A ultima ceia do Doutor Fausto

Part 1

Chapter 13,835 wordsPublic domain

E-text prepared by Pedro Saborano

OPUSCULOS ROMANTICOS

I

A ultima ceia

DO DOUTOR FAUSTO

NARRATIVA

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA Rua do Calvario, 36 1876

OPUSCULOS ROMANTICOS

I

A ultima ceia

DO DOUTOR FAUSTO

NARRATIVA

POR

_Alberto Pimentel_

PORTO TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA Rua do Calvario, 36 1876

AO MEU PREZADO AMIGO

O

_Snr. Conselheiro Telles de Vasconcellos_

Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten, Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt. FAUSTO--Goethe.

Resurgis outra vez, vagas figuras, Vacillantes imagens que á turbada Vista accudieis d'antes? _Traducção do Visconde de Almeida Garrett._

Tornai-me a apparecer, entes imaginarios, Que me enchieis outr'ora os olhos visionarios! _Traducção do Visconde de Castilho._

Fazia n'essa noite setenta annos.

Elle era o mais distincto, o mais elegante, o mais popular e o mais respeitado dos medicos. Alto, magro, pallido, com as faces ligeiramente avincadas, bigode nevado como os cabellos, não raros, e ainda penteados com distincção, vestindo quasi sempre casaca, e trazendo arregaçadas sobre os hombros as lapellas do seu largo _paletot_ alvadio, calçando luva escura, fumando continuamente os melhores charutos de contrabando, tendo uma voz saccudida, firme, sonora, trazendo á flor dos lábios uma amabilidade para cada mulher que encontrava, um dito conceituoso e innocente para cada homem, sabendo festejar as creanças e animar os doentes, sereno, risonho, impavido, chegára a attingir na sociedade uma d'essas invejaveis posições de fausto e consideração, sem resentimentos, sem despeitos, sem malquerenças, emfim.

Toda a gente o conhecia pelo appellido: o doutor Filippe Sullivan.

Ninguem pensou nunca em saber de quem era filho, que parentes ou que ligações de familia elle tinha. Vivia só, servido por criados de lenço branco e casaca. Appareceu na eschola medica como estudante assombroso. Os jornaes começaram a fallar dos seus brilhantes exames e das suas theses magnificas. Acontece aos nomes o que acontece ao dinheiro. Desde que são lançados á circulação, como qualquer pequena moeda de oiro ou de prata, quem póde saber a que destino terão de chegar? Umas vezes esse nome tem a felicidade de merecer uma apotheose, como certas moedas a de perpetuarem uma epocha esplendorosa na historia das civilisações; outras vezes esse nome abysma-se no vasto sorvedoiro dos povos, como certas moedas revoluteam nos abysmos escurissimos da miseria ou do crime. Mas o nome de doutor Filippe Sullivan estava fadado para o destino glorioso dos homens immortaes. Começaram todos os doentes a chamal-o, a querel-o, a disputal-o, porque elle começou tambem a não chegar já para a sua gloria,--deliciosa contrariedade que acontece a todos os grandes homens nos paizes pequenos. Toda a gente requer o medico fulano, quando esse medico é distincto como o dr. Filippe Sullivan, e o paiz é tão pequeno como Portugal; um habil estadista principia a ser importunado para todas as commissões de serviço publico, como um actor notavel para todos os espectaculos de beneficencia. Em França, na Inglaterra, na Allemanha ha medicos especialistas, que tratam apenas molestias de olhos, de peito ou de coração. Nenhum medico, nesses vastos paizes, póde ter a felicidade de ser disputado por todos os doentes da sua patria, e dahi vem a necessidade de applicar-se exclusivamente a um só ramo da sua difficil sciencia, para dar na vista, para chegar a entrar nas academias e nos institutos.

No curso do dr. Filippe Sullivan houve repazes de subido talento, que no dia das ultimas theses se dispersaram remando cada um ao sabor de sua imaginação. Uns fizeram-se medicos, unicamente medicos. Outros, para quem a medicina era apenas uma profissão, dedicaram-se ao jornalismo, á politica, ás finanças, á litteratura propriamente dita. Em todos esses espiritos, mais ou menos levantados e instruidos, havia a mais profunda, a mais leal e a mais perduravel adoração pelo dr. Filippe Sullivan. Elle tinha sido presidente de quantas sociedades academicas se constituiram durante o seu curso; elle fôra o ardente orador de todos os comicios escholares; o leccionista voluntario e gratuito de todos os companheiros mais destituidos de fortuna ou de intelligencia; elle chamára ás suas festas de estudante sempre premiado todos os amigos, condiscipulos e contemporaneos; elle adquirira, finalmente, a mais espontanea e a mais firme popularidade com que se póde sair das escholas para entrar na sociedade, por mais difficil que a sociedade seja. Estes homens novos e intelligentes, socialmente distribuidos consoante as suas aptidões naturaes, começaram por lembrar ao paiz que tinham sido amigos ou companheiros d'esse grande medico que estava destinado a ser uma das primeiras notabilidades do seu tempo e da sua patria. Então pullularam de toda a parte os livros de sciencia, as dissertações, os romances, os folhetins, os versos dedicados a elle, ao dr. Filippe Sullivan, com as mais elegantes e mais ardentes dedicatorias que um rapaz sabe escrever ao entrar na sociedade. A anecdota, esta grande mola da celebridade, foi ao encontro do dr. Filippe Sullivan, receiosa de que tamanho homem conseguisse immortalisar-se sem o seu velho e pittoresco auxilio. Um dia, n'uma epocha em que o doutor fizera cinco ou seis operações tão difficeis como felizes, encontrára á sua porta, no momento de sair de casa, uma elegante equipagem, cuja libré não reconheceu no primeiro momento. Accendendo vagarosamente o seu charuto, o dr. Filippe Sullivan perguntou se aquella carruagem o esperava. Responderam-lhe que era sua. O doutor olhou fito no trem, e viu as iniciaes F. S. Ao mesmo tempo descia da boleia o cocheiro e perguntava respeitosamente:

--V. ex.ª para onde quer ir?

Nunca pôde descobrir quem lhe offercera a equipagem. Os seus doentes operados pertenciam a familias nobres e opulentas, todas ellas na prospera situação de tão largo presente. O caso divulgou-se immediatamente, toda a gente começou a fazer conjecturas, e a carruagem do dr. Filippe Sullivan principiou a gozar uma celebridade que fazia parar na rua para se ficar a olhar para ella, como se fosse dentro o mysterio,--a pessoa que a offerecera.

Dizia-se alto e bom som:

--Foi o visconde de...

--Foi o marquez de...

--Foi o conde de...

E á bocca pequena:

--Foi a viscondessa...

--Foi a marqueza...

--Foi a condessa...

O que é certo é que o dr. Filippe Sullivan não sabia quem fôra.

Tinha vagado na eschola medica um logar de professor d'uma das mais importantes cadeiras. Ninguem concorreu a não ser o dr. Filippe Sullivan, porque ninguem podia e queria esgrimir com elle para ficar indubitavel e fatalmente vencido. Se o corpo cathedratico podesse ir a casa buscal-o e trazel-o levantado nos braços para a cadeira do professorado, o corpo cathedratico havel-o-hia feito. Mas a lei exigia concurso, e não havia remedio senão satisfazer á lei. Os jornaes annunciaram com grande antecipação o dia do concurso, e não tardaram a referir que um medico francez, então residente entre nós, pedira licença ao dr. Filippe Sullivan para traduzir a sua dissertação a fim de ser conhecida e devidamente apreciada nos primeiros estabelecimentos medicos de França. Houve grande empenho em ser admittido na sala dos concursos. Foi preciso reservar logar para as senhoras, porque foram muitas as que assistiram desde o primeiro dia. O dr. Filippe Sullivan era então um rapaz em todo o vigor da sua gentil mocidade. Poderia haver quem lhe pozesse a pecha de extremamente pallido, mas não faltava quem achasse na sua face a morbida doçura que caracterisa vulgarmente os homens de grande coração e maior intelligencia. Diante do corpo cathedratico grave e attento, em face do publico numeroso e recolhido, elle tinha a naturalidade da expressão, a fluencia do dizer, as imagens pittorescas e claras, os arrebatamentos scientificos, e por vezes poeticos, o gesto vigoroso e proprio, e ao mesmo passo a modestia sincera e captivante que em toda a parte davam maior relevo ás suas profundas qualidades medicas. Momentos houve em que elle, respondendo brilhantemente a habeis e repetidas objecções, fôra acolhido por um longo e voluntario murmurio da multidão, agitada por as grandes contracções nervosas que nos invadem o cerebro diante dos mais assombrosos espectaculos de prazer ou dor.

Quando elle se levantou, agitaram-se no ar centenas de braços, de professores, de estudantes, de amigos, de conhecidos e desconhecidos, como se todos podessem em verdade abraçar ao mesmo tempo, e no mesmo logar, um só homem. N'essa mesma noite, posto faltassem ainda as ultimas provas, teve sob as janellas uma ruidosa serenata de estudantes, que enthusiasticamente vozeou as mais calorosas e delirantes acclamações, diremos mesmo os mais doidos gritos que o enthusiasmo póde arrancar de peitos de vinte annos. Ó boa, ó santa, ó louca mocidade! como são grandes os teus hymnos, as tuas apotheoses e os teus delirios! Ó meigo leão, como és imponente e formidavel, quando lambes magestosamente as plantas do teu deus ou do teu heroe! Ó onda alegre e sonora, que vais espraiar-te sob a janella do novo Fausto dos teus poemas eternos e mandar-lhe as fervidas notas da tua rumorosa serenata, tu és a grande voz da historia, tu és o olympico hymno da gloria, que se antecipa no coração da mocidade!

A primeira vez que regeu a cadeira, os estudantes de todos os cursos offereceram-lhe um jantar, em que elle, ao levantar-se para agradecer n'um só brinde as saudações que de toda a parte lhe foram dirigidas, rompeu, pronunciada a primeira palavra, numa convulsão de choro e riso, de que brotou, como entretecida de saudades e esperanças, a mais arrojada e torrentosa eloquencia que de improviso póde jorrar de labios humanos.

Não vinham longe as eleições geraes. O nome sympathico do dr. Filippe Sullivan começou a ser apresentado em alguns comicios e recommendado por algumas classes extremamente influentes. Pessoas havia porém que lamentavam esse criminoso roubo da politica á sciencia, e que tinham sincera magua de privar a sociedade d'um medico por tal modo distincto para dar ao parlamento mais um orador. Todavia a onda eleitoral foi crescendo com a rapidez que caracterisa o ardor com que se servem as causas voluntarias, e o dr. Filippe Sullivan appareceu no parlamento festejado e respeitado pelo governo e pelas opposições. Toda a gente tinha os olhos n'elle, e toda a gente esperava com mal contida impaciencia o seu primeiro discurso. A meio da sessão parlamentar, o governo pareceu em crise, e as opposições colligadas assestavam as baterias da sua eloquencia apaixonada para varejarem o ultimo reducto do governo. N'esse dia o dr. Filippe Sullivan pedira a palavra, mas a ordem da inscripção collocava-o em ultimo logar. Foi uma carga terrivel da opposição contra o governo, e, vendo os ministros pallidos, abatidos, vexados nas suas cadeiras, todo o publico das galerias, incluido grande numero de representantes extrangeiros que enchiam a tribuna dos diplomatas, olhava para o dr. Filippe Sullivan como se fôra o unico homem capaz de oppôr o seu peito á medonha torrente das iras opposicionistas. Quando finalmente lhe chegára a palavra, e parecia não estar longe o momento em que as pastas voassem das mãos dos ministros aos pés do rei, o dr. Filippe Sullivan rompeu na mais eloquente e na mais arrojada apostrophe de indignação contra as opposições colligadas, e n'um discurso titanico, em que defendeu, medida a medida, os actos do governo, exhortando-o a levantar a fronte diante da voz da ambição e das garras da inveja, elle supplantou esses terriveis antagonistas sedentos de poder, que combatem o que se fez porque elles o não fizeram. Nunca jamais orador algum sustentára, um contra cem, tão ardente e desproporcionada campanha parlamentar. Elle fôra n'esse dia verdadeiramente um gigante, um assombro de coragem e eloquencia, porque a sua palavra, interposta a dois campos inimigos, volveu-se um como baluarte invencivel, a montanha insuperavel que faz o desespero eterno dos que vendo perto a gloria ficaram finalmente vencidos.

Sempre me pareceu que a Gloria devia de ser caprichosa, porque a fizeram mulher. Mulher e formosa!

Caprichosa por certo! Ella adora os que a não amam, e aborrece os que a amam. Ella procurava, seguia, provocava o dr. Fillippe Sullivan, que a não requestava, que lhe dava um sorriso e que passava adiante; ella colhia-o nos braços e enleiava-o nas mil ondulações das suas tranças fluctuantes, no parlamento, no professorado, á cabeceira do doente, sempre!

«Ah! talvez ella dissesse, tu és meu e queres fugir-me! Mais um laço, mais outro, mais cem: solta-te agora dos meus braços, despedaça, se pódes, os meus grilhões: liberta-te, escravo da minha vontade soberana!»

E os seus grilhões, doces como os braços das mães quando cingem os filhos, tinham, e hão de ter eternamente, alguma coisa de terrivel como os espinhos da juba revolta com que a leoa cobre a victima que empolgou.

«Tu, continuaria ella, tu não pódes ser grande na tua cadeira de professor, e pequeno na tua cadeira de deputado. A toda a parte chega o meu influxo, o meu poder e a minha soberania. Eu sou aquelles resplendores que tu vês ondular em columnas vaporosas a dentro d'uma janella por onde entra o ar e a luz. Por toda a parte sei passar, pela janella meia fechada ou pela porta meia aberta, e, para não encontrar nunca obstaculos, faço-me pó resplendente, e entro. Aqui está o que eu sou: poeira de luz, amigo, unicamente poeira de luz. Valho tão pouco como o pó, e valho tanto como a luz! Em toda a parte estarei comtigo, doutor. Até logo, até já, até sempre!»

E ella dizia, e ficava a espreital-o por detraz dos reposteiros, para o seguir quando elle sahisse.

A caprichosa!

Ó Gloria, ó bella alma inquieta, que nasceste do pó e caminhas para a luz, não valias porventura o que vales, se tu fosses realmente a Gloria sem primeiro haveres sido Mulher!

Por esse tempo celebrava-se, creio eu que em Bruxellas, um congresso medico em que todos os paizes se faziam representar pelos seus mais notaveis clinicos. Reuniu-se o corpo cathedratico para escolher o representante portuguez, e a eleição recahiu por unanimidade no dr. Filippe Sullivan.

Era mais um convite da Gloria.

No congresso de Bruxellas o dr. Filippe Sullivan foi recebido com a respeitosa admiração que o seu nome inspirava em toda a parte onde era conhecido, e foram sobretudo os delegados francezes os primeiros a encarecerem perante o congresso os profundos dotes medicos do representante portuguez, cuja dissertação de concurso possuiam traduzida no idioma patrio.

Nas mais importantes questões de medicina legal, o dr. Filippe Sullivan subiu a uma altura que foi devidamente apreciada pelo sabio congresso, e que lhe conquistou desde logo o primeiro logar entre os primeiros oradores. D'este triumpho lhe advieram subidas honras, sendo as maiores as relações d'amizade que deixou travadas com os mais conspicuos medicos europeus, e as menores as condecorações extrangeiras com que foi agraciado por intervenção dos representantes de França, Allemanha, Italia e Grecia.

Napoleão III, que reinava a esse tempo, enviou ao medico portuguez a mais nobre e distincta das condecorações francezas: a legião d'honra.

O Instituto de França abriu-lhe as suas portas de tão difficil ingresso.

Se este notavel medico houvesse permanecido em França, teria chegado á celebridade europea que lá conquistou para si e para Portugal o doutor Casado Giraldes, ha pouco fallecido. Mas nós, os portuguezes, temos profundo e ardente o amor da terra que nos foi berço, e só nos resignamos á melancolia do exilio quando um grave lance da vida nos alastra de espinhos o chão da patria. Somos, para a maior parte dos extrangeiros, uma provincia de Hespanha, um pequeno trato de terreno interposto aos Peryneos e ao Atlantico, mas o que é certo é que nós somos ardentemente ciosos d'essas poucas geiras de solo abençoado, e que respiramos aqui mais livremente do que na vastidão do mundo, que visitamos para tornar nostalgicos ao nosso ignorado vergel de laranjaes e rozeiras.

Depois, se ha homem que precise de ter sempre o coração desanuveado de sombras, e desopprimido de espinhos cruciantes, esse homem é o medico. Elle deve ser a paz, a tranquillidade, a paciencia, a consolação; elle deve repartir com os seus doentes a coragem que lhe exabunda no peito; elle deve ter sorrisos para enxugar todas as lagrimas, e palavras de conforto para calmar todos os desesperos.

Agora rasgai-lhe o coração com a incisiva lamina da saudade, e dizei-lhe: «Sorri, consola, fortifica.»

Ah! não póde ser!

Tornado a Portugal, o dr. Filippe Sullivan proseguiu na sua brilhante carreira por cima dos louros que lhe desfolhava todas as noites a mão namorada da Gloria para elle calcar no dia seguinte.

De triumpho em triumpho, o dr. Filippe Sullivan habituara-se a esquecer-se de si proprio para viver d'essa vida exterior que de toda a parte o reclamava, e que todas as noites o preoccupava com os mais difficeis problemas phatologicos. Frequentava a sociedade, a melhor sociedade até, mas atravessava ordinariamente as salas com alguma grave preoccupação a trabalhar-lhe o espirito. Era novo e gentil, via ondular diante de si os vagalhões doidejantes da valsa, mas a profissão completára n'elle, como quasi sempre acontece, a educação. Fora moço sobre os livros; deixára de o ser á cabeceira dos doentes. Não conhecera aos vinte annos as tentações mentirosas das salas, de modo que um baile era para elle um espectaculo alegre, mas unicamente espectaculo. No theatro, seja qual fôr o nosso enthusiasmo pelas tempestades do drama ou pelas graciosidades da comedia, ha sempre a barreira do tablado a distanciar-nos d'essa formosa chimera cujas sensações nós fomos comprar. Tambem para o dr. Filippe Sullivan havia nas salas do baile a mesma linha divisoria que o separava dos esplendores do festim: essa linha era a posição austera do medico. «Os outros, dizia elle desculpando a sua isempção, os outros podem ser do baile, porque são de si mesmos; o medico não é de si proprio, não póde ser de ninguem. A noite é a suspensão dos cuidados para as outras classes; mas ao medico cumpre estar apercebido de noite, porque a doença tem muitas vezes a cobardia d'um salteador nocturno, e accommette principalmente de emboscada.»

O Amor via-o pois de longe a fumar os seus bellos charutos havanos e a conversar discretamente com uma ou outra pessoa, mulher ou homem, a serenidade era a mesma, e a Gloria, brincando com os anneis do seu a esse tempo negrissimo cabello, sorria por detraz da cadeira e dizia para o Amor que ia redemoinhando na sala de mãos enlaçadas com a Valsa:

«Vai, louco, nos braços d'essa louca, creanças doidas que pareceis correr enamoradas das borboletas da noite. Olhai que apressadamente desfolhaes as flores do vosso breve reinado n'esse ondejar vertiginoso. Escreveis os vossos poemas sobre o carmim das faces, e a aurora primeiro, depois o somno, apagam os vossos poemas. Os meus escrevo-os no bronze da historia para se lerem na eternidade dos tempos. Por isso não doidejo. Eu trabalho para o futuro; vós trabalhais para a noite. Ide, voai, que eu fico com os meus predilectos.»

E o dr. Filippe Sullivan deixava-se ficar sentado commentando alegre e espirituosamente, com um ou com outro, os mil episodios do baile, essas breves loucuras côr de roza atravez das quaes um espectador sereno entrevê sempre um demonio zombeteiro a rir-se mephistophelicamente.

Agora passa a viscondessa entre as nuvens alvacentas do seu pó de arroz, reclinada no hombro de um cavalheiro cuja casaca vai enfarinhada da serodia mocidade da viscondessa.

Logo ha-de passar o leão decrepito e amoroso a rociar de agua circassiana a pomba de vinte annos que elle empolga nos braços com os ademanes grotescos que eram moda no tempo dos francezes.

Depois... Depois o grande carnaval das salas em todo o esplendor dos seus fatos de lentejoulas e dos seus pingentes de pechisbeque.

Ás vezes diziam ao dr. Filippe Sullivan:

--Repare como é bonita!

--É bonita! repetia elle quasi machinalmente.

E todavia diz-se que os grandes espiritos foram destinados ás profundas vibrações dos mais delicados sentimentos. E entre os delicados sentimentos é delicadissimo o amor. Elle é tão subtil como as essencias mais finas; elle é uma perola que é preciso saber equilibrar sobre a palma da mão vestida de luva branca. Um movimento mais ardente póde despenhar a perola. Quantos amores se não hão perdido por haverem querido apressar a hora da felicidade!

Ó meu caro dr. Filippe Sullivan, serás tu uma organisação especial e extraordinaria, talhada no marmore onde se concentra eternamente a frialdade dos gelos septentrionaes?

Não creio, meu caro doutor, não creio.

Tu és homem, e tens dentro de ti a peior fatalidade do teu sexo: o coração. A gloria é pezada como todas as prisões. Ha-de haver na tua vida um momento em que o coração te bata no peito as pulsações violentas da febre, e te diga finalmente: «Eu quero um momento para mim. A gloria tem-te escravisado toda a vida. Escravo, rehabilita-te um instante!»

Todavia o dr. Filippe Sullivan fôra envelhecendo com a mesma tranquillidade risonha dos primeiros annos da vida, e parecia que no seu coração havia a calmaria que lampejava na face em clarões de paz e felicidade.

Assim foi que elle chegou aos setenta annos, a essa idade avançada em que o coração já está morto e amortalhado de gelos no peito dos que o assassinaram a golpes de punhal, durante a lucta das paixões; a essa edade em que ha ainda no profundo ceu da nossa alma as cambiantes formosas d'um bello occaso quando se atravessou o mundo sem receber a ultima desillusão.

A vida romanesca do dr. Filippe Sullivan era inteiramente desconhecida dos seus primeiros amigos e das pessoas que mais frequentavam a sua companhia. Suppunham uns que nunca tivera amado; suppunham outros que guardava avaramente o segredo das suas felicidades amorosas.

Elle estava velho, chegado aos setenta annos, e os romancistas desesperariam de copiar tão distincto typo de medico por lhes faltar a urdidura romantica que particularmente interessa os leitores de novellas.

«É um bello typo á procura d'um romance!» disse d'uma vez, fallando do dr. Filippe Sullivan, um dos nossos primeiros homens de letras.

Enganava-se.

A verdade é que era um bello romance á procura d'um bom romancista.

Ora o bom romancista não appareceu até hoje a metter hombros á tarefa. Encarreguei-me eu d'esse pequeno serviço--eu, o mais incompetente de todos os escriptores portuguezes--prestado á memoria de esse medico famoso que deixou de si memoria assignalada.

No dia em que completava setenta annos, o dr. Filippe Sullivan convidou os primeiros medicos e os primeiros escriptores de Lisboa para o que elle chamava a sua ultima ceia. O agrupamento de todas estas circumstancias, a curiosidade de devassar pela primeira vez os mais reconditos aposentos d'um homem por tal modo elegante e erudito, que nunca recebera com tamanha prevenção; a circumstancia de parecer querer despedir-se romanescamente da vida esse velho distincto que ultimamente apenas apparecia no theatro com a fria austeridade da sua casa e das suas luvas pretas; o orgulho de não ser esquecido para essa _soirée_ em que se presumiria estaria representada a primeira aristocracia do talento, mil outras circumstancias emfim de que se fazia acompanhar e seguir esse convite inesperado e tentador agitaram profundamente o espirito publico n'uma terra onde os acontecimentos são ordinariamente poucos e insignificantes.

O dr. Filippe Sullivan habitava n'esse tempo um elegante palacete convisinho do cemiterio inglez e de esse outro predio notavel onde o visconde de Almeida Garrett fallecera. Elles haviam sido amigos, elles estiveram nas camaras ao mesmo tempo, elles tinham o seu que de commum na delicadeza de gosto e na grandeza de espirito.