A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Chapter 4

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Felizmente, não succedeu assim. O dictador, tendo-se-lhe desenrolado ante a vista turva uma boa parte da machinação revolucionaria, embrenhou se, naturalmente, n'um amontoado de providencias de occasião. Primeiro que tudo, collocou a mordaça do estylo na bocca da imprensa; ordenou uma sahida de tropas que equivalia á declaração do estado de sitio, visto que ellas é que fizeram na madrugada de 29 a policia da cidade; ordenou rusgas; remetteu para os fortes grandes levas de presos; exhibiu a cavallaria da municipal em diversos locaes para aterrar, para suffocar o menor impulso de reacção; e no dia 29 preparou-se para completar a sua obra de repressão com o famoso decreto que o ministro Teixeira de Abreu levou a Villa Viçosa á assignatura do rei Carlos.

O governo franquista, não satisfeito com o ter lançado á tôa para diversas prisões todas as creaturas que a policia encontrou nas ruas da cidade, momentos depois do ataque á esquadra do Rato, aprestava-se a expellir pela barra de Lisboa todos os politicos, todos os cidadãos que, n'uma hora de legitima revolta contra um regimen de perfeita tyrannia, tinham ousado preparar a queda logica, indispensavel, do throno dos Braganças. Á atmosphera de pavôr immenso, que creara com essas perseguições arbitrarias--o governo civil de 28 para 29 encheu-se rapidamente de populares--queria sobrepôr uma verdadeira mortalha, embrulhando no famoso decreto todas as individualidades que elle suppunha, com bom ou mau fundamento, implicadas na conspiração.

Não o conseguiu, porém. E não o conseguiu, porque, mal o decreto foi publicado no _Diario do Governo_ e antes que o dictador iniciasse a sua applicação feroz, outra força, e extraordinaria força, com que elle nunca sonhara, impediu a consecução dos seus designios. O regicidio travou a corrida vertiginosa para a selvajaria que o gabinete João Franco desfechara, pretendendo convencer o paiz de que assim cumpria uma missão patriotica. O regicidio... sim, foi o regicidio que evitou um authentico attentado brutal, anti-politico, libertou dos ferros da prisão alguns dos organisadores da revolta de 4 e 5 de outubro e impediu que muitos dos que implantaram a Republica em Portugal gemessem até essa data gloriosa no desterro abrasador...

CAPITULO VII

O regicidio--Quem disparou primeiro: Buiça ou Costa?

Chegámos ao ponto menos esclarecido d'este periodo historico. Desde a tarde de 1 de fevereiro de 1908, em que o rei Carlos e seu filho Luiz Filippe baquearam no Terreiro do Paço sob as balas desferidas por um reduzido numero de conjurados, tem-se dito tanta coisa sobre esse acontecimento que e licito suppôr que a verdade ainda permaneça envolta em denso veu. Não temos a pretenção de proferir a ultima palavra a tal respeito; mas ouvimos mais do que uma vez a pessoas bem informadas referencias ao caso, e essas referencias auctorisam-nos a considerar o regicidio sob um aspecto muito diverso do que aquelle por que é vulgarmente conhecido.

A propria policia, apesar de haver conseguido em dado momento obter um ou dois depoimentos razoaveis, nunca tirou a limpo a veridica historia do caso. E porque? Pela razão muito simples de que, tendo orientado as suas diligencias n'um determinado sentido, d'essa orientação nunca se desviou, apezar de errada. Teimou em ver no regicidio o acto de muitos conspiradores, longamente deliberado, e d'ahi não se afastou, embora o seguimento da instrucção do processo por mais de uma vez lhe indicasse o contrario. Persistiu em ver sobre as cabeças dos regicidas uma influencia especial, uma sugestão de politicos burguezes, sem coragem para perpetrarem o acto e confiando esse encargo a creaturas exaltadas, a libertarios decididos e energicos, e afinal, por aquillo que ouvimos ás pessoas as quaes já alludimos, nada d'isso existiu senão para ser utilisado no momento opportuno como uma arma de combate nas mãos dos reaccionarios.

Comprehende-se perfeitamente que, após o insuccesso do 28 de janeiro e o conhecimento das medidas ferozes preparadas pelo dictador, a opinião soffresse immediatamente um accrescimo de odio contra esse governo que não hesitava em immolar no altar da sua vingança diversos patriotas, cujo unico crime era o de se terem eximido, ou procurado eximir-se, ás suas prepotencias. Essa exaltação da opinião devia ter-se reflectido mais fundamente nos elementos revolucionarios que para o movimento de 28 de janeiro haviam prometido o concurso d'uma acção efficaz sobre os tyrannos do paiz. Quantos d'esses revolucionarios na madrugada de 31 e no periodo de horas que decorreu até ao desembarque da familia real no Terreiro do Paço, não pensaram n'outra coisa que aliás dominava o espirito até dos mais conservadores: a necessidade de se eliminar o dictador? Quantos? Essa eliminação estendiam-na naturalmente, sem hesitações, ao monarcha dos adiantamentos, porque a verdade é que para um revolucionario que pretendia supprimir uma situação de absolutismo não bastava, de certo, fazer desapparecer o braço executor do regimen de oppressão. Tornava-se imprescindivel liquidar a personificação individual d'esse mesmo regimen. Esta é a verdade e já explica, de certo, muitos dos episodios que caracterisaram a tragedia do Terreiro do Paço.

Quem passasse n'aquelle ponto da cidade na tarde de 1 de fevereiro, momentos antes do desembarque da familia real, ainda que totalmente alheio ao que d'ahi a pouco se ia desenrolar, teria a impressão de que a atmosphera, excessivamente carregada, por força desabaria em medonha tempestade. No Terreiro do Paço havia relativamente poucos curiosos a aguardarem aquelle desembarque. Em compensação, a policia, fardada e á paisana, mobilisara-se á valentona, circulando desconfiadissima por entre a assistencia.

O momento era solemne. As creaturas que palpitavam com frequencia a opinião desde o insuccesso do 28 de janeiro, calculavam com fundamento que alguma coisa se produziria, quanto mais não fosse uma manifestação platonica de desagrado ao monarcha e ao seu primeiro ministro. Outras, pelo contrario, não acreditavam n'uma explosão do odio popular e sorriam desdenhosamente perante as menores apprehensões. Acreditavam demasiado na indolencia do povo escravisado e no falso prestigio do soberano.

[Ilustração: Missão do Directorio no estrangeiro]

A policia, repetimos, a propria policia, que conhecia sufficientemente a extensão do trama revolucionario, que afinal se não desfizera ao mallogro da projectada revolução, tambem não tinha a noção do perigo que ameaçava o throno. Esse perigo, voltamos a insistir, não derivava simplesmente de uma combinação prévia feita entre meia duzia de homens desejosos de reintegrar o paiz na normalidade. Nascera e progredira na consciencia da maioria dos revolucionarios e até dos que não commungavam nos segredos da revolta. Era uma coisa acceite em principio e se toda a grande massa de povo soffredor possuisse a energia, a decisão prompta dos poucos homens que collaboraram no regicidio, este acontecimento teria sido da responsabilidade directa, não de cinco, como se affirma, mas de cincoenta, de quinhentos, de cinco mil...

Ha um relatorio policial, elaborado tempos depois da morte de D. Carlos e de seu filho, que pretende filial-a n'uma conjura mais radical nos seus meios de acção do que a que preparou o 28 de janeiro. Fala-se ahi de varios individuos, amigos do professor Buiça e de Alfredo Costa, como implicados n'essa conjura e até quasi se assegura que o grupo decidido a executar o monarcha e o principe comprehendia duas ou tres duzias de homens, escalonados desde o Terreiro do Paço ás Necessidades para a execução d'essa sentença lavrada em conciliabulo tenebroso.

Na realidade, para a nossa phantasia de meridionaes, não se percebia que um acto de tanta repercussão mundial fosse praticado sem o apparato scenico de muitas reuniões secretas, com as indispensaveis capas de embuçados e o juramento terrivel prestado em meio d'um silencio aterrador. E a policia influenciou-se d'essa phantasia, apesar de uma das suas averiguações consignar claramente um facto que reputou verdadeiro e de grande importancia para o esclarecimento do regicidio: o cavaco animado travado entre cinco homens na madrugada de 1 de fevereiro á esquina do Café Suisso. N'esses cinco homens contavam-se o professor Buiça e Alfredo Costa. Os restantes, quem eram? Vivem ainda? A policia chegou a conhecel-os? E que projectavam n'essa madrugada celebre? Decidiam ali, em plena rua, o plano do regicidio, ou apromptavam-se para um acto bem diverso?

O sr. José de Alpoim, que se occupou do assumpto pouco depois de implantada a Republica Portugueza, procurando expurgal-o das falsidades e das invenções dos reaccionarios, que durante dois annos o exploraram sem pudor pela verdade, parece inclinar-se para esta hypothese, embora o não diga claramente:

Os cinco revolucionarios que na madrugada de 1 de fevereiro um espião policial surprehendeu em conciliabulo á esquina do Café Suisso (ou outros cinco, mas comprehendendo tambem o Buiça e o Costa) projectavam simplesmente eliminar o dictador. Subiram a Avenida com esse intuito, esperando poder executal-o á sahida da casa onde elle morava. Por qualquer circumstancia que não vale a pena mencionar, esse designio falhou. Os cinco revolucionarios desceram novamente a Avenida, dispersaram-se durante um pequeno espaço de tempo e voltaram a reunir-se no Terreiro do Paço, ainda com a intenção de desfecharem as armas de que estavam munidos sobre o primeiro ministro de D. Carlos. Essa tentativa foi, como a antecedente, mal succedida; e elles então, não vendo o dictador mas vendo chegar o rei, _resolveram n'um lance impulsivo descarregar_ sobre a carruagem do monarcha.

Por outro lado, Alfredo Costa, vinte e quatro horas antes de consumado o regicidio, dissera a alguem que no dia immediato se abalançaria a ir _para a cabeça do touro_. Que quereria elle dizer com essa phrase pittoresca? Referir se-hia já n'essa altura á probabilidade do rei Carlos ser attingido pela sua Browning, ou pensava apenas no primeiro ministro que submettera á assignatura do rei o famoso decreto da _morte civil_ de dissidentes revolucionarios e republicanos? No emtanto, ha uma coisa que o sr. Alpoim registou no artigo a que n'outro logar alludimos e que é digno de relevo n'uma narrativa em que se fale do regicidio: o acto não foi combinado antes do 28 de janeiro, pelo motivo bem simples de que a revolta devia rebentar estando a familia real em Villa Viçosa; a carabina utilisada pelo professor Buiça, comprada em casa do armeiro Heitor Ferreira por um rapaz que não era o professor, só entrou na posse d'aquelle revolucionario depois de reconhecido o mallogro do movimento em que entravam republicanos e dissidentes.

Por ultimo, se é certo que o professor Buiça se dispoz antecipadamente a morrer em prol da liberdade--prova-o o seu testamento, que a imprensa publicou--se é geralmente sabido que no seu espirito fulgurou mais do que uma vez a ideia de se exterminar o rei dos adeantamentos, idea acceite não só por Alfredo Costa mas por outros tres homens fundamente exaltados contra o regimen de absolutismo, não é menos certo que até o momento do desembarque da familia real no Terreiro do Paço esse grupo de destemidos tinha em mira liquidar o chefe do governo e, se este escapou da chacina, a um quasi milagre o deve. Com um pouco menos de sorte, o dictador teria perecido sob a fusilaria do grupo, a policia teria despertado da molleza com que vigiava a integridade do monarcha, e a tarde de 1 de fevereiro, longe de marcar uma _étape_ formidavel de revolução, ficaria limitada á queda do gabinete João Franco, pela queda mortal da sua cabeça dirigente.

Vejamos agora outro ponto do regicidio muito discutido até pelas proprias testemunhas do acto: quem atirou primeiro sobre a carruagem real? Foi Alfredo Costa ou o professor Buiça? Tentemos esmiuçal-o.

Assim que a familia real, vinda de Villa Viçosa, desembarcou na ponte dos vapores do Sul e Sueste, o rei Carlos approximou-se do tenente-coronel Dias, que dirigia no local o serviço da policia fardada, e perguntou-lhe á queima roupa:

--_Isto_... como vae?

(_Isto_ era a situação da população lisbonense, o estado da opinião publica após o famoso decreto de _morte civil_).

O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas, quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:

--Meu senhor, _isto_ vae muito mal!...

D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de provocação altiva, ironica, de desafio insolente á _ralé insubordinada_. Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa altura, ainda desprezava a _agitação da escumalha_, considerando-a incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.

D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua, desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa, correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio, conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho, tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos. A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e, dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos, sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.

O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos, hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade, haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa. Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.

CAPITULO VIII

Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu acto

É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os seus pormenores.

N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de furiosa _reportage_, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.

Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone transmittira á redacção do _Seculo_ (onde trabalhavamos), o primeiro pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava até que esse _sportsman_ é que disparara primeiro que qualquer outro uma carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:

«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, _nenhum_, tomára parte no movimento; _nenhum_ se inscrevera; seu pae não os implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar factos gravissimos a tal respeito!

«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E--o que ninguem sabe!--a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do Paço!»

[Ilustração: Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria]

Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de 1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente, teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a semanas, fez um _croquis_, fixando-o bem nos seus traços physionomicos? Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro recomeçou a respectiva indagação policial:

--O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.

«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o, conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um _croquis_ elucidativo. Eram cinco os do _complot_... Alfredo Costa, o professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na tragedia; os restantes escaparam...»

Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no _Café do Gelo_, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem servido a _rendez-vous_ de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.

Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e Alfredo Costa serviu-se d'uma _omolette_. Na mesma sala, alem dos dois revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a palavra com gestos expressivos:

--A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu intervenho...

E ao affirmar a sua _intervenção_, o professor Buiça moveu os dois braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.

--E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?

--Vocês... procederão como a opportunidade indicar.

O outro calou-se e continuou a comer a _omolette_. O professor Buiça piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:

--Estamos aqui, estamos em Timor...