A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891)

Chapter 4

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«O tri-centenario de Camões foi o primeiro capitulo da gloriosa jornada que teve o seu desfecho em 5 de outubro de 1910. Nunca se viu cousa semelhante em grandeza e sinceridade. O povo, o bom povo portuguez, compenetrado da elevação da festa, e ainda mais de que a homenagem ao immortal cantor das nossas glorias correspondia ao anceio d'uma revivescencia futura, acorreu a ella cheio de enthusiasmo, ardoroso, expandindo a maior alegria. A celebração do tri-centenario radicou no espirito da nacionalidade a ideia carinhosa de que no auctor dos _Lusiadas_ se symbolisavam as esperanças de melhores dias e talvez do regresso a um passado opulento, viril, de inapagaveis tradicções.

«Mas a grandiosa homenagem não teve só esse condão. Despertou egualmente a energia democratica, congregou em volta das figuras do partido republicano, então em evidencia, os elementos dispersos, consolidou-os, deu corpo á opinião publica, foi o ponto de partida da marcha politica que, em successivas _étapes_, conseguiu, entre nós, pôr um ponto final no regimen monarchico. Devemol-a essencialmente a Theophilo Braga, que durante tres annos consecutivos fez uma propaganda intensissima para a sua realisação. A commissão executiva da festa compunham-na elle, Rodrigues da Costa, que representava ao tempo o jornal mais antigo, a _Revolução de Setembro_; Pinheiro Chagas, Eduardo Coelho, Jayme Batalha Reis, Ramalho Ortigão, Luciano Cordeiro, eu e o visconde de Juromenha, mais tarde substituido pelo Rodrigo Pequito. Cada um de nós tomou a seu cargo para a preparação da solemnidade o realisar um certo numero de conferencias em que, divulgando a obra do epico, se orientava ao mesmo tempo o espirito publico n'um ideal genuinamente patriotico.

«E a influencia exercida pela nossa acção foi tal que, apesar da hostilidade que o governo progressista da epoca nos moveu, os _Lusiadas_ entraram em todos os lares e Camões, alcançando a maior consagração, passou a ser como que o orago da massa popular. As edições da monumental epopeia vulgarisaram-se por uma forma extraordinaria. Fizeram-se varias, desde a mais modesta, ao alcance de todas as bolsas, até á de luxo, regalo de privilegiados. Os nossos manifestos eram acolhidos com verdadeira soffreguidão e conseguiam maior exito do que os decretos do governo. Chamava-se ironicamente á commissão do tri-centenario o _comité_ de Salvação Publica, mas essa ironia dava bem a medida da nossa força e o que é mais: da impetuosidade da corrente democratica que caracterisou sempre e profundamente a homenagem ao grande poeta.

«A celebração do tri-centenario fez expandir a ideia republicana que muitos espiritos acalentavam em silencio. Em 1880 havia republicanos, mas não havia conjugação de forças democraticas. O tri-centenario promoveu-a. Antes de se prestar a homenagem ao poeta, já se palpava a existencia de um ideal de liberdade e de justiça, o esboço d'uma reacção decidida contra o regimen monarchico. Recordo-me, perfeitamente, que no antigo _Commercio de Portugal_, ensaiando a verificação d'essa corrente avassaladora, obtive um resultado bastante lisongeiro. Nos caixeiros, mais talvez do que nas outras classes, encontrei elementos valiosos de propaganda--parte dos quaes fundou e installou o Atheneu e mezes depois da celebração do tri-centenario me auxiliou na fundação do _Seculo_.

«Glorificando o epico immortal, revestindo de excepcional imponencia esse cortejo apotheotico do dia 10 de junho de 1880, Lisboa e, com ella, as provincias, soffreram um abalo salutar, enveredando decisivamente no caminho da destruição da tyrannia brigantina. A monarchia comprehendeu-o e quiz impedil-o. O rei D. Luiz pretendeu encorporar-se no cortejo e o governo não lh'o consentiu. Em summa, a influencia desprendida da festa foi enormissima e fez-se sentir de modo flagrante no decorrer dos annos e em diversos incidentes da vida interna da nacionalidade».

Em 1881, quando a imprensa republicana promoveu uma campanha justa e violenta contra o celebre tratado de Lourenço Marques, a opinião vibrou como nunca até ali vibrara. Alguns officiaes do exercito chegaram a offerecer-se para, na impossibilidade do partido republicano se lançar abertamente n'uma revolução, organisarem guerrilhas e d'esse modo combaterem a monarchia. Crearam-se centros politicos, as associações de classe tomaram um incremento irreprimivel e o povo passou a interessar-se a valer pelas attitudes dos governantes. Apoz a celebração do tri-centenario, o dr. Magalhães Lima propoz-se deputado por Lisboa, ou melhor, pelo circulo 98, que comprehendia S. Paulo, Santos, Lapa e Alcantara. A lucta foi renhida. Theophilo Braga propoz-se depois por Alfama, Manuel de Arriaga pela Baixa e Elias Garcia pelo circulo 95 (Anjos). Durante annos foram estes os _candidatos chronicos_ dos republicanos da capital. Travaram-se batalhas eleitoraes que ficaram memoraveis. D'uma das vezes, disputando Magalhães Lima um circulo a Hintze Ribeiro, Fontes, ao tempo presidente do conselho, viu-se forçado a ir presidir a um comicio para _poder salvar a honra do convento_...

Comtudo, esse impulso progressivo experimentado em 1880 pelo ideal democratico, soffreu um decrescimento apoz 1881, isto é, logo que a questão do tratado de Lourenço Marques se apagou do espirito publico. E essa decadencia, chamemos-lhe assim, chegou a ser tão accentuada que o incomparavel jornalista Emygdio Navarro não duvidou um bello dia fazer um appello ao estado maior do partido republicano convidando-o «a ir religiosamente enterrar uma bandeira que parecia condemnada a não se desfraldar jámais». O director das _Novidades_ supplicava a todos os democratas que fossem uteis á patria, levando a sua dedicação, o seu trabalho, a sua intelligencia aos arraiaes da monarchia, que os receberia de braços abertos. Deram-se mesmo algumas deserções. O jornalista portuense Emygdio de Oliveira cessou a publicação do diario _Folha Nova_ e renunciou á politica republicana. Outros dos seus correlligionarios acolheram-se a um novo gremio politico--a _Esquerda Dynastica_--fundado e dirigido pelo sr. Barjona de Freitas, e durante mezes, dada a crise de desorganisação que o minava, suppoz-se até que o partido mais avançado se fusionára n'aquella facção conservadora.

CAPITULO VIII

João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica

Mas sobreveiu o _ultimatum_ e esse conflicto diplomatico exerceu egualmente consideravel influencia nas condições politicas da sociedade portugueza. O patriotismo, offendido, encorporou-se nas fileiras democraticas e engrossou-as. Brotaram da indignação do momento varios jornaes que foram outros tantos pamphletos revolucionarios: a _Patria_, de Lisboa, o _Rebate_, do Porto, fundado pelo sr. Eduardo de Sousa, o _Ultimatum_, de Coimbra, fundado pelo sr. Antonio José de Almeida. Com essa erupção jornalistica coincidiu a formação, na Universidade, d'uma geração de propagadores do ideal, que apoz os dias luctuosos de 1890 publicou um manifesto vigoroso, aggredindo directamente o regimen monarchico e reclamando a bem da patria uma mudança de instituições. A policia não deixou circular esse documento, mas dois diarios reproduziram-no immediatamente nas suas columnas. Assignavam o manifesto, entre outros, estes estudantes:

[Ilustração: A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo Ildefonso]

_Fernando Brederode, João de Menezes, Agostinho de Campos, Cunha e Costa, Couceiro da Costa, Antonio José de Almeida, Pires de Carvalho, Lomelino de Freitas, Antonio Cabral, Mario Monteiro, Augusto Barreto, Silvestre Falcão, João de Freitas, Paulo Falcão, Francisco Valle, Julio Paulo de Freitas, Malva do Valle, Evaristo Cutileiro, Luiz Soares de Sousa Henriques, Affonso Costa, Manuel Galvão, Lucio Paes_ _Abranches, Julio de Mello e Mattos, Fausto Guedes, Bessa de Carvalho, Alberto de Oliveira, Bernardo Leite, Carneiro de Moura, Antão de Carvalho, Arthur Leitão e Virgilio Poyares._

É tempo de nos referirmos á entrada de João Chagas na scena politica, facto que se produziu em 20 de fevereiro de 1890. O eminente publicista, que até então trabalhara na imprensa monarchica, revoltado ou, melhor, enojado com o espectaculo que presenceara durante os dias agitados que se seguiram ao _ultimatum_, dirigiu n'aquella data esta carta ao _Correio da Noite_:

«_Meu caro amigo_:--Não me convindo continuar a collaborar em jornaes da imprensa monarchica, nos quaes, aliás, tenho tido apenas collaboração litteraria, peço a v... me julgue desde hoje desligado da redacção d'essa folha. Aproveito o ensejo para lhe agradecer as provas de consideração que constantemente me tem dispensado.--Seu amigo e collega: _João Chagas_.»

Egual declaração foi publicada no _Tempo_ e na _Provincia_ e no dia 21 um jornal republicano da manhã accrescentava, fazendo allusão ao facto: «desde já affirmamos que João Chagas traz ao nosso partido toda a sua intelligencia, toda a sua dedicação e todo o seu ulterior trabalho; é uma adhesão valiosissima, que mostra bem o que ha de diamantino no caracter do nosso amigo, que não hesita sacrificar interesses egoistas nas aras sacrosantas da patria, cuja remodelação é incompativel com a subsistencia do affrontoso regimen que nos vae explorando».

Na _Historia da Revolta do Porto_, que escreveu de collaboração com o ex-tenente Coelho, João Chagas descreve assim os seus primeiros passos na propaganda do ideal republicano:

«Em fevereiro de 1890, como um dos auctores d'esta obra, ao tempo joven e fazendo um jornalismo sem paixão e sem ambições, se decidisse a encetar o jornalismo politico e a adoptar a causa que era então de toda a gente, reuniu-se a um, egualmente joven--tudo foi juventude n'esse movimento!--alumno do curso de engenharia civil, Chrispiniano Fonseca, que mais tarde veiu a morrer no Brazil, de febre amarella, sob a republica de Floriano Peixoto; e tendo os dois concertado «que era preciso fazer alguma coisa», como se dizia por essa grande epocha, começaram por ir espionar a provincia do Algarve, onde certo dia se affirmou com alarme que rebentara uma sedição militar e, havendo reconhecido que tal sedição estava longe de ser um facto, voltaram as vistas para outro lado e decidiram, apoz diversas machinações, que o que havia a fazer era _propaganda_ muito activa e muito eloquente.

«D'este accordo partiu a ideia de fundar um jornal republicano, já se vê, que tomasse a dianteira a todos os que já existiam e que, para a nossa impaciencia, pareciam excessivamente deficientes.

«Alvitrou-se que se lançasse o jornal a publico o mais rapidamente possivel, dentro de quinze dias, dentro de um mez--e quando se discutiam as bases d'essa publicação imprevista e fulminante, lembrámos que um jornal, tal como o sonhavamos, desencadeando uma tormenta de paixões populares, só poderia nascer e cobrir-se de gloria no Porto, que até então não dera grandes signaes de vida civica, mas que se nos affigurava, pela sua tradicção e pelas nossas superstições, o unico centro de população portugueza susceptivel de soltar o primeiro de liberdade de que nos propunhamos ser os interpretes.

«Lisboa, inçada de uma população heterogenea, disseminada n'uma grande área e dividida pelas opiniões mais diversas, foi posta de parte, como pouco propicia para o exito do nosso emprehendimento, e adoptou-se o Porto com enthusiasmo e esperança. Estes dois homens não dispunham, porém, de uma moeda de cobre que lhes permittisse acalentar tão vasto sonho, e, por outro lado, não tinham um nome que os auctorisasse a lançar-se nas luctas politicas, em meio da confiança dos que iam ser seus amigos e cumplices.»

Apesar d'isso, João Chagas poz-se a caminho da capital do Norte, alcançou o concurso do velho democrata José Sampaio (Bruno) e em breve formou-se uma modesta empreza com o capital sufficiente para a fundação da ambicionada gazeta. O primeiro numero da _Republica_--tal era o titulo do novo jornal--sahiu a 18 de abril de 1890 e, embora esse e os numeros seguintes traduzissem ás claras o radicalismo das aspirações do seu director, a verdade é que o diario logrou pouca vida e pouco tempo depois suspendia a publicação. Em setembro do mesmo anno, João Chagas, recebendo o auxilio efficaz de tres democratas, Dyonisio dos Santos Silva, Joaquim Leitão e Alvarim Pimenta, voltou a insistir na creação d'uma folha demolidora e fez sahir a _Republica Portugueza_, que acolheu na sua redacção toda uma pleiade de velhos e jovens combatentes, animados por egual do desejo de derrubar o regimen. O artigo de apresentação inserto no primeiro numero dizia assim:

«A obra d'este jornal será inteiramente e desassombradamente revolucionaria. Tanto vale dizer que será um jornal de combate e dirá tudo o que fôr mister:

«a despeito da vontade pessoal do rei;

«a despeito da tyrannia dos governos;

«a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que exploram o paiz.»

No primeiro numero da _Republica Portugueza_ tambem foram estampados os retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras: _Pelourinho: Os tres de Inglaterra_. Nos outros logares do jornal explodia a incitação á revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca até ali fôra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o João Chagas:

«A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte ás instigações directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a publico, não foi senão em virtude de circumstancias que não se produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse, nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras circumstancias. Esse não».

Na _Republica Portugueza_ collaboraram José Sampaio (Bruno), Julio de Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal, Heliodoro Salgado e, o que é mais interessante fixar, varios officiaes do exercito--um dos quaes, em serviço na guarda municipal, teve um dia ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaboração, logo que a _Republica Portugueza_ viu a luz da publicidade, arremettendo violentamente contra as instituições, appareceram um sem numero de communicações «sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e sargentos da guarnição portuense, a principio, depois de militares das guarnições da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduações já do Porto já de Lisboa». E os que as enviavam ao jornal faziam-no de modo tão explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos defensores do regimen e collocasse os signatarios em situação compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos, damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasião á _Republica Portugueza_ por um grupo de officiaes transmontanos:

_Camaradas: A mãe-patria agonisa. É preciso que seus filhos a salvem sem demora, porque a sua salvação é do nosso dever. Salvemos a patria proclamando a Republica. Camaradas: Não ha tempo a perder._

D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890 não tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nação, o exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos não se revelava simplesmente nas communicações dirigidas á _Republica Portugueza_, mas tambem em dois orgãos da classe militar, o _Sargento_ e a _Vedeta_, que deram á imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda subversiva. O _Sargento_, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia a todo o genero de infracções disciplinares:

«O exercito aguarda o plebiscito da nação, sem as restricções, as formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidadãos livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da representação nos comicios; ou o plebiscito da revolução nas barricadas.

«O povo é o poder legislativo; o exercito é o poder executivo. O povo é a vontade; o exercito é a acção. O povo é a soberania; o exercito é a força. O exercito não é uma guarda de suissos; o exercito não é uma casta. O exercito é a nação armada e é a democracia armada».

A linguagem da _Vedeta_ não era menos arrojada e expressiva. A irritação na classe militar augmentava de dia para dia, e porque o governo de Hintze Ribeiro, sempre cuidadoso de rodear o throno do maior numero de garantias, entrara a valer no caminho das repressões, transferindo officiaes e mandando para o serviço do cordão sanitario, que então guarnecia a fronteira, certos contingentes de corpos suspeitos de rebeldia. Por outro lado, em agosto, o mesmo governo apresentava ao parlamento o tratado com a Inglaterra e esse novo acto de vergonhosa submissão ante a _fiel alliada_, longe de acalmar os espiritos, aguçara extraordinariamente as ideias revolucionarias.

A medida ia a trasbordar... N'uma noite d'aquelle mez, um grupo de segundos sargentos e cabos de infantaria e caçadores, sem que a sua _démarche_ correspondesse a qualquer trabalho previo de alliciação, apresentou-se na redacção da _Republica Portugueza_ e um d'elles, Annibal Cunha, formulou o plano da rebellião. Tratava-se de fazer sahir infantaria 18, para o que diziam contar com o apoio de grande numero dos seus camaradas, depositando antecipadamente na alameda da Lapa, proxima do quartel, uma certa quantidade de espingardas de velho typo, existentes na arrecadação do regimento. As espingardas serviriam para armar os cidadãos que fosse possivel ligar á aventura.

Exposto o plano, o grupo prometteu voltar ao jornal e voltou, com effeito, desferindo então mais largos vôos, ampliando a esphera do seu emprehendimento. Não era facil, porém, realisar na occasião qualquer tentativa e, apoz acalorada discussão, foi decidido aguardar o regresso ao Porto das tropas empregadas no cordão sanitario. Mas esse grupo, tendo iniciado o contacto directo com os homens que propagavam pela palavra e pela escripta o ideal republicano, não tardou que outros militares o imitassem e, dentro de semanas, a redacção da _Republica Portugueza_ passou a ser frequentada por dezenas de sargentos, cabos e soldados da guarnição do Porto, todos dispostos a collaborar na obra da revolução. Quer dizer: o _complot_ militar formava-se e avolumava-se gradualmente, espontaneamente, sem que os dirigentes da politica democratica para elle houvessem contribuido com o mais insignificante pedido de concurso.

CAPITULO IX

O dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento

Comtudo, tornava-se necessario acceitar as adhesões que irrompiam cada vez mais numerosas e inflammadas e canalisal-as, dando-lhes orientação perfeitamente definida. João Chagas e a redacção da _Republica Portugueza_ procuraram entender-se, para tal effeito, com o dr. Alves da Veiga, que ao tempo gosava no Porto da situação d'um chefe de partido e dividiram com elle as responsabilidades da conspiração. Até o momento, os republicanos do Porto tinham-se limitado, na espectativa dos acontecimentos, a agitar a opinião por meio da imprensa e dos clubs; o directorio do partido, presidido por Elias Garcia, procurára iniciar um movimento egualmente de caracter militar e delegára em Basilio Telles o encargo de o secundar na capital do Norte. No emtanto, como de todos os republicanos portuenses o dr. Alves da Veiga era o que dispunha de maior actividade organisadora, foi elle que desde logo assumiu a chefia civil da conspiração, continuando Basilio Telles a operar de concerto com o directorio, extranho em absoluto a esta primeira phase dos acontecimentos. E assim, em setembro de 1890, lançando mãos á obra, o illustre jurisconsulto preparou nas provincias do Norte diversos _comités_ revolucionarios que deviam secundar, no ensejo propicio, a iniciativa do Porto.

[Ilustração: Capitão Leitão (1891)]

Restava encontrar quem reunisse á sua volta, e os estimulasse, os elementos de lucta que se offereciam constantemente á redacção da _Republica Portugueza_. Lançou-se os olhos sobre a figura gigantesca de Santos Cardoso e o famoso director d'um semanario de combate--que se propunha «pôr as calvas a descoberto»--embora soffrendo d'uma reputação pouco cuidada, appareceu immediatamente como o homem de acção capaz de aggremiar os officiaes inferiores da guarnição do Porto que se entregavam á causa da revolta. E assim succedeu. A casa de Santos Cardoso passou a ser o centro da conspiração dos sargentos. Mas o director da _Justiça Portugueza_, não contente com isso, quiz ir mais longe. Principiou a dirigir-se a varios officiaes, solicitando a sua adhesão e a corresponder-se com o directorio, de quem recebia communicações e mais tarde lhe conferiu um voto de confiança.

Em 17 de setembro, deu-se no Porto a unica manifestação tumultuosa que precedeu na capital do Norte a revolta de 31 de janeiro. A sua iniciativa partiu d'um grupo de estudantes, entre os quaes se contavam Alberto de Oliveira e Eduardo Arttayette. Começou no café Suisso, na praça de D. Pedro. Pouco antes, tinham sido queimados á porta do estabelecimento varios jornaes do governo--como protesto contra a apresentação do tratado de 20 de agosto--e davam-se vivas á Patria e morras á Inglaterra, quando entrou no café o antigo republicano Felizardo de Lima. Resoou uma enthusiastica salva de palmas, o estudante Ernesto de Vasconcellos fez um discurso caloroso e alguem soltou este grito:

--Para a rua!

Os manifestantes sahiram em massa do estabelecimento e encaminharam-se para a rua dos Clerigos, tendo á frente, entre outros, João Chagas e o dr. Julio de Mattos. O cortejo comprehendia individuos de todas as classes sociaes e atroava os ares com vivas, morras e ruidosas salvas de palmas. Dos Clerigos, os manifestantes foram á Cordoaria. Depois, em frente da Relação, o estudante Eduardo de Sousa fez um discurso e o cortejo encaminhou-se para a rua das Taypas, produzindo novas e estrepitosas demonstrações deante do quartel de caçadores 9. Á porta e ás janellas do quartel appareceram muitas praças agitando os _bonnets_. Da rua das Taypas, os manifestantes dirigiram-se á rua do Triumpho, entoando a _Marselheza_ e a _Portugueza_, então muito em voga. Em frente do quartel de infantaria 10 reproduziram-se os applausos ao exercito e o cortejo seguiu para a rua do Pombal, parando junto d'uma das casas d'essa rua a acclamar o dr. Alexandre Braga, pae do illustre causidico do mesmo nome. Alexandre Braga, assomando a uma janella, falou ao povo, affirmando-lhe estar orgulhoso por encontrar nos moradores do Porto a sua altiva e tradiccional energia.

A manifestação seguiu depois ao campo de Santo Ovidio, parando em varios pontos do percurso para ouvir improvisados oradores. Um d'elles disse:

--O Porto precisa provar que ainda não perdeu o segredo das revoluções.