A ultima ceia do Doutor Fausto

Part 2

Chapter 22,463 wordsPublic domain

Nas primeiras salas, distincta e ricamente mobiladas, estava o bilhar, a livraria, o gabinete de leitura, onde as mais voluptuosas commodidades, a mais suave luz, quebrada discretamente em _abat-jours_ convenientemente coloridos, convidavam a esse engolphar do espirito que põe todo o sabor e todo o encanto aos livros. Á sala de leitura seguia-se o gabinete anatomico e o arsenal cirurgico, copiosos de exemplares valiosissimos. Ah! tinham o seu que de terrivelmente phantastico essas grotescas figuras de cera, de cartão, ou elasticas representadas em mil differentes posições dolorosas; essas asquerosas deformidades arrancadas ao corpo humano durante a profunda somnolencia da anesthesia, e esses ferros de gume delicado e garras dilacerantes illuminados pelo reflexo tremulo do gaz que, borboleteando por elles em filetes luminosos, parecia dar vitalidade e contracções a toda essa inanimada galeria de raros exemplares perfeitamente trabalhados ou habilmente operados. A maior parte dos convidados que não eram medicos evitavam inteiramente estas duas salas, espreitando-as da porta do gabinete de leitura, e deixando-se cahir n'uma _chaise-longue_ com os olhos disfarçadamente postos n'um livro que não liam. Os medicos entravam e demoravam-se em grupos de trez ou de quatro deante das _vitrines_, especialmente deante das copiosas vidraças da secção obstetricia a discutir por exemplo as vantagens do forceps-serra de Van Huevel sobre a céphalotribe de Penard e as dimenções dos golpes na operação cezariana, cujo modelo estava alli deante d'elles quasi tão paciente como se fosse verdadeiro. A um e outro lado da porta havia dois bellos esqueletos por cujos vãos intercostaes rompiam phantasticamente as ondas de luz que irradiavam os candelabros da sala immediata. Um distincto poeta satanico, especie litteraria que n'esse tempo começava a pimpolhar em Portugal, e que n'uma das suas odes terriveis pedira a Satanaz o doce horror de beber o sangue da vingança pelo craneo da amante que o trahiu, foi visto por um dos nossos mais espirituosos medicos, no momento de atravessar por entre os dois esqueletos, tão nervosamente encolhido como se tivesse de escoar-se por entre as pontas de dois punhaes apontados para os hombros d'elle. Aqui está a Vida, em todas as suas evoluções, desde o embryão que o ferro sabe arrancar ao ventre materno até á decomposição repugnante que a ha-de apodrecer. Aqui, ó poetas, ó romancistas, ó sabios que tendes um talher na ultima ceia do dr. Filippe Sullivan, aqui é logar para philosophos, aqui desvelou elle muitas noites, á pallida luz d'uma unica lampada, emquanto vós doidejaveis nas loucuras que envelheceram para vós antes que vos achasseis velhos para ellas.

Ah! que se o dr. Sullivan tivesse uma grande ancia de amar, como toda a vida teve uma grande ancia de saber, como facilmente o poderiamos imaginar o velho doutor Fausto da legenda universal no meio do seus livros poentos e dos seus luzentes instrumentos cirurgicos, emquanto lá ao fundo do gabinete mysterioso appareceria vaporosa e divinal a imagem de Margarida, como no primeiro acto da opera de Gounod, e Mephistopheles espreitaria os anhelos arrebatados do namorado doutor sempiterno! Mas a sua vida é talvez um poema fechado, um cofre de joias por abrir, um segredo que, porventura ao terminar a ultima ceia, descerá com elle á sepultura! Ali! meu velho doutor, meu caro Filippe Sullivan, talvez que estas figuras grotescas e phantasticas, em que tu noite e dia estudavas as profundezas da sciencia e os mysterios da vida, saibam até que ponto costumava avoejar a tua phantasia de artista e de erudito, mas só a tua mão delicada lhes sabia dar movimento e sensibilidade, e agora ahi estão mudas, sem responderem ás nossas interrogações curiosas, emquanto lá em cima o tinir dos crystaes e a phosphorecencia das luzes faz esquecer o mysterio que involve a tua vida, doutor!

Todas estas salas constituiam o _rez-de-chaussée_ e descreviam uma curva em derredor da escada, lançada em ligeiro caracol e ornamentada de vasos, espelhos, estatuetas, candelabros, e suspensões floridas.

No andar nobre havia a um lado tres vastas salas que entre si communicavam por largas portas arqueadas e envidraçadas. Estavam todas abertas, illuminadas, deslumbrantes de esplendor e elegancia. Do outro lado correspondiam os aposentos do dr. Filippe Sullivan, quartos deliciosos, d'uma luz tibia e doce, em grande parte devida á côr das colgaduras e da mobilia. Estavam corridos de par em par os reposteiros. Uns compartimentos interiores, destinados a _toilette_ e casa de banho davam communicação particular para a sala da mesa, cuja entrada principal era pela terceira sala do lado opposto. Ah! a sala da mesa! As graças da phantasia de mãos dadas com as pompas da opulencia! As mais finas e custosas loiças indianas! pratas artisticamente lavradas para os festins d'um principe! crystaes multicores e resplendentes! candelabros constellados de lumes sem conto! quadros onde os mimos da natureza sobresaiam pela delicadeza do colorido! um labyrintho de taças, de _plateaux_, de _corbeilles_, de ornatos gelatinosos, de fructos variegados, de pequenos aquarios, de magnificas jarras de Sevres, no meio d'uma vasta sala cortada por dois arcos de uma grande elegancia de desenho!

Quando os convidados sairam das outras salas, onde deliciosamente os detiveram o bilhar, o _Whist_, a bibliotheca, a conversação scientifica ou humoristica, e entraram á sala da mesa, quasi todos os grupos pararam de subito ao limiar da porta deslumbrados da surpreza de tão grandioso espectaculo.

O dr. Filippe Sullivan fazia notabilissimamente as honras da casa. Elle destacava-se elegantemente n'aquelle vasto quadro por tal modo animado e confuso. Sobre a casaca, que lhe vestia ainda com a elegancia d'um moço, a roseta encarnada da legião de honra recordava tacitamente uma das paginas mais gloriosas da sua vida scientifica.

Essa doce recordação não podia faltar na ultima ceia d'um sabio,--a ceia dos setenta annos, o ultimo resplendor do sol sobre as neves da velhice, o derradeiro punhado de flores arremessado alegremente para a silenciosa aridez do inverno.

A ultima ceia, o ultimo brinde, a ultima taça de champagne! Depois... talvez a morte.

Prolongou-se pela noite dentro a ceia. Não ha imaginar ahi mais vivida, mais fervida, mais scintillante conversação! mais doida, mais caprichosa! borboleta que parecia arrancar de todas as boccas uma palavra de ouro para as deixar cahir em chuva scintillante, do alto da mesa, sobre as flores, os crystaes e as luzes! Houve um momento de indiscriptivel animação e de enthusiasmo sublime.

O mais novo dos membros da faculdade propoz um brinde á gloria que cingia de luz a fronte encanecida dos seus velhos mestres. O dr. Filippe Sullivan ergueu-se verdadeiramente commovido e respondeu levantando um brinde á esperança, ao amor e ao futuro, saudando a mocidade que nas cadeiras do professorado ia a pouco e pouco substituindo brilhantemente os ultimos soldados da velha guarda medica.

--Ah! que sejam felizes, disse elle, que menos os namore a gloria do que o amor! que os loiros da sciencia não affoguem na sua folhagem viridente as delicadas rosas da felicidade terrena! Ah! que é preciso que o medico saiba ganhar no dia de hoje as forças herculeas que tem de empenhar amanhã na sua continuada lucta, braço a braço, com a morte e com o lucto. É preciso que o medico seja homem uma vez ao menos, porque, se elle pensou mais nos outros do que em si, morrerá só, na solidão do seu lar, sem familia, sem mão piedosa que lhe cerre os olhos, sem labios infantis que lhe beijem a mão inanimada, depois de ter vivido tristemente a dar a vida aos outros ou de lhes haver procurado suavisar a morte pelo menos. Por isso eu brindo pelo amor, pela felicidade, e pela esperança!

Houve então quem se levantasse e dissesse:

--Eu brindo, eu saudo, eu quizera divinisar os gigantes do dever, os que serenamente poisam a sua cabeça no marmore da sepultura depois de haverem dado ao mundo o maior, o mais sublime, o mais estupendo exemplo de abnegação. Eu brindo os que se não fizeram amar porque todo o coração lhes era pouco para amarem os outros...

N'este momento, o dr. Filippe Sullivan, extremamente pallido, de pé, com a mão direita firmada na meza e a esquerda apoiada sobre a taça do champagne, disse ardentemente, depois de por alguns momentos haver mergulhado o olhar ennublado de lagrimas no delicioso conjuncto da mesa:

--N'essa phrase está talvez o segredo da minha vida. Ah! que não póde o peito d'um homem fechar-se sobre si mesmo com os seus pensamentos e com as suas dores durante o longo e trabalhoso curso de setenta annos! Nunca sob este tecto se trocaram confidencias porque jámais aqui houve familia. Faltava a doce intimidade do jantar e do serão, das festas e das tristezas domesticas. Eu entrava só, estava só, sahia só,--vivia só. Mas não posso, meus amigos, não posso por mais tempo guardar no seio o que ha tão longo tempo aqui trago escondido. É a primeira e a ultima confidencia. Viestes assistir, amigos, aos alegres funeraes d'um velho collega. Pois bem. Elle quer corresponder á vossa dedicação, e, no momento de adormecer na paz do tumulo, quer de vós todos fazer a sua familia, contar-vos a sua vida, revelar-vos os seus segredos. É um morto que falla, amigos...

Fez-se um silencio profundo. O dr. Filippe Sullivan, conservando a mesma posição, recomeçou:

--Eu amei, meus amigos, eu amei duas vezes na minha vida, e eu amei duas pessoas que justamente me não amaram...

Passou em todas as boccas um murmurio de surpreza e talvez de incredulidade.

O dr. Filippe Sullivan espalmou no ar a mão direita, e o silencio restabeleceu-se profundissimo:

--Gastam facilmente a vida as illusões. E uma das mais queridas illusões da mocidade é seguramente a Gloria. Que deslumbramentos a refulgirem no prisma da nossa phantasia, quando o nosso nome principia a passar de bocca em bocca e já uma vez por outra ouvimos por detraz de nós pronunciar na rua o nosso appellido! Ah! as aspirações do homem brilham para dentro delle com a phantastica coloração das stalactites n'uma gruta illuminada pelo sol,--sol de esperança é elle--e, como as stalactites se formam gotta a gotta, as nossas aspirações vão-se conglobando sonho a sonho. Até que finalmente chega o momento em que para todo o sempre petrificam... Esse momento chegou. Mas eu queria dizer-vos que foi a Gloria a grande, a querida, a profunda illusão da minha mocidade. Sonhar applausos, festas, saudações... ah! meus amigos, eu sinto agora mesmo a garra traiçoeira da Gloria a estender-se furtivamente para o meu peito arrefecido pelo gear de longos invernos. Parece-se n'isto a Gloria com a saudade: quando lembra, commove; quanto mais doe, mais se arreiga! Ah! deixa-me em paz, esconde a tua garra tigrina, ó monstro que te chamas Gloria, se não queres que o meu desprezo esmague o teu coração tão abundante de sangue que chega para o mundo todo! Foram sonhos os primeiros annos da vida,--sempre sonhos, deixai-me dizer-vol-o assim, phantasticamente realisados. A Gloria é como os tyrannos que abrem os thesoiros da sua real liberalidade para comprarem uma denuncia, mas que, feita a denuncia, mandam ao sacrificio a victima que ludibriaram. Ah! que em a gente dizendo á Gloria: «Sou teu», chega o momento em que os tyrannos deixam de ser generosos para se volverem feras que preparam festins de sangue. Tudo me concedia a Gloria, tudo me concedeu até esse momento fatal. Eu escravisara-lhe o meu pensamento, eu vivia d'ella e para ella, e atravessava a sociedade com a fria exterioridade d'um homem cujas relações amorosas se involvem no mais profundo mysterio. Todas as mulheres se me affiguravam lastimaveis quando eu descia ao meu santuario intimo e queimava o incenso da adoração perante o altar do meu idolo. Frequentava n'esse tempo os bailes, unicamente para reivindicar o meu direito, por mim conquistado, de ir aos bailes. Estava nas salas indifferente. Se o meu mundo não era aquelle! No meu mundo não havia mulheres que vendiam sorrisos e que pintavam ao espelho a belleza das faces e dos supercilios. Não! No meu mundo tudo era puro, sincero, leal e digno: povoavam-n'o as aspirações d'um homem, que nascera obscuro, que fizera um nome, e que, de todos conhecido, caminhava para um ponto ideial e luminoso: a Gloria! Ah! que isto é verdadeiramente puro, sincero, leal e digno...

Aqui sorrira desdenhosamente o dr. Filippe Sullivan e, depois de brevissima pausa, proseguiu:

--És pó, homem, és pó!... E tu, vivendo nos homens e com elles, o que has-de ser tambem. Gloria? Deixa-me em paz. Estão por ahi esses moços: crava-lhes no peito a tua garra tigrina. A mim deixa-me em paz. Não venhas perturbar os meus funeraes. Foge, foge... Na sociedade diziam-me ás vezes d'uma ou d'outra mulher: É bonita! Eu quasi sempre respondia distraidamente: É bonita! Eu era como aquelles viajantes, que deixam na patria a noiva, e que atravessam os paizes sem repararem nas mulheres extrangeiras. Assim entrava eu nas salas de baile. Algumas vezes, muitas vezes me disseram de uma mulher, que por esse tempo chegara de Inglaterra onde estivera a educar: «Veja, dr., como é bonita!» «Ali! é bonita!» Para mim valia tanto como as outras. Fallava inglez. Circumstancia aggravante. O Garrett gostava do anglicismo amoroso. Muitas vezes me encareceu a doce realidade do verbo: _To flirt._

Eu já nesse tempo tinha como principio que, se o inglez se inventou de proposito para alguem, foi justamente para os inglezes.

Um sorriso ligeiro perpassou nos labios dos convivas.

--Achei sempre tão violento um inglez a fallar portuguez, como um portuguez a fallar inglez. Mas... uma portuguesa! Essa gentil menina entrou na sociedade lisbonense, d'onde saira creança, com a triplice celebridade da sua bellesa, da sua educação e do seu dote. D'entre vós conhecem-n'a os que em Lisboa nasceram: a esses a minha velhice recommenda discrição. Para os que não são lisbonenses desejo eu que ella fique sendo a mulher ideal d'um romance verdadeiro. Alvoroçaram-se os mais elegantes moços açulados nas pesquizas de noiva rica. Dois de entre elles pareciam nivelados nas probabilidades de triumpho: um era barão; outro visconde. Andava travado um grande duello moral entre os dois. Não se faltava d'outra coisa: discutia-se a elegancia do barão e a fina educação do visconde. No theatro, em estando ella, havia trez pontos, ligados por linhas invisiveis, em que todos os olhares se fixavam: ella, o barão e o visconde. Este era o triangulo da curiosidade publica. Eu costumava rir-me dos novos episodios que dia a dia ia offerecendo o grande pleito amoroso, e algumas vezes cheguei a acreditar ingenuamente na possibilidade d'uma segunda guerra de Troya... A minha idade era já tocante na petrificação das illusões: eu tinha quarenta e oito annos. Esta deve ser a fria idade da critica e, por conseguinte, da reflexão. Era justamente isso o que eu fazia: Punha sobre a minha pequena mesa anatomica aquella titanica lucta de Melenau e Páris, e com o meu escalpello de medico ia minando até encontrar o cofresinho onde se guardava o dote disputado. Em sentindo tilintar o dinheiro, desatava a rir.

Riu tambem das facetas imagens do doutor Filippe Sullivan a erudita assembleia.