A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Chapter 6

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O plano de acção esboçado para essa legião ardente e generosa é simples, mas arriscado. Ás tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um automovel deve levar à Escola do Exercito as munições de que os estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponderá para os revolucionarios ao signal da insubordinação. Os audaciosos rapazes teem que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de serviço e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela para não despertar antes de tempo a atenção da guarda municipal aquartelada em Cabeço de Bola; os estudantes da Polytechnica e do Instituto Industrial aguardarão nas immediações da Escola do Exercito o momento de se juntarem aos seus collegas...

Na tarde de 15 de julho de 1910--em que se suppõe azado o ensejo de fazer rebentar a _bomba_--um grande nucleo de estudantes militares organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento, sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e energica do delegado e depois exclama commovido:

--E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o repetiram hoje dezenas de creaturas!...

É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de 1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da _bomba_...

Para a _barraca_ organisada com estudantes militares, o revolucionario de _elite_ que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5 de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas, «trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».

Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro, quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa incerteza, elle por là andou animando, encorajando e preparando o terreno para um desenlace victorioso.

Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara, disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os relatorios, o _comité Alta Venda_ conclue que esse bairro constitue um baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos. Cabe a honra à infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa, auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros. Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e pelo Oliveira dos _bonnets_. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e dedicada.

Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre, Mario Malheiros e outros formam a _Junta Carbonaria da Região Central_ que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:

[Ilustração: José Nunes Auctor de diversas bombas explosivas]

«Ainda no Norte é o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20 _choças_ carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o _comité_ dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a _barraca_ Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos electricos.»

Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a proposito pormenorisal-o.

CAPITULO XI

Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»

O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppôz-se que esse homem se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggressão violenta e as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo de instrucção criminal. Por outro lado, o então administrador do concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no fato do morto uns papeis que alludiam ás relações da victima com varios carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o caso e iniciava uma serie de prisões, tendentes a demonstrar que a morte do Nunes Pedro fôra planeada e executada por uma terrivel associação secreta inexoravel para todos os que a atraiçoavam.

A primeira d'essas prisões, a do empregado do commercio Domingos Guimarães, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia repressiva da emigração clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.º que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame armazenado na Alfandega de Lisboa; 2.º que esse desapparecimento fôra provocado por uma indicação de varios republicanos, que assim se preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3.º que, apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a Domingos Guimarães e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e ameaçando-os de denunciar á policia portugueza a falta do cartuchame; 4.º que, em face d'essa ameaça, o Domingos Guimarães partira para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaça, decidindo então os carbonarios supprimil-o.

Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia espalhou, mal teve nas mãos o empregado do commercio amigo da victima e denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Após Domingos Guimarães, o juizo de instrucção criminal capturou outro empregado do commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter acompanhado o Guimarães e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade na morte do segundo. Affirmou-se até n'essa occasião que o Nunes Pedro fôra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e que este e o Guimarães haviam declarado á policia:

_... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associações revolucionarias segundo as ameaças de denuncia que já tinha feito..._

Outra informação policial entregue á imprensa periodica disse tambem que o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o Nunes Pedro soffrera primeiro a aggressão dos seus companheiros de passeio a Cascaes e a seguir é que fora precipitado sobre os rochedos da Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o cadaver lá tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a vasta organisação secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem descobre uma boa pista e se dispõe a esclarecer um mysterio de alto cothurno.

Uma nova prisão veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado, incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite, exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declarações em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instrução apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente. Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de Badajoz ao Domingos Guimarães e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaça clara; dizia mais--que Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909, indo para um armazem do Poço do Bispo, onde se conservara dois dias; que sabendo que o primo era socio do Centro Antonio José d'Almeida, falara ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena quantia, uns cinco mil réis. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a intenção de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaça que elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez, lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino á Africa Portugueza.

[Ilustração: Dr. Miguel Bombarda e Vice Almirante Candido dos Reis]

A policia, porém, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declarações e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poço do Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim Adrião Alves, compadre do Domingos Guimarães. Este ultimo declarou no juizo de instrucção que o compadre, sendo seu hospede desde o começo de outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16, que passara fóra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no dia 19 fôra procurado por tres individuos e que no dia 21 fôra preso em Villar Formoso.

Ainda outra prisão: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o á morte do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:

O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: «Deram _bota_!». Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo juiz de instrucção.

Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro Antonio José d'Almeida, Manuel José do Espirito Santo Amaro. Com este accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:

--Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.

Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontação, não representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada, perdendo a cabeça, expulsou o Amaro do gabinete do _ex-irmão Hoche_.

De toda esta trapalhada de averiguações, de capturas a esmo, de clausura rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da _Bastilha_, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimarães, Manuel Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado se esforçou por demonstrar que o Domingos Guimarães é que assassinara o Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a defeza, apreciando o caso á luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou sem hesitação que o processo fôra simplesmente um _vomito negro_ do antigo juiz de instrucção e que n'elle não se devia tocar pelo receio do contagio. O processo, accrescentou a defeza, não podia merecer a menor confiança; forjado na _Bastilha_, que a Republica destruiu, n'elle figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declarações arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz de instrucção dissera até uma vez, insurgindo-se contra a negativa formal que elle oppunha a certas affirmações de accusação:

--Ah! você não confessa!... Pois emquanto não confessar não lhe dou cama nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...

Mas se o caso de Cascaes, espremido até ao maximo pelo juiz de instrucção, deu simplesmente a embrulhada, que já assignalámos e que o julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, á policia para arrancar com furia extranha sobre a Associação Carbonaria Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiações secretas constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do _ex-irmão Hoche_ e dos seus sequazes. Cada _primo_ que entrava nos calabouços da _Bastilha_ soffria um interrogatorio cerrado, que degenerava a breve trecho n'umas insinuações capciosas, n'umas falinhas mansas destinadas a seduzir a victima.

--Ora vamos lá, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso... confesse, diga tudo o que sabe. É melhor para si porque beneficia d'uma esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e é melhor para mim, porque termino mais rapidamente as minhas indagações. Confesse... porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...

A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de miragens deliciosas, babujava-o d'uma peçonha que o _Sota da Praça_ tambem distillava ao tocar-lhe a vez de _palpar_ o paciente. Em regra, o carbonario resistia. E então os dois, reassumindo toda a ferocidade que os caracterisava, soccorriam-se das ameaças, das violencias, para obter a tal confissão que, no seu acanhado entender, _simplificava tudo_. Um dia, o presidente do conselho de ministros, espicaçado certamente pelas referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforço do _ex-irmão Hoche_, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura rigorosa em que elle encerrava os presos das associações secretas, chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso processo e quaes os resultados alcançados pela averiguação da _Bastilha_. O _ex-irmão Hoche_, suppondo ingenuamente que o trabalho já feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo, desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisação da Carbonaria.

O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmação de que a vastissima organisação revolucionaria comprehendia muitos milhares de homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas associações secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia policial. O _ex-irmão Hoche_ citou um numero: duas ou tres duzias de carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:

--O que? Pois o senhor tem a pretensão de capturar toda a gente que pertence a essas associações?... Convence-se que pode metter na cadeia muitos milhares de homens?... Pare lá com isso!... Mande para o tribunal os que já conseguiu enclausurar e dê por concluida a investigação!...

[Ilustração: Dr. Malva do Valle Membro substituto do Directorio em effectividade]

O juiz assim fez. Não evitou o fiasco, mas livrou-se de ser surprehendido pela implantação da Republica, ainda a prender e a interrogar os revolucionarios da Associação Carbonaria Portugueza. Para mais, n'essa altura das suas diligencias, já um bom nucleo de aggremiados sob a direcção do _comité Alta Venda_ tinha esboçado uma diversão aos cuidados e ás attenções da _Bastilha_ com a explosão de um petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a série até que o _ex-irmão Hoche_ se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.

Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados ás mãos do juiz, se _descosiam_ sem a menor hesitação e procuravam com uma denuncia completa readquirir a liberdade sob fiança. O engenheiro Antonio Maria da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revolução, oppoz um desmentido formal a esses boatos:

«Effectuadas as primeiras prisões, vimos logo que os chefes das _choças_ e _cabanas_ eram poupados--systematicamente poupados. Isto significava que se os presos não tinham fórma de resistir á pressão inquisitorial do Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica solução, até á denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor responsabilidade. De resto, já tinhamos previsto que esse meio era o unico para forçar a sahida do _cul de sac_ asphyxiante constituido pela instrucção criminal. Esses homens não foram delatores: foram martyres. E quizera poder, n'esta hora de resgate, abraçal-os como bons camaradas que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do sacrificio.»

Encarando essas prisões sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as, tinha a impressão de que dava assim um golpe bem fundo na organisação revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o _ex-irmão Hoche_ desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura inflingida aos carbonarios encerrados na _Bastilha_ correspondia, por parte da vastissima aggremiação, um impeto irreprimivel de solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de sobresaltos, de anciedade, provocados pelas _démarches_ da policia e apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vêr diminuida a sua expansão, tinha alargado tanto a sua rêde de iniciações que os dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.

Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a prisão de João Borges no _armazem_ de bombas da rua dos Correeiros, prisão que patenteou á policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na tarde d'um _domingo morto_, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa parte da população lisboeta, recebeu-se na redacção d'um jornal republicano esta missiva, que é opportuno recordar e transcrever:

_Sr. redactor._--Como v. naturalmente sabe, o caso das _bombas_ é mais uma fantochada preparada «ad hoc», para inglez ver e surtir um effeito, que ainda ninguem attingiu, mas que innegavelmente dá tolice. Para mim é ponto assente que o João Borges e o juiz de instrucção vão feitos na manigancia; nem d'outra fórma se explica o sangue frio e a confiança de que está investido o tal Borges. Se não vae feito com o juiz, _um valente_ que pega assim em bombas á mão como se mexesse em batatas, então vae feito com elementos reaccionarios para fins que ninguem percebe.

O facto do juiz de instrucção criminal pegar assim em bombas á unha, dá a nota de que sabia muito bem o quanto ellas tinham de inoffensivas.

Se v., sr. redactor, fosse juiz d'instrucção, se fosse um Cyro, um _Sota da Praça_, ou outro qualquer Sherlock Holmes de fancaria, já teria perguntado ao tal Borges quem é que lhe offereceu 6 contos para desempenhar aquelle papel e quem é que lhe dava 1$500 réis por dia a elle e a algum outro dos que elle andou a convidar para a tal farçada.

Em quanto o governo consentir um juiz d'aquella força e os reaccionarios dentro do paiz, ha de haver destas scenas. Quem é que come que na travessa da Palha, n'uma casa de meretrizes, se fabricavam bombas? Aquella só do _ex-irmão Hoche_...

Se fossem bombas verdadeiras, aonde estava elle já?

Que paiz este!... Quando veremos nós isto ás direitas?--De v. etc--_X_.

Commentemos esta carta, porque ella dá ensejo a desfazer umas _teias de aranha_ que ainda velam o olhar indeciso de muito patriota.

CAPITULO XII

As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»