A ultima ceia do Doutor Fausto
Part 4
--Ha de lembrar-se, dr., de que extranhou, ao entrar, a minha commoção. «Choro esta pobre mulher, que ninguem mais chora» respondi eu. «Porque ella ninguem choraria tambem» replicou o dr. «Como?» «Porque ella, caminhando de festa em festa, de prazer em prazer, não teria tempo de fazer reparo nos que cahiam deante de si. E tamanha era a embriaguez deliciosa da sua vida, que a levou a apressar a morte, a escaldar o sangue que lhe refervia no coração em turbilhões aneurysmaticos. Ninguem a matou; suicidou-se ella. Era preciso, porém, transigir com o mundo: requeri autopsia.» «Cale-se, dr., por Deus lhe peço!» respondi eu. E não pude continuar... Entravam os magistrados que tinham de ser presentes. O dr. offereceu-me o escalpello; eu dei o primeiro golpe. Nunca senti a mão tão leve como n'esse dia. Dir-se-ia que eu não queria magoal-a... O ultimo brinde, amigos, o ultimo brinde! Pelo amor! pela esperança! pela felicidade! É dia; vem rompendo a manhã. Abramos as janellas. Deixemos brilhar o ultimo raio de sol sobre a minha ultima ceia.
Meia hora depois, dizia-se n'um grupo de homens notaveis, que esperavam nas salas baixas os seus trens:
--Foi a ultima ceia do dr... Fausto!