A Velhice do Padre Eterno

Chapter 3

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Viu-se na tela um Christo em furia, um visionario, Truculento, febril, colerico, incendiario, Como que um salteador fugido das galés, Na bôca uma blasfemia e no olhar um archote, Expulsando da egreja os christãos a chicote E expulsando do altar o papa a pontapés!

A BARCA DE S. PEDRO

Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro, São tantos os caixões com bulas da cruzada, E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro, O navio é tão velho e a carga é tão pesada;

Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas, As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens, As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas, Os meninos do côro, os famulos, os pagens;

O macisso tropel de conegos vermelhos, De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios, E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos, o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;

As pipas e os toneis com aguas milagrosas, Que ainda causam hoje o mais profundo assombro; Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas, E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;

Esta orgia pagã, esta riqueza immensa Atulham de tal forma a barca ultramontana, É tão desenfreado o vento da descrença, E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;

Que a barca do senhor, outr'ora dirigida Por doze galileus descalços, quasi nus, Ella que atravessava o grande mar da vida Tendo só por farol os olhos de Jesus;

A barca que atravez do horror da tempestade, Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança, Levava os corações de toda a cristandade Ao grande porto ideal da Bemaventurança;

Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo Essa barca da Egreja, esse colosso antigo Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo, Indo dormir ao pé dos _galeões de Vigo_.

LADAINHA

S. Ignacio

Bemdicto quem nos dá o pão de cada dia.

Coro de Santos

Bemdicta a Estupidez, bemdicta a Hipocrisia.

S. Ignacio

Bemdicta seja a forca erguida sobre o mundo.

Coro de Santos

Bemdicto Carlos sete e D. Miguel segundo.

S. Ignacio

Bemdicto seja o tigre e o lobo carniceiro.

Coro de Santos

Bemdicto seja el-rei D. João terceiro.

S. Ignacio

Bemdictas sejaes vós, ovelhas de Maria.

Coro de Santos

E mais a vossa lã, e mais quem n'a tosquia.

S. Ignacio

Bemdictos os chacaes, bemdictas as toupeiras.

Coro de Santos

E a lingua da verdade e as linguas das fogueiras.

S. Ignacio

Bemdictos os febris venenos orientaes.

Coro de Santos

E o Santo padre Borgia e muitos Santos mais...

S. Ignacio

Bemdicta a nossa Fé, bemdicta a nossa Egreja.

Coro de Santos

Bemdicto o nosso ventre! Amen. Bemdicto seja!

COMO SE FAZ UM MONSTRO

I

Elle era n'esse tempo uma creança loira Vivendo na abundancia agreste da lavoira, Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados, Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados, Atravessando á noite os solitarios montes, Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes, Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos, No rijo e negro pão cravando os dentes brancos, Radioso como a aurora e bom como a alegria. Quando no azul do céo cantava a cotovia, Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada Transportava ao casebre o leite da manada, Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos, Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos. E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens, Na fantasmagoria esplendida das nuvens, Colorista febril, lança, desfaz, derrama O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama, Elle ia então sosinho, alegre intemerato, Conduzindo a beber ao tremulo regato, A golpes de verdasca e gritos estridentes, N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes. O seu olhar azul de limpidez virtuosa, Onde brilhava a audacia heroica e valorosa A candura infantil e a intelligencia rara, O timbre da sua voz imperiosa e clara, A linha do seu corpo altivamente recta, Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta Em miniatura.

II

Um dia o pae, um bravo aldeão, Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:

«João:

Á força de trabalho e a força de canceiras A moirejar no monte e a levar gado ás feiras, Consegui ajuntar ao canto do bahù Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu, Além de ser mais novo, és mais intelligente. Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente. Hasde-me dar ainda um grande prégador. Hoje padre é melhor talvez que ser doutor. Aquillo è grande vida; é vida regalada. Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada. Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço! Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço, Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas, Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,

E a missa seis vintens e doze os baptisados. Depois independente e sem nenhuns cuidados! Olha, João, vê tu o nosso padre cura: É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura. Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos; Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos. Isto é desenganar; padres sabem-na toda... É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda, É pinga da melhor, é tudo quando ha! Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá. Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição. Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira! É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»

III

N'uma tarde d'outomno a somnolente trote Um macho conduzia em cima do albardão, Já columna da egreja, o novo sacerdote, O muitissimo illustre e digno padre João. Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes, Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito Um velho recebeu nos braços paternaes, Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito Que acabava de vir das jaulas clericaes. Que transfigurão! que radical mudança! Em logar da innocente, angelica creança, Voltava um chimpanzé estupido e bisonho. Com o ar de quem anda hallucinadamente Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho. Seu corpo juvenil, robusto e florescente Vergava para o chão exhausto de cansaço: Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina Já vai pesando mais que as armaduras d'aço. A ignorancia profunda, a estupidez suina A luxuria d'egreja, ardente, clandestina, O remorso, o terror, o fanatismo inquieto, Tudo isto perpassava em turbilhão confuso Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto, Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso. Metida nas prisões escuras de Loyola A sua alma infantil, não tendo luz nem ar. Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.

IV

Como ninguem ignora, os sordidos palhaços Compram, roubam às mães as loiras creancinhas, Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços, Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas, E exhibem-nas depois nos palcos das barracas Dando saltos mortaes e devorando facas Ante o espanto imbecil da ingenua multidão; E para lhes cobrir a lividez plangente Costumam-lhes pintar carnavalescamente Na face de alvaiade um rir de vermelhão. Tambem o jesuitismo hipocrita-romano, Palhaço clerical, anda pelos caminhos A comprar, a furtar, assim como um cigano, As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos. Vão leval-as depois ao negro seminario, Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro, E escondem-nas da luz, assim como o usurario Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro. Dentro da estupidez e da superstição, Casamata da fé, guardam-lhes a razão, A analize, esse forte e venenoso fluido, Que, andando em liberdade, ao minimo descuido Poderia estoirar com tragica explosão. O que o palhaço faz ao corpo da creança Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim, Em logar do histrião que nas barracas dança, O pobre missionario, o inutil manequim, O histrião que nos prega a bemaventurança A murros do missal e a roncos de latim. As almas infantis são brandas como a neve, São perolas de leite em urnas virginaes. Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve Cristalisa em seguida e não se apaga mais. D'esta forma consegue o astucioso clero Transformar de repente uma creança loira N'um passaro nocturno estupido e sincero. É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira A marca industrial do fabricante--um zero!

CALEMBOUR

Ó Jesuitas, vois sois dum faro tão astuto, Tendes tal corrupção e tal velhacaria, Que é incrivel até que o filho de Maria Não seja inda velhaco e não seja corrupto, Andando ha tanto tempo em tão má _companhia_.

A AGUA DE LOURDES

Se ergueis uma capella á agua milagrosa, Esse elixir divino, Então erguei tambem um templo á caparosa E outro templo ao quinino.

Se a agua faz milagre, o que eu vos não discuto, E por isso a adorais, Ajoelhemos então em face do bismuto E d'outras drogas mais.

Façamos da magnesia e cloroformio e arnica As hostias do sacrario; Transformemos o templo emfim n'uma botica E Deus n'um boticario.

Que a vossa agua opere immensas maravilhas Eu não duvido nada: É o Espirito Santo engarrafado em bilhas, É o milagre á canada.

Desde que se espalhou pelo universo o echo Do milagre feliz, Tartufo nunca mais encheu o seu caneco Em outro chafariz!

ANTONELLI

Uma loba emprenhou um dia de Tartufo, E Antonelli nasceu d'este consorcio bufo.

O seu labio despresa; o seu olhar dardeja. Cassagnac de Deus, guarda-costas da Egreja,

Redige as pastoraes brutaes de que se nutre Co'um tinteiro de treva e uma penna de abutre.

Bossuet-Ferrabraz e Falstaf-Isaias. Bebe petroleo negro e gim nas sacristias.

Não ha pomba mais tigre ou Santo mais demonio: Fera,--como Caim! rato,--como Polonio!

N'aquelle olhar nocturno, inquizidor, que assusta, Ha Nero a murmurar nas sombras com Locusta.

O cabeção que traz na batina de lilla Erriçam-no punhaes: era d'um cão de fila.

O tigre deu-lhe o amor e o bode a castidade, Para um dia expulsar do mundo a Liberdade

Fez um latego atroz, que corta e que esfarrapa, Atando uma serpente ao baculo de um papa.

Quando observo esse monstro, essa alimária brava, Hercules que talhou d'um hyssope uma clava,

Ao vêr-lhe os rins de bronze, e ao vêr-lhe a erecta fronte, Creio estar contemplando ao longe, no horisonte,

Entre o rubro esplendor d'uma manhã sonora, Um bufalo de treva ás cornadas na aurora!

O DINHEIRO DE S. PEDRO

De tal modo imitou o papa a singileza Do martyr do Calvario, Que á força de gastar os bens com a pobreza Tornou-se milionario.

Tu hoje pódes vêr, ó filho de Maria, O teu vigario humilde Conversando na bolsa em fundos da Turquia Com o Barão Rotschild.

A cruz da redempção, que deu ao mundo a vida Por te aver dado a morte. Tem-a no seu _bureau_ o padre santo erguida Sobre uma caixa forte.

E toda essa riqueza immensa, acumulada Por tantos financeiros, O que é a economia, oh Deus! foi começada Só com trinta dinheiros!

AO NUNCIO MASELLA

O Padre Eterno está coberto do masellas, E tu, (teu nome o atesta, ó bonzo,) és uma d'ellas. Masella, escuta:

Deus, o Deus em que acredito, Essa luz que allumina essa noite--o infinito, Esse efluvio d'amor que em tudo anda disperso, Espirito que, enchendo o abismo do universo. Cabe com todo o seu vastissimo esplendor N'um olhar de creança ou n'um calix de flor, Esse Deus immortal, unico, bom, clemente, O Deus de quem tu es o hereje e eu sou o crente, Esse Deus ó Masella, é um Deus plebeu e humilde, Cuja firma não dá nos banqueiros Rotschild Credito algum, um Deus descalço e proletario. Que em vez de libras guarda em seu profundo erario Montões d'astros, um Deus do tal maneira vil, Que não tem cortezãos, não tem lista civil, Nem bispos, nem cardiaes, nem sacristães, nem tropa, Nem nuncios para dar pelas côrtes da Europa Em doirados salões e esplendidas estufas Festins onde se serve o Evangelho com trufas, A Biblia com champagne, e a alma de Jesus, Bem picada, recheiando os faisões e os perus!

Embaixador de quem? de Christo? não; do papa. Quem é o papa?

Um Deus inventado á sucapa, Um Deus para fazer o qual bastam apenas Quatro coisas:--cardeaes, papel, tinteiro e pennas. Deita-se n'uma saca uma lista qualquer. Qualquer nome--Gregorio, ou Borgia, ou Lacenaire, Ou Papavoine--e prompto! em dois minutos fica Manipulado um Deus authentico, obra rica, Tonsurado, sagrado, infalivel, divino... Quer dizer, sahiu Deus d'uma bolsa do quino! É um Deus por concurso, um Deus feitos por tretas, E em cuja divindade ideal ha favas pretas! Apezar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio O Espirito Santo, esse pombo correio Da Providencia. É elle o redemptor e o oraculo. A humnidade vai adiante do seu baculo, Soluçando, ululando, exhausta, ensanguentada Pavoroso tropel de sombras pela estrada Do destino fatal. O pensamento humano É simplesmente um cão sabujo e ultramontano, Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro, Que o papa recolheu de noite n'um monturo, E a quem ás vezes dá com parcimonia biblica, A pitança d'um Breve e o osso d'uma Enciclica. Um papa é isto:--um juiz sem lei; omnipotente. Czar das consciencias. Póde irremessivelmente Chamuscal-as em fogo, ou torral-as em brazas, Ou fazer-lhes nascer das costas um par d'azas. O globo é para elle a bôla d'um bilhar. Domina os reis. O Throno é o lacaio do Altar. Seus templos são prisões e seus dogmas algemas. Cingem-lhe a fronte augusta e nobre os tres diademas, E na potente mão, invencivel harpeu, Tem as chaves do inferno... e a gazua do céu.

Masella, o theatro é velho, a receita é pequena, E ha mil annos que está a mesma farça em scena. Abaixo a farça! Abaixo o pardieiro divino, O céo, que já não tem nem sombras de inquilino. Serafins, cherubins, anjos, legião eterna Dos eleitos, tudo isso andou, poz-se na perna, Deixando lá ficar, ó cafila d'ingratos! O cadaver d'um Deus roido pelos ratos. Abaixo o inferno, aonde os démos, meus Irmãos, Não têm fogo se quer para aquecer as mãos; Porquê lá onde a curia os rebeldes despenha Ha sobra do infieis, mas ha falta de lenha. Já nem é forno; aquillo é adega sombria, Onde o defluxo faz a côrte á pneumonia, E onde não ha nariz precito que ande enxuto. Cada heresiarca suja um lenço por minuto, De modo que hoje o inferno (oxalá que m'o evites, Masella!) é de temer por causa das bronchites. Abaixo o purgatorio! Entre chamma ex-faminta, Que reclama com ancia algumas mãos de tinta, Gelam reprobos nus, reprobos em pelote, Que precisam d'um fogo, ó céos, ou d'um capote! Abaixo a farça! abaixo o entremez da paixão, Porque o Christo é de gesso e a cruz de papelão. Abaixo essa parodia infame em que agonisa N'um Golgota de lona um clown sem camisa Que, depois d'expirar convulso, de repente Salta abaixo da cruz funambulescamente, E arranca às multidões assombradas e mudas A esportula--que cai no saquitel do Judas.

Não! o martyr que fez com o seu olhar sublime O luar do Perdão para a noite do Crime, E que abriu com a luz da bemaventurança N'este carcere--a vida, esta janella--a Esp'rança, O semi-deus que està, com um farol de gloria No topo da montanha escalvada da historia Contemplando o infinito e illuminando a terra, Essa alma que a flôr da alma humana encerra, Não é vossa, não é de qualquer confraria Que dispõe d'uma adega escura, d'uma pia E d'um padre, não tem o domicilio em Roma, Não é vinho nem pão que se beba ou se coma, Merendando, em familia. Ess'alma Universal, Essa concentração divina do Ideal É de quem soffre, é de quem geme, é de quem chora, É de todos que vão pela existencia fóra Tristes--santo, ou heròe, ou escravo, ou proscripto, Calcando o lodo e olhando os astros no Infinito. Quando Christo inclinou, morrendo, a fronte calma, Foi a Egreja buscar-lhe o corpo e o mundo a alma. A Egreja recolheu a cinza e nós a luz. E, louca! julgou ser a esposa de Jesus, Porque estreitava ao peito um cadaver gelado! Dez seculos durou na treva esse noivado. Dez seculos passou a funebre bacante N'um sepulchro a oscular as gangrenas do amante, Unido a cada chaga immunda um beijo em flôr, Tentando reviver ao furioso calor D'esses beijos um corpo inanimado e frio. Que tragedia dantesca esse himeneu sombrio! Pobre Heloisa da morte, o teu casto Abeillard Nem para ti abriu o azul do seu olhar, Nem murmurou baixinho uma palavra só! E o Deus tornou-se em lodo abjecto e o lodo em pó! E na campa nupcial, no talamo--sentina, Da carcassa d'um Deus funebre Messalina, Putrefacta expiraste ao pé da podridão. É que um cadaver, seja ou d'um Christo ou d'um cão. Materia morta, exhala a mesma pestilencia. Só a alma é immortal; só essa pura essencia, Jámais se decompõe ou jàmais se aniquila. O corpo é simplesmente a alampada de argila; A alma, eis o clarão. Por isso o Nazareno Pertence ao mundo. Tu escolheste o veneno, O cadaver, e nós o Espirito, a alvorada. E foi com essa hostia esplendida e sagrada, Com a alma de luz do Filho e Maria Que o mundo celebrou a grande eucharistia, Egreja!... O coração da victima innocente Comungamol-o nós: diluiu-se ethereamente, Cheio de paz e amor, no coração humano. Foi um sol que expirou. Onde tombou? No oceano.

Mas como, p'ra poder explorar sem canceira Com o inferno--essa mina, a terra--essa melgueira, O velho Padre-Santo, o Redemptor-Tichborue, Precisa d'um Jesus sangrento que lhe adorne O altar, e aos pés do altar necessita que esteja Toda banhada em pranto a noiva eterna, a Egreja, E como o noivo e a noiva ambos tinham morrido, O Padre Santo, que é um padre divertido, Mandou escripturar então por um cornaca Uma Egreja a um bordel e um Christo a uma barraca.

Fóra esse Deus! Abaixo esse Deus salafrario, Deus com ramo de loiro á porta do Calvario, Deus que marcha ao suplicio, á epopeia da Dôr Com Cyreneu na frente a rufar n'um tambor, Deus de quem Harpagão é caixeiro e Tartufo Guarda livros, um Deus palhaço, um Christo bufo, Um martyr de aluguel, ebrio, que se apregoa Com guisos atinir nos espinhos da c'roa, Um Deus a quem Mandrin passou folha corrida, Um Deus que fez da morte o seu modo de vida, Um Deus que representa a farça da Paixão Pintado, ensanguentado a vinho e a vermelhão, Um Deus que sobe ao céo, acrobata farnesio, Em aerostato, a vai no banho d'um trapesio A fazer o signal da cruz e a prancha com limpeza Identica, arrojando á multidão surpreza Bençãos anjelicaes variadas e embrulhadas Em prospectos, e emfim descendo ás gargalhadas, Para ir repartir em qualquer sacristia Os lucros da função por toda a companhia!

Que regabofe! O Christo, um magro actor de fama, Estropeado galan senil depois do drama, Lava o gesso e o zarcão da tromoia sangrenta Com a esponja do fel na pia da agua benta. A Magdalena, vesga e sordida rameira, Guarba os seios de estopa, o prato, a cabelleira, Limpa a maceração do olhar, que causa asco, Feita a rolha queimada e inutil d'algum frasco De mercurio ou de absinto, e, como uma alcateia, Atira-se esfaimada ao bacalhau da ceia. O bom do Cyrineu, a transpirar, pragueja; Manda aos quintos a cruz e manda ao diabo a egreja; Despe a farpela, e bebe a rir alegremente, D'um trago só, canada e meia de aguardente. Pilatos o pançudo e calvo safardana Ronca, dormindo. A vil soldadesca romana Tira as barbas, e põe muitissimo pacata N'um bahu--os morriões e espadagões de lata. O bom e o máo ladrão jogam a bisca. O anjo Que partira o sepulchro, um robusto marmanjo, Desaparafusando as azas d'oiro e o nimbo, Pede ao velho Caiphaz lume para o cachimbo E grave e silencioso, a um canto o thesoureiro --Judas--reparte, empilha em montes o dinheiro Da recita, tirando o quinhão do empresario --O Papa--a quem pertence o Theatro do Calvario. E dividida a prosa e ruminada a orgia, Ao sagrado e doirado alvorescer do dia, Lá vai esse roldão de sevandijas podres, Cambaleante tropel de ventres feitos odres. Indo dormir talvez, oh pandega, oh delicia! Jesus co'a Magdalena--á esquadra de policia.

Vamos! basta de farça, e basta de farçantes! Mil bombas a vapor jorrem desinfectantes N'esse velho bordel da Egreja--o vaticano, Colera! faz-te mar, Justiça! faz-te oceano, E inundae, submergi o Versalhes maldito De Jehovah--Rei-sol macrobio do infinito. Vamos, fogo ao covil! E emquanto os salteadores, Nuncios, bispos, cardeaes, conegos, monsenhores, --Truculenta manada obesa de hipopotamos-- Virgem-mãe dos heróes, ó Liberdade! enxotam'os, E faze-m'os transpor, a grunhir, sem demoras As fronteiras do globo em vinte e quatro horas!

LADAINHA MODERNA

S. Leão 13--dai-nos bons bispados, S. Leão 13--que nos possam dar S. Leão 13--vinte mil crusados. S. Leão 13--fòra o pé d'altar.

Santo Antonelli--dai-nos confessadas Santo Antonelli--novas, já se vê; Santo Antonelli--é melhor casadas, Santo Antonelli--bem sabeis porque...

Ó Santo Borgia--ha tanta gente avara!... Ó Santo Borgia--ha tantos imbecis!... Ó Santo Borgia--como se prepara, Ó Santo Borgia--o tal xarope... diz!...

Santa de Lourdes--sois incomparavel! Santa de Lourdes--muita agua deita Santa de Lourdes--vossa inexgotavel Santa de Lourdes--fonte... de receita!

Ó Santa madre--miseros, mesquinhos, Ó Santa madre--vemo-nos atonitos, Ó Santa madre--p'ra educar sobrinhos Ó Santa madre que tem paes incognitos.

Ó Santa egreja mete-nos, no buxo Ó Santa egreja--p'ra dár tom á fibra, Ó Santa egreja--alguns te-deuns de luxo Ó Santa egreja--e muita missa a libra

Santo Cinismo--chapa-nos nas faces Santo Cinismo--um tal estanho emfim, Santo Cinismo--que tu mesmo embaces Santo Cinismo--ao vêr cinismo assim.

Santa Intrugice--entrega as almas toscas Santa Intrugice--ás nossas artimanhas... Santa Intrugice--Deus destina as moscas Santa Intrugice--ao papo das aranhas.

S. Regabofe--dai-nos bambochatas S. Regabofe--até rollar não chão... S. Regabofe--pipa e sermonatas! S. Regabofe--porco e cantochão!

Santa Barriga--unica santa nossa, Santa Barriga--grande santa és! Santa Barriga--alarga, estende, engrossa Santa Barriga--e vai da boca aos pés

Santa Preguiça--Santa que consolas, Santa Preguiça--não ha nada igual Santa Preguiça--a um bom colchão de molas Santa Preguiça--e mais etcet'ra e tal!...

S. Venha-a-nós--realisa este desejo, S. Venha-a-nós--ingenuo e timorato: S. Venha-a-nós--faz do universo um queijo S. Venha-a-nós--e faz de nós um rato!

O MELRO

O melro, eu conheci-o: Era negro, vibrante, luzidio, Madrugador, jovial; Logo de manhã cedo Começava a soltar d'entre o arvoredo Verdadeiras risadas de cristal. E assim que o padre cura abria a porta Que dá para o passal, Repicando umas finas ironias, O melro d'entre a horta Dizia-lhe: «Bons dias!» E o velho padre cura Não gostava d'aquellas cortezias.

O cura era um velhote conservado, Malicioso, alegre, prasenteiro; Não tinha pombas brancas no telhado, Nem rosas no canteiro; Andava ás lebres pelo monte, a pé, Livre de rheumatismos, Graças a Deus, e graças a Noé. O melro despresava os exorcismos Que o padre lhe dizia: Cantava, assobiava alegremente, Até que ultimamente O velho disse um dia:

«Nada, já não tem geito! este ladrão Dá cabo dos trigaes! Qual seria a rasão Porque Deus fez os melros e os pardaes?!»

E o melro no entretanto, Honesto como um santo, Mal vinha no oriente A madrugada clara Já elle andava jovial, inquieto, Comendo alegremente, honradamente, Todos os parasitas da seara Desde a formiga ao mais pequeno insecto. E apezar d'isto o rude proletario, O bom trabalhador, Nunca exigiu augmento de salario.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo; E armando uns espantalhos Disse o abbade comsigo: «Acabaram-se as penas e os trabalhos.» Mas logo do manhã, maldito espanto! O abbade, inda na cama, Ouviu do melro o costumado canto, Ficou ardendo em chamma; Pega na caçadeira, Levanta-se d'um salto, E vê o melro a assobiar na eira Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo Que o bom do padre cura andava enfermo, Não fallava nem ria, Minado por tão intimo desgosto; E o vermelho oleoso do seu rosto Tornava-se amarello dia a dia. E foi tal a paixão, a desventura, (Muito embora o leitor não me acredite) Que o bom do padre cura Perdera... o appetite!

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