A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Chapter 12

Chapter 123,712 wordsPublic domain

«--Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...

«--Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco fazia a descripção geral d'essa jornada...

«--Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós entrámos no _Dinorah_ sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o passo...

«--E uma vez lá dentro...

«--Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e, sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...

«--E era certo?

«--Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o _Dinorah_ não tinha ainda pressão, mas poderia abalar dentro de meia hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os avisasse de que o vapor era o _Dinorah_. Desembarquei, indo pela muralha adeante, em procura dos officiaes. Não estavam já no mesmo ponto onde pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco, porque ali começava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus perigos uma tal visinhança... Estavam junto da cancela da linha ferrea, e, para provar que me não escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite, direi que já lá encontrei o Monteiro Guimarães, a quem o almirante mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros tiros de peça... Em terra já tinhamos tambem percebido o ruido da fusilaria.

«Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros... Contámol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroço, ficámo-nos depois á escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos officiaes a exclamar: «Dir-se-ia o signal das forças fieis...» (Correra entre os officiaes que o signal das forças monarchicas eram nove tiros de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para nós de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de fóra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito desanimadoras...

«--Quem era esse official?--perguntou-lhe o jornalista.

«--O tenente Aragão e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos navios, no periodo da organisação. Porque, creia isto: no trabalho de preparação dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que mereciam historia. O perigo não existiu apenas dentro das horas de combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciação, que se fez, dentro dos navios e dos quarteis, á custa de sacrificios tremendos. O Aragão, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com desconfiança, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que as praças se lhe dirigiam, n'um quasi «tu cá, tu lá» nascido das reuniões... O Aragão foi-se do caes, e, incançavel, expondo-se sempre, andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube depois que voltou lá abaixo, porém em occasião em que já lá não estava nenhum official.

«--Essa ultima affirmação vae contra outras, que dão o tenente Aragão falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: «Meu almirante, basta de sacrificios! Infantaria 16 está fuzilando o povo!»

«--O Aragão não pode ter communicado com o almirante. Pelo menos não o fez emquanto lá estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso pedido, se dirigiu ao _Dinorah_ a levar as ultimas noticias, e as resoluções d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa occasião para apreciar immediatamente os acontecimentos.»

Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo até os officiaes alcançarem noticias exactas sobre o que se estava passando n'outros pontos de Lisboa. As suas resoluções, claro é, ficaram, no emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia do embarque. É o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente da revolta:

«--Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o proferir estas palavras:

«--Está tudo perdido... Não podemos effectuar o desembarque da marinha, porque os dois vapores não vão junto dos navios de guerra; infantaria 16 conserva-se fiel á monarchia; artilharia 1 não adheriu; dos outros regimentos não ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa... O melhor agora é todos nós voltarmos cada um para sua casa, mas de modo que a policia não nos surprehenda.

«E voltando-se para mim e outros officiaes:

«--Os senhores podem desembarcar já. Eu ainda me demoro no vapor alguns minutos...

«Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e só sahiu de lá quando dispersámos no Aterro...»

Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava á porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do _Dinorah_, com a obcessão,--chamemos-lhe assim--de que o movimento abortára, fôra até ali, não esperançado em obter noticias que o reconfortassem, mas para ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante houvesse succumbido logo após a primeira contrariedade--elle, tão energico, tão cheio de fé, tão dedicado á propaganda republicana, em summa, tão devotado á organisação revolucionaria. Mas, Candido dos Reis soffrera com o 28 de janeiro uma desillusão profunda e ao perceber que falhara o assalto aos navios de guerra--esse assalto que elle julgava indispensavel ao bom exito da revolta--não se conteve e exclamou, fóra de si, n'um arranco de patriotica indignação:

--Já não ha portuguezes!...

Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o á porta do balneario, ao lado de Soares Guedes, com os braços cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vêl-o ali, á hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:

É verdade, estou aqui porque perdi a esperança no movimento e não sei o que devo fazer. O meu logar era no caes, ao pé da Companhia do Gaz, onde devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da revolta eu apenas observei as evoluções da policia e da municipal, e tenho o presentimento de que está tudo perdido.

Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios. Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares. No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores. N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado, expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:

[Ilustração: General Antonio do Carvalhal Comandante da 1.ª Divisão Militar]

--Extranho isto. Em vez de agitação revolucionaria, só se vê a policia e tropas de prevenção. Presinto que vamos ser assaltados e que terei de dar um tiro nos miolos. Você, Leal, não acha ridiculo que eu vá acabar n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e ou hei de morrer na revolução ou hei de liquidar a vida pelas minhas proprias mãos.

Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis insistiu na ideia do suicidio:

--Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...

Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:

--Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho, mande-me prevenir.

Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que succedeu depois, conta-o elle d'este modo:

«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao _chauffeur_ que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e meia da manhã.

«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim, já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim como se desempenhára da sua missão:

«--Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá. Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra removido para a _Morgue_».

O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica. No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de 100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma nota de 5$000 réis e varios papeis...

A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.

Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um _reporter_ sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente: 1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

--No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro, n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que, de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco, a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos, disse-me:

«--Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou chamal-a.

«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:

«--É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»

Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é, que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal, recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do movimento--que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se. Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão, ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um medroso, um covarde.

E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla, Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e 30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel. Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria, desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação revolucionaria,--uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra, o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.

CAPITULO XX

O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades

Deixámos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura em que, tendo destroçado as forças monarchicas em Alcantara, haviam recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois, amanheceu. «E então, relata o 1.º tenente Parreira, verificou-se que pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de ferro e tapumes, desenvolvendo-se até á rua da Costa, acompanhada tambem da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. Ás 6 horas os navios, ainda a leste, deram algumas salvas, içando nós no mastro da parada a bandeira encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehensão de varios artigos, taes como uma carroça de pão da padaria militar e outra de carne que foi levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroça de refrescos que passava na occasião.

«Pelas 7 horas da manhã veiu um dos chefes de um dos grupos civis informar que o _S. Raphael_ e _Adamastor_ tinham bandeira revolucionaria içada, mas que a bordo do _Adamastor_ lhe haviam dito ser preciso um official para commandar o _S. Raphael_, visto lá não haver official algum, e o _Adamastor_ estar apenas commandado pelo tenente Cabeçadas esperando ordens. Esta informação levou o tenente Parreira a ordenar ao tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do _S. Raphael_ e indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o Aterro, na intenção de tomar qualquer embarcação que lhe apparecesse ou mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao serviço do carvão e cujo encarregado se pôz á disposição dos revoltosos.

«Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licença, communicar que tinha recebido ordem do commandante das forças fieis ao regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte intimar o commandante das forças de marinha a render-se no praso de 15 minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar na linha de fogo.

«Algum tempo depois vimos o _S. Raphael_ seguir rio abaixo vindo fundear em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma força com uma metralhadora e as munições precisas para guarnecer a gente do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnição do navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouços do quartel.»

Mas, não prosigamos no desenrolar d'esta documentação sem uma referencia demorada ás peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no quartel de Alcantara e o bombardeamento do Paço das Necessidades. Como já dissémos, ás 7 horas da manhã do dia 4, o tenente Parreira recebeu as primeiras informações do que occorria a bordo dos navios revoltados: o _Adamastor_ e o _S. Raphael_. Essas informações foram-lhe prestadas, além de outros civis, por Estevão Pimentel, que já tinha estado a bordo do _Adamastor_ e falara com o tenente Cabeçadas. Era forçoso ir tomar o _S. Raphael_, não só porque o comando do barco devia ser exercido por um official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se esforçavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da insurreição.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa missão de confiança e foi ao _Adamastor_, d'onde seguiu mais tarde para o _S. Raphael_. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos lhe manifestaram o receio de qualquer complicação, se o movimento, porventura, não triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e n'uma penna e redigiu uma declaração honrada e firme que concentrava na sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do _S. Raphael_--que os marinheiros revoltados tinham aprisionado--que se conservassem detidos até o momento de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para Alcantara. O _Adamastor_ preparava-se, no emtanto, para largar da boia e ir occupar uma posição identica ao lado do _S. Raphael_. Á passagem do _S. Raphael_ junto do _D. Carlos_, que ainda ostentava a bandeira azul e branca, as poucas praças então a bordo do segundo d'esses cruzadores proromperam em vivas á Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente Tito de Moraes:

--E se nós fossemos agora tomar o _D. Carlos_?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

--Logo... fica para logo... Agora temos outro serviço a fazer.

[Ilustração: Proclamação da Republica Portugueza pelas Camaras Constituintes]

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia desembarcar do _S. Raphael_ os officiaes presos, cincoenta marinheiros revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins, que, sendo conspirador e não tendo recebido a tempo o aviso de comparencia, resolvera no dia 4 de manhã dirigir-se a bordo d'aquelle vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria general o não reconhecessem.

--Ás suas ordens, meu commandante!--disse Marianno Martins ao tenente Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaboração n'um aperto de mão cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e perguntou-lhes, sem perceber no momento a situação em que todos elles se encontravam:

--Então... vocês não ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico á Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou immediatamente do _S. Rafael_.

No quartel dos marinheiros, porém, não havia a menor informação do que se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte da cidade. Só proximo do meio dia é que ali chegaram um dos membros do Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a verdadeira situação das forças revolucionarias, que conheciam pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.

«Logo--conta o tenente Parreira--se impoz a juncção com as forças da Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer, desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o bombardeamento do paço, que demorou algum tempo, e depois do corpo de marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de caçadores 2 e das restantes forças fieis á monarchia.