A triste canção do sul (subsidios para a historia do fado)
Part 1
ALBERTO PIMENTEL
A TRISTE CANÇÃO
DO
SUL
Subsidios para a Historia do Fado
LIVRARIA CENTRAL
DE Gomes de Carvalho EDITOR
158, RUA DA PRATA, 160 LISBOA
ALBERTO PIMENTEL
A triste
canção do sul
(SUBSIDIOS PARA A HISTORIA DO FADO)
LISBOA _LIVRARIA CENTRAL de Gomes de Carvalho, editor_ 158--Rua da Prata--160
1904
LISBOA Typ. de Francisco Luiz Gonçalves 80, Rua do Alecrim, 82
1904
I
Origens do Fado
Os romanos incluiam _Fatum_ na sua mythologia como sendo a vontade expressa não só por Jupiter, mas tambem pelos outros deuzes, em relação ao destino dos homens, das cidades e das nações.
Os nossos diccionaristas mencionam esta etymologia, mas interpretam-n’a sob o ponto de vista do monotheismo.
Assim, o Padre Raphael Bluteau, no _Vocabulario_, diz que, segundo a doutrina de Santo Agostinho e S. Thomaz, Fado é a disposição e providencia divina, que antevê os acontecimentos humanos.
Moraes, encostando-se tambem aos theologos, define Fado dizendo: «é a ordenança que se vê em as coisas por divina providencia.»
De modo que a differença consiste em admittir a vontade de muitos deuzes ou de um só Deus, mas o facto subsiste o mesmo tanto nas religiões polytheistas como nas monotheistas: acredita-se que o destino humano é regulado por uma auctoridade sobre-natural e tem de ser cumprido com indeclinavel sujeição.
Os nossos poetas d’outr’ora (e ainda os modernos) deixaram-se dominar pela crença na fatalidade do destino, cuja infelicidade lamentam como «escravos da sorte.»
Bastará citar o exemplo de Bocage:
Que eu fosse em fim desgraçado Escreveu do Fado a mão; Lei do Fado não se muda; Triste do meu coração!
O nosso povo, á semelhança dos poetas, tem sido sempre fatalista: explica suas faltas e desgraças, e tambem sua boa fortuna, por uma imposição da lei do Fado; no primeiro caso diz: «Estava escripto no livro dos destinos ou «Era Fado; tinha de ser assim»; no segundo caso: «Tive sorte; estou em sorte, etc.»
Mas o nosso povo, com ser fatalista, no que alguns querem ver principalmente um vestigio da influencia arabe, como se o homem não tivesse acreditado sempre, mais ou menos, em todos os tempos e em todos os paizes, n’uma predestinação que lhe é imposta por um Arbitro supremo; o nosso povo, crente na fatalidade da sorte a que tem de obedecer, apenas n’um passado relativamente proximo começou a dar o nome de _Fados_ ás canções que celebram as agruras do destino e a crença na lei irrevogavel do Fado.
A accepção da palavra _Fado_ no sentido de «canção» é relativamente moderna, ou só modernamente passou do calão para o vocabulario geral da lingua e para a technologia musical.
Não apparece era os nossos mais antigos diccionarios: não vem em Bluteau (1712-1721); nem em Santa Rosa de Viterbo (1798).
Nem apparece tambem nas primeiras edições do _Diccionario_ de Moraes (seculo XIX) tanto nas duas que foram revistas pelo auctor como em algumas das que se fizeram depois da sua morte.
O _Diccionario_ de Faria, cuja 1.ª edição é de 1849, não traz, no vocabulo _Fado_, aquella accepção.
É só depois de passada a primeira metade do seculo XIX que a palavra _Fado_ apparece nos diccionarios da lingua com o significado de canção popular, já sanccionado pelo uso commum.
Lacerda, na 4.ª edição, que é de 1874, diz: «Fado, cantiga e dança popular, muito caracteristica e pouco decente: o de Lisboa, o de Coimbra».
Na 5.ª edição, 1879, não altera a definição, mas substitue a palavra Coimbra pela palavra Cascaes.
Na 5.ª edição de Moraes ainda não apparece o vocabulo _Fado_ com a significação de canção ou cantiga. Não pudemos consultar a 6.ª edição. Mas examinamos a 7.ª (1878) e foi n’esta que se nos deparou a accepção que procuravamos: «_Fado_, poema do vulgo, de caracter narrativo, em que se narra uma historia real ou imaginaria de desenlace triste, ou se descrevem os males, a vida de uma certa classe, como no _fado do marujo_, _da freira_, etc. Musica popular, com um rythmo e movimento particular, que se toca ordinariamente na guitarra e que tem por lettra os poemas chamados _fados_.»
Isto pelo que respeita aos diccionarios portuguezes.
Quanto aos estrangeiros, tambem não se encontra no _Glossarium_ de Ducange aquella accepção.
Apenas Freund, no seu diccionario latino, cita os vocabulos _Fatum_ e _Fatus_ como derivações de uma raiz commum, attribuindo a _Fatus_ tanto a significação de _destino_ como de _discurso_, o que justifica a propriedade com que se chama _Fado_ á cantiga, ao _discurso_ em verso que trata do _destino_, conservando-se ainda no Alemtejo a redundancia de dizer _cantigas do Fado_, para designar todas aquellas a que o _destino_ serve de thema.
Nas collecções da Bibliotheca Nacional de Lisboa ha bastantes canções populares, desde 1820 até hoje, mas em nenhuma das mais antigas se encontra a designação de _Fado_.
Intitulam-se «cantigas, romances, modas ou modinhas, etc.»
O _Diccionario erudito_ de Padre João Pacheco (1734-38) traz todas as designações de musicas, canções e danças do seu tempo, mas não menciona os _Fados_.
Nas _Infermidades da lingua, e arte que a ensina a emmudecer para melhorar_, composta pelo dr. Manuel Joseph de Paiva e publicada em 1760, vem arrolado grande numero de palavras e phrases, que o auctor, com excessivo e ás vezes injustificavel escrupulo, pretendia repellir da lingua portugueza, por as julgar indignas e improprias de um vocabulario grave.
Não apparece ahi a palavra _Fadista_; nem a palavra _Fado_ no sentido de canção ou de vida dissoluta.
Mas vem mencionada a palavra _banza_ que nós recebemos das nossas colonias africanas,[1] e que entrou na linguagem de calão d’onde passou para a litteratura humoristica, como se vê nas _Poesias_ de Costa e Silva (1844):
Encostado ás meias portas Na Banza sarrafaçava.
No fim do seculo XVIII a _Gazeta de Lisboa_ annunciava, frequentes vezes, _modinhas_ e _minuetes_, á venda nas lojas dos livreiros. Tambem annunciava _sonatas de guitarra_. Havia em 1792 um _Jornal de modinhas_, que se vendia na Real Fabrica e Impressão de Musica no Largo de Jesus, em Lisboa. O maestro Mr. Marchal, que então teve certa voga n’esta cidade, deu á estampa uma collecção de _minuetes_ e _rondós_. Este mesmo maestro explorava a musica das ruas, glosava os pregões das vendedeiras (por exemplo, _Azeitonas novas_, com variações, peça composta sobre o pregão de uma vendedeira de Lisboa: _Gazeta_ de 26 de fevereiro de 1793). Mas a designação _Fado_ não apparece ainda em nenhum dos annuncios que recommendavam as musicas populares.
Beckford, nas suas cartas sobre Portugal, apenas se refere ás «modinhas», acompanhadas a guitarra.
É que no seculo XVIII a _modinha_ estava em voga no nosso paiz; dominava por toda a parte, até no theatro, onde Antonio José da Silva, o _Judeu_, a aproveitou como elemento essencial das suas composições dramaticas.
Theophilo Braga diz que a modinha, comquanto «seja uma creação musical do genio portuguez» se chamava _brazileira_, porque no Brazil se conservou «levada para ali pelos negociantes e colonos, e do Brazil a trouxe na sua inteireza primitiva Antonio José da Silva, que abandonára a patria aos oito annos de idade e achava n’essas cançonetas uma recordação da infancia.»[2].
Stafford, na _Historia da musica_, diz que as arias nacionaes dos portuguezes eram os _lunduns_ e as _modinhas_; Fétis falla de Hespanha, mas não de Portugal.
Em toda a graciosa collecção da _Macarronea_, que tão pittorescamente retrata a vida academica de Coimbra no seculo XVIII, não ha noticia do _Fado_, mas sim de outras canções que os estudantes cantavam: _mille trovas_, com diz o _Sabonete Delphico_.
Na _Feição á moderna ou logração desmascarada_ vem especificadas algumas d’essas canções, portuguezas e hespanholas: «E logo dareis duas gaitadas, fazendo o compasso com o pé, e seguindo o sonoro com a cabeça. Victor quem canta; lá vae _Bella arma misera_, ou outra da moda; depois entregar a algum curioso o instrumento, sair para o meio com o chapeu na mão a desafiar algum circumstante; dar quatro voltas de pé cambeo, ou bem ou mal, que sempre no fim se-ha de applaudir com catarro. Acabada esta primeira jornada, gritareis dizendo: «Venha doce, que estou esfalfado»; e depois de consolar a barriga comendo doce _usque ad satietatem_, saireis outra vez com o segundo papel lançando uma nesga de relação antiga v. g. do _Mariscal de Viron_, ou _D. Carlos Ozorio_, intimando no furor das acções a valentia, e nos requebros da voz a ternura, cortando o hespanhol como queijo do Alemtejo com faca flamenga, e no fim correspondendo aos vivas com perna trocada.»
Nicolau Tolentino, que morreu em 1811, falla no _doce londum chorado_, nas modinhas brazileiras, cita algumas canções populares, taes como _De saudades morrerei_ e a _Comporta_; diz referindo-se á primeira,
Cantada a vulgar modinha, Que é a dominante agora;
e alludindo á segunda,
Que de noite á sua porta Com famosos tangedores, Que o Talaveiras conforta, Lhe manda ternos amores Sobre as azas da _Comporta_;
mas nem uma unica vez faz menção do _Fado_.
* * * * *
Nenhum dos poetas portuguezes que no seculo XVIII e na primeira metade do seculo XIX se tornaram mais populares emprega a palavra _Fado_ na accepção de canção ou cantiga.
É certo que alguns estrangeiros que n’aquelles seculos, e ainda no anterior, visitaram Portugal, se mostraram impressionados, como lord Beckford, com o tom plangente da musica do nosso povo.
O barão de Lahontan, que esteve em Lisboa no seculo XVII, diz que alta noite vagueavam guitarristas pelas ruas tocando umas _arias funebres como o «De Profundis.»_
Não lhes chama _Fado_, nem podia chamar, porque essa designação não era usada ainda.[3]
O erudito escriptor portuense sr. Rocha Peixoto escreveu no periodico _Nova Alvorada_ um artigo a que deu o titulo de _O cruel e triste fado_ e em que synthetisou a relação psychica existente entre o _Fado_, canção, e a orientação historica do povo portuguez.
«... o fado--pondera esse escriptor--e o que n’elle se diz de sonho, de sombra, de amor, de ciume, de ausencia, de saudade e principalmente de conformação com o cru e negro imperio do destino, eis o que exprime dramaticamente a feição da alma nacional. O fado é portuguez, é toda uma mentalidade, é toda uma Historia».
Apenas o sr. Rocha Peixoto se deixou arrastar por um flagrante anachronismo quando diz que o infante D. Miguel de Bragança _batia o fado_.
Oliveira Martins, que muitas vezes se enredou em salientes anachronismos, foi mais cauteloso quando poz a canção _Negro melro_ na bocca da plebe miguelista.
Certamente que o povo, poeta das ruas, improvisador espontaneo e inconsciente, costumaria cantar em publico as suas desgraças e as da patria, como faziam, em mais alta graduação de merito litterario, os poetas cultos; ou repetiria as trovas d’estes poetas quando ellas exprimiam as dores da existencia individual ou o luto pelas desgraças e dissabores nacionaes.
Sabemos que no seculo XVI se generalisaram na voz do povo as canções que lastimavam a ingente derrota do rei e do exercito em Alcacerquibir. Miguel Leitão de Andrade, na _Miscellanea_, traz uma d’essas canções, lettra e musica, mas dá-lhe o nome de _romance_; e tudo faz crêr na sua origem popular.[4].
A estas «toadas tristissimas» não se chamava _Fados_; nem chamou a nenhuma outra do mesmo genero até depois de 1840.
Hoje ainda os viajantes estrangeiros se impressionam profundamente com a melancolia e dolorida doçura das nossas canções populares, mas já todos as designam pelo nome de _Fados_.
Madame Adam, no seu livro _La patrie portugaise_ (1896), escreve: «Jovens guitarristas, agrupados em bandos, cantam e acompanham o _Fado_, a canção que se traduz pela palavra «Destino» e que é puramente lusitana. Todos os motivos do _Fado_ são portuguezes. Ha _Fados_ para todos os acontecimentos da vida, para o amor, especialmente; e para a politica tambem.»
Tal é o testemunho de uma intelligente e instruida mulher franceza, que reconheceu em os nossos _Fados_ um caracter privativo, uma expressão nacional, a alma de um povo, emfim.
Igual impressão recebeu um viajante hespanhol, que em novembro de 1896 escreveu, no jornal _A Voz do Commercio_, a seguinte apreciação:
«Nada mejor como la música refleja el caracter y la manera de ser especial de los pueblos. Un filósofo aleman decia: daz-me los adagios de un pais cualquiera y la dictaré leyes. Pues bien, yo dispensaria los adagios y me sobraria con la música. España con sus jotas y sus peteneras y Portugal con su rico _fado_ son y serán siempre dos naciones antitéticas. La jota pide luz, castañuelas y vino en jarro. La petenera pide algomas: abrazos de muger que ahoguen, besos que quemen neurosis debilitantes y por encima de todo esto cañnitas de manzanilla bajo el toldo de una parra. En cambio, «_o fado_» pide silencio absoluto, penumbra misteriosa y una cierta dósis de tristeza en el corazon. Con diferencias tan marcadas antojáseme tarea fácil legislar para los dos paises sin mas que consultar cuadernos de música popular.»
Só os escriptores da actualidade, tanto estrangeiros como nacionaes, fazem menção do _Fado_ no sentido de canção popular.
Em um livro de memorias, aliás muito interessante,[5] e relativo á primeira metade do seculo XIX, diz o seu auctor fallando do enthusiasmo com que em Lisboa foi recebida a _Polka_:
«Não só desthronou o _Solo inglez_, e fez prescrever a _Gavota_, como contribuiu tambem para a emigração do _Pirolito_--da _Maria Cachucha_--do _Beijo á Saloia_--do _Rei Chegou_ e do _Passarinho Trigueiro_. Creio mesmo que só então deixou de cantar-se a antiga e popular romança--_A Nau Cathrineta_, uma especie de--papão vai-te embora--com que os avós, desde o principio do seculo, vinham entretendo os serões e... acalentando os netos.»
Nem uma unica palavra de referencia aos _Fados_.
Mencionando a litteratura de cordel n’essa epoca, diz o mesmo auctor:
«Ali (obras do Arco da rua Augusta) entretinham-me as toscas gravuras, quasi em papel pardo, do _João de Calais_--da _Imperatriz Porcina_--da _Cornelia Bororchia_--e da _Formosa Magalona_, que, á guiza de estendal de roupa, se baloiçavam bifurcadas no cordel que, de lado a lado, se prendia ao tapume com que estava vedada a passagem do Terreiro do Paço para a rua Augusta.»
Tambem nenhuma referencia aos _Fados_, que hoje se vendem em folhetos, muitos d’elles com gravuras toscas (especialmente os que se referem a grandes crimes ou outros acontecimentos de sensação) e que são apregoados nas ruas.
No romance do Padre João Candido de Carvalho (vulgarmente Padre Rabecão) _Eduardo ou os mysterios do Limoeiro_, publicado em 1849, não obstante ser uma chronica muito interessante dos costumes populares de Lisboa n’aquelle tempo, e começar por uma scena de taberna na Madragôa (hoje rua de Vicente Borga) não apparece a palavra _Fado_, comquanto haja uma referencia a _fadista_. É a seguinte:
«Ao canto opposto existia uma outra banca, como para guardar symetria áquella, de que fallei; e sentado a ella estava um mancebo de 19 a 20 annos, de jaqueta, chapeu á christina, cinta de seda enrolada á _fadista_, calça de cotim enlameada, fumando no seu charuto de cinco réis, que accendia repetidas vezes, emquanto acompanhava as fumaças com outros tantos gollos de uma bebida quente que tinha mandado preparar por mais de uma vez, e em cada vez, que a pedia por ter esgotado o copo, repetia--_Oh patrão! dê-me outra Francisquinha._»
É o typo do _Fadista_, descripto em 1849, a beber vinho na taberna, usando do calão e do traje da sua classe. Mas o Padre Rabecão, que viu o _Fadista_, não ouviu o _Fado_, nem a elle se refere nunca em nenhum dos quatro tomos do seu romance.
Este facto leva-nos a formular uma hypothese, que opportunamente desenvolveremos.
Tem-se dito muitas vezes que a origem dos nossos _Fados_ é arabe.
Theophilo Braga inclina-se a esta opinião quando diz «que os cantos conhecidos pelo nome de _Huda_, pelo Arcipreste de Hita, são ainda os nossos _Fados_, que usados pelos tropeiros do Brazil coincidem com a descripção feita pelo arabista Caussin de Perceval.»[6]
O Arcipreste de Hita, de que Theophilo Braga deu varias composições no jornal litterario _Era Nova_ e de que Amador de los Rios faz menção na _Historia critica da litteratura hespanhola_, compoz cantigas para cegos andantes e para tunas escolares; parecendo que tambem escrevera canções populares em arabe, o que aliás é contestado por alguns escriptores.
Mas, como quer que seja, obedeceu manifestamente á influencia arabe, ainda quando se dè por assente que não chegou a escrever n’esta lingua alguns dos seus cantares.
Theophilo Braga, filiando nos _Hudas_ os nossos _Fados_, acceita-os, pelo menos, como um vestigio d’aquella mesma influencia.
E é ainda mais explicito quando diz: «As danças portuguezas participam dos caracteres provenientes da nossa situação: sensuaes, como os _Fados_, os _Batuques_ recebidos dos arabes e das possessões africanas, e as _Modinhas_ recebidas das colonias do Brazil.»[7]
É verdade que nas _Epopeas da raça mosarabe_[8] fallando da xácara, usada pelos _xaques_ ou ciganos (d’onde veio a denominação _xácara_ ou _xacarandina_) diz que o nosso _Fado_ é «uma degeneração da _xácara_, que pelas transformações sociaes veio a substituir a canção de _gesta_ da idade media.»
Ora nós seguiremos outro caminho; não nos demoraremos a apalpar hypotheses.
Apenas mencionaremos os factos, e o que parece certo é que o _Fado_, tal como hoje o conhecemos, nasceu em Lisboa, depois da primeira metade do seculo XIX, e que d’aqui irradiou para as provincias, apenas com o caracter de «moda» de invenção moderna, o que exclue a hypothese de uma antiga filiação arabe.
O erudito professor Ernesto Vieira, no seu _Diccionario musical_, chegou ás seguintes conclusões, que nos parecem exactas:
1.ᵃ O _Fado_ só é popular em Lisboa: para Coimbra foi levado pelos estudantes, e nem nos arredores d’estas duas cidades elle é usado pelos camponezes, que teem as suas cantigas especiaes e muito differentes.
2.ᵃ Nas provincias do sul, onde os arabes se conservaram por mais tempo e os seus costumes e tradições são ainda hoje mais vivos, o _Fado_ é quasi desconhecido principalmente entre a gente do campo.
3.ᵃ Nenhum livro ou escripto anterior ao actual seculo (XIX) faz a menor referencia a esta musica popular.
4.ᵃ A poesia com que, invariavelmente quasi, se canta o _Fado_ é uma quadra glosada em decimas, forma poetica d’uma antiguidade pouco remota, de uma origem nada popular e sem relação alguma com a poesia arabe.
Effectivamente, o grande fóco de irradiação do _Fado_ é Lisboa; mas a provincia, tanto ao sul como ao norte, apenas o acceitou como um dictame da moda, que não logrou absorver e substituir os cancioneiros provinciaes.
Dá-se com o _Fado_ e com outras canções, que em Lisboa cairam no gosto publico, o mesmo facto que se dá com os figurinos, as _toilettes_, cujo modelo a capital exporta para o interior do paiz: apparecem na provincia alguns exemplares, mas a maneira de vestir propria de cada região continúa subsistindo tradicionalmente.
Os _Fados_ chegaram a Coimbra levados pelos estudantes, como diz Ernesto Vieira; e ao Minho, levados, como diz Camillo, pelos jovens fidalgos que mais ou menos frequentavam a capital e queriam ir dar-se ares extravagantes de marialvas e fadistas nas suas terras.
Tambem foi Lisboa que exportou o _Fado_ para as provincias ultramarinas.
Ha o _Fado de Loanda_, composto sobre motivos de cantos indigenas por um _maestro_ angolense, já fallecido, que veio á Europa estudar musica por conta da sua provincia.
Não deve passar sem reparo o facto de Lacerda, na 4.ᵃ edição do seu _Diccionario_, feita em 1874, ter citado o _Fado_ de Lisboa e o de Coimbra; e de na 5.ᵃ edição, de 1879, ter substituido--Coimbra--por--Cascaes.
Esta alteração corresponde certamente a um facto chronologico: é que a praia de Cascaes, mais proxima de Lisboa que a cidade de Coimbra, deve ter recebido o _Fado_ por contacto directo com os marialvas e fadistas da capital.
Coimbra recebeu-o mais lentamente, levado por um ou outro estudante do sul em gerações successivas.
A guitarra e o _Fado_ tiveram que luctar, nas serenatas da academia, com a tradição do «machinho», de que tanto se falla na _Macarronea_, e da viola; e com as canções amorosas ou populares, que estavam arraigadas nos costumes coimbrãos.[9]
José Doria ficou celebre como tocador de viola.
João de Deus, que era algarvio, e tinha, por isso, que passar algumas vezes em Lisboa, dava lindas serenatas de viola no Penedo da Saudade, cantando improvisos seus ou canções do povo, mas não tinha sympathias pelo _Fado_. Elle mesmo o confessa: «nunca pensei em _Fado_, nunca o apreciei, nem o toquei: liguei-o desde o principio ás mulheres de má vida, e de ahi a minha especie de aversão a tal musica; mas, aqui, ouvindo-o a estudantes, não me repugnou fazer-lhe umas tantas quadrinhas, e continuar-se-ha...»[10]
Depois, na vida de Lisboa, familiarisou-se com a guitarra e, portanto, com o _Fado_, a tal ponto que estudou um systema de melhorar a pontuação das guitarras.[11]
João de Deus diz, como vimos, ter composto «umas tantas quadrinhas» para serem cantadas com o acompanhamento de algum _Fado_.
É certo que os _Fados_ á morte da Severa, e alguns mais, eram em quadras, mas depois o povo adoptou outra forma estrophica. A quadra, no _Fado_, veio modernamente de Coimbra e foi o estudante Hilario que lhe deu grande voga cantando quadras compostas por elle ou outros poetas.
A lettra do _Fado_, na tradição popular, como nota Ernesto Vieira, é talhada nos moldes arcadicos do mote em quadras e da glosa em decimas.
Esta tradição mantem-se ainda entre o povo de Lisboa nos _Fados_ que se vendem nos kiosques (que substituiram o muro, o cordel e o cego andante) e em alguma livraria, como, por exemplo, a de Verol Junior na rua Augusta.
Apenas o _Fado_ litterario admitte a quadra em vez da decima.
Mas o _Fado_, apesar da dupla aristocratisação que tem recebido dos poetas e das salas, denuncia a sua origem popular, a alma do povo que o canta.
É nas ruas, nas tabernas e nos bordeis que o _Fado_ parece nascer, espontaneamente, como nascem certas flôres nos charcos: a _Pontederia crassula_, por exemplo, que é uma linda flor azul.
Em geral a lettra dos _Fados_ justifica a etymologia, porque celebra as desgraças de um individuo ou de uma classe, mas ha casos em que a lettra, por glosar um assumpto alegre ou malicioso, briga com a toada dolente da guitarra.
A musica, o acompanhamento, é sempre triste, como um ecco da alma do povo, ingenua e soffredora, que, pela sua rudeza, não sabe procurar difficuldades nos effeitos musicaes, contentando-se com uma toada simples e facil, e que, pela amargura do seu destino, está sempre disposta a carpir-se, a lastimar-se.
A lettra do _Fado_ revela a facilidade espontanea da metrificação popular, da redondilha, que é o porta-voz da raça latina da peninsula, e na vivacidade por vezes maliciosa dos conceitos accentua-se a heroica resignação com que nós, os meridionaes, graças á inconstancia do nosso humor, á benignidade do clima e ao azul radioso do ceu, podemos afogar as nossas lagrimas no desabafo redemptor de um sorriso amargo...
Assim é que nas cantigas do _Fado_ os assumptos mais tristes são temperados por um sabor picante de ironia, que lhes adelgaça o azedume, como, por exemplo, quando o _marinheiro_ conta a sua vida, ao som da guitarra, sorrindo e zombando do seu proprio destino:
Para o almoço feijão, Ao jantar bolacha dura; Nem uma só vez sequer Pode beber agua pura.