A Velhice do Padre Eterno

Chapter 2

Chapter 23,812 wordsPublic domain

Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo A consciencia não póde estar paralisada, Como n'um velho catre uma velha entrevada. Tudo se modifica e tudo se renova: Da escura podridão nojenta de uma cova Sae uma flôr vermelha a rir alegremente. A ideia tambem muda a pel' como a serpente. O que era hontem grão é hoje a seara immensa. A Verdade sahiu d'esse casulo--a Crença, Assim como sahiu do velho o mundo novo. Recolher outra vez a aguia no seu ovo É impossivel; quebrou o involucro ao nascer. Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender, Cerrando na tua mão um box enorme--o inferno, Levar aos encontrões o espirito moderno, Leval-o para traz, para o passado escuro, Como um bandido leva um homem contra um muro?! A trajectoria immensa e fulva da verdade Não se póde suster com a facilidade Com que Jusué susteve o sol no firmamento. Atirar a justiça, a ideia, o pensamento Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel: Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel! Loucos! ide dizer ao velho Torquemada Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada! .................................... Sacristas, Ajuntae, reuni os balandraus papistas, As fardas sepulcraes do exercito da fé, A capa de Tartufo, a loba de Claret, A cogula do monge, enfim, tudo que seja Côr da nolte; arrancae o velho crepe á egreja, Dos caixões descosei os panos funerarios, Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios, E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos, Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos, Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa, E tapando com ella o sol da nossa crença, Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora! A consciencia não é a besta d'uma nora. Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão, E que apagar em nós o facho da razão É o mesmo que apagar o sol quando flameja Com um apagador de lata d'uma egreja.

Bonzos, podeis dizer á humanidade--Pára!-- Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara Da heresia; podeis, segundo as ordenanças, Metter pedras de sal na boca das creanças, Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade, Chamar á estupidez irmã da caridade E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete; Vós podeis discutir junto da campa o frete, Recoveiros de Deus, o frete que é preciso Para irdes levar lá cima ao paraiso A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis Ir pedir emprestado um exercito aos reis E defender com elle o papa, o vaticano, Do cerco que lhe faz o pensamento humano, Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão; Podeis encarcerar dentro da inquisição Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes, Que não conseguireis que a Liberdade vista A batina pingada e rota d'um sacrista, Que o direito se ordene, e que a Justiça queira Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira!

O BAPTISMO

Exeat de vobis spiritus malignas. RITUAL.

Baptisaes: arrancaes d'um anjo um satanaz. Desinfectaes Ariel banhando-o em aguarraz De egreja e no latim que um malandro expectora, Dizeis á noite:--limpa a tunica da aurora, E ao rouxinol dizeis:--pede a benção da c'ruja. Daes os lirios em flôr ao rol da roupa suja, Representaes a farça estupida e sombria D'um conego a lavar um astro n'uma pia, Finalmente extrahis da innocencia o pecado, Que é o mesmo que extrahir d'uma rosa um cevado, E tudo isto porque? Porque na biblia um mono Devora uma maçã sem licença do dono!

EURICO

Cod. civil art. 1057 e 4031

Eurico, Eurico, ó pallida figura, Lastimoso, romantico levita, Que nos serros do Calpe em noite escura Ergues as mãos á abobada infinita;

Rasga a pagina santa da Escriptura; O espirito de luz que em nós habita Já não consente essa ideal loucura Que faz do amor uma paixão maldita.

Deixa a soidão dos montes escalvados; Não soltes mais os threnos inflamados, Nem tenhas medo ás garras do demonio.

Beija a Hermengarda, a timida donzella. E vai de braço dado tu e ella Contrahir civilmente o matrimonio.

A ARVORE DO MAL

Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia Dos mirtos, dos rosaes, Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia Nossos primeiros paes.

Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua, Mais puros que os diamantes, Conservavam ainda a virgindade nua Das coisas ignorantes.

Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta Ao lado da innocencia A Arvore do Mal que produzia a fructa Venenosa da sciencia.

E, apezar de conter venenos homicidas E o germen do pecado, Era Deus quem comia á noite, ás escondidas, Esse fructo vedado.

Por isso Jehovah tinha sciencia infinda, Tinha um poder secreto, E Adão que não provara os fructos era ainda Um anjo analfabeto.

Eva colheu um dia o bello fructo impuro, O fructo da Rasão. N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro Na palma da sua mão!

O homem, abandonado a submissão covarde, Viu o fructo e comeu. Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde Roubará Prometheu.

E ao vêr igual a si a estatua que creara, O homem reprobo e nu, Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara cuja semente és tu!»

Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes De toda a humanidade: «Maldito seja sempre o que enterrar os dentes Nos fructos da Verdade!»

A Egreja permittia esse vedado pomo Sòmente aos sacerdotes. Da arvore do mal fugia o mundo, como Os lobos dos archotes.

Se o sabio que buscava o oiro nas retortas Ia como um ladrão Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas Algum fructo do chão,

Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho D'uma maneira suave: Atando-lhe á garganta uma corda de linho Suspensa d'uma trave.

Um dia um visionario, alma vertiginosa, Espirito immortal, Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa Da Arvore do Mal.

A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia Lança-lhe excomunhões; Tomba por terra um fructo... e Newton descobria A lei das atracções!

Sacudi, sacudi, a arvore maldita, Que os astros tombarão, Como se sacudisse a abobada infinita Deus com a propria mão!

E quando o mundo inteiro emfim houver comido Até á saciedade O fructo que lhe estava ha tanto prohibido, O fructo da Verdade,

Homens, dizei então a Jehovah:--«Tirano, Vai-te embora d'aqui! Construimos de novo o paraiso humano; Fizemol-o sem ti.

«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora, Ó despota feroz; Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora Expulsamos-te nós!

A SEMANA SANTA.

I

Não podendo dormir no horror da sepultura, Na podridão escura Da terra immunda e fria, Voltaire despedaçando o feretro chumbado, E cingindo o lençol ao corpo esverdeado Resuscitou um dia.

Pairava-lhe no labio o riso fulminante Com que outr'ora gravou nas crenças virginaes, Como n'um rico espelho a aresta d'um diamante, Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutaes. Mas era ao mesmo tempo o riso heroico e bom Que os tiranos prostrava em misero desmaio, Riso a que succedeu o verbo de Danton, Como a um trovão succede o lampejar d'um raio. Dormira febrilmente um longo somno inquieto Em quanto andava o mundo a executar-lhe os planos, E vinha ver emfim, diabolico architeto, O estado da sua obra ao cabo de cem annos, Ó satiro divino, ò monstro da ironia, Genio que Deus conduz e Satanaz impelle, Que esmagas hoje o _infame_, e escreves no outro dia Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle; Tu és feito de luz e feito de baixesas, Feito de heroicidade e de protervias más; Corromperam-te a alma os braços das duquezas E encarguilhou-te a face o rir de Satanaz. Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro Cantando ao mesmo tempo o sordido deboche: És como um Juvenal dentro d'um Epicuro, Ó arlequim-titan, ó semi-deus-gavroche. N'esse labio mordente esso sorriso eterno Faz frio como a ponta aguda d'uma espada; O teu genio, Voltaire, é como o sol do inverno, Dá muitissima luz, mas não aquece nada. Em vão por sobre a paz dos campos desolados Elle entorna do azul seus vivos esplendores; Não cantam rouxinoes nas sebes dos vallados, Não faz nascer o trigo e germinar as flores. É que nunca soubeste o que é a dôr profunda Que estalla fibra a fibra os grandes corações; É que nunca choraste, ó Prometheu corcunda, Como Dante chorou, como chorou Camões Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos, Aos golpes de teu riso, a golpes de machado Cairam sobre a terra athleticos, desfeitos Na floresta da noite os cedros do passado.

Mataste a tradição, o dogma, o privilegio, Assobiaste a rir a fé de nossos paes, E andaste pelo azul, hediondo sacrilegio! A correr á pedrada os deuses immortaes. Empunhando o alvião terrivel da verdade Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente O alicerce de bronze à velha sociedade. Do teu riso cruel a onda dissolvente Foi como os vagalhões, arietes do mar, Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo Que a rocha fica quasi assente sobre o ar. Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo. E depois de ter feito a excavação noturna, Como fazem no monte as feras sanguinarias, Encheste até á bocca essa medonha furna Com barris de petroleo e bombas incendiarias E em quanto o niveo pé soberbo de Antonieta Da França estrangulava a suplicante voz, Tu lançavas de longe a tragica luneta, Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz. Até que um dia emfim exausto de cansaço, Sentindo jà sem força as garras de condor, Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço, Ao rastilho da mina o fogo abrasador. Cobriu-se então o azul d'uma tormenta escura, Echoou lugubremente o estrondo de trovão, Viste arder o rastilho até uma certa altura, E foste-te esconder, a rir, na sepultura Mal se ia aproximando a hora da explosão.

Quando resuscitou Voltaire ficou atonito Vendo os nossos chapeus e as nossas calças pretas, Mas como desejava andar no mundo incognito, E não lêr o seu nome impresso nas gazetas, Oh, a necessidade a quanto nos obriga! Voltaire o diplomata, o cortezão taful Largou a juba d'oiro, a cabelleira antiga E foi vestir-se á moda aos armasens do Pool. Na sexta feira santa os templos percorria Voltaire para observar os crentes verdadeiros No dia da paixão, no luctuoso dia Em que se faz de Christo o deus dos confeiteiros. Arouet, ao vêr aquella estupida farçada, Foi acordar Jesus na sua campa ignorada E disse-lhe:

II

--«Anda vêr ó Christo estes bandidos. Que rostos tão floridos, Que bellas digestões! Ó pallido Jesus, ò scismador antigo, Levanta-te da campa e vem d'ahi commigo A vêr estes ladrões.

Nós vamos passeiar juntos, de braço dado, Mas vestirás primeiro um frak bem talhado De fino pano inglez, E hasde pôr na cabeça este chapeu redondo, Para ficar gentil, para ficar hediondo Como qualquer burguez.

Tu odeias de certo estas casacas pretas, Mas não quero, Jesus, que tu me compromettas Com esse balandrau muitissimo ratão. Se eu fosse ao boulevard comtigo e alguem me visse, Ninguem oh, flôr do tom! ninguem, oh canalhice! Me apertaria a mão.

O talhe d'um colete e os pontos d'uma luva, A menor frioleira, um simples guarda chuva, Substituiram hoje as regras de Lavater: Passando eu por accaso enodoado e roto, Diriam: «Que chapeu! que pulha! que maroto! Aquelle homem não tem nem sombras de caracter!»

Anda, veste a farpella. Agora, sim senhor! Muito grotesco és, meu pobre Redemptor! Vais a comprometter-me, ó alma do Diabo! Que figura infeliz, inteiramente chata!... Pelo menos corrige o laço da gravata E põe na _boutoniere_ este jasmim do Cabo.

Necessitas de ter maneiras delicadas E a arte de dizer uns pequeninos nadas Com chic e distincção. Ser Deus é muito bom; Mas é preciso ser um deus da fina roda, Um deus do nosso tempo, um deus da ultima moda, Um deus _petit-crevé_, um deus á _Benoiton_.

Se amanhã por acaso alguem, medita n'isto, Te fosse apresentar--Sua Ex. o Christo-- Nos devotos salões do bairro São-Germano, Oh escandalo! oh farça! oh padre omnipotente! As duquezas, sorrindo aristocratamente, Achavam-te decerto um Deus provinciano.

Saiamos para a rua. A gente anda de lucto, Porque consta que outr'ora un visionario, un bruto, Se deixara morrer pregado n'um madeiro. E hoje em memoria d'isto os paes compram ás filhas, Tres caixas de pastilhas Na loja d'um doceiro.

Quanta mulher formosa ahi nesses balcões! Que lindas tentações, Meu palido judeu! Deixa por um instante as regiões serenas; Namora estas pequenas, Que ellas hão de gostar do teu perfil hebreu.

Arranja um casamento e aprende a ter juizo. A noiva pouco importa; o dote é que preciso Discutil-o. Olha lá, os paes que sejam velhos!... Que vá para o diabo o reino da Utupia! E hãode-te nomear socio da academia E, quem sabe! talvez barão dos Evangelhos.

Penetremos na egreja a vêr esta farçada. Uns entram para vêr a casa illuminada, Os dandys é por _chic_, os velhos por _decôro_; Estes é para ouvir tocar umas quadrilhas, E os outros, que sei eu!... para vender as filhas, Para matar o tempo ou arranjar namoro.

Lá vai o pregador dizer a seremonata Tussiu cuspiu, sorriu, bebeu a sua orchata E começa a fallar. Tem uns bonitos dentes. E com gesto facundo e voz amaneirada Receita una enfiada De tropos excellentes.

Acabou se. O auditorio Gostou do farelorio Como gostámos nós. Soltam-se exclamações por entre algum rumor: --_Muito bem! muito bem!_--_É um grande pregador!_-- --_Foi um rico sermão!_--_E que bonita voz!_

E é esta a tua casa, ó meu pobre Jesus! Não te bastou a cruz; Era preciso o altar, Que destino cruel, que tragica ironia! Nasces na estrebaria, Vives no lupanar!

Desfila pela rua immensa multidão. Saiu a procissão; Paremos um instante. É curioso isto. Que farças imbecis, que velhas pompas mudas! Lá vae pegando ao palio o teu amigo Judas, Que está, como tu vês, commendador de Christo!

Os anjos theatraes caminham lentamente Com azas de galão feitas expressamente Nas lojas de Pariz. Pobres anjos do céo! querem martirisal-os: Vão cheios de suor e apertam-lhe os calos As botas de verniz.

Agora passas tu n'um palanquim bordado. Coidado! Muito trabalho tem quem faz religiões! Repara como vais, olha que bella tunica: É pavorosa, é unica! Off'receu-t'a um burguez n'um dia de eleições.

E atraz do velho andor e atraz das velhas opas Vão desfilando agora os esquadrões das tropas Com gesto marcial. Tu que amavas os bons, os simples e as creanças, Seguido como os reis d'um matagal de lanças, Meu pobre general!

Terminou a funcção. É negro o firmamento. Ai que aborrecimento! Ó meu Jesus, que tedio! Para poder dormir, para poder ceiar, Que hade a gente fazer? vamos ao lupanar, Não ha outro remedio.

Alli tens, meu amigo, os conegos vermelhos: Que rostos joviaes, brunidos como espelhos, Que riso debochado e gesto vinolento! E á noite, a esta hora, uns padres sem batinas Do certo não virão pregar ás concubinas O 6.^o mandamento!

Os teus guardas fieis depois da procissão, Já roucos de cantar um velho cantochão, Deixaram-te no templo abandonado e só. Uns vieram beijar as carnes prostituídas, E os outros foram lêr no quarto, ás escondidas, Romances de Bollot.

E como a noite é linda! a branca lua passa, Ostentando na fronte a pallidez devassa D'uma infeliz mulher. Quando tudo fermenta e tudo anda de rastros Já não deve admirar que a siphilis chegue aos astros E precisem tambem xarope de Gibert!

Meu Pae, vamos ceiar. É quasi madrugada; É a hora do tom, a hora consagrada Para os ricos festins á viva luz do gaz. É a hora da morte, a hora do atahude, E a mesma em que repoisa a candida virtude Nos braços de Faublas.

Anda não tenhas medo, entra no restaurante. A sala está repleta. A purpura brilhante Dos desejos inflama os sonhos tentadores. O champanhe sacode os craneos embriagados, E os crimes sensuaes e os vicios delicados Rompem n'um turbilhão de venenosas flôres.

O punch, illuminando as faces cadavericas, Faz-nos imaginar as saturnaes chimericas Que á noite deve haver na _morgue_ de Paris, Aonde as cortezãs, mais roxas que as violetas, Ao luar cantarão as verdes cançonetas Das podridões gentis.

Volteiam pelo ar os ditos picarescos, Elasticos, febris, doidos, funambulescos, Como gnomos de luz vestidos de histriões, Dançando, tilintando os guisos argentinos, Fazendo á luz do gaz tregeitos libertinos Com o riso cruel das hallucinações.

Ceiemos. Manda vir as coisas que preferes; E que nos vão buscar duas ou tres mulheres, Que as ha perto d'aqui; O mais, pede por boca, o meu divino mestre; Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre, Porque já se não usa e riem se de ti.

E agora é destampar a rubra fantasia! Bebe, pragueja, ri, inventa, calumnia, Anda! mostra que tens espirito, ladrão! Não quero vêr chorar os olhos teus contrictos; Sê canalha com graça, infame com bons ditos, Vamos, semsaborão!

Conta-nos em voz alta historias bem galantes, Segredos irritantes, Vergonhas sensuaes, Adulterios da moda, escandalos, miserias, Tudo isto, já se vê, com optimas pilherias, Bastante originaes.

Tu precisas perder esse teu ar de adventicio E um certo horror ao vicio, D'um pedantismo ignaro; Formosura sem vicio é coisa que não tenta; O vicio, meu amigo, é bom como a pimenta, E o defeito que tem é ser um pouco caro.

Conversemos, alegra a tua fronte augusta. Sê espirituoso, inventa, o que te custa! Uma infamia qualquer muitissimo engenhosa... Tens um amigo? bem, vamos calumnial-o; Tens amantes? melhor, eu dou-te o meu cavallo E dás-me a mais formosa.

Parece que o rubor te vai subindo ás faces... Ó Filho, não me masses! Ó Filho, tem piedade! Deixa-te de sermões; no fim de contas eu Sou muito bom christão... um poucochinho atheu, Como um christão qualquer da fina sociedade.

Saiamos; rompe a aurora. A burguezia dorme, Como a giboia enorme Que resona, depois de devorar um toiro; Ó giboia feliz, ó burguezia, ò pança, Dorme com segurança Que a forca está de guarda aos teus bezerros d'oiro.

E chama-se Progresso, ó Deus, esta farçada! Isto é o cinismo alvar e em pêllo, à desfilada, É a prostituição ignobil da mulher, São desejos brutaes, é carne em plena orgia, Emfim a saturnal da podre burguezia, Que resa como o papa e ri como Voltaire.

Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano, Este mundo burguez, catholico-romano Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral; A justiça era elle o Padre-omnipotente; Esse Padre morreu; ficou nos simplesmente Um unico evangelho--o codigo penal.

A consciencia humana é um monte de destroços. Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos, Tombou a fé, tombou o céo, tombou o altar; E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio É simplesmente um freio Para conter a raiva á besta popular.

A crassa burguezia, essa recua fradesca, Opipara, animal, silenica, grotesca, Namora a Deuza-carne e adora o Deus-milhão; E as almas, fermentando assim n'esta impureza, Resvalam sensuaes do leito para a meza. Da meza para o chão.

Vendem-se a peso d'oiro as languidas donzellas, Mais torpes que as cadellas, Que ao menos dão de graça o libertino amor, E o Dever, a Saude, o Justo, o Verdadeiro, Esses ricos metaes fundem-se no brazeiro D'um sensualismo espresso, atroz, devorador.

A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos, É o principio rei dominador dos mundos, É um sangue vital, forte como o cognac. Engordae, engordae ó bravos _homens serios_, Que servis para dar esterco aos cemiterios E musica a Offenbak.

A vergonha morreu, a dignidade foi-se. _O mundo official_ è um vergonhoso alcoice, E a plebe tripudiando em horridas orgias Lança sobre o Direito um pustulento escarro, E acende, cambaleando, a ponta do cigarro Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.

A familha é um bordel. Os leitos sensuaes São verdadeiramente esgotos seminaes, Eroticas latrinas, Onde entre o tumultuar d'um debochado goso Se fabrica de noite o sangue escrofuloso Das raças libertinas.

Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus. É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos, Vêm n'esta direcção, esconde-te, Jesus! Metamo-nos aqui n'um beco, anda ligeiro! Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro, Mandam-te pendurar segunda vez na cruz.

E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco, E tu, meu pobre louco, Descança inda que seja um breve quarto d'hora; Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente, É hoje a Alleluia, e necessariamente Tens de resuscitar logo ao romper d'aurora.

Eu mais feliz que tu, simples mortal que sou, Eu, meu amigo, vou Dormir até que chegue a hora do jantar. Adeus, e resuscita apenas surja o dia; Se queres vem dormir á minha hospedaria, Que eu mando-te acordar.»

E Arouet partiu, soltando uma cruel risada E Jesus ficou só na noite desolada, N'aquella colossal Babilonia impudente, Entre quatro milhões do almas--quatro milhões De tigres, do reptis, de abutres e de leões Agachados na sombra ameaçadoramente!...

Quem a visse do alto essa Londres deserta Com a fosforencia esmorecida, incerta Da luz do gaz a arder sob um cèo tumular, Julgaria estar vendo um grande monstro escuro, Como que um Leviatham putrido n'um monturo Immenso a fermentar.

A noite era sinistra. Os ventos a galope Resfolegavam como as forjas d'um ciclope Com uivos de alienado e rugidos de feras. E o mar bramia ao longe athletico, espumante Qual marmita profunda a ferver trovejante Sobre cem mil crateras.

E Christo foi andando errante, vagabundo Atravez dessa vasta imperatriz do mundo, Opulenta Gomorra hidropica do vicio, Que Deus não enxofrou talvez, como costuma, Porque além de estar caro o enxofre, Deus em suma Já não pode arruinar-se em fogos de artificio.

E elle ia vendo os mil palacios portentosos Onde a besta feliz dormia, ebria de gosos, Um inefavel somno. Em quanto que a miseria anonima, esfaimada Ás tres da madrugada Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono.

As altas cathedraes, aonde a borguezia Vai arrotar um pouco á missa do meio dia; Tinham como que o ar d'um theatro fechado O aspecto mercantil d'um armazem colosso, Em que Deus ao balcão vende os dogmas por grosso E o céo por atacado.

Os bancos, Pantagrueis do milhão, monumentos De marmore e granito e bronze, somnolentos Molochs, cuja pança obesa é um matadouro, Na virtuosa paz de monstros em descanço Digeriam de manso Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro.

Nos mundos hospitaes, onde emfim a desgraça Tem a consolação do agonisar de graça, Santos, monstros, heroes,--Tropmans, Valgeans, Phrinés-- Anciavam no estertôr do tranze derradeiro, --Lixo que um bonzo vae entregar a um coveiro Para o calcar aos pés.

E era aquella immundicie humana a humanidade! Tinha valido bem a pena na verdade Pregado n'uma cruz morrer como um ladrão, Para ao cabo de dois mil annos vir achar Pilatos sob o throno e Caifaz sobre o altar De diadema na fronte e baculo na mão!

Arrazou-se de pranto o olhar do Nazareno, Aquelle olhar profundo, aquelle olhar sereno Que outr'ora deu alivio a tantos corações, E a linha virginal de seu perfil suave Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave Daz nobres afflições.

E marmoreo, espectral, com a fronte sombria Banhada no suor sangrento da agonia Foi deitar-se outra vez na leiva tumular, Athleta que expirou tranzido de mil dôres E quer dormir, dormir entre as hervas e as flores Onde escorre piedosa a branca luz do luar.

E quando a christandade á volta do meio dia Correu ao templo a ver o entremez da Alleluia, Em logar d'um Jesus banal de ciclorama Subindo ao firmamento, D'olhos azues n'um céu d'anil, tunica ao vento, Sobre nuvens de gloria, de algodão em rama,