Chapter 2
O amor de mãe é muito, mas não é tudo. Aos quinze annos, todos nós sentimos um vago ideal, que nos illumina o espirito, umas seductoras imagens que nos transportam a um ser longinqúo, mas realmente existente, um ser que é nosso, porque o sonhamos e que nos pertence, porque desde a infancia o anteviramos, claro, limpido, transparente, á semelhança de um horisonte que um dia contemplamos e que não mais nos esquece.
Esse ser é um marido; esse ser é uma esposa: um vinculo os prende--o amor; um ideal os incita--os filhos; uma virtude os reune--a conveniencia.
Á viscondessa tambem lhe chegára a sua vez. Sonhára e fora feliz. Alfredo era o doce amante, que lhe alimentava a phantasia ardente; Alfredo, o louro rapaz, era a formosa visão, que aos quinze annos, ella tivera por companheira inseparavel da sua vida.
Sejamos como a viscondessa. Amemos e seremos felizes.
V
No restaurante
Um mez volvido, após os acontecimentos, acima descriptos,--em Junho de 59--entrava eu casualmente n'um café do _Caes do Sodré_, situado por baixo do _Grand Hotel Central_--quando ouvi a voz de Alfredo, que de longe me chamava.
Ebrio e tumultuoso extendeu-me a mão direita, offerecendo-me um banco de palhinha em um dos extremos da mesa.
Com elle estavam quatro amigos, por egual risonhos e embriagados.
Sobre a pedra de marmore, pegajosa e cheia de cinsa de charuto, viam-se entre outras cousas cinco chavenas de café, quasi esgotadas, duas garrafas de cognac e uma de absyntho.
--Não podias vir em melhor occasião--exclamava Alfredo com o cotovello direito apoiado sobre a mesa e a cabeça inclinada sobre a mão.
--Antes de mais, vae-me bebendo esse cognac e ouve-me depois.
Alfredo tirou em seguida um masso de cartas do bolso interior da sobrecasaca, e desatando uma fita verde que as envolvia, começou de abrir uma por uma.
--Mal sabem vocês que temos por aqui uma paixão fidalga. Nem mais nem menos do que de uma viscondessa.
Esgotou um calix de absyntho, accendeu o charuto e encetou a leitura.
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«Meu bom Alfredo.--Sabes que te amo e que te amo devéras. Não se passa uma hora, um minuto, um instante em que a tua doce imagem, pura como Eva...
--Devem notar que este pura como Eva tem sua graça e é original--reflexionava Alfredo.--Ah! Evas! ah, puras! ah, vestaes do lodo e da chocarrice...
«... pura como Eva, não venha irradiar-se sobre mim como luz redemptora e supremo consolo. Nem eu sei dizer-te o que sinto, meu amigo. Tenho ciumes dos que te acompanham. E não ser eu tambem homem para te seguir sempre e por toda a parte!
--Variante á mulher-homem de Girardin... Adeante.
«Que triste condição a da mulher, impellida a viver isolada do mundo e da sociedade...
--Sim, sim, bem te entendo, meu anjo.
«Vem, Alfredo, vem; vem ver-me muitas vezes, se queres que eu viva feliz e alegre.»
«A Viscondessa de B***.»
--Ora aqui teem Vocês o primeiro specimen da feminil intelligencia. Vamos ás outras e sem commentarios.
E n'isto Alfredo esvasiou de novo um calix de absyntho.
«Meu unico amigo.--Uma immensa, uma profunda saudade me agita o espirito. Sinto que me és e serás sempre um alento magnanimo.
«Á meia noite, quando a lua campeia no seu eterno throno de magestade e de bellesa, apraz-me pensar em ti, nos teus caprichosos desejos, e nas tuas phantasticas promessas.
«Eu amo o silencio, porque é vago, ethereo e cheio de sombras. Ha dias, entrando n'um pinheiral, cuja verde ramagem se agitava doce e harmoniosamente, como uma harpa do céu,--lembrei-me de ti.
«Ao acaso procurei um outeiro, onde me sentasse. Ao longe o oceano, como um leão esfaimado, enchia a terra com a sua musica rouquenha e sepulchral. Aproximava-se o crepusculo. Umas nuvens ainda, retintas pelos raios afogueados do sol, percorriam o espaço de norte a sul.
«Sentindo-me isolada e só, tremi involuntariamente. Soltei um grito e vi uma creança que para mim corria de braços abertos. Foi uma apparição de Deus.
«Que linda, que formosissima creança!
«Pensei, então, em ti, meu amigo, mais do que nunca; e, Deus me perdôe, pensei na creança, que, um dia, fructo das minhas entranhas, uniria para sempre as nossas duas existencias, n'um unico beijo, n'um unico abraço, n'uma unica ideia.
«Adeus, meu filho. Crê em mim, crê no futuro.
«A Viscondessa de B***.»
Alfredo, não podendo mais suster o riso, soltou uma furiosa gargalhada, deixando, ao mesmo tempo, cahir a carta que mal sustinha entre os dedos frouxos e nervosos.
--Ah! Ah! Ah!... Parecia-me mesmo um lyrio esta viscondessa, um lyrio a desabrochar. Se não fosse eu, ainda hoje estaria romantica. Ora oiçam esta, que é a ultima.
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«Meu Alfredo.--A tua convivencia modificou-me fortemente. Comtigo murcharam as doces illusões que outr'ora me sorriam como estrellas do céu.
«Como a flor tristemente pisada pelo pé do viandante, assim o meu espirito succumbiu, sob a influencia do teu halito febril.
«Sem embargo, eu adoro-te, Alfredo.
«Tu polluiste-me as faces com os teus beijos escaldados, profanaste-me o corpo com as tuas paixões impuras, fizeste de mim uma mulher material, viciosa, corrupta.
«Eu pedia-te um amor puro, nobre, immaculado, e tu só me deste um desejo vil, trivial, insensato.
«Que fizeste da minha honra, Alfredo?
«Porque me não amaste d'outro modo?
«E queres-me ainda assim? pois bem: serei tua, tua para sempre.
«A Viscondessa de B***.
--Absyntho, rapaz--gritou o amante da viscondessa, batendo com a bengala no marmore da mesa.
E o creado, desarrolhando uma garrafa, offereceu-a ao freguez.
No relogio do restaurante soaram, então, 2 horas da madrugada.
Alfredo, bebendo sempre, resmungava imperceptivelmente. Ao lado d'elle os amigos proseguiam na mesma tarefa.
O dono do restaurante, vendo que o caso se demorava, mandou vir um trem.
Sobraçou Alfredo, a este tempo, já quasi debaixo da mesa, e introduziu-o na carruagem, cuja almofada era simultaneamente occupada por um cocheiro e um policia.
Fez o mesmo aos restantes e fechou as portas do estabelecimento.
Eu sahi tambem; mas, ao contrario dos outros, aterrado e confuso, com o que ali havia presenciado e ouvido.
Pensei em Luiz Veuillot e segui para casa.
VI
Sem sahir do mundo
Alfredo era um rapaz do seu tempo, e, como tal, um filho dedicado dos cafés, um amador do fumo e um apreciador exaggerado _du vieux cognac_.
No proprio desalinho ostentava elle uma generosidade fidalga, que o tornava sympathico e bem quisto por todos os que com elle mais de perto privavam.
Era exaltado em extremo, inconstante e leviano. Quando lhe fallavam em amor sorria-se meigamente.--Amor?...--respondia elle, como que acordando de um longo somno--Sim! já gostei d'elle. Hoje troquei as boas amigas pelos bons manjares.
E virava costas de aborrecido,
E, no entanto, as mulheres gostavam d'elle--talvez por essa rasão.--Não gostam as flores das borboletas?
A vida exterior, activa, intelligente é que, por via de regra, gera a inconstancia. De modo que aquillo que n'uma mulher constitue um crime de lesa-dignidade, é para o homem uma quasi urgencia, filha, sem duvida, das circumstancias especiaes que o rodeiam.
O homem obedece, em geral, mais ao seu organismo do que á sua vontade. A leviandade provêm, muitas vezes, de um impulso de temperamento. A imaginação nem sempre póde ser domada. Á uniformidade oppõe-se a variedade. A phantasia aprecia melhor esta do que aquella.
Ora semelhantes rasões não se dão já na mulher. A mulher tem uma vida limitada, restricta, puramente interior e domestica. Deve ter na sua existencia um unico amor, um unico interesse, um unico pensamento. E desde o momento que isto se despresar--podeis acreditar-me--em vez de uma mãe, em vez de uma esposa, em vez de uma irmã, apenas tereis deante de vós uma amante, isto é, uma companheira para alguns meses de praser e de sensualidade.
Creio porêm que tal vicio é puramente peninsular. Em Portugal é costume fazer a côrte da rua para as janellas. O namoro, se existe, é simplesmente no olhar. Tudo falla, menos o coração. E só depois de casados, reconhecem, então os noivos, que realmente os não fadára Deus um para o outro. Triste inconsequencia, na verdade, que muitas vezes traz comsigo o divorcio e emquanto a nós o peior de todos os desgostos, o desgosto do lar domestico.
Entre nós é a educação da mulher um fado quasi secundario. Que aprendem ellas nos collegios? que sabem ellas quando se casam? Por ventura saberão talhar os seus vestidos? porventura saberão manter o aceio e a limpesa, tão necessarios á cosinha como ao resto da sociedade conjugal?
Tudo, menos isso. Diz-se mulher do _high-life_, aquella que melhor valsa n'uma sala, a que mais prende pelos arrebiques do _coquettismo_, emfim, a que fôr mais imaginosa, a que tiver lido alguns romances francezes e a que mais amada souber fazer-se, n'um salão. Pouco monta que seja dedicada a seus filhos, e amiga do seu marido. A questão é ter côrte. O resto de nada vale, porque está abaixo dos sentidos; e os sentidos, são, n'este assumpto, uns mui respeitados directores.
Não quero eu com isto dizer que a educação do homem seja superior á educação da mulher. Os rapases nascem egoistas. Não amam o desinteresse, porque são naturalmente utilitarios e desconfiados. Desejam uma esposa, mais pelo dinheiro que ella lhes traz do que pela estima que os póde tornar felizes. D'esta maneira o casamento entre nós é um acto de commercio uma garantia de futuros interesses, muito de preferencia a uma garantia de amor.
Alfredo, porêm, desviára-se d'esta norma. De creança aprendêra elle a sondar a sociedade com todas as suas corrupções e inconsequencias. De sobejo sabia que a dança, toda exterior e ficticia, era a perversão do ideal conjugal. Por instincto aborrecêra o salão, soalheiro de intriga e de pequeninas miserias. Conhecedor dos homens, e das cousas cahira, finalmente, n'um indifferentismo, até certo ponto, deploravel, para um rapaz, mas, de certo, necessario e fatal para todo o organismo, digno de outra aspiração que não fosse a do animal, por naturesa inerte e estupido.
Alfredo resumia, portanto, uma energica reacção contra o estabelecido, e um vago aspirar para um futuro, ainda não bem definido.
Saudemos esse futuro.
VII
Entre amigos
Tudo disposto e preparado.
Somos quarenta convivas á mesa. A viscondessa está bella, verdadeiramente bella, sem os artificios que deslumbram, nem as vaidades que enojam. Completa agora vinte e seis annos, volvidos entre o regaço da mãe que se finou e os beijos do pae cuja existencia, por duvidosa, se ignora. Alfredo está tambem, mas triste, acabrunhado, pesaroso, olhando indifferentemente as pessoas que o rodêam, comendo pouco, bocejando muito e bebendo mais.
Dois creados serviam a sôpa. Pelo lado direito da mesa, parallelo-grammo, offerecia-se a sôpa _Julienne_ alternada pela esquerda com a sôpa _allemã_.
Um mysterioso silencio envolvia quasi todos os hospedes. Umas leves palavras apenas se trocavam de par para par. Nos calices transparecia o _xerez_--o louro e ingenuo xerez dos estomagos delicados.
Esgotados os primeiros copos e retirada a primeira coberta de peixe com molho á ingleza, appareceu o _Chateau-Lafitte_. Alfredo, reclinando-se na cadeira, sorriu-se meigamente. Um cavalheiro importuno, levantando-se, de cópo erguido, disse:
«Minhas senhoras e meus senhores: n'este vinho, eu saúdo a França, mãe desvelada do pensamento moderno.»
E todos beberam.
Entretanto o silencio recomeçara novamente. Os creados, em nervoso phrenesi, retiravam os pratos sujos para logo os substituir por outros lavados. Telintavam os talheres de prata. Quatro bicos de gaz alumiavam a mesa, matisada de flôres, cuja côr deliciava todos os olhos e cujo perfume embriagava todas as pituitarias. Na parede, pintada a azul-dourado, destacavam uns quadros comicos, alegres, folgasões, uns quadros de caçador logrado, perfeitamente pittorescos, perfeitamente escolhidos.
Estava-se n'um _vol-au-vent_ de frangos. O vinho correspondente era, se bem me lembro, Madeira sêcco. Conversava-se já de extremo para extremo. Algumas damas, agitando os leques, abriam os olhos, afogueadas em calor. Por ordem da viscondessa abriram-se as janellas. Uns cégos, que, então, passavam na rua, começaram de tocar uns velhos landúns, perfeitamente detestaveis e anachronicos.
«O fado! o fado!--gritou Alfredo.
E os homens principiaram a tocar o fadinho das salas.
Servida uma _mayonnaise_ de linguados, servida ainda uma _galantina_ de gallinha com aspic, passou-se a um _ponche à la romaine_. As rolhas do champague saltavam ferventes e impetuosas, como uma catadupa de topasios. Os creados corriam como possessos. As senhoras apoiavam as faces rubras, sobre o hombro direito dos namorados. No espaço campeava a lua, na sua doce pallidez, espreitando meigamente o festim da viscondessa.
Seriam dez horas da noite, quando, depois de concluidos os assados--patos com azeitonas, perús com truffas e espargos--se começou a tirar o doce. Comiam uns podim _saboyon au rhum_ e outros _bavaroise_ de fruta. O licôr escolhido era o _Chartreusse_. Alfredo, erguendo-se, propôz um brinde.
«Bebo á saude da senhora viscondessa--exclamou elle--á saude da sua felicidade, e á saude de seu futuro filho.»
E, sem mais poder suster-se de pé, cahiu sentado na cadeira. Todos o olharam com um olhar interrogativo. A viscondessa, encarou-o, com uma santa e terna delicadesa. Os outros, por prudencia, calaram-se.
Cá fóra numerosas tropas atravessavam as ruas. Portugal, constitucional, saùdava o seu nunca--esquecido vinte e quatro de Julho.
Terminados os brindes, que foram immensos e ruidosos, continuaram todos para o salão. Só Alfredo, por confiança na casa, ousou ficar á mesa, a cujo extremo adormeceu. E, suspeitando que fumava, dormiu um longo e pesado somno.
Quando realmente deu por si soavam tres horas nos relogios da casa. Meio adormecido e meio acordado, olhou e viu duas sombras, que, a um recanto do aparador, se agitavam docemente. Aproximando-se mais reconheceu então uma das creadas da casa, conversando airosamente com um garboso gentil homem.
--Ora pois!--regougou elle.--Nem mais nem menos. Tudo corre bem e todos teem rasão...
E sahiu, assobiando a carta adorada da Grã-Duquesa.
Na carta que eu tive, Amelia formosa,
Me disseste amor...
VIII
De passagem
Entre um bom jantar e um bom espirito existe, ao que parece, uma profunda analogia. _Tous les gens d'esprit sont gastronomes_--dizia Balzac. De todos os animaes, o unico, que sabe comer, é o homem--escrevia um outro auctor francez. D'este modo o jantar entre amigos é uma quasi necessidade da nossa existencia e um salutar incentivo a duas ou tres horas de boa e franca jovialidade.
Em Portugal dão-se jantares, mais como ostentação vã, do que verdadeiramente como meio de melhor expandirmos os nossos affectos, as nossas ideias, os nossos desejos, as nossas ambições. A nossa mesa distingue-se das mesas estrangeiras, não só pela má escolha das comidas, senão tambem pela exaggerada seriedade com que costumamos assistir a taes solemnidades. Dir-se-hia que, em taes momentos, estamos presenciando o enterro de nossos paes.
Ora o jantar, o bom jantar, sadio e leve, deve sobretudo correr alegre, isento de malquerenças, semeado de phrases espirituosas e de anecdotas interessantes. O jantar é, por via de regra, um pretexto para solidificar velhas relações de amisade; um pretexto para nos rirmos á vontade, um pretexto para conversarmos intimamente.
Os estrangeiros, comprehendem de ordinario estas festas, tirando os casacos, bebendo bem e comendo melhor. Nós outros, os portuguezes que, não obstante sermos uma caricatura viva de tudo quanto vem de fóra, tanto queremos primar pela gravidade que comprehendemos perfeitamente o contrario. Mal nos rimos, porque nem mesmo rir sabemos. O espirito nem sempre se amolda com todas as modulações de linguagem. Parece que á lingua portugueza foi vedado o dizer ligeiro, amavel, faceto, que tanto distingue a França moderna. Nós somos um povo, naturalmente indolente, um povo de _apaixonados_, como tão bem nos definiu M.^me de Sevigné.
Voltemos, porém, á cosinha.
Tem um grande defeito: falta-lhe como em geral ao nosso viver, a boa elegancia, o sabor, a pimenta, que torna as comidas mais gostosas e mais facilmente digestivas. Não temos originalidade, e por isso imitamos. O unico prato que a meu vêr existe classicamente portuguez, mas soberanamente enjoativo, é o leitão. Na provincia, sobretudo, assa-se um leitão a proposito de qualquer festa. São nossos, exclusivamente nossos, o leitão e os foguetes.
Depois note-se--na nossa mesa não ha aquelle aceio que tanto seria para desejar, e que tão proverbial é entre os ingleses. Uma toalha, perfeitamente branca, aromatica, transparente, é já de si um notavel passo para um bom jantar. As indigestões nascem quasi sempre do mau tempero das comidas: parece que se odeia a agua e lavam-se os mantimentos como em baptismo de mouros.
Entre as classes mais altas da sociedade são despresadas as comidas vegetaes. Só o povo as aprecia; e porisso tambem é elle em geral mais robusto, mais fortemente organisado, e mais naturalmente atreito á espontaneidade e ás alegrias da vida.
O temperamento depende das condições alimenticias em que nos encontramos. O bom e o mau humor tambem d'ellas provêm. No modo, porque nos alimentamos reside, pois, uma grande parte da nossa felicidade.
As comidas, demasiadamente gordas, geram a obesidade tão peculiar aos nossos provincianos; ao passo que o alimento vegetal torna o homem ligeiro, amavel e espirituoso.
Á mesa da viscondessa respirava-se um invejavel aceio e uma limpesa pouco vulgar entre nós. A propria toalha attrahia, não só pela sua extrema brancura, senão tambem por uma deliciosa fresquidão, que de ordinario exhalava.
Grave era a viscondessa, mas espirituosa. Ninguem sabia tratar melhor os seus hospedes, nem com mais liberdade. Como aphorismo passava já em julgado que eram bons, substanciosos e alegres os jantares da viscondessa.
É que, á parte os seus caprichos, a viscondessa comprehendeu a vida moderna, tal qual ella deve ser: commoda, aceiada e elegante.
Nem porisso lhe queiramos mal, mas antes façamos por imital-a.
IX
Pobresa e miseria
É singelo o quadro; tocante até.
Uma pobre velha, habitando uma alcova humida e sombria, treme de frio, gemendo por vezes. Serve-lhe de leito uma pouca de palha enxarcada e nauseabunda. Ao lado uma panella velha, tosca e ligeira, cuja grande utilidade é aparar a agua, que a miudo se despenha do telhado.
Por uma fresta, lavrada no alto da parede, côam-se tristemente uns tenues raios de luz. Dir-se-hia que á desgraça até o sol é vedado.
Pelo soalho esburacado e carcomido occultam-se uns bichos infernaes, molles, gellalinosos. O tecto, artisticamente cinzelado pelo longo e imperioso trabalho da aranha, quasi se não distingue d'entre a escuridão que cerca o aposento.
E Maria, a desventurada creatura, jaz immersa em intima dôr, abandonada aos vermes que lhe róem as carnes syphiliticas, negras, cobertas de pustullas e de putrefacção. Querem conhecel-a?
Rica e formosa, fôra esta mulher. Cheia de venturas e mimos deslisára a sua vida, sem mais attritos do que aquelles que ordinariamente nos dá o tempo e a natureza.
Acariciada pelo anjo do amor e embalada nos sonhos gentis da opulencia, Maria sentiu-se a um tempo admirada e requestada pela mais guapa fidalguia do seu paiz.
Seus paes, habituados áquelle unico thesouro, eram inexoraveis no cumprimento das suas profundas e intimas affeições. Nada exigia, que para logo não fosse satisfeito. O mais leve capricho tentavam-no elles realisar com a satisfação de um escravo, que por sua senhora arriscára a vida.
Assim cresceu aquelle arbusto. Descuidado e candido, não houve vento que lhe açoutasse as tenras vergontesa. O sol, saúdava-o todas as manhãs, e a primavera encontrou-o viçoso, coberto de flôr e de esperanças.
Veiu, porém, a tempestade. O sul rugiu temeroso. No espaço precipitaram-se as nuvens, prenhes de electricidade. A arvore, mal segara, tremeu na sua raiz, e desappareceu da terra.
Onde estava Maria? Porventura iria ella em busca de algum anjo bom, seu irmão?
Fragil, como qualquer mulher, Maria não ousára resistir á fatalidade que a dominava. Fugiu. Fugiu romanticamente, por um lençol, atado á janella de sacada, e á meia-noite.
Como quer que fosse o facto, em si escandaloso, excitou naturalmente a indignação publica. A burguesia commentou-o á noite nos clubs e cafés, concluindo por ver n'elle uns laivos de obscenidade, impossivel de admittir-se no seio de uma familia honesta e séria.
Em que pese, porém, aos nossos indigenas sociaes, o caso era mundano, e frequentissimo até em mulheres demasiadamente imaginosas.
Ao cabo de dois annos, Maria resuscitou; não para a vida, mas para a morte.
O rosado do rosto transformára-se-lhe subitamente numa pallidez transparente, sepulchral, doentia. Os olhos, encovados, haviam perdido o seu primitivo brilho. Nada existia já que não fosse triste e profundamente doloroso.
A mulher virtuosa cahira victima indefesa, ás mãos de um maltrapilho infame. O miseravel seductor, retirára comsigo o seu dinheiro e o seu carinho.
Abandonada a si, Maria, refractaria ao trabalho, sem pae, sem mãe, sem irmãos, sem amigos, olhou em redor de si, e viu a sociedade que de longe lhe acenava.
Correu a ella com um filho nos braços. Engolphou-se nos seus prazeres, trocou a honra pelo pão quotidiano, pôz em almoeda a consciencia pelo futuro do innocente, que ao lado d'ella soffria e chorava tambem.
Era nobre, e pagava pela corrupção commum...
A mocidade ganhou-a, como poude. Viveu-a, e tanto bastava.
Depois chegou a velhice e a tristesa; depois a pobresa e a miseria.
Julio, a este tempo já era crescido, e velava pela mãe sollicitamente.
De que poderiam comtudo valer os minguados ceitis com que lhe era remunerado o seu trabalho de todos os dias?
Se elle e ella adoecessem, quem mais os trataria? quem, porventura, se amerciaria d'aquella terrivel indigencia?
--Ninguem!...--respondia-lhe logo a consciencia.
E a consciencia não costuma mentir.
* * * * *
Julio viera, pois, da fabrica e encontrára sua pobre mãe moribunda, sem remedio, sem medico e sem dinheiro.
Parou no limiar da porta. Encarou a velha de frente e viu-lhe os braços estendidos em signal de compaixão. Extactico, cego, allucinado, entrou-se o desventurado moço em profundo scismar.
Ao descerrar as palpebras amortecidas por um somnambulismo infernal--Julio, emxugando os olhos, com uma ponta da blusa, sorriu-se, como se do céu houvera baixado uma inspiração sagrada.
--Desgraçado de mim!--exclamava elle doridamente.--Trabalhar um dia inteiro e não ter á noite que comer... É triste... muito triste... Esgotar o sangue das minhas veias, em alheio proveito, e receber, no fim da semana, um vil salario, que mal me chega ás primeiras necessidades da vida... É infame... muito infame... Alugar as minhas faculdades e o meu pensamento, sem outro fim que não seja o proprio aviltamento e a propria degradação... É vil... muito vil.. Oh! meu Deus!... antes a morte! mil vezes a morte...
E assim cahiu inanimado o honrado moço sobre o desventurado cadaver de sua santa mãe.
A scena era realmente tão obscura, que mal poderia provocar as vistas d'esse mundo, que é louco e grande.--Passou, como tudo o que é modesto, desapercebida e ignorada.
* * * * *
No dia immediato um raio de sol, espreitando muito de soslaio pela fresta do telhado, apenas encontrára a solidão e a ruina, na mesma alcova, onde Julio e sua mãe, por tanto tempo agonisaram.
No cemiterio mexia-se uma porção de terra, afim de occultar aos olhos do mundo o desditoso cadaver d'aquella santa e virtuosa velha.
Julio nem sequer achára uma mortalha, para envolver o corpo de sua mãe.