A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891)

Chapter 12

Chapter 121,445 wordsPublic domain

Não faltaram elogios e homenagens aos triumphadores como se não poupou os vencidos a toda a casta de imprecações. No momento da derrota ninguem pensou em que a explosão revolucionaria podia reproduzir-se, apoz certo lapso de tempo, e que essa reproducção podia ser acompanhada de elementos de exito seguro. Todos trataram, na occasião, de mostrar á dynastia brigantina um servilismo fóra do commum e aos pés do rei cahiram dias a fio excessivas doses de lisonja que, por serem de encommenda, nem ao proprio alvejado deviam illudir.

E comtudo a revolta do 31 de janeiro marcára uma _étape_ bem nitida no caminho da modificação do regimen. Tão nitida, que pouco antes d'ella ser julgada nos conselhos de guerra, como em outro logar referimos, o manifesto dos emigrados portuguezes residentes em Madrid soltava este grito de esperança, desferido com tanto enthusiasmo como se já o illuminasse um clarão inapagavel de victoria:

«...Nós, orgulhosos, obscuros, altivos e humildes, porque cuspimos nos homens indignos e imploramos a Deus justiceiro, entendemos que bate o minuto em que urge gritar a um povo honrado, a um povo valente que não póde ser mais: que não hade ser ainda; que é inevitavel, que é irremediavel que é necessario, immediata e incontrariadamente, cavar fundo, rasgar immenso, despedaçar largo, destruir vasto, já, já, agora, agora, de maneira que a incomparavel vergonha se envergonhe, esta incomparavel, esta inverosimil, esta unica e extraordinaria hediondez de que uma nação inteira continue, inerte, tranquilla e triturada, sob as patadas obscenas d'uma canalha que ella abomina muito menos do que ella despreza.

«E, se os emigrados teem toda a esperança no paiz, o paiz não se hade vexar envergonhado, dos seus filhos hoje proscriptos, antes com elles deve e pode contar para todos os sacrificios que a salvação da patria em perigo tem o direito de exigir dos cidadãos probos e dedicados. A grande palavra de Danton, de que ninguem consegue partir do solo que embalou o berço em que vagiu a infancia, levando a patria pegada ás solas dos sapatos, tem-n'a presente constantemente os emigrados no espirito. Com sobresaltada attenção espiam os successos; com a alma em susto, forçados, a, raivosamente, cruzarem os braços, n'uma inefficacia provisoria, assistem ao desesperador espectaculo do crescente amesquinhamento do paiz, que, com fervoroso impeto, respeitam e amam.

«Mas, aguardando sempre, não se differenciam dos seus concidadãos, injuriados pelo roubo das liberdades outr'ora conquistadas nem se desinteressam das preoccupações que os agitam. Os de fóra continuam a fazer causa commum com os que, a dentro de fronteiras, mal podem expressar seus queixumes. Do exilio os alentam, da terra estrangeira lhes clamam a esperança no futuro. Solde-se assim um pacto santo. Que a ultima palavra que pronunciamos seja a que em breve, verbo reformador, ascenda de todos os corações generosos e irrompa em todos os puros labios, como a consummação, salutar e fecunda, da grande obra iniciada a 31 de janeiro:

«Viva Portugal!

«Viva a Republica!»

Este manifesto era assignado, entre outros emigrados, por Alves da Veiga, Basilio Telles, alferes Malheiro, Antonio Claro, Carlos Infante da Camara, Annibal Cunha, José Sampaio, Alipio Augusto Trancoso e José Tavares Coutinho.

A obra iniciada a 31 de janeiro... essa veiu a consummar-se quasi vinte annos depois.

FIM

Indice

_Do TEXTO_

Pag.

Palavras de um soldado 3

Capitulo I--O movimento de 31 de Janeiro filia-se no «ultimatum» de 1890 7

» II--O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez 14

» III--Serpa Pinto, á frente de 6.000 homens, derrota os makololos revoltados 20

» IV--O governo progressista cede ante as exigencias da Grã-Bretanha 27

» V--O protesto contra o «ultimatum» echoa de norte a sul do paiz 34

» VI--Serpa Pinto, heroe africano, perde o prestigio 40

» VII--O partido republicano nasce da dispersão do reformista 48

» VIII--João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica 54

» IX--O Dr. Alves da Veiga assume a chefia civil do movimento 62

» X--O Directorio recusa a sancção official á revolta 69

» XI--A crise ministerial dos «vinte sete dias» 75

» XII--«E as armas que nos foram entregues para defeza das instituições, voltal-as-hemos contra ellas» 82

» XIII--Vinte annos apoz a derrota 92

» XIV--A alvorada triumphante: caçadores 9 inicia o movimento 96

» XV--Proclama-se a Republica no edificio da camara Municipal 107

» XVI--O choque sangrento--A guarda municipal desbarata os revoltosos 114

» XVII--A noite negra do traidor Castro--O destino de tres officiaes 121

» XVIII--O dia seguinte ao da derrota 129

» XIX--Para as despezas da revolta bastou um conto de reis 138

» XX--Triste balanço: o das victimas da insurreição 144

» XXI--A serenidade de uns e o desalento de muitos 149

» XXII--O julgamento dos revoltosos 156

_Das GRAVURAS_

Quartel de infanteria 18, e campo da Regeneração, onde se reuniram as tropas sublevadas na madrugada de 31 de Janeiro 15

Elias Garcia 19

Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao governo 23

Alves da Veiga (1891) 31

Na rua de Santo Antonio 39

João Chagas (1891) 47

A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo Ildefonso 55

Capitão Leitão (1891) 63

Uma carga de cavallaria 71

Rodrigues de Freitas (1891) 79

Levantando os feridos 87

José Sampaio (Bruno) (1891) 95

Proclamação da Republica 103

A Bandeira da Revolta que foi hasteada na camara Municipal 111

Basilio Telles (1891) 115

Bombardeamento da Camara Municipal pelas tropas fieis ao governo 119

Tenente Coelho (1891) 127

Santos Cardoso, preso a bordo 135

Actor Verdial (1891) 139

Revoltosos presos a bordo do _India_ 143

Antonio José de Almeida (1891) 147

Os prisioneiros a bordo 151

Dr. Affonso Costa (1891) 157

Conselho de guerra a bordo do transporte _India_ 161

O tumulo das victimas no cemiterio do Repouso, no Porto 167

* * * * *

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VI--_Victor Hugo_--*O Bom Bispo*.

VII--*Narrativas e Lendas da Historia Patria* (Os filhos de D. João I).

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