A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Chapter 14

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Ás 5 horas, o _S. Raphael_ largou pelo rio acima, ficando o _Adamastor_ para defender qualquer invasão do quartel de Alcantara pelas forças contrarias, mas com ordem de seguir mais tarde para o Terreiro do Paço, depois de receber a bordo o resto dos combatentes que ainda se encontravam n'aquelle edificio. O _S. Rafael_ navegou sem ser hostilisado e até com applauso dos barcos mercantes fundeados entre Alcantara e a Alfandega. Ao passar no quadro dos navios de guerra, viu que o _D. Carlos_ e a fragata _D. Fernando_ continuavam a ostentar a bandeira azul e branca. Os seus tripulantes deram vivas á Republica, esperando despertar assim a inacção dos tripulantes de aquelles dois navios, mas essas acclamações não encontraram echo. E descreve então o tenente Parreira:

«Sabendo-se que os correios e telegraphos estavam defendidos por forças da guarda municipal e que o Rocio e quartel general estavam occupados por um grande nucleo de forças de infantaria 5 e caçadores 5, pelo menos, e que seria necessario desfazer essa barreira para a nossa futura juncção ás forças da Rotunda, resolveu-se, embora já proximo da noite, desalojar primeiro as forças dos correios e telegraphos, o que se fez com os tiros de artilharia de pequeno calibre e metralhadoras, seguindo-se-lhe uns tiros sobre o Rocio pela rua do Ouro com pontarias baixas.

«Como já era noite, fundeámos em frente da Alfandega para continuarmos o nosso intuito na manhã seguinte, ou n'essa noite, conforme as circumstancias aconselhassem. Apenas fundeámos, foram a terra, no nosso escaler, um dos chefes dos grupos civis acompanhado do commissario Marianno Martins, a fim de colher informações seguras sobre o estado das forças contrarias, e enviar um emissario ao acampamento da Rotunda, avisando da nossa posição e do desembarque na madrugada seguinte. Tendo colhido algumas informações favoraveis á ida do emissario para a Rotunda, voltaram para bordo n'um vapor da alfandega, cuja guarnição se poz á nossa disposição, rebocador este que foi d'um grande auxilio nas acções que se seguiram».

[Ilustração: Manoel de Arriaga]

Pouco depois, o _Adamastor_, sahindo de Alcantara, ia fundear proximo do _S. Rafael_, isto é, em frente do Terreiro do Paço. N'esse vapor da Alfandega a que o tenente Parreira se refere, o commandante do _Adamastor_, tenente Cabeçadas, mandou para bordo do _S. Rafael_ parte dos marinheiros e populares armados que o pejavam. Quasi a seguir, quinze tripulantes do _D. Carlos_, que tinham conseguido fugir d'esse barco n'um escaler, apresentaram-se ao commandante do _Adamastor_ e pediram-lhe armas para luctar contra os officiaes que ainda se encontravam a bordo. O tenente Cabeçadas armou-os convenientemente e embarcou os no vapor da Alfandega, acompanhados d'um sargento, d'outras praças e paisanos, e aconselhou-os a irem no _S. Rafael_, antes de tentarem o assalto do _D. Carlos_. Assim se fez. O tenente Carlos da Maia tomou o commando superior de toda a força e, utilisando-se de novo o vapor da Alfandega, decidiu-se a entrada violenta no cruzador ainda não adherente. Como a guarnição do vapor mostrasse n'essa altura receio de collaborar no assalto, o tenente Maia substituiu-a por praças de marinha e, cêrca das 7 e 30 da noite, o barco largou do _S. Rafael_ em direcção ao _D. Carlos_. Os projectores dos dois cruzadores revoltados evolucionavam, no emtanto, de modo a favorecer a arriscada tentativa.

«A atracação--diz o documento official que descreve o assalto--fez-se a primeira vez mal, e, repetindo-a, logo se avaliou da attitude como os officiaes receberiam os invasores, porquanto, tendo-se respondido que era um official que ia atracar, logo o commandante intimou a afastar-se sob pena de se desfechar, o que bem se notou ser seu proposito por virem muitos officiaes á borda do cruzador. É claro que se insistiu na abordagem, subindo tumultuariamente as escadas do portaló, e sendo logo recebidos a tiro, o que foi causa de tiroteio ainda de bordo do rebocador; e, uma vez a bordo, continuou este, de parte a parte, terminando rapidamente pela rendição dos officiaes e verificando-se em seguida que da guarnição do _D. Carlos_ haviam ficado 4 officiaes feridos, e dos atacantes apenas 2, sendo um civil e uma praça de marinhagem. Immediatamente se mandaram desembarcar todos os officiaes, á excepção do tenente Silva Araujo, com quem havia entendimento para a revolução. Mandou-se tocar a postos de combate, preparando-se o navio para a vigilancia da noite, tanto mais necessaria quanto era a bordo do _D. Carlos_ conhecida a ordem do ataque dos torpedeiros, e sahida do _Berrio_ para o canal do Barreiro.

Uma vez tomado o _D. Carlos_, de bordo do _Adamastor_ seguiram para ali mais praças e populares armados e os tres barcos de guerra insurrecionados não cessaram durante a noite de prescrutar as immediações com os seus projectores, sempre com o receio d'um ataque dos torpedeiros. (Falhara a arrojada tentativa do tenente Stockler para revolucionar os officiaes e praças destacadas em Valle do Zebro.)

CAPITULO XXII

Os ministros dispersam-se e buscam abrigo em diversas casas

Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Após o ataque da artilharia de Queluz, as forças revolucionarias installadas na Rotunda ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, não tanto com o proposito de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de 4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa espectativa. Os commentarios da opinião teem incidido frequentemente sobre o procedimento d'essas forças. Sabia-se que entre ellas se encontravam officiaes dedicados á ideia republicana, como o tenente Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de estimulo ás forças da Rotunda.

Na manhã de 4, ainda o capitão Sá Cardoso tentou realisar a approximação dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das metralhadoras de caçadores 5, d'um esquadrão da municipal e d'uma outra companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para então fazer com elles causa commum.

Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite, caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva, pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica; na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente--passados os primeiros instantes de desanimo--tratavam de incommodar as forças monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:

«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados. Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano, metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio. Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel, d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas, interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto, respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para esses lados.

«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos, convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido, tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não ter dado preoccupava-me immenso.

«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal, principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual, depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha já achado o commandante abalado.»

Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.

Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na obscuridade.

E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne da proclamação da Republica.

Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que até então haviam tentado, na redacção da _Lucta_, reatar as ligações entre os revoltosos--interrompidas pela _debacle_ do balneario de S. Paulo.

«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite, um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e 30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina sahiu do Hotel Europa a colher informações.

«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada _artilharia civil_, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»

Ás 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manhã collocasse algumas das suas peças em posição conveniente para incommodar as forças installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do Thorel. Antes, a força disponivel de cavallaria 4 e um esquadrão da guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas calçadas do Garcia e de San'Anna. Ás 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas peças na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim do palacete do sr. Manuel de Castro Guimarães.

Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo iam a bordo do _S. Rafael_ communicar ao tenente Parreira que Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O tenente Parreira, n'essa occasião, já havia ordenado o desembarque d'um grande nucleo de civis, que sob o commando do capitão Nascimento, da administração militar, devia impôr a rendição ás praças monarchicas que guarneciam o Museu de Artilharia. O _S. Rafael_ suspendera para proteger esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Paço, bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra, constituida pelo maximo das forças disponiveis dos trez cruzadores revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do medico Vasconcellos e Sá, que se offerecera para commandar um pelotão.

A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas Augusta e do Ouro, de que ia começar o bombardeamento, e o mesmo emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda a proxima juncção das forças revolucionarias. Pinto de Lima desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto é, da prevenção do bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direcção á Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena distancia do quartel general, um troço de tropas monarchicas e disse-lhe o que se ia em breve passar.

--O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos? Diga isso ali ao coronel.

[Ilustração: Paiva Couceiro]

Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou não menos surpreza que o outro official:

--Mas eu já adheri!... Para bordo já foi um official de caçadores!...

E logo a seguir, como quem toma uma resolução energica:

--É preciso mandar outro official ao _S. Raphael_... O senhor acompanha-o n'essa missão?...

Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento, dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que determinara a _démarche_ d'esse official revolucionario junto do tenente Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:

«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes. Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.

«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se passava e dirigi-me a bordo do _S. Raphael_, aonde participei aos tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser conhecido de um d'elles como official implicado no movimento, exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel general.

«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada pela rua de S. Domingos...»

Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.

CAPITULO XXIII

Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal

Pouco antes das 7 da manhã, o encarregado dos negocios da Allemanha procurou o general Gorjão e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente ao denodado republicano sr. Rodrigues Simões, figurou no Museu Revolucionario:

COMMANDO DA 1.ª DIVISÃO MILITAR Gabinete do General

_Eu abaixo assignado, commandante da 1.ª divisão militar, declaro que concederei um armisticio de uma hora a fim de que os estrangeiros residentes em Lisboa possam embarcar. Faço esta concessão por me ser pedida pelo Ex.mo Sr. Encarregado dos negocios da Allemanha._

_Lisboa, 5 de outubro de 1910._

_a) Manuel Rafael Gorjão._

General de divisão.

Assim que o diplomata allemão sahiu do quartel general em direcção á Rotunda, escoltado por uma ordenança de cavallaria que desfraldava uma bandeira branca, o povo, que se amontoava nas immediações, julgando que se tratava da rendição das forças monarchicas, prorompeu em applausos enthusiasticos. Era no momento em que o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins se faziam annunciar ao general Gorjão. Este recebeu-os e Marianno Martins explicou-lhe:

--O official que me acompanha foi a bordo do _S. Rafael_ participar que infantaria 5 e caçadores 5 se negam a fazer fogo sobre os marinheiros. Desejo, portanto, saber em que condições v. ex.ª acceita a paz para eu as transmittir ao meu commandante.

O general Gorjão encolerisou-se e, voltando-se para o alferes Gomes da Silva, perguntou-lhe:

--Quem foi que lhe deu auctorisação para ir a bordo dizer tal coisa?

--Ninguem, explicou o official interpellado; fui a bordo, por minha livre vontade, transmittir a resolução dos soldados de infantaria 5 e caçadores 5.

O general tornou a vociferar furioso, exclamando que o alferes Gomes da Silva fizera uma salsada, uma burla, que o havia desgraçado, pois concedera apenas um armisticio para dar tempo a que os subditos allemães embarcassem, e concluiu d'este modo:

--Não me rendo!... Ainda disponho de muitos soldados!...

O alferes interveiu logo:

--V. ex.ª tem essa impressão... mas eu affianço-lhe que já não tem soldados!...

O general fitou-o demoradamente e depois, attentando no numero do bonet de Gomes da Silva, insistiu:

--Demais, caçadores 5 tem sido fiel, continuará a ser fiel e com soldados assim não me rendo!...

Nova replica do alferes, affirmando-lhe sob sua palavra de honra que n'aquelle batalhão o general não dispunha d'uma unica praça. Para terminar a discussão, Marianno Martins interveiu marcando o praso d'uma hora para a rendição do quartel general. Findo elle, o _S. Rafael_ varreria as ruas Augusta e do Ouro com as suas peças.

--Façam o que entenderem, retorquiu o general, não me rendo... Ainda tenho muita gente.

Cá fóra, o povo, enthusiasmado, continuava a dar vivas delirantes á Republica e ao exercito, confraternisando com os soldados, que disparavam as armas para o ar, evidenciando uma alegria doida. Cessara o tiroteio entre os combatentes. O general, observando isto, reuniu o conselho de officiaes, chamando para essa reunião todos os commandantes de unidades, e falou-lhes n'estes termos: