A ultima ceia do Doutor Fausto
Part 3
--A esse tempo, como ia dizendo, começava a entrar commigo o tedio da gloria. Eu principiava a sentir que viver era mais alguma cousa que triumphar. Faltava-me, meus amigos, o soffrer. Ah! faltava-me o soffrer, essa incomparavel doçura do veneno! Solidificavam finalmente na friura da pedra as prismaticas stalactites da minha gruta remançosa. E começava a rir dos que comprehendiam a vida sem a necessidade de soffrer. Ora o barão e o visconde, disputando-se um dote monstruoso, denunciavam tacitamente a sua repugnancia pela necessidade de soffrer. Eu fazia d'ambos elles um conceito insignificante. Lembro-me perfeitamente de que uma noite se conversava ácerca d'esse famoso casamento. Discutia-se sobre a preferencia de noivo. Foi pedida a minha opinião. Esquivei-me. Insistiram. Respondi que triumpharia o visconde. «Porque, dr.?» perguntaram. «Por ser visconde» respondi. «Ora! Isso não é rasão!» replicaram. «Peço perdão, redargui, os viscondes teem geralmente mais razão que os barões.» Começava a aborrecer-me tanto como a gloria a já longa questão do grande casamento. O que eu desejava era que elle se effeituasse d'um modo ou d'outro para que me deixasse em paz. Mas... uma noite, uma noite, estava eu em S. Carlos, e vejo entrar na platea, visivelmente perturbado, o visconde. Phantasiei de repente uma scena de pugilato como barão. Olhei, a procural-o. O visconde, porém, aproxima-se de mim, e pede-me com precipitação que o acompanhe a vêr um doente. Saimos ambos. No corredor, o visconde passa o braço direito pelo meu dorso, encosta-me ao seu peito, de tal modo que eu sentia bater vertiginosamente o seu coração, e diz-me com dolorida vivacidade: «Doutor, um grande favor: salve a minha noiva.» «A sua noiva!» repeti admirado, enfiando a sobre-casaca. «A minha noiva» respondeu elle, e accrescentou o nome. Era ella. E, já no trem, emquanto o visconde mascava avidamente o charuto e olhava através do vidro enevoado do vapor da noite, ia eu dizendo commigo mesmo: «Afinal de contas, os viscondes teem geralmente mais razão que os barões.» Chegamos. Os criados andavam azafamados pelos corredores. Sentia-se no ar aquelle sinistro alvoroço que acompanha as grandes enfermidades e succede ao passamento de uma pessoa da familia. O visconde ia adeante de mim, rapida mas cautelosamente. A meio de uma das salas saiu-nos ao encontro a attribulada mãe d'essa gentil menina. O pae passeava á porta do quarto da filha representando a força, como se fizesse sentinella para obstar a que entrasse a morte. Quando me viu, abriu para mim os braços: temia-se da morte, e esperava que eu fosse a saude, a vida. Aos lados do leito velavam, nos vãos do pudico cortinado, trez meninas parentas da casa. A doente, justamente no momento em que eu entrei, recostava-se impacientemente nas almofadas, tinha as faces rubras do carmim da febre, sobretudo na preeminencia dos mallares. Era extrema a sua agitação proveniente da pontada sobre o lado esquerdo, das nauseas, dos calafrios, da tosse, da tosse que era violentissima, e que fôra n'ella, estando á mesa, a subita manifestação da molestia. Estava perfeitamente diagnosticada á primeira vista a pneumonia aguda complicada de pleuresia. A auscultação não deixou duvidas. O visconde, ao pé de mim, allumiava com uma pequena palmatoria de prata. O pae e a mãe estavam meio escondidos por detraz do cortinado, mirando-me com olhares dolorosamente interrogadores. As trez meninas haviam sahido do quarto. Sahi para receitar. O visconde e o pae da doente prenderam-me cada um por seu braço e interrogaram-me com um gesto. Respondi a verdade,--que estava gravemente doente, mas que eu não desesperava de salval-a. O pae voltou-me as costas aturdido d'aquellas verdadeiras e lentas dores que os paes costumam soffrer pelos filhos; o visconde poisou o castiçal e com ambas as mãos apertou a minha. «Doutor, tornou a dizer-me, salve-m'a, salve-m'a!» Havia effusão no que dizia. Eu, n'aquelle momento, esqueci-me de que aquella mulher era rica, e o visconde seu noivo. Queria salval-a á custa de sacrificios e de esforços. Voltou o pae á sala, bateu-me no hombro e disse: «Doutor, não nos fuja, não nos desampare. Eu vou mandar-lhe preparar um quarto.» E, sem esperar a minha resposta, sahiu rapidamente. A minha resposta, a ter tido tempo para responder, era a annuencia. Não se é medico para outra coisa. O logar do medico é ao pé do doente; eu estava no meu logar. Essa noite foi terrivel de anciedade para todos. Eu sentei-me á cabeceira do leito, preparando e ministrando por propria mão os remedios. A insomnia prolongou-se pela noite dentro, e, não obstante a rapidez das applicações, sobreveio de madrugada o delirio. Muitas vezes, emquanto o delirio durou, ouvi á doente o meu nome. «Doutor! doutor!» Invocava o meu auxilio e a minha amizade, mas não atinava com o mais que desejava dizer. O nome do visconde nunca o pronunciou. Do outro lado do leito a mãe, sempre que a ouvia pronunciar o meu nome, punha as mãos sobre as quaes lhe caiam as lagrimas, voltada para mim, como o faria deante de um altar, n'uma supplica silenciosa. Já era manhã quando a doente, apoz alguns momentos de grande agitação, teve que obedecer á acção dos medicamentos, e descaiu sobre o meu braço no momento em que a amparava. Dormitou, poisada a cabeça sobre o meu braço, alguns momentos. Quizeram substituir o meu braço pelas almofadas. Não consenti. Então, de repente, comecei a entrar n'um estado excepcional, em que me parecia que não estava ali como medico, conservando todavia a consciencia de o ser. Não sei, devo dizer-vol-o, que pura e respeitosa voluptuosidade me dava o corpo gentil d'aquella mulher poisado sobre o meu braço! Se estivessemos sós, havel-a-ia beijado nas tranças; mas, se ella não estivera doente, quizera retirar o meu braço! Extranhas loucuras! Extranhos pensamentos que nunca eu tivera! E, ao mesmo tempo, não sei que mysteriosa attracção para aquelle leito, para aquella doente, para tudo o que nos cercava ali! Eu começava a achar em mim mesmo profundezas desconhecidas. O visconde entrava de vez em quando na camara e todavia eu não odiava o visconde! A pobre mãe, com os olhos docemente postos na filha, começava a inspirar-me um profundo sentimento de sympathia. «Que é isto?» perguntava eu a mim mesmo. «Que estou sentindo eu, que enlouqueci de repente?» E não sei que doce oppressão soffria o meu braço n'esses breves momentos,--tão breves foram!--que ella dormiu. Eu estava bem! tão bem, sem saber por que, n'aquella incommoda posição, sem todavia pensar uma vez siquer que o visconde desejaria estar como eu! Não reputava aquillo felicidade. Mas estava bem! tão bem! Durante esse tempo, que teve para mim a duração d'um momento, eu era um novo homem que despertava em mim, mas como que aturdido d'um sonho. Não sei bem explicar o meu estado. Depois, ella teve um frouxo de tosse, e abriu os olhos. Abriu os olhos, e olhou para mim. Não sei se me viu. Sei que eu achei no seu desluzido e meigo olhar uma doçura inexcedivel. «Ah! heide salvar-te!» disse de mim para commigo, cheio de confiança e enthusiasmo, reptando-me a mim proprio. «Muito bem! continuei eu monologando, acceito a luva. Aqui está esta vida preciosa, que eu principio, não sei porque, a estremecer. D'acolá, d'aquelle lado, está a doença, talvez a morte, o anniquilamento de tudo isto tão delicado e gracioso. Não avançarás, morte, não espalharás sobre estas faces o teu punhado de pó. Para traz, miseravel, que vens atacar uma mulher que nem siquer pensava em ti!» Recolhi-me por algumas horas ao meu quarto por haverem instado commigo, não que eu quizesse ir, porque já me custava desamparar aquelle leito cujo alvo cortinado fechava para mim um paraiso. Não me pude deitar; não poderia adormecer. Comecei a passear e a fumar. De repente faço reparo nos quadros que pendiam das paredes: o retrato d'ella! Surpreza providencial! O retrato d'ella! Comecei a sentir-me menos impaciente desde esse precioso achado. Arrastei a cadeira para defronte do retrato. Sentei-me, fumava, pensava... Que pensava eu? Não sei. De meia em meia hora ia ver a doente, e voltava a sentar-me defronte do retrato. Demorava-me pouco ao pé do leito; tinha receio de que notassem em mim excesso de zelo medico. Espantosa cobardia a minha! Estava mais tempo em frente do retrato do que ao pé do leito. Quando chamaram para o almoço, fui ver a doente e, extraordinaria incongruencia! eu, que principiava a ter receio de estar ali, ao pé d'ella, senti-me vagamente triste por ter que sahir para ir ver outros doentes. Não me dispensaram de jantar. Oh! com que intimo prazer não acceitei eu, apezar de apparente reluctancia, esse convite que para mim seria de uma impertinencia atroz feito n'esse mesmo dia por outras pessoas. Dentro do meu trem, fumando continuamente, fumando sempre, achei-me só, triste, inquieto. Descobri n'esse dia um dos multiplos segredos da vida, para descerrar os quaes ha sempre uma chave na mão das circumstancias extraordinarias. O segredo que eu descobri, meus amigos, essa terrivel surpreza que me assaltou n'esse para mim notabilissimo periodo da minha existencia, foi a _solidão do trem_. Acreditem, é uma subtil observação psycologica, que passa despercebida quando se é feliz. Oh! mas quando se soffre, e se vê e ouve atravez dos _stores_ d'uma carruagem o mundo, o rumor, o bulicio, a vida, e nós vamos sosinhos, ali dentro, como quem passa para o cemiterio, então, meus amigos, a _solidão do trem_ é horrivel, medonha, pavorosa. Vi os meus doentes preoccupadamente. Com extraordinaria impaciencia esperei a hora do jantar, a _hora da familia_, como eu ia dizendo commigo, eu, que nunca tive familia, e que portanto nunca soube o que era jantar. Recolhi meia hora antes do que devia, para gastal-a ao pé da minha doente. O seu estado, sem ameaçar perigo imminente, continuava a ser grave. Mas a esperança de a salvar, direi mesmo a certeza, cada vez profundava mais no meu coração. A doente por duas ou trez vezes me relanceou o seu olhar mavioso. Oh! que paraizo aquelle, o dos seus olhos! Que preciosa recompensa aquella para as preoccupações d'um medico! Dir-vos-hei, amigos, sinceramente, lealmente, se aquella mulher houvesse succumbido á molestia, eu haver-me-hia suicidado para extinguir em mim uma sciencia que desde esse momento reputaria inteiramente falsa e inutil. Foi ainda de graves cuidados essa noite, que eu desvelei quasi toda sentado á cabeceira do seu leito. Depois da meia noite, a doente conseguiu dormir somnos curtos mas tranquillos. A sua pobre mãe, extenuada pela fadiga physica e moral, dormitava alguns momentos; na saleta, o visconde, que nas ultimas vinte e quatro horas havia alterado o seu horario aristocratico, cerrava por vezes os olhos, e cabeceava. O dono da casa estava descançando para revezar a esposa no espinhoso cargo de enfermeiro. Só eu velava ali, eu só, com os meus extraordinarios pensamentos, amando, posso e devo dizel-o, amando em silencio, pela primeira vez na minha vida, aquella mulher, cujas fórmas a pallida luz da lamparina e a alva roupa do leito tornavam vaporosas, e que eu amava desinteressadamente, puramente, como se ella não fosse rica, como se não fosse formosa e gentil. Ah! que era de certo essa a primeira vez que ella era assim amada no mundo! que foi essa de certo a ultima vez que ella foi assim amada!... Sou quasi chegado, meus amigos, ao para mim mais pungente lance d'esta narrativa. Não terei forças para historial-o com o vagar que requeria...
E o dr. Filippe Sullivan, cerrando os olhos por alguns momentos, em meio de geral e profundissimo silencio, concluiu rapidamente:
--Pois bem. Abreviemos. Á medida que a doença cedia, recrescia o meu amor. Chegou finalmente a hora que eu desejaria retardar indifinidamente, mas que a minha consciencia de medico me obrigava a determinar: a hora de a entregar formosa e salva aos braços de seu marido. Ah! que é terrivel! _Aos braços de seu marido!_ O que se passou em mim, o que eu soffri, nem o sei, nem vol-o posso dizer... Marcou-se dia para o casamento. Ella veio pessoalmente a minha casa, com a mãe e com o noivo, convidar-me com invencivel insistencia. Oh! e foi ella mesma que me impoz esse enorme sacrificio! Prometti ir. Fui. Falleceram-me forças para entrar á capella. Fiquei ao limiar. Ella, quando entrava pelo braço do pae, teve para mim um sorriso de gratidão, e disse: «Devo-lhe a vida, doutor.» Amigos, lancemos uma onda de champagne sobre esta primeira pagina do meu breve romance. Pelo amor, amigos, pelo amor! Hoje, a noiva de ha vinte annos é uma virtuosa senhora que, se me avista na rua, diz ainda ao marido ou aos filhos: «O doutor! é o doutor!» Entre a viscondessa de hoje e o seu medico de ha vinte annos, ergue-te tu, ó generosa mocidade, coroada de rosas e de loiros, que me ouviste, que me comprehendeste, que me perdoaste decerto!
--Pelo dr. Sullivan, a mocidade eterna! pronunciou tremula de commoção uma voz.
--Pelo dr. Sullivan!--repetiu rumorosamente, de pé, copos erguidos, a sabia assembléa.
Houve então um intervallo de extraordinaria animação e vivacidade, de commoção profunda. Um romance de amores, de maguas intimas e grandes, vinha completar a biographia d'aquelle homem notavel. Elle pertencia já a muitas das galerias em que a posteridade costuma admirar o passado: á medicina, á politica, á historia e á sciencia; desde essa noite, elle pertencia tambem ao romance, a mais agradavel de todas as apotheoses. Exclamações, dialogos, abraços, brindes, tudo isso succedeu como n'um conto phantastico a essa extranha revelação do dr. Filippe Sullivan. E á surpreza do que se ouvira, misturava-se já a impaciencia pelo mais que elle promettera contar. Como se todos os convivas obedecessem ao mesmo impulso, a pouco e pouco retomaram os seus logares na mesa da ceia, de modo que a figura do dr. Sullivan de novo se destacou, naturalmente, na primitiva attitude, coroada dos reverberos phosphorecentes dos candelabros.
Elle recomeçou, accendendo negligentemente um charuto, e lançando sobre as primeiras palavras essas perfumadas e tenues nuvens de fumo que para logo denunciam um tabaco delicioso.
--Entre os dois capitulos unicos d'este romance medéam vinte annos, amigos. Durante este longo periodo envelheceu o protogonista, cujo original tendes presente. Nevaram-se-lhe os cabellos; mas o coração não envelheceu. O coração, posso dizer-vol-o, atravessou a vida sem conhecer o mal, sem o suspeitar siquer. Não extranheis a apologia. No epitaphio tudo se escreve, e eu estou escrevendo o meu. Perante qualquer outro auditorio, seria risivel o espectaculo d'um velho namorado; para vós não é, que o sei eu, porque vós sabeis apreciar estas delicadas aberrações da sensibilidade, vós, grandes phisiologistas, vós, philosophos distinctos, vós, mais que tudo isto, almas nobilissimas. É o theatro, amigos, um porto de salvação aberto aos naufragos do mundo. Os que não teem sociedade especial, compram um logar n'essa sociedade de todos, e conseguem passar uma noite. Os que da sociedade sahiram feridos, e a evitam, fogem-lhe, estando entre ella, no theatro. As _boccas inuteis_ da sociedade, deixae-me assim dizer, os que já se não divertem nem divertem a sociedade, os velhos especialmente, são uma especie de corpo extranho que o grande mar social arrojou para fóra de si. A praia protectora, o refugio, o porto unico de todos estes naufragos é--o theatro. Pois bem. Eu comprehendi, nos ultimos annos, esta verdade, e comecei a frequentar o theatro. Tinha eu lido, por muitas vezes, em outro tempo, que o theatro era interiormente um fóco de sensações extranhas, de fascinações especiaes, uma nova sociedade, um novo mundo, até. Mas eu ia ao theatro unicamente para gastar uma noite. Nenhum interesse me inspiravam as intrigas de bastidores. Quando o panno descia, acabava para mim o theatro; quando subia, recomeçava. Ha tres annos, meus amigos, que morreu entre nós uma cantora notavel. Todos a conhecestes, todos a applaudistes, porventura. Ah! ninguem podia vêl-a e ouvil-a, e ficar indifferente, silencioso, esquecido d'ella! Vi-a, no dia immediato ao da sua chegada, no Chiado. Ella ia de trem. Viu o emprezario a fallar commigo. Mandou parar a carruagem, o emprezario aproximou-se, e apresentou-me. Bella, se o era, bella! Bem o sabeis, se o era! Lisboa inteira conserva immorredoira recordação d'essa mulher extraordinaria pela voz e pela formosura. Fui á primeira recita. Que ovação aquella, amigos, que estrepitosa e espontanea ovação! Tenho ainda nos ouvidos os fervidos rumores d'essa festa, que se agitava em derredor de mim, e em que eu tomava parte só intimamente, porque a minha austera posição de medico, e sobretudo a gravidade da minha velhice, me obrigavam á fria compostura d'um authomato. Ah! as convenções sociaes, meus amigos, o que se perde de vida pelas convenções sociaes! É-se novo, ha fronteiras que importa respeitar e não ultrapassar. É-se velho, novas balisas,--as ultimas--a delimitarem o numero dos nossos passos e a largura dos nossos gestos. Tirae á vida os periodos da infancia e da velhice, e vede o que fica, amigos! Eu não faltava ao theatro. Eu esperava com impaciencia pela noite. Eu comprei em toda a parte quantas photographias appareceram d'essa mulher adoravel. Cerquei-me d'ellas, comparava-as, discuti-as perante o tribunal da minha critica artistica, e concluia sempre por achal-as inferiores ao original, que eu adorava. Algumas vezes sahi mais cedo de casa para ir vêl-a entrar no theatro. Postava-me a distancia, a grande distancia, disfarçadamente. Via parar o trem, descer o seu vulto, entrar rapidamente pela porta do palco. Ah! como eu vivia de tudo isso, como eu estimava que lhe _bisassem_ os mais doces, os mais delicados trechos de musica, para vêl-a mais tempo, para a poder ter defronte de mim mais alguns momentos! Se se contra-annunciava um espectaculo, que contrariedade a minha! Que ditosas que seriam as mulheres se podessem amar, se conhecessem, ao menos, todos os homens que as amam em segredo! E entre as mulheres todas, especialmente as de theatro, se soubessem como ás vezes são amadas puramente, loucamente, ellas, que estão habituadas a ouvir phrases que já não podem enganar quem as diz nem quem as ouve! Eu ouvia fallar de ceias que lhe offereciam, ceias sumptuosas e alegres, e das quaes alguns de vós foram porventura convivas. Nunca assisti a nenhuma. Um velho n'um banquete onde a mocidade erguia as taças! E depois, novo que fosse, por Deus, que não iria tambem! Eu quebraria contra a meza a minha taça, quando outro homem ousasse levantar um brinde á mulher que eu amava. Uma noite, amigos, entrava eu no theatro e pude, atravez da agglomeração dos grupos, lêr o contra-annuncio affixado no atrio. _Por grave doença d'ella_ não havia espectaculo! _Por grave doença d'ella!_ Mas eu era medico, e tinha direito a vêl-a! _Por grave doença d'ella!_ Mas eu era medico, e, permitti-me a vaidade que o amor despertára impetuosamente, diziam que eu era um dos primeiros medicos, e todavia não se lembraram de mim! Tive, porém, um momento de reflexão: havia vinte annos que eu tinha sahido d'aquelle mesmo theatro para acudir a uma grave enfermidade que se manifestára subitamente. Quem sabe se aconteceria o mesmo, se procurariam, ao acaso, um medico, e levariam o primeiro que o acaso lhes deparou? E depois, para que? para que quereria eu haver sido chamado? para, como ha vinte annos, luctar braço a braço com a morte, soffrer, soffrer, soffrer e, salvando-a, restituil-a á vida, á mocidade, á gloria, a todos os que diziam amal-a? Recolhi-me a casa, resignado pela reflexão, mas profundamente triste. Não quiz perguntar por ella. O meu orgulho de medico conhecido não me permittia perguntar por uma doente que eu não tratava. Passei a noite inquieto; os curtos somnos que seguiram ao primeiro foram intervallados pela sua doce e dolente recordação. Eu via-a, ora na scena, festejada, applaudida, disputada por todos: ora morta, amortalhada para a sepultura, pallida, silenciosa, esquecida de todos. E, o que mais era, eu quizera que a realidade fosse esta--ó egoismo humano!--para que ninguem gozasse uma felicidade que eu não tinha, e para que o meu amor, o unico verdadeiro e duradoiro, fosse chorar sobre o seu tumulo as primeiras e talvez as ultimas lagrimas da saudade. De manhã, pedi com impaciencia os jornaes. Procurei noticias. Todos diziam que ella estava perigosamente doente. Sahi para a rua, sem saber para que e porque. Encontrei logo quem me fallasse n'ella. Foi para isso de certo que eu sahi. Mais pessoas, muitas pessoas, as ultimas das quaes me disseram que ella havia fallecido. Ah! que ella havia fallecido! Então já não era de mais ninguem! Então realisára-se o meu sonho! Ó natureza humana, que infame que tu és!
E o dr. Filippe Sullivan por algum tempo escondeu o rosto entre as mãos.
--Não vae sem legenda á sepultura um cadaver illustre. Parece que a morte não tem direito de roubar os que por algum titulo se nobilitaram. Em torno do cadaver d'ella inventaram-se boatos sinistros. O rapido e fatal desfecho da molestia parece que deu margem á suspeita de morte violenta, e o certo é que, como perfeitamente sabeis, a authoridade competente requereu autopsia. Eu fui convidado para tomar parte n'esse acto. Ah! que felicidade essa! Ia vêl-a, ao pé de mim, como nunca vi, como poucos talvez a viram! Acceitei, acceitei ardentemente. Fui cedo para o cemiterio. Queria vêl-a sósinho, beijal-a em segredo, dizer-lhe o que nunca lhe tinha dito. Os meus olhos iam, finalmente, saciar-se de a vêr. Quando eu cheguei ao cemiterio, não estava ainda ninguem. Ninguem! Estava ella;--ella era tudo para mim! Levantei respeitosamente o lençol, deixando a descoberto a fronte e o collo. Assim era que eu a via no theatro: assim me pareceu bella como então! Mais bella talvez! Mais branca e mais serena. Levemente affastei os cabellos castanhos que se annellavam sobre a testa. Que formosa! que formosa! Curvei-me para ella, beijei-a na face e disse-lhe como se me podesse ouvir:
--Ah! finalmente! posso dizer-te que te amo! Agora, que estás aqui sósinha, agora, que todos fogem receiosos do cheiro da tua podridão, agora te posso eu dizer que te adorei como nunca foste adorada! Já não ha vozes de festa e de applauso em torno de ti, mas ha a minha voz, querida, a minha voz e as minhas lagrimas... Pois não vês tu que estou chorando? E quem mais te chorará no mundo a esta hora? Ninguem! Se ainda tens na patria algum parente que te pranteie, esse mesmo te chorará depois de mim!... Ah! como tu vivias illudida! Pergunta onde estão os que diziam amar-te. Bocejam a esta hora no longo somno da manhã. Eu toda a noite passei inquieto por ti. Elles desvelaram-n'a no prazer. E todavia nunca me deste um sorriso, nunca soubeste que te adorava! Como arfava nas noites de festa este teu seio formoso! Como se te coloriam as faces! Que turbilhões de vida não revolviam estas tranças! E agora tudo vae para a terra, mas, antes que a terra o receba, tudo eu quero adorar! Não, não irás para a terra, querida, como os pobres e como os extrangeiros. Eu tenho ahi um leito de marmore, que é grande de mais para mim. Já lá repoisam dois amigos. Para lá irás tambem. Lá esperarás por mim, que não posso tardar. Pretextarei piedade por uma extrangeira distincta para te fazer esta concessão. Não tive familia em vida; tel-a-hei em morto, ao menos. Ah! pobre coração tão calado! O que tu pulsaste, o que tu doidejaste talvez! Não se é nova e formosa impunemente. Agora tudo é silencio e frialdade em ti; aqueçam-te siquer as minhas lagrimas, que são puras e ardentes.» E eu via cahir uma a uma as minhas lagrimas sobre o coração d'ella,--aquelle coração que eu compraria a peso de oiro, se ella o vendesse. N'esse momento senti passos, e soavam já tão perto, que mal pude disfarçar-me. Era o seu assistente, que está alli...
E o dr. Filippe Sullivan indicou um dos mais novos medicos, que estavam em torno da sua meza.