A Senhora Viscondessa

Chapter 6

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O orvalho vem do céu á terra; as lagrimas sóbem da terra ao céu.

Mulher que chora, é mulher que sabe amar.

Porque muito chorou, perdoou Christo á Magdalena do Evangelho.

As lagrimas são como o balsamo: retemperam e dulcificam.

Felizes os que sabem chorar!

A creança é como a aurora: ambas choram e ambas alegram.

Em pranto de mulher não se póde crêr--diz o rifão.

Será verdade que ás lagrimas dos olhos nem sempre correspondem as lagrimas do coração?

Chorar sempre é chorar--affirma um poeta e com razão.

Nada mais facil do que calumniar uma mulher. A nossa sociedade está colmada de espadachins. Todos os nossos rapazes se apresentam com ares de Juans Tenorios in _nomine_. Todos têm aventuras a contar. Poucos ha que se não julguem com direito a insultar as mulheres, coitadas! que, em verdade, pouco mais têm do que muita paciencia para os aturar.

As lagrimas, em espiritos delicados, são uma necessidade dos seus corações privilegiados. Não ha odio que ás lagrimas não cêda.

A Viscondessa via fugir-lhe a felicidade. Chorava.

A esposa tambem chora, ao ver desapparecer o navio, que, ao longe, lhe conduz o esposo querido.

Santas e doces lagrimas, que tantas vezes tendes suavisado sobre a terra os intimos e dolorosos soffrimentos, como é grandioso o vosso poder!

E vós mesmos, ó scepticos mascarados, que tão estupida e egoistamente sabeis illudir as pobres victimas da vossa stulticia--dizei-nos--em quantos escriptos, arrancados a corações honestos e indefesos, não tendes vós encontrado o vestigio de uma lagrima?

Não ha sympathia que pela lagrima não brote e se enraize.

A lagrima é como um lago, na serenidade do seu correr e no reflectir das suas imagens.

Para esse sangue d'alma--na suave expressão de um poeta--apenas ha um remedio--a consolação.

A Viscondessa chorava e continuava indecisa.

Semelhante a um arbusto, que, açoutado pelo vento, deixa cahir sobre a terra o orvalho; assim a Viscondessa, ao dar accôrdo de si, deixou cahir no seu candido seio as perolas consoladoras do seu espirito.

Bemaventuradas perolas! e oxalá que todos assim as tivessem!...

XXX

Glorias do operario

Entretanto o nosso operario, agora já transformado em negociante, vai seguindo o seu caminho, a despeito da intriga e da inveja, com que a sociedade, em geral, costuma premiar o trabalho e a honradez.

Julio, retemperado no cadinho dos grandes soffrimentos, fizera-se homem repentinamente. Julgando apagada a imagem da Viscondessa no seu espirito, dedicou-se ao trabalho com fervôr. Levantava-se habitualmente ás seis horas da manhã, ia receber as ordens da sr.^a Felisbella, e partia. Só regressava a casa ás oito ou nove da noite, hora em que elle tomava chá. E este programma, assim praticado, com a regularidade de um pendulo de relogio, poucas vezes era transgredido, a não ser n'um ou outro domingo.

A mercearia prosperara a olhos vistos. Diziam os freguezes, e com razão, que a bôa alma de Francisco Alves em nada ficára a dever ao sr. José Xavier.

Além da loja tinha, porém, Julio um escriptorio de commissões maritimas, de cuja responsabilidade auferia annualmente sólidos e lucrativos interesses.

Em poucos annos adquirira Julio o senso pratico, tão prudente, como indispensavel nas cousas da vida. O nome de José Xavier acreditara-se solidamente na _praça do commercio_. Muitos invejavam já a fortuna do mercieiro; muitos o calumniavam tambem. Entretanto Julio, com aquelle orgulho que só a consciencia sabe dar, era invariavel, senão implacavel, na missão que voluntariamente se imposera.

Um dia apparecera-lhe na loja um conhecido, parasita do Chiado.

--Desejo fallar ao sr. José Xavier, começou o _Maryalva_.

--Um seu creado, respondeu Julio.

O recem-vindo descobriu-se solemnemente.

--Um negocio importante me traz aqui, continuou. Acabo de saber por um amigo intimo que é V. Ex.^a não só um dos mais generosos cavalheiros d'esta cidade, senão tambem que são brilhantes as qualidades que adornam o elevado espirito de V. Ex.^a...

--Bem! e depois..., interrompeu o mercieiro.

--E depois, precisando eu de dinheiro, estou certo que V. Ex.^a m'o não negará...

--A outra porta, amigo, rematou Julio.

--Sempre é bem malcreado..., rosnou o pretendente.

E sahiu.

Com estes factos, porém, contrastavam outros, dignos do maior elogio.

Amanhecera-lhe um mendigo á porta do escriptorio.

--Que quer aqui?, perguntou Julio.

--Eu senhor, sou pobre, não tenho cama, nem pão...--respondeu o desgraçado.

E Julio, tirando uma libra do bolso, disse:

--Póde procurar-me todos os mezes para receber egual quantia.

E seguiu para o trabalho.

Julio transformára-se, pois, n'um homem severo, sem as paixões que arrebatam, nem os egoismos que offendem. Á parte a propria felicidade e a da sr.^a Felisbella, a quem elle tratava por mãe, pouco mais lhe interessava n'este mundo.

Com a convivencia dos homens tornara-se concentrado, desconfiando de tudo e de todos. Advogando de preferencia os proprios interesses, era, todavia, generoso, para quem o devia ser.

Os pobres conheciam-no de longe. E Deus abençoava-lhe as acções, tornando-o um homem rico, forte e corajoso.

XXXI

O que faz o talento

Uns sóbem e outros descem: é a roda do mundo. Á dos alcatruzes se similha, segundo Sá de Miranda: uns para baixo, outros para cima, uns cheios, outros vazios.

A vontade conduz á felicidade. Homem que sabe querer é homem de talento ordinariamente.

O talento, por si, deixará de ser uma superioridade; quando a egualdade, sob o mesmo grau, nivelar a educação e a instrucção.

O talento, comtudo, é variavel e complexo: para uns, ter talento é saber grangear fortuna; para outros, é saber escrever e orar e discutir; para outros ainda, o talento cifra-se na gravidade da apparencia, e no modo austero da vida.

A mulher resume por via de regra o seu talento n'um olhar profundo, num sorriso angelico e n'um espirito facilmente maleavel e insinuante.

A educação faz com que só o homem se ostente em meio do viver social.

A mulher tem uma esphera limitada: o seu mundo é a familia; a sua convivencia o marido, os filhos, os parentes e os creados. Porisso se crê, embora erradamente, que só ao homem aprouve Deus conceder o talento.

A curiosidade é a fonte, não só da sciencia, em geral, como tambem de toda a humana descoberta. Ora a mulher é sobretudo curiosa. D'aqui a sua aptidão para todo e qualquer ramo da actividade social.

Somos pela emancipação da mulher. Desejára-mos vel-a ao lado de um doente, consolando-o e distrahindo-o; desejáramos que as creanças recebessem d'ella os primeiros rudimentos da linguagem; desejáramos, é verdade, que por ella fossem exercidos muitos dos mesteres da vida: mas, a par de tudo isto, somos abertamente contra a sua emancipação politica.

O talento não tem sexo. Ante a critica, ante a illustração, ante o bom-senso, todos somos eguaes.

Joanna d'Arc, o typo da virilidade e do patriotismo, é por ventura tamanha como Victor-Hugo, o grande, Victor-Hugo, o humanitario; George Sand cathedra á altura de Byron, o primeiro poeta do universo.

Para que hesitar, pois? Onde o direito de menospresar aquillo que, ao contrario, e em consciencia, devêramos santificar?

O que perde o homem é o orgulho, quando não é a inveja. A par de tantas ambições vale-nos a preguiça, que as domina e refreia.

Porque subira Julio? que força occulta o tornava sympathico e favorecido da fortuna?

Perguntae á felicidade quem a creou, quem lhe deu origem, quem a tornou forte e independente!

O acaso é, muitas vezes, e sem o sabermos, a causa da nossa ventura e das nossas acções.

Mas o acaso não é cego. Depende de uma certa presciencia do futuro.

Julio era modesto, primeiro titulo de recommendação. A modestia torna sympathicos o talento e a virtude.

Depois, havia n'elle o bom-senso de esperar com resignação tudo o que, durante a vida, lhe podesse sobrevir. Nada o surprehendia. Estava sempre prompto para qualquer eventualidade, fosse ella de que natureza fosse.

Tinha, portanto, a rara sciencia de conciliar com a prudencia o bom-senso.

Porisso tambem subiu, e porisso tambem subirão todos aquelles que assim procederem.

O mundo depende de geito, apenas. Tão despresiveis são os demasiadamente Catões como os demasiadamente relaxados.

No meio-termo está a lei de toda a sociedade humana.

XXXII

Vestigios e ruinas

Similhante a um velho castello roqueiro, coberto de hera e parietarias, assim Alfredo vivia, doente, sem dinheiro, arruinado, mas generoso no fundo.

O seu fato preto, invariavel em todas as estações do anno, principiara de tornar-se velho e esverdeado pela acção corrosiva das chuvas doentias e dos sóes abrasadores. A camelia desapparecera-lhe para sempre do seu logar habitual. Emfim Alfredo, esgotados os derradeiros recursos patrimoniaes, era mais um authomato da indigencia, do que verdadeiramente um homem de espirito, critico e mordaz, qual n'outros tempos o havia sido.

A sua extrema liberalidade, com os donos dos restaurantes e cafés, fez com que, ainda durante algum tempo, elle podesse frequentar gratuitamente estas casas. Passados mezes, porém, os donos dos botequins, attentando-lhe nas botas rotas e nas calças fragmentadas, quasi o despediram de vez, mostrando-lhe uma má e feia catadura.

Em tão afflictivo lance recorreu aos camaradas d'outr'ora. Nenhum delles apparecia já. Todos--e cada um por sua vez,--o tentavam afastar.

Finalmente Alfredo, envergonhado de si e enfastiado do mundo, só de noite apparecia. Evitando os credores, e cosendo-se com a sombra das paredes, elle, o filho da luz e do magnetismo da vida, sollictou dos amigos o pão ázimo da desventura. Á sahida dos theatros--pois que em casa difficilmente os encontrava--esperava resignadamente a turba jubilosa dos espectadores conhecidos; por vezes conseguira d'ella uns magros vintens; por vezes tambem lhe sahira mallograda a tentativa.

Lembrou-se da Viscondessa, a quem, por um louco capricho, mentindo, affirmára que partiria para o Brazil. Tudo em vão. O orgulho--desgraçado orgulho!--abafára-lhe no peito esse passo miseravel.

Começou, então, o desalento, como um vidro moido, de consumir-lhe a, já de si, inutil existencia.

N'um momento lucido em que o espectro da fome, esqualido e magro como Satan, se lhe desenhava deante dos olhos com as cem boccas hediondas, Alfredo, a par de um suor glacialmente cortante, experimentou o que jámais e em sua vida experimentára--uma ancia de trabalho, para o qual, em verdade, nunca se sentira predisposto.

Embalde, porém, lhe foram essas visões. Passageiro e ephemero se lhe antolhou o iris da redempção sobre a terra.

Sonharia acaso? Trabalhar... e em que? A intelligencia havia-se-lhe apagado, ao contacto de uma embriaguez quasi habitual. Sentir, era-lhe impossivel, uma vez que do coração nada mais restava, além de uma sensação perfeitamente estupida e material: e vontade, se a tinha, quasi nem já se revelava.

Do rapaz d'outros tempos, galanteador e elegante, apenas restava uma sombra. A barba medrára a esmo. O cabello, cobrindo-lhe a góla do casaco, imprimia-lhe um aspecto singularmente triste e repugnante. Encaral-o de frente o mesmo era que tomal-o por um salteador disfarçado.

Um dia, foi Julio casualmente surprehendido, no seu escriptorio, por esta desgraçada victima de uma exaggerada e dolorosa ociosidade.

--Que me quer? interrogou o negociante.

--Eu, senhor, fui rico, e sou hoje pobre, Em nome da mulher, que ambos amámos, venho pedir-lhe um emprestimo de duzentos mil réis...

--Em nome da mulher que só eu amei e que o senhor perdeu--convido-o a retirar-se d'esta casa.

--Muito bem! uma vez que assim o querem, far-me-hei ladrão--exclamou Alfredo.

E fez-se fabricante de notas falsas.

XXXIII

Causas e motivos

Diz-se geralmente que a humanidade esta enfêrma.

A mocidade padece uma horrivel molestia--o tédio.

A corrupção physica caminha a par da corrupção moral. As aguas são detestaveis; o ar pouco sadio, contaminado de miasmas e de putrefacção. De modo que as nossas cidades modernas são uns verdadeiros sorvedouros de existencias humanas, onde os obitos crescem sobre os nascimentos na razão de um por mil.

Com o movimento das calçadas o pó levantado, introduzindo-se pelos olhos, pela bocca, pelo nariz, é tambem uma causa de lenta, mas real, consumpção.

As phthisicas abundam. As molestias de garganta são quasi geraes. Os homens sentem-se tristes, abatidos, sem espirito e sem vitalidade. As mulheres, na maioria franzinas e chloroticas, arrastam uma vida authomatica, sem consciencia nem utilidade.

Faltam os grandes prazeres do campo, os robustos passeios da caça, as salutares digressões pelos pinheiraes, onde os pulmões se purificam ao contacto do ar resinoso e sadio.

As praias frequentam-se por moda. Toma-se o banho, e vai-se a um salão, eschola de dança e de galanteria. Ninguem pensa em passeiar á beira-mar; e mesmo quando casualmente se passeia pela praia é mais por comprazer do que por uma natural necessidade do organismo.

Ora tanto o mar como o campo são bons pelo resultado, que d'elles se tiram. Não só o corpo, mas tambem o espirito devem tomar parte nos vastos panoramas, nos horisontes limpidos e no vago da natureza.

É verdade que a demasiada concentração póde conduzir a uma nostalgia perigosa; entretanto, entre dois males, é muito preferivel a tristesa, embora sombria e consumidora, á alegria extravagante, brutal e insensata.

Não, meus bons rapases, não é assim que se vive. Vocês são doentes, porque não têm um ideal, um trabalho util, uma missão civilisadora.

De que vos servem os cafés, com os seus jogos de _dominó_?--Antigamente conversava-se, contavam-se anecdotas interessantes, e ria-se a gente com a familia, mas com aquelle bom riso infantil, que é a demonstração de festa e de regosijo. Hoje não. Hoje, como nos bons tempos romanescos, ha a cima de tudo isto o aborrecimento de tudo e por tudo.

Ora, minhas senhoras, se a vida em si é triste, façamos por tornal-a agradavel e util--util sobretudo.

Alfredo era a perfeita imagem do que deixamos dito. A syphilis contaminara-lhe o organismo. Á pobresa de sangue reunira-se a pobresa de espirito.

É o que succede com a maioria dos rapazes: quando chegam a completar um curso estão velhos na intelligencia e gastos no corpo.

Para tamanha molestia um unico remedio ousamos aconselhar:

_--limpeza--_

isto é:

_--campo e mar--_

Que s. s.^as, os senhores facultativos, se não irritem comnosco por tão interessante descoberta.

XXXIV

Latet anguis

A primavera, a doce filha da harmonia e da luz, desentranhava-se em flôres e fructos. Rejubilavam as aves no arvoredo frondente. O céu era azul, limpido. Nem uma nuvem lhe maculava a superficie chrystallina e pura.

Nada mais delicioso do que esta rapida transição de uma estação, agreste e fria, para uma outra agradavel e sympathica. Dir-se-hia que um velho, sulcado do rugas, se metamorphoseára subitamente, como o Fausto, n'um elegante moço, cheio de vida e de aspirações.

As arvores, toucadas de flôr, recebiam das auras vaporosas o amoroso abraço de todos os annos. O sol, dourando com as suas palhetas luminosas os arbustos vividos e scintillantes--reflectia-se suavemente sobre as aguas do ribeiro, que, em amoravel ondulação, serpeavam atravez os terrenos pedregosos, parando, ora atraz de um rochedo, com o qual confidenciavam ternamente, ora atraz de uma planta, com a qual se enroscavam de passagem.

Ao longe os pinheiraes acordavam as solidões com as vibrações da sua harpa plangente. O rouxinol, casto como a andorinha, desferia a medo o seu eloquente hymno de amor. É que elle o artista, filho do céu e do canto, pressentira, primeiro que nenhum outro ser da creação, o aproximar alegre do sol e da vida.

Meiga como uma mãe dedicada, a pomba, symbolo de virgindade, arrulhava de manso, muito de manso, como amante que não deseja ser escutada. E a aguia, a altiva rainha do espaço, guindara-se, por entre nuvens, até ás ignotas regiões do infinito.

Entretanto--e como que para contrastar--o peixe, o maldicto das trevas, mal elevara a gélida escama ao lume d'agua, para logo a mergulhar de novo, no lodo, sua morada habitual. O insecto, o desprotegido do dia, esperava a noite, sua irmã, para assim deixar em paz o lobrego buraco, para onde um raio de sol prestes o afugentara.

Os campos eram verdes e promettedores. Percorria-os o boi, quasi sem cessar, na extrema paciencia dos animaes possantes.

A montanha, despindo o lençol, que durante mezes a envolvera--deixara de alvejar, afim de se tornar um throno de contemplação e de magestade.

E de facto subia o lavrador á cumiada do seu monte, e de lá, passeando os olhos avidos em volta do campo, com o qual, em verdes annos, se matrimoniára--entoava cantos jubilosos e amigaveis.

E a aldeã, resplandecendo de feliz contentamento, apurava a sua saia de chita que para os dias santos havia sido feita e arranjada.

Cecilia, porém, está de lucto. Os olhos verdes, fartos de chorar, brilham profundamente como o abysmo dos mares. Ella é triste, coitada! e sem esperança. Morrera-lhe o pai.

--Olha, Cecilia--dizia-lhe o velho na sua derradeira hora--parece-me que o teu noivado só no céu poderá ter logar. Perdôa tu ao ingrato assim como eu lhe perdôo...

E expirou.

Quatro mezes volvidos sobre este caso estava a pobre rapariga profundamente mergulhada nos seus mais intimos pensamentos, quando uma leve pancada, vibrada sobre o vidro da janella, a fez estremecer e agitar.

Mal se levantara ella e já uma sombra, abrindo a vidraça, saltava de um pulo para o centro da casa.

--O senhor prior por aqui?--exclamou a ingenua catholica.

--É verdade, minha filha. É justamente o teu prior que Deus manda a esta casa... Sabia que estavas triste. Haviam-m'o dicto as estrellas do céu. Consolar os tristes é um dever do bom parocho.

--E minha mãe, senhor padre João, consentirá ella...

--A cima de tua mãe está a voz do céu que aqui me traz. Conta-me a tua vida, Cecilia. Não tenhas receio de mim. Eu saberei aconselhar-te.

A Egreja para tudo tem remedio. Só Deus sabe premiar os bons e castigar os máus.

E o padre, procurando um escabello, foi sentar-se ao pé de Cecilia.

A rapariga, córando de pejo, conservára os olhos cravados no chão.

Assim durou, por alguns minutos, esta scena.

--Como tu és boa, minha filha--rompeu alfim o padre.

E, sem mais, imprimiu-lhe um beijo na face.

Assim, como a pomba ferida por caçador experiente, assim tambem Cecilia tentara esquivar-se ás grosseiras amabilidades do seu respeitavel parocho.

--Embalde--gritava o padre. É Deus que assim m'o ordena!...

E, ao longe, um guitarrista que passava cantava tristemente a seguinte quadra de Gonçalves Dias:

«O amor da mulher é qual nuvem Que o vento impelle no ar; O amor da mulher é voluvel É tão vario, como a onda do mar.»

XXXV

Critica

Nós não somos d'aquelles que exageradamente comdemnam o clero.

Nada mais santo, nada mais suavemente consolador do que o bom padre, especie de medianeiro entre Deus e os homens.

Para quem não tem um pai natural; para aquelles que a Providencia exilou do seu lado, e que a miseria acolheu no seu seio; para aquelles que, longe do ruido e das alegrias do mundo, a sós comsigo mesmo sentem o gottejar das proprias chagas; para os desgraçados, para os infelizes, para os tristes, o padre, pela sua apparencia christãmente cariciadora, é mais do que um companheiro, porque é um pai, enviado pelos anjos do céu aos anjos da terra.

Não foram um simples vicio, uma vã ostentação, e um estulto prurido que nos levaram a condemnar aquillo que, por sua natureza, deve ser exemplar, vivo e sacro-santo.

Não! Se condemnámos o máu padre, como planta nociva á humanidade, foi por um dever.

Quem tem irmãos, e filhas e esposa, não póde existir ao acaso, sem a necessaria superintendencia em todos os actos da sua vida, d'ellas.

A mulher, que do collegio não tirou a educação conveniente, que um dia experimentou a immoralidade do confessionario e os espinhos do mundo, póde ser tudo, menos uma esposa, menos uma irmã, menos uma mãe.

O padre toma parte nas scenas mais luctuosas da familia: se adoecemos, é elle que nos traz o balsamo ao espirito em trévas; se desesperamos, é elle que nos faz ver o iris da bonança; se hesitamos, é elle que nos encaminha e nos dirige.

Então, e porisso mesmo, é que o padre deve ser um bom homem.

O esboço que no precedente capitulo deixámos delineado, posto que excepção, foi por nós fielmente observado.

Que se não illudam os espiritos timoratos e frageis. Quando máu, ninguem mais severamente merece ser condemnado do que o padre.

Nas aldeias os exemplos multiplicam-se. A ociosidade, por um lado, e o celibato, por outro, muito têm concorrido para essa cadeia de lorpesas, a cada passo relatadas na imprensa e nas differentes casas de reuniões publicas.

O fanatismo nunca foi religião. Seguir os preceitos do Evangelho, não é perfilhar as doutrinas do sr. Sousa Monteiro nem as diatribes da _Palavra_.

Amae-vos uns aos outros como eu vos amei--disse Christo.

Amemo-nos, sim, mas sem corrupção, sem egoismo, sem impuresa.

Que a esposa seja uma conselheira de seu marido e uma perceptora de seus filhos--tal deve ser o desejo do bom padre.--Porque um padre é acima de tudo um educador, e como tal carece de muita illustração, de muito bom senso e de muita heroicidade.

Se os rapases não podem satisfazer a esta nobre missão, escolham-se os velhos. Se com o clero periga a honestidade das mulheres, acautellem-se os homens, e aprendam por uma vez a distinguir o bom do mau, aquillo que lhes convém d'aquillo que lhes não convém.

D'outro modo continuaremos eternamente divididos, odiando-nos como inimigos, e pelejando uns contra aos outros, cegamente, loucamente, sem ideal, sem raciocinio e sem vontade.

XXXVI

Toldam-se os horisontes

Nem sempre a felicidade nos sorri. Quando menos o acreditamos, embacia-se o prisma que sonhavamos perpetuo e immorredoiro, e as illusões começam de cahir uma por uma.

É assim a vida; é assim o mundo: rodeado de formosas apparencias e colmado de negra podridão.

Áquelles que possuem o raro condão de saber disfarçar as mais intimas tristesas da vida; áquelles a quem Deus não dotou com o precioso instincto da arte; áquelles, emfim, para quem a paciencia é a norma, e que se não apaixonam, que se não arrebatam, que se não enthusiasmam, gelados, mudos, frios como o sepulchro.--a esses, pouco pódem importar as tristesas do poeta e as suas profundas melancholias, que são como que o lento e sombrio finar da existencia.

Ó noites de agonia, noites de isolamento--como vós sois tristes e duras de passar! O mundo, que vos detesta, ó doces e amargosas horas da experiencia, foje de vós! Ao vosso lado só tendes os poetas e os artistas e os sábios e todos aquelles que no horror da noite procuram o ideal da humana perigrinação.

Bemdictas sejaes vós, companheiras do tumulo, porque me ensinastes o soffrer!

* * * * *

A Viscondessa era um d'esses raros typos angelicos, que despresando a opinião das maiorias, porventura o mais estupido de todos os preconceitos. se entregam febril e vertiginosamente nas azas do seu capricho, sem outro intento que não seja o louco voar atravez as idealidades que de continuo se lhe desenham na mente esbraseada.

Eu gósto d'estas mulheres, d'estas candidas andorinhas, que, superiormente ás outras mulheres, suas irmãs, se alimentam no tepido halito da primavera, embriagadas e seduzidas pela doce irradiação do céu.

Se péccam não é d'ellas a culpa. Quem poderá dizer á ave, á meiga filha da luz: tu voarás para aqui? e ao rouxinol, o adoravel amigo dos poetas: tu cantarás a taes horas? e ao oceano, o titanico athleta da creação: tu não correrás? Quem?