A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
Chapter 13
«O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando o moral das nossas forças, provocou grande desanimo nas forças contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e Sá, cujo papel distribuido não era ir para o corpo de marinheiros á 1 hora da noite, mas sim esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do Conde de Obidos, ás 2 horas da manhã, desembarque que não se fez. Este official, a quem não mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que já tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no corpo--apenas ouviu, no hospital, os tiros de peça, tentou seguir por sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso, caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. Não conseguindo passar, em virtude de descargas das forças que a essa hora guarneciam o Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde começou a fazer operações e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, até que finalmente, já cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo Aterro, atravessou as forças da municipal que estavam no Terreiro do Paço, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio das suas funcções.
«Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela juncção e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste seria de pouca segurança, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou então assente em principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a leste do Terreiro do Paço, no caso que fosse mais accessivel.»
O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no paço das Necessidades lançou um panico medonho nas creaturas que então velavam pela integridade do sr. D. Manuel. O paço estava guarnecido de tropas que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e accumulara ali todos os elementos militares que não tinham tido cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante guardava o palacio do rei. E durante horas esta situação de pura defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um esboço de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo pelas tropas acantonadas nas Necessidades.
O panico que o bombardeamento produziu no paço foi enorme. O rei correu ao oratorio a implorar a intervenção divina, e emquanto uma meia duzia de servidores--dedicados não ha duvida--se conservava álerta, disposta a acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os outros servos--a grande maioria--abandonavam precipitadamente o edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. Até as cozinhas do paço se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa côrte em perfeita dissolução, o rei teve um impulso de decisão. Chamou o official da guarda e disse-lhe:
--Telephona ao presidente do conselho...
Mas o apparelho não funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel, decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre um provavel apoio da Gran-Bretanha á dynastia de Bragança, exclamou para um cortezão:
--Se estiver no Tejo algum _destroyer_ inglez, que metta no fundo os navios revoltados!...
D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resoluções importantes sobre a situação. Convidaram o soberano a sahir do edificio, onde já corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra--o unico ponto de confiança para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um reducto de certa consistencia.
[Ilustração: Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade]
Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma _garage_ particular, que haviam chamado á pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no paço de Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois unicos creados que não tinham fugido do paço com os primeiros effeitos do bombardeamento. Até certa altura, os dois vehiculos foram escoltados por uma força de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o commandante d'essa força que por um triz uma granada da artilharia naval não desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em que esse vehiculo soffreu uma _panne_. Instantes depois da avaria ser remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a explosão do projectil juncou de estilhaços mortiferos precisamente o ponto onde o rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.
As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa: a sr.ª D. Amelia no Castello da Pena e a sr.ª D. Maria Pia no palacio da villa de Cintra. No dia 4, ás duas horas da madrugada, o telephone havia annunciado á criadagem da mãe do monarcha que a Revolução estalara em Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para tão sensacional noticia. Só ás oito da manhã é que lhe disseram francamente a verdade. A sr.ª D. Amelia mandou ligar para o paço da villa e a sr.ª D. Maria Pia decidiu logo ir á Pena com a s.ª marqueza de Unhão e o sr. conde de Mesquitella. Junto da nóra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fóra do commum. Mas a sr.ª D. Amelia não se conteve e como o telephone para o paço das Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lançou-se n'um desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de inauditos esforços, lá conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.
No dia 5 de manhã, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr. D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis: condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, tenente coronel Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoço, que ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica já havia triumphado. Logo a seguir, outro emmissario notificou que o _yacht Amelia_ se encontrava na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a surprehendessem em territorio portuguez. Como o _yacht_ tinha poucos mantimentos, o monarcha, a mãe e a avó arranjaram farneis e puzeram-se a caminho d'aquella praia.
Antes da partida, a sr.ª D. Maria Pia mostrou alguma relutancia em abandonar o paiz sem ter sido primeiro intimada a fazel-o pelo governo republicano. Mas quando lhe mostraram a inconveniencia d'esse procedimento, ella mergulhou n'um silencio perturbador, que manteve até á entrada no _yacht_. No primeiro automovel seguiram para a Ericeira a sr.ª D. Amelia, a condessa de Figueiró, D. Maria de Menezes e Vasco Belmonte; no segundo a sr.ª D. Maria Pia, a marqueza de Unhão e o conde de Mesquitella; no terceiro, o sr. D. Manuel, os condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, Waddington e Mello Breyner. Atraz uma escolta de cavallaria. Na Ericeira juntaram-se aos fugitivos os srs. Serrão Franco e dr. Eduardo Burnay. O mar estava agitado e o embarque tornava-se difficil.
Ainda assim, com a promessa d'uma forte recompensa, o sr. Serrão Franco obteve que os tripulantes de dois barcos de pesca se decidissem a transportar a familia real para bordo do _yacht_. No primeiro embarcaram as duas rainhas; no segundo o monarcha. A bagagem da sr.a D. Amelia consistia apenas n'uma mala de folha com alguma roupa branca; a do sr. D. Manuel n'uma caixa com meia duzia de lenços. A mãe do monarcha, ao attentar na pobreza dos dois barcos de pesca que iam servir de _galeotas_ á familia desthronada, ainda exclamou:
--Não esperava isto dos portuguezes!... _C'est une infamie_.
O rei, esse, contentou-se em affirmar a sua abnegação pelo povo que até aquelle momento suppozera governar e, chamando de parte o sr. Serrão Franco, pediu-lhe que entregasse ao presidente do conselho uma carta, em que asseverava não abdicar mas apenas eximir-se por algum tempo ao tumultuar da nação. Essa carta, diz-se, nunca chegou ao seu destino. No emtanto, os telegrammas de Gibraltar para os jornaes de Paris reproduziram dois dias depois o seu texto quasi na integra. É um documento sem valor politico e que demonstra simplesmente quanto o rei andava illudido sobre a situação da monarchia e... dos monarchicos.
Feito o embarque, o _yacht_ poz-se logo em andamento, indo dar a volta ás Berlengas para tomar o rumo. Eram 4 da tarde do dia 5 de outubro de 1910.
CAPITULO XXI
A artilharia revolucionaria repelle o ataque das baterias de Queluz
Entretanto, na Rotunda, dava-se esta circumstancia feliz, que muito contribuiu para o exito do movimento: o elemento popular, longe de desanimar com a falta de noticias seguras sobre os episodios da Revolução occorridos n'outros pontos de Lisboa, mostrava-se de instante para instante mais corajoso, mais decidido a combater até á ultima pela causa republicana. Ás 7 da manhã do dia 4, Pinto de Lima, que estivera no quartel de marinheiros e fôra testemunha do combate de Alcantara, entrou na Rotunda resolvido a dar noticias d'essa acção triumphante dos revolucionarios commandados pelo tenente Parreira.
[Ilustração: A Bandeira Nacional]
No meio do acampamento, Sá Cardoso, que de madrugada repellira com energia o primeiro ataque da municipal, dava do alto do cavallo que montava umas instrucções aos outros officiaes que até ali o tinham acompanhado. Perto andava o capitão Palla. Mas como este vestia o uniforme de serviço interno e Sá Cardoso ostentava o dolman azul-ferrete com os galões do seu posto, todas as attenções derivavam naturalmente para o arrojado conspirador, que de resto, como já tivemos ensejo de o dizer, era, n'aquella occasião, o commandante em chefe da columna revoltada. Machado Santos dirigia n'outro ponto do acampamento uma força mixta de populares e soldados de infantaria 16. A confusão era enorme. Pairava no ambiente a duvida, a duvida terrivel de que a sahida dos dois quarteis, o d'aquelle regimento e o de artilharia 1, não fôra secundada. Pinto de Lima abeirou-se de Sá Cardoso e disse-lhe pormenorisadamente o que sabia do quartel dos marinheiros, solicitando-lhe ao mesmo tempo uma nota sobre a situação exacta das forças da Rotunda para a levar ao tenente Parreira. Sá Cardoso acquiesceu, pediu um lapis ao capitão Palla e escreveu n'um pedaço de papel:
Estou na Rotunda com os regimentos de infantaria 16 e artilharia 1, completos.
_Sá Cardoso._
Pinto de Lima desceu a Avenida e lá foi a Alcantara communicar ao tenente Parreira essa informação. Pouco depois, Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que os tinham acompanhado á Rotunda, decidiam não prolongar a resistencia, considerando-a absolutamente inutil. Essa resolução, comprehende-se, tem sido apreciada de diverso modo. Uns vêem n'esse acto uma fraqueza moral, resultante da deficiencia de communicações entre o acampamento e os diversos focos revolucionarios. Outros, filiam-n'o no reconhecimento technico por parte d'esses officiaes de que a posição da Rotunda era insustentavel. Pelo que ouvimos a creaturas que seguiram bem de perto esses acontecimentos, o abandono do acampamento foi simplesmente provocado pela falta de cohesão, de unidade de todos os elementos compromettidos na Revolta. O programma previamente combinado não foi executado nos seus pontos essenciaes. Querem um exemplo? Ahi vae.
Tres grupos de revolucionarios civis deviam pouco antes de se iniciar a insurreição cortar em trez pontos differentes os fios telephonicos que punham em contacto o quartel general da 1.ª divisão e outros quarteis, nomeadamente os da guarda municipal. O primeiro grupo, que devia operar em determinado local da rua de Santo Antão não levou a cabo a sua missão perigosissima porque esbarrou com uma porta fechada... quando contava, afinal, vêl-a aberta a um signal de convenção. O segundo grupo, operando no Rocio proximo da rua do Amparo, tambem não poude cumprir o encargo que espontaneamente assumira, pela falta de meios de accesso a uma certa dependencia de certo edificio. Faltou-lhe uma chave, em summa. O terceiro, com posto marcado na rua Augusta, viu-se egualmente impossibilitado de executar o plano, por um incidente imprevisto, um d'esses incidentes que, parecendo insignificantes, ás vezes mudam por completo a face das coisas.
Resultado pratico de tudo isto: o quartel-general da 1.ª divisão que, pela previsão dos revolucionarios, não devia, no momento opportuno, poder communicar com os outros quarteis e nomeadamente com os da guarda municipal, teve tempo e tempo de sobejo para dar varias ordens e fazer sahir á rua os elementos indispensaveis a uma defeza efficaz das instituições monarchicas. E d'aqui já se deprehende o seguinte: Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes que ás 9 horas da manhã do dia 4 abandonaram a Rotunda não cederam n'esse instante d'uma psychologia extremamente complicada ao receio de combater, de entrar em fogo. Quem, como o capitão Palla--sem contar o seu infatigavel trabalho de preparação revolucionaria--se resolve a um acto grave da vida arrastando para a revolta dezenas de homens confiados ao seu commando; quem, como Sá Cardoso se decide a montar a cavallo e sahir para a rua á frente d'uma massa indomita e sedenta de liberdade; quem faz isso apoz longos mezes de agitação mal reprimida, d'um balanço demorado aos prós e contras da aventura--não pode succumbir a um arrepio de medo, muito embora o medo seja uma impressão contagiosa que se propaga com rapidez e com rapidez se extingue.
Sá Cardoso, o capitão Palla e os outros officiaes abalaram na madrugada de 4 para a insurreição com a convicção profunda de que serviam uma causa justa. Do quartel de artilharia 1 até á Rotunda, essa abalada foi vertiginosa, febril, apenas entrecortada por tres escaramuças que os revolucionarios liquidaram n'um prompto, n'um _elan_ de energia, de coragem, de decisão. Não lhes fez mossa a attitude de muitas mulhersinhas que, despertadas na tranquilidade domestica pelo fragor d'essa correria desenfreada, appareceram então ás janellas lamentando em ais doridos a sorte futura dos revoltosos... Foram para a Rotunda com a certeza do triumpho e que não tardariam a ser secundados pelos marinheiros ou pelas forças de outros regimentos affectos á Ideia. Ainda, mais: com a quasi certeza de que a municipal se veria impossibilitada nas primeiras horas do movimento de exercer a sua acção offensiva em favor da monarchia. Mas d'ahi a pouco essa certeza e quasi certeza eram chocadas pela realidade. A municipal manobrava á vontade pelas ruas de Lisboa, os marinheiros não tinham desembarcado e os outros regimentos, se se moviam, mostravam antes hostilidade aos republicanos do que auxilio á sua iniciativa. Alvorecia a manhã de 4 e com os primeiros raios do sol nascente arrefecia o enthusiasmo dos conspiradores. Estes, que tinham entrado na Rotunda sob o impulso de uma fé intensa, d'uma confiança cega na victoria, que ali tinham cahido como uma avalanche imponente, destruidora, começavam agora a encarar a situação com a frieza e a calma que se succedem a uma phase, mais ou menos curta, de excitação e de loucura patrioticas. O mar tempestuoso da revolta principiava a sentir os effeitos calmantes da reflexão technica, da apreciação profissional...
O resto d'esta historia é conhecidissimo do publico. Os officiaes, reunidos em conselho--e custou reunil-os, porque os incidentes que então occorriam na Rotunda attrahiam a attenção ora d'um ora d'outro--os officiaes, repetimos, foram unanimes em concordar que a aventura só por milagre deixaria de liquidar n'uma verdadeira hecatombe. Decidiram o abandono do acampamento. N'essa hora de desanimo nenhum d'elles se recordou que momentos antes praticára actos de bravura e que a logica lhes aconselhava manter até final a attitude delineada no começo da insurreição. Viram apenas isto: a responsabilidade que assumiam, contribuindo com a sua presença na Rotunda para que os homens, que até ali haviam arrastado, continuassem a sacrificar-se pelo ideal republicano. Pensaram que a sua sahida do acampamento corresponderia a um dispersar immediato do povo fardado e não fardado.
E afinal não succedeu assim. Apoz essa sahida, alguns dos elementos revolucionarios, que até então se tinham limitado a executar as ordens dos chefes, tomaram a iniciativa de preencher a vaga do commandante supremo da _columna da Rotunda_ e manifestaram a Machado Santos o desejo de combater _á outrance_. Diziam elles: no acampamento encontram-se ainda sargentos de artilharia 1 que conhecem o manejo das peças, que são poderosos instrumentos de guerra; temos, portanto, o necessario para resistir com vantagem a um ataque serio do inimigo. Machado Santos concordou e, tendo entrado na Revolução com o proposito firme de lhe dedicar a pelle, decidiu queimar o ultimo cartucho na defeza da posição que o acaso lhe confiára.
D'ahi a pouco, algumas das peças de artilharia foram transportadas da Rotunda para o Parque Eduardo VII, em volta do acampamento levantaram-se uns modestos obstaculos a fingir de barricadas e os revoltosos dispozeram-se a morrer dentro d'esse fraco reducto com uma coragem e um desprendimento da vida dignos do maior elogio. Pode mesmo dizer-se que n'essa occasião poucos, muito poucos, dos elementos revolucionarios tinham a noção exacta do valor da posição onde combatiam e parallelamente do heroismo que a defeza d'essa posição representava.
Poucos, muito poucos, reflectiram que, se a artilharia de Queluz os atacasse a coberto de qualquer elevação de terreno, a Rotunda soffreria fatalmente uma _razzia_ sangrenta, difficil de impedir.
Cêrca do meio dia, alguns populares, que, pelo seu armamento insignificante, diminuto auxilio podiam prestar aos defensores da Rotunda, desceram a Avenida, com o intuito de conquistar a adhesão das forças acampadas no Rocio. Machado Santos sabia perfeitamente que n'essas forças existiam elementos revolucionarios e pretendia attrahil-os ao seu acampamento. Os populares executaram a manobra ao abrigo das arvores das ruas lateraes, mas, uma vez chegados á praça dos Restauradores, as metralhadoras romperam fogo e obrigaram-nos a retroceder com perdas sensiveis. Desde então, nunca mais se fez reconhecimento tão arriscado das forças inimigas e todos os elementos de utilidade á causa revolucionaria julgaram mais prudente conservar-se dentro da Rotunda, aguardando um _corps-á-corps_ que, se se produzisse, provocaria um desastre irreparavel.
Á 1 e 30 da tarde, um vigia empoleirado n'uma figueira do parque Eduardo VII surprehendeu dois officiaes que, de espada desembainhada, se escoavam proximo dos muros da Penitenciaria. O vigia desceu da arvore e communicou as suas suspeitas a um sargento de artilharia 1, commandante d'uma das peças. O sargento visou o local e dentro de poucos instantes a columna do commando do coronel Albuquerque, que comprehendia lanceiros 2, cavallaria 4, a bateria de Queluz e infantaria 2, soffria o primeiro revez.
Paiva Couceiro, que veraneava ao tempo em Cascaes, tinha apparecido em Sete Rios, onde estacionava a columna de ataque, pouco antes do meio dia. O coronel Albuquerque, logo que elle se lhe apresentou, explicou-lhe que o quartel general o incumbira de investir contra a Rotunda e o quartel de artilharia 1. Paiva Couceiro extranhou que, dispondo ainda o quartel general de cinco regimentos de infantaria, de toda a guarda municipal, da engenharia e da guarda fiscal, destinasse para o ataque aos revoltosos apenas uma fracção minima dos effectivos e constituida na sua maior parte com a cavallaria, isto é, com a tropa menos apropriada ao assalto de muros ou barricadas. Mas não expressou alto e bom som o seu reparo e limitou-se a dizer ao coronel Albuquerque:
--Bem, n'esse caso, temos de escolher primeiro a posição da artilharia.
Lembrou-lhe a Penitenciaria, mas, logo a seguir, outro official informou que d'uma propriedade á esquerda, entre a Penitenciaria e o _chalet_ do sr. Henrique de Mendonça, se podia fazer fogo, com exito, sobre a Rotunda. Paiva Couceiro, acompanhado por um official de cavallaria, reconheceu a posição indicada e, achando-a excellente, para lá conduziu a bateria, apoiada n'uma columna de infantaria 2. Mas quando ia precisamente iniciar o ataque da artilharia contra o quartel de Entre-Muros, rebentaram sobre as tropas monarchicas tres granadas despedidas do Parque Eduardo VII, ficando logo feridos um capitão, um cabo e varios soldados. Cahiram mortas algumas muares, tresmalharam-se os cavallos e as parelhas dos armões que ainda não tinham descoberto abrigo e mais de metade da força de infantaria 2, com umas tantas praças da bateria, poz-se em fuga desordenada.
O duello de artilharia prolongou-se durante uns tres quartos de hora, findos os quaes, Paiva Couceiro, suppondo que os revoltosos haviam desamparado as peças collocadas nas immediações do quartel de Entre-Muros, mandou sahir uma força de infantaria que se estendeu em atiradores no terreiro livre do lado opposto. Não tardou, porém, que essa força experimentasse baixas sensiveis. Infantaria 2 já estava então reduzida a umas cincoenta praças, que Paiva Couceiro, cêrca das 3 da tarde, tentou novamente conduzir ao assalto de artilharia 1. Baldado empenho. O tiroteio dos revoltosos não abrandava e o commandante do grupo a cavallo, reconhecendo que com tão poucos soldados não lograva o seu objectivo, mandou pedir ao quartel general que lhe facultasse duas companhias de infantaria de linha e uma da municipal para produzir novo ataque á posição de Entre-muros. A resposta do quartel general, levada a Paiva Couceiro pelo capitão Martins de Lima e tenentes Wanzeller e Ramos, foi que a bateria cessasse immediatamente o fogo e descesse outra vez á estrada de Sete Rios. Paiva Couceiro obedeceu e mandou seguir as forças do seu commando pela azinhaga da Fonte, Luz, Campo Grande, Arroyos, rua Nova da Palma até o Rocio, onde chegou noite fechada. Depois, indo apresentar-se ao quartel general, Paiva Couceiro recebeu ordem de collocar duas peças na embocadura da rua Augusta e as outras duas na embocadura da rua do Ouro para obstar a um possivel ataque da marinha.
Ao cahir da tarde, resolveu-se que todos os insurrectos que se encontravam no quartel de Alcantara entrassem no _Adamastor_. Este barco de guerra, para o embarque se fazer mais rapidamente, atracou ao vapor _Guiné_, da Empreza Nacional, que estava encostado á muralha, utilisando-se tambem uma falua do Arsenal e o rebocador _Cabinda_. Apesar d'isso, a operação decorreu com alguma morosidade, pois a columna comprehendia cêrca de 1.500 homens e levava outra vez para bordo grande quantidade de munições e uma metralhadora. Emquanto se effectuava o embarque, a face da frente do quartel era defendida por umas tantas praças e civis sob o commando do commissario Costa Gomes; o lado sul era protegido pelas baterias de bordo.