insensato, E a boca sempre escancarada! O esquife, harpia, eis o teu prato! E o teu talher--a pá e a enxada!
Valla commum, despenhadeiro De lirios brancos e de sapos, Furna onde o Nada, esse trapeiro, Faz o armazem dos seus farrapos.
Quantos heroes--oh raiva, oh odio! Teu lobo amargo apodreceu Desde Aristogiton e Harmodio Até Camões e Galileu!
Deus que te fez sempre esfaimada, Deu-te tambem, pança gigante, Por cosinheiro Torquemada, E Bonaparte por marchante.
Atila e Nero--o tigre e o lobo, Noventa e tres, Saint Barthelemy, Eis hecatombes para o globo Que são banquetes para ti.
Quando famelica te nutres D'um Warterloo, grandiosa prosa, Sustentas todos os abutres Só co'as migalhas da tua mesa!
Para o teu ultimo festim, Gargantua sordido e voraz, Foi aos açougues de Berlim A Morte a encher o seu cabaz.
Es magro e funebre molosso Ha milhões d'annos sempre a uivar: Ó Guerra, traz-me o meu almoço! Ó Peste, traz-me o meu jantar!
Servo, Fellah, Moujik, Escravo, Plebe sem pão, mendigos nús, Bocas que tem ainda o travo Do fel da esponja de Jesus;
Martyres, victimas, proscriptos, Legião de heroes resplandecente, Que ensanguentados e maldictos Revoluteiam febrilmente,
Raios no olhar, grilhões nos pulsos, Ao céo em brasa a fronte erguida, Nos sete circulos convulsos, Do inferno tragico da Vida;
Todo esse exercito ululante Quo em rouco e pavido tropel Vem pela historia humana adiante, Desde Cain até Rossel;
Tudo que estoira de miseria, Tudo o que ruge na oppressão, Desde o grilheta da Siberia Até ao paria do Indostão;
Todo esse barbaro massacre, Da guerra, enorme Leviatan, Zama, Farsalia, S. João d'Acre, Jena, Austerlitz, Sedan;
Todo esse vomito de horrores E do catastrophes sombrias, Profundo atlantico de dores, Negro Himalaia de agonias,
Todo esse lodo Deus impelle-o Ao teu estomago sem dó: És a barriga de Vitellio, Cheia das pustulas de Job!...
II
E entre esse tabidos fermentos, Entre esses horror de coisa más, Fóssa á procura de alimentos, Um porco immundo--Satanaz.
Essa latrina de Pandora, Pensando bem, é a final A escarradeira onde expectora Jehovah a bilis immortal.
Como elle é velho, com o frio Tósse; o Prudhome diz-lhe então: --Deus, aqui tens este bacio... Não vás cuspir no meu salão.
E ás vezes do alto do infinito, Talvez depois d'um mau jantar, O Padre Eterno faz cabrito E enche o bacio a transbordar.
E o pote enorme onde cuspinha O truculento Manitu, Sem ninguem vêr, logo á noitinha Vai despejal-o Belzebut.
Vai despejal-o, ó crueldade! Lá nessas torridas galés, Onde Deus assa a humanidade No fogo--a que elle aquece os pés!
Porque, ó eternos desherdados Da raça impura de Cain, Morrendo sois encaixotados Sem agua benta e sem latim.
Se algum vos dão é já com ranço, É já latim para hospitaes, Feito com cisco de ripanso E as varreduras dos missaes.
A egreja dá, barata feira! Ao vosso ultimo estertor Oleos de azeite de purgueira E ostias de trapos com bolor.
Por isso a valla é um alçapão De d'onde rue a todo instante Um tremedal de podridão N'um mar de enxofre flammejante.
Castigo barbaro e nefando! Em monstruozos caldeirões Ondas de pez tonitruando, Roucos, uivando, aos borbotões,
E dentro vós, pobres captivos, Em sangue, em chagas, todos nus, A morrer sempre e sempre vivos, Sempre a coser e sempre crus!
Em lagos rutilos de estanho, Bramindo pragas em latim, Milhões de herejes tomam banho... Olhae que espiga um banho assim!...
Estes frigidos em certans, Dentro do azeite que extravasa. Outros perneando, como rans, Na empalação d'um raio em brasa!
Uns são torrados sobre grelhas. E os diabos vem continuamente N'aquellas nadegas vermelhas Cravar com furia o seu tridente!
Muitos estoira-lhes a pança Entre os colericos anneis De vinte cilhas, que lembrança! Feitas de cobras cascaveis!