A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado)
Part 4
Manuel Roussado (hoje barão do seu appellido) explorou no theatro a corrente aristocratica do _Fado_, escrevendo a comedia _Ditoso Fado_, que fez carreira na Trindade, representada por Taborda e Rosa Damasceno.[33]
O assumpto da comedia é simples: _Violante_ e o _Doutor Saraiva_, pessoas de boa sociedade, descobrem, momentos antes do seu casamento, que são ambos doidos pelo _Fado_, e essa harmonia de pensamentos completa a felicidade das suas almas.
Julio Cesar Machado refere-se á epoca da aristocratisação do _Fado_ lamentando-a como adaptação violenta e desnaturada.
«O fado é talvez filho bastardo do landum,[34] mas é mais bonito que elle: os filhos bastardos, não se sabe por que, são quasi sempre mais bonitos que os legitimos: este foi mais adiante, e logrou ser mais formoso que o pai. O vagabundo nocturno assenhoreou-se d’elle durante muito tempo; chegou a pensar que era preciso ter desenhos emblematicos na mão, gravados com tinta e polvora, caracoes sobre a orelha e uma morte ás costas para se poder entender bem a poesia d’essa musica, que significa a tristeza das desgraças, amores que hajam tido por capella o Aljube e o Limoeiro, o ciume da faca de ponta, o amargar ventura entre grades, as saudades da patria, o suspirar do degradado...
«Isso não impediu que em todo o tempo um ou outro fidalgo tenha querido dar-se a estudar os segredos d’aquella musica tão vaga, que pede a maior parte do seu encanto ao sentimento do tocador e á doçura plangente dos descantes: citam-se o marquez de F.[35], o conde de V.[36]; ultimamente, uns poucos de mancebos, grandemente amadores d’essa musica, e prendados com os dotes mais requeridos para tirarem d’ella effeitos admiraveis, reunem-se ás noites n’alguma quinta dos suburbios da cidade, e não seria facil dizer-se com que inspiração ardente, n’aquelle campo, á luz das estrellas, suspiram as vozes dos cantadores e as cordas maviosas das suas guitarras, poetica, melancolicamente, como raios da lua por entre uma chuva de lagrimas.
* * * * *
«Mas, desde que os fidalgos e os janotas gostam de ser fadistas, estão os fadistas a querer parecer janotas e fidalgos, e não se pode contar com elles; saiem-se já de casaca, em grande seriedade de _virtuoses_, a dar concertos no Casino e no Circo, e o mais que se alcança d’elles é contarem-nos a vida de Salomão e de David...
«Uma massada!»[37]
Effectivamente, no Casino do largo da Abegoaria, chegou a haver concertos publicos em que se ouvia o _Fado_, com grande aprazimento do auditorio fidalgo, cantado por algumas coristas dos theatros da capital.
O empresario d’estes concertos está ainda vivo e são: era Ernesto Desforges.
Quando elle tratou de arrendar o Casino, perguntou-lhe o velho Figueira:
--Para que é?
Desforges respondeu com lealdade:
--Para dar concertos de guitarra.
Figueira replicou-lhe:
--Isso é um instrumento que se ouve de graça em todas as ruas. Ninguem vai pagar para o ouvir.
Enganou-se. Os concertos, sob a direcção de João Maria dos Anjos, tiveram um grande exito. No primeiro tocaram apenas 12 guitarristas; no ultimo eram já 50.
Depois um allemão de appellido Gruder, que mais tarde figurou como lithographo n’um processo de notas falsas, tambem foi explorar o _Fado_ e a guitarra para o Gymnasio.
A generalisação do _Fado_ explica a apparição de publicações, que lhe diziam respeito, e tinham grande voga.
Publicaram-se:
_A guitarra_, de Souto Maior Judice.
A _Lyra do Fado_, de Manuel Antonio da Luz, que foi morrer a Rilhafolles.
_O Piano e a Guitarra_, de Ernesto Cesar dos Santos, que a tuberculose victimou aos 20 annos de idade.
_O Fado Liró_ e o _Fado do Marinheiro_, collaborados por Luiz F. da Costa Soromenho (já fallecido), Patricio José de Mattos, a quem uma paralysia atormentou os ultimos annos de existencia, e F. Napoleão da Victoria, que tem hoje uma loja de livros (principalmente theatro) na travessa de S. Domingos.
_O Fado Universal_, _A Lyra do Fadinho_, a _Lyra do Cantador_ (todos de 1878) collaborados por Domingos Fernandes (Salazar Guerreiro), fallecido; Patricio José de Mattos, A. Feliciano Corrêa, tambem fallecidos; J. Rodrigues Chaves (actor, ainda vivo), Ernesto Cesar dos Santos, J. Cordeiro (fallecido) e F. Napoleão da Victoria.
O _Pianinho_,[38] principalmente redigido pelo sr. José Ignacio de Araujo, que ainda floresce com distincção em todos os generos de poesia popular, apesar da sua idade avançada.
_O Cantador Popular_ e o _Fado Novo_, collaborados por P. J. Mattos, A. F. Corrêa, Xavier de Paiva; o Vianna que foi collaborador do _Pimpão_ (_Antonio Vigas_), já fallecidos; e F. Napoleão da Victoria.
_Fado Chic_, _Fado Maritimo_, _Fado dos Jesuitas_, glosas de diversos, limadas por F. Corrêa.
_O Fado Politico_, em que se apreciava a marcha dos partidos.
Ignoro quem fossem os collaboradores.
_O Fado exdruxulo_, para piano e guitarra, de Salazar Guerreiro.
_Cantigas do Fado_, de Luiz de Araujo.
Apenas vi a 3.ª edição, que é de 1881.
Outra collecção editada por Casimiro Baptista.
Appareceram alguns _Fados_ licenciosos, que a policia apprehendeu.
N’este genero tem-se publicado a _Guitarrinha innocente_ (innocente por antiphrase, é claro) e o _Almanach do Fado brejeiro_, _Fado da Padralhada_, etc.
Dá perfeita ideia do gosto com que o _Fado_ se ia generalisando, o seguinte mote publicado em um dos folhetos que deixamos mencionados:
Se isto assim continuar, Onde irá parar não sei! Veremos andar pela rua De guitarra o proprio rei.
Começaram a apparecer almanachs de cantigas do _Fado_, para acompanhar e satisfazer o gosto publico:
_Almanach do Cantador_ (1871). Editor, Verol Junior.
_Almanach do bom fadista_ (1875), de Joaquim José de Mattos, já fallecido.
_Almanach dos bons Fadinhos._ Editor, Verol Junior, Está publicado o de 1902.
_Almanach dos cantadores._ Editor, F. Silva, rua de Santo Antão. No 6.º anno.
_Almanach dos fados das salas._ Editor, o mesmo F. Silva.
Quasi todos os almanachs populares, para obter maior acceitação, não deixam de conter alguns _Fados_.
O da _Terra e mar_, para o anno de 1902, insere, por exemplo, o _Fadinho da cerração do mar_ e o das _Duas fragatas_.
Tambem o sr. Verol Junior iniciou o _Almanach da Severa_, a que mais de espaço nos referiremos.
Os fadistas classificam os _Fados_ segundo os assumptos que n’elles são tratados.
Assim dizem:
_Fados á terra_ (assumptos terrestres).
_Fados ao mar_ (assumptos maritimos).
_Fados á campa_[39] (assumptos funebres).
_Fados á Escriptura_ (assumptos biblicos).
Tambem pertencem ao genero _Fados_ as «Cantigas a atirar», ou de provocação e despique.
Conheço uma publicação exclusivamente dedicada a esta especie de _Fados_. Intitula-se _Cantigas a atirar, Fadinhos para quem fôr pimpão_. Por um _fadista de pé leve_. Lisboa, Typographia Luso-Britannica, 1873.
E conheço muitas outras cantigas da mesma especie espalhadas pelos diversos almanachs de _Fados_.
Exemplo de «cantiga a atirar»:
_Venha o diabo á escolha, Não sei qual mais approvar; Que tu a cantar fadinhos És mesmo um gato a miar_.
Amigo, por compaixão, Não estafes esta gente, Que sabe perfeitamente Qual a tua presumpção: P’ra nossa satisfação Mette na bôcca uma rolha; Assim escondes a _bolha_ E passas por mais sensato: Entre a tua e a voz do gato _Venha o diabo á escolha_.
Quem nos ouvidos soffrer Do teu canto o som bravio, Sentirá um arrepio E febre julgará ter. D’um caldeireiro o bater É custoso de aturar; Inda assim se o comparar Á tua voz desabrida, Não sei por qual me decida, _Não sei qual mais approvar_.
Os cães á lua ladrando, Os burros a darem zurros, Os leões soltando urros, Corvos aos mil crocitando; Todos vão atordoando Os ouvidos, coitadinhos! Mas não sei se estes brutinhos (Sem pretenções a encantar) São menos de apoquentar _Que tu a cantar fadinhos_
Deixa essa balda ruim, Não te mettas a finorio, Se não queres que o auditorio Te rogue pragas sem fim. Vae-te já com tal _chinfrim_ De cantigas p’ra enfadar; Não tens voz para cantar, Jamais serás cantador, Porque, sem tirar nem pôr, _És mesmo um gato a miar_
Outro:
_Quando ás vezes a mostarda Chegar sinto ao meu nariz, Tenho cá um vinagrinho P’ra os piar no almofariz._
Suas basofias insanas Pôem-lhe os queixos em perigo; Se me conhecesse, amigo, Deixaria essas _lampanas_; Metto-o no rol dos parranas, Apesar de vestir farda... Tambem traz o burro albarda E eu não tenho medo d’ella. É bom fazer-se de vella _Quando ás vezes a mostarda_...
Se você, seu borra-botas, De ser valente tem fama, Eu já fiz lá para Alfama, Fugir duzias de janotas; Não sou de soffrer chacotas, Repare bem no que diz: Nem dez policias civis Me põem na casa da guarda Quando cá certa mostarda _Chegar sinto ao meu nariz_!
Seu palerma atrevidete, Pergunte aqui e acolá, Depois logo saberá A firma com quem se mette!... Se p’ra traz lanço o barrete E torço um pouco o focinho, Vae tudo por mau caminho, Porque nunca fui dos mansos; E p’ra dar ensino a _tanços_ _Tenho cá um vinagrinho_...
Saiba você, seu marau, Meu senhor, rei dos pandilhas, Que vae parar a Cacilhas Se lhe atiro um chimbalau. Vou fazer-lhe o catatau, Se o que disse não desdiz. Se tem dó do seu nariz Perca as basofias insanas, Porque me não faltam ganas _P’ra o pisar no almofariz_.
Nas provincias do norte tambem ha certamens poeticos entre a gente do povo, especialmente no Minho. É o que lá chamam «cantar ao desafio.» E nas provincias do sul, fóra da classe dos fadistas, diz-se--cantar á desgarrada. Mas em Lisboa e seus arredores resalta uma profunda differença entre as «cantigas a atirar» e os duellos a verso das outras classes, tanto do norte como do sul.
Começa a avultar a differença na propria designação: _a atirar_.
Esta expressão dá logo ideia de uma classe bulhenta e desordeira, que deseja «ferir» o adversario, em vez de o vencer apenas.
Nos «desafios» e nas «desgarradas» usa-se geralmente a quadra; nas «cantigas a atirar», a décima.
É a influencia da fórma estrophica do _Fado_ com seu mote e suas glosas.
A disputa assenta sobre a competencia ou incompetencia para cantar _Fadinhos_; póde o adversario ser um rouxinol, mas se não entrar bem no rythmo do _Fado_, é peior do que um cão a ladrar, na opinião dos fadistas seus pares.
Toda a pimponice do fadista se arreganha nas «cantigas a atirar.»
A si mesmo se exalta, elle, na recordação das suas grandes «zaragatas» em Alfama e Mouraria:
Eu já fiz lá para Alfama Fugir duzias de janotas.
Desvanece-se de afugentar os janotas e de «resistir á policia»:
Nem dez policias civis Me põem na casa da guarda.
É a prosapia do «bailhão,» o mais desordeiro e implicante dos fadistas; como quem diz a «quinta essencia» da classe.
Tem seus _Fados_ especiaes, o «bailhão». Celebra-se a si mesmo; canta a sua _Odyssea_.
Ha familias, dynastias de bailhões, que se fazem temer: dizem-no estas glosas, que são paginas de auto-biographia:
Quando as costellas n’um feixe O amigo ao outro fazia, E allumiava a Mouraria A luz do azeite de peixe; (Não é mau que isto se deixe Escripto como passou) Alto nome conquistou Meu avô, pae do barulho; E, eu o digo com orgulho, _Bailhão foi o meu avó_!
Pimpões em cantar mil fados Nos sujos becos d’Alfama, Meus manos tiveram fama, Dando baixa de soldados. Mesmo p’la pinga azoinados Ninguem lhes dava _bananos_. Um d’elles fazia abanos, Outro fazia gaiolas, E ambos de finas escolas _Foram bailhões os meus manos_...
Com familia tão _honrada_, Seria grande desgraça Que eu desdissesse da raça Que sahiu tão apurada! Mas, sem basofia e sem nada, Direi que mais se apurou. Sabei, de pêtas não sou, E presto culto á verdade, Quando digo á sociedade: _O rei dos bailhões eu sou_.
E, quanto ás proprias proezas, continuando as tradições de familia:
Tenho armazem de cantigas, O que se chama o _beijinho_, E por mim dão o beicinho As mais bellas raparigas; Não me tem faltado as brigas Em que sempre fui pimpão; Tenho dado ao escrivão Boa quantia em metal... Já disse a um juiz criminal: _Eu sou fadista bailhão_.
Quando o _bailhão_, nas «cantigas a atirar», arremessa para a nuca o barrete preto, que no trajo da classe toma a alternativa do chapéu de aba direita, é tremer d’elle: está disposto a ir passar uma temporada ao Limoeiro:
Se p’ra traz lanço o barrete E torço um pouco o focinho, Vai tudo por mau caminho.
É o caminho da cadeia ou do degredo.
As «cantigas a atirar» não se confundem, pois, nem pelo texto, nem pela forma, com os «desafios» do norte e com as «desgarradas» do sul.
São o proprio _Fado_ n’uma intenção provocante, de «zaragata» e de facada.
NOTAS DE RODAPÉ:
[16] _Galeria de figuras portuguezas_, pag. 112.
[17] Uma vaga tradição alfacinha diz que o fadista se deu por orgulho de classe a designação de faia, medindo-se, vaidosamente, com o aprumo e elegancia da arvore d’este nome.
[18] De faia.
[19] Bailarim, por comparação. O que pula jogando a navalha, _risca_, _faz escovinhas_, _bate o Fado_, etc.
[20] _Epopeas da raça mosarabe_, pag. 321.
[21] Antigos bandidos dos Pyrenéos.
[22] Allusão á _Bisnaga escolastica_.
[23] A Penha de França, segundo a _Agostinheida_; a Cotovia, segundo a _Bisnaga_. Em ambas estas eminencias, tanto ao oriente como ao poente da cidade, se feriam as batalhas garotaes. A Penha era reducto para os garotos de Alfama; e a Cotovia para os do Bairro Alto.
[24] Corpos pesados, ordinariamente pedra ou ferro, que os pescadores empregam para fundear os seus barcos.
[25] Sáfea, segundo a graphia de Gil Vicente. Reles, despresivel.
[26] Rancho de rapazes inuteis; vadios.
[27] N’outra publicação contra o padre José Agostinho, diz Pato Moniz, mais claramente, que o _General Luneta_ era D. Thomaz de Almeida, e que o general do _exercito_ opposto era «um preto caiandeiro.»
[28] N.º 2. 1889.
[29] Camillo, no _Eusebio Macario_.
[30] L. A. Palmeirim, _Os excentricos do meu tempo_, pag. 263.
[31] Esta decima, tendo por assignatura trez XXX, appareceu publicada no _Almanach de lembranças_ para 1861.
[32] São fornecidas pelo Maia as seguintes relações, aliás um pouco baralhadas chronologicamente, de cultores do _Fado_.
Tocadores mais celebres:
Palmella, Maggyoli, José Vinagre, Thomaz do Bairro Alto, Francisco d’Alcochete, Antonio dos Fosforos, Constantino Marceneiro, Antonio, Manuel e José Casaca, João Maria dos Anjos, Paulo Pereira, Luiz Petrolino, Thomaz Ribeiro, Robles, Reynaldo Varella, Alberto Lima, Julio Silva Carvalhinho, Chico Padeiro, Carmo Dias, Julio Silva (Ourives), João da Preta, Palhetas. (Não deve esquecer o proprio Maia.)
_Cantadores mais celebres_: José Maior, Saldanha, José Carlos, José Borrêgo, José Petiz, Calcinhas, Pae Antonio, Patusquinho, Campanudo, Damas, José Maria Artilheiro, Sapateirinho, Batata d’Adiça, João da Matta, Isidoro Pataquinho, Serrano da Graça, Manuel Serpa, Russo do Chafariz, Manuel da Motta, Jorge Caldeireiro, Eduardo, Brazileiro, Manuel Serpa, Rosa Sapateiro, Carlos Arintho, Sepulveda, José Carlos, Zé Um, Luiz Palhinhas, José Cecilio, Chico Plainudo, Chico Torneiro, Ginguinha.
Antigos fabricantes de guitarras: mestre Jeronymo, largo da Annunciada; José Pedro o Mudo, Paço do Bemformoso; Manuel Guitarreiro, largo da Esperança; João Ramella, calçada dos Caldas.
[33] «Quando Taborda cantava na comediasita _Ditoso fado_ algumas quadras á viola (aliás guitarra) o publico em altos gritos pedia mais, e mais, e mais, e o grande, o incomparavel Taborda entoava centenas de quadras entre applausos.» Julio de Castilho, _Amores de Vieira Lusitano_, pag. 127.
[34] Esta palavra tem-se graphado em portuguez dos seguintes modos: _lundu_, _lundum_, _landum_, _londum_.
[35] Marquez de Ficalho.
[36] Conde de Vimioso.
[37] _Lisboa na rua_, pag. 167 e seg.
[38] _Pianinho_ é outro synonymo da guitarra, em calão fadista.
[39] Ultimamente publicou-se uma collecção de _Fados infernaes_, em que se encontram «Fados á campa».
III
Os assumptos do Fado
O fadista, como já vimos a respeito do «bailhão», não deixa o seu credito por mãos alheias.
Pouco lhe importa que os litteratos o descrevam; descreve-se elle a si mesmo, propagando uma litteratura, que é d’elle ou feita para elle, e que lhe dá celebridade.
Essa litteratura é o _Fado_.
O fadista canta as outras classes; tão tolo seria elle que não cantasse a classe a que pertence.
Ha _Fados_ que o descrevem na vida e na morte, no prazer e no azar, em liberdade e no Limoeiro.
A conjugação de todos esses _Fados_, dá, completa e integra, a vida do fadista.
Na vida
_O fadista na taverna Passa a vida socegada; A um gesto da prostituta Vae dar n’outro uma facada._
Chame-se embora immoral Á vidinha do fadista, Das _boas vidas_ na lista Não se conhece outra igual. Trabalho não lhe faz mal, O andar não lhe cança a perna, Tem ao lado a amante terna Cheia de doce carinho, E tem sempre muito vinho _O fadista na taverna_.
Quando diz o fadistinha Que não tem dinheiro, um dia, O tasqueiro logo lhe fia Porque... o medo guarda a vinha. Porque elle usa a navalhinha Sempre de ponta afiada, E a barriguinha adorada Não póde estar no seguro... O fadista, pois, o puro, _Passa a vida socegada_.
Do lupanar para a tasca Anda sempre a passeiar, Com a _esbelta_ amante a par, A quem forte e feio _casca_. Ás vezes arma borrasca Por ciumes com que lucta, E arruma pancada bruta, Ou leva p’ra seu tabaco, Só dando parte de fraco _A um gesto da prostituta_.
Se a amante não tem dinheiro E deve á contrabandista, Então o heroe, o fadista, Trabalha... de ratoneiro. E se vae p’r’o Limoeiro, Lá vae soccorrel-o a amada; E ao voltar á vida airada, Os bolsos trazendo fracos, Até por quatro patacos _Vae dar n’outro uma facada_.
Na morte
_Vou despedir-me da vida, Ao som da banza sonora; P’r’a derradeira cantiga Dá-me, ó musa, um quarto d’hora_
Parte alegre o cantador, Ouvindo o estylo do Fado, Para o logar onde é dado, Aos bons o justo valor. Mas antes que o teu rancor, Ó parca vil, destemida, No coração cave a f’rida E d’agonia os tormentos: Ao som de tristes lamentos _Vou despedir-me da vida_.
A fragil voz não levanto, P’ra cantar minhas proezas: Não vou relatar emprezas, Que a todos causem espanto. O que ora incita o meu canto Para essa turba que chora, N’esta pequena demora Que peço ao Deus das verdades, É dictar minhas vontades _Ao som da banza sonora_.
Não quero sinos plangentes, Nem pompa mal empregada; Só quero em cova apartada Dormir o somno dos crentes. Que um d’esses faias valentes Que Portugal hoje abriga, Empunhando a banza amiga Me faça a necrologia. Bem vêdes. Não ha folia _P’r’a derradeira cantiga_.
Na minha campa, gravado. Seja visto este lettreiro: «_--Dorme aqui faia brégeiro_ «_Que soube cumprir o fado._» Sinto-me, ó faias, cançado, Vou partir sem mais demora. Deixem-me só; vão-se embora Sem pranto nem algazarra, Mas p’ra que eu beije a guitarra _Dá-me, ó musa, um quarto d’hora_.
Testamento do fadista
_Deixo a guitarra á Joanna, Quatro beijos á Francisca, Deixo á Thomazia uma praga E o baralho para a bisca._
’Stou no ultimo momento, Dentro em pouco... era uma vez. E, portanto, oiçam vocês Qual é o meu testamento --O Constancio, toma assento Á banca que já abana; Não faças lettra parrana Como o teu irmão Calixto, E começa por pôr isto: _Deixo a guitarra á Joanna_.
Á Marianna d’Aliça Deixo as de panno mui fino Calças de bocca de sino E o collete de ir á missa. Deixo á Josepha Carriça Um vintem para uma isca; Á Bonifacia Lambisca Deixo-lhe um chapeu de côco; Á Felicia deixo um sôcco, _Quatro beijos á Francisca_.
Deixo o gato que anda côxo Á brejeirota Maria, Que sempre quando eu pedia, Não faltava a dar-me um chôcho; Um canapé e um mocho Deixo á Joaquina gaga; Deixo á Brites Bestiaga O meu luzente _cachucho_; Deixo á Anna um ai machucho. _Deixo á Thomazia uma praga._
Á Adelaide do olho torto, Fadista de boa pinta, Deixo a minha linda cinta Que mandei comprar ao Porto; Deixo, para seu conforto, Um litro á Lucia Petisca; Á Cunegundes Arisca, Que canta ás mil maravilhas, Dois tachos, quatro rodilhas _E o baralho para a bisca_.
A guitarra é o porta-voz do fadista. O calão é a sua linguagem. O _Fado_ é a sua eloquencia, a sua poesia.
Por isso elle se mostra reconhecido ao inventor da guitarra, cuja estatua desejaria erigir na praça publica, como se se tratasse d’um heroe.
Mas, não o podendo conseguir, quer ao menos levantar-lhe um monumento com as melhores canções de todos os cantadores do _Fado_, o que faz lembrar a lenda da cortezã Rhodopis, que levantou uma das pyramides do Egypto convidando cada um dos seus amantes a acarretar uma pedra.
_Da suavissima guitarra Quem seria o inventor? Qu’ria erguer-lhe um monumento, Uma estatua de primor._
Inventaram-se os pianos, As cornetas e os flautins, As flautas, os cornetins E os orgãos ha muitos annos. Mas o saber dos humanos, Do qual tanto ahi se narra, Deu a prova mais bizarra Do seu poder e magia, Inventando a melodia _Da suavissima guitarra_.
Quem se lembrou de fazer As marimbas e as cornetas, Quem inventou as trombetas Não me importa a mim saber: Mas o que me faz arder É não achar um _doutor_, Antiquario sabedor, Em alfarrabios um barra, Que me diga da guitarra _Quem seria o inventor_.
Qu’ria metter nas cantigas O nome d’aquelle heroe, Que no peito me destroe As tristezas inimigas. Qu’ria empregar mil fadigas Cantando-o com todo o alento, E nos mil versos que invento E conservo na memoria, Para sua eterna gloria _Qu’ria erguer-lhe um monumento_:
Um monumento fundado Em cantigas escolhidas, Que seriam muito qu’ridas Pelos amantes do _Fado_. Pediria em alto brado A todo o bom cantador Que me fizesse o favor De poupar parte do cobre, Para erguer a homem tão nobre _Uma estatua de primor_.
Depois da invenção da guitarra, nada parece ao fadista tão admiravel e sublime como o _Fado_ em que elle póde traduzir tudo quanto pensa e sente, toda a expressão da sua alma, toda a synthese da sua existencia.
_Quando ouço qualquer pequena Largar uma piadinha, Sinto logo sensações... De fazer uma escovinha._
Eu gosto da castanhola, E deleita-me a _habanéra_, Idolátro a _penetéra_ Cantada por uma hespanhola; Acho pilheria á _manóla_, Se tem graça e é morena, Que na sua _cantilena_ Nos mostra verbosidade: De a imitar tenho vontade, _Quando ouço qualquer pequena_.
Mas gosto mais do Fadinho Tocado mui mavioso, Por um typo conscencioso, Que trine no _corridinho_; Não posso estar quietinho, Se ouço uma guitarrinha; Dá-me logo vontadinha De entoar uma canção, Se ouço qualquer ratão _Largar uma piadinha_.
Se uma serva de Cupido, Com meiga voz o cantar, Fico-me logo a babar... Mui _peixóla_ e derretido; Sinto-me então decidido, Cá para certas funcções... E n’estas occasiões, Em que o meu ser todo gosa, Cá para coisas ó Rosa... _Sinto logo sensações..._