A Relíquia

Part 9

Chapter 9 3,784 words Public domain Markdown

Fomos, ao alvorecer, com os alforges fornidos, fazer essa votiva romaria. Era então em dezembro; esse inverno da Syria ia transparentemente dôce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o erudito Topsius contava-me como esta planicie de Canaan fôra outr'ora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e d'aguas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas d'anemonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao céo que o incenso: e as caravanas que entravam no valle pelo lado de Segor achavam aqui a abundancia do rico Egypto--e diziam que era este em verdade o vergel do Senhor.

--Depois, acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo, um dia o Altissimo aborreceu-se e arrazou tudo!

--Mas porquê? porquê?

--Birra; mau humor; ferocidade...

Os cavallos relincharam sentindo a visinhança das aguas malditas:--e bem depressa ellas appareceram, estendidas até ás montanhas de Moab, immoveis, mudas, faiscando solitarias sob o céo solitario. Oh tristeza incomparavel! E comprehende-se que pesa ainda sobre ellas a colera do Senhor, quando se considera que alli jazem, ha tantos seculos--sem uma recreavel villa como Cascaes; sem claras barracas de lona alinhadas á sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas, lhe recolham poeticamente as conchinas na areia; sem que as alegrem, á hora das estrellas, as rebecas de uma Assembléa toda festiva e com gaz--alli mortas, enterradas entre duras serras como entre as cantarias de um tumulo.

--Além era a cidadella de Makeros, disse gravemente o erudito Topsius, alçado sobre os estribos, alongando o guardasol para a costa azulada do mar. Alli viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarcha da Galilêa, filho de Herodes o Grande: alli, D. Raposo, foi degolado o Baptista.

E seguindo a passo para o Jordão (emquanto o alegre Potte nos fazia cigarros do bom tabaco de Aleppo) Topsius contou-me essa lamentavel historia. Makeros, a mais altiva fortaleza da Asia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cincoenta covados d'altura; as aguias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fóra era toda negra e soturna: mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, d'alabastros; e nos profundos tectos de cedro os largos broqueis d'ouro suspensos faziam como as constellações d'um céo de verão. No centro da montanha, n'um subterraneo, viviam as duzentas egoas de Herodes, as mais bellas da terta, brancas como o leite, com clinas negras como o ebano, alimentadas a bolos de mel, e tão ligeiras que podiam, correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de acuçenas. Depois, mais fundo ainda, n'um carcere, jazia Iokanan--que a Igreja chama o Baptista.

--Mas então, esclarecido amigo, como foi essa desgraça?

--Pois foi assim, D. Raposo... O meu Herodes conhecera em Roma Herodiade, sua sobrinha, esposa de seu irmão Filippe, que vivia na Italia, indolente e esquecido da Judêa, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bella. Herodiade!... Antipas Herodes arrebata-a n'uma galera para a Syria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodiade n'essa cidadella de Makeros. Colera em toda a devota Judêa contra este ultraje á lei do Senhor! E então Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Baptista que prégava no vão do Jordão...

--Mas para quê, Topsius?

--Pois para isto, D. Raposo... A vêr se o rude propheta, acariciado, amimado, amollecido pelo louvor e pelo bom vinho de Sichem, approvava estes negros amores, e pela persuasão da sua voz, dominante em Judêa e Galilêa, os tornava aos olhos dos fieis brancos como a neve do Carmello. Mas, desgraçadamente, D. Raposo, o Baptista não tinha originalidade. Santo respeitavel, sim; mas nenhuma originalidade... O Baptista imitava em tudo servilmente o grande propheta Elias; vivia n'um buraco como Elias; cobria-se de pelles de feras como Elias; nutria-se do gafanhotos como Elias; repetia as imprecações classicas de Elias:--e como Elias clamára contra o incesto d'Achab, logo o Baptista trovejou contra o incesto de Herodiade. Por imitação, D. Raposo!

--E emmudeceram-no com a masmorra!

--Qual! Rugiu peor, mais terrivelmente! E Herodiade escondia a cabeça no manto para não ouvir esse clamor de maldição, sahido do fundo da montanha.

Eu balbuciei, com uma lagrima a amollentar-me a palpebra:

--E Herodes mandou então degolar o nosso bom S. João!

--Não! Antipas Herodes era um frouxo, um tibio... Muito lubrico, D. Raposo, infinitamente lubrico, D. Raposo! Mas que indecisão!... Além d'isso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediavel sympathia por prophetas. E depois arreceava a vingança de Elias, o patrono, o amigo d'Iokanan... Porque Elias não morreu, D. Raposo. Habita o céo, vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacavel, vociferador e medonho...

--Safa! murmurei, arripiado.

--Pois ahi está... Iokanan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e subtil é o odio da mulher, D. Raposo. Chega, no mez de Schebat, o dia dos annos de Herodes. Ha um vasto festim em Makeros, a que assistia Vitellius, então viajando na Syria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitellius que depois foi senhor do mundo... Pois á hora em que pelo ceremonial das Provincias Tributarias se bebia á saude de Cesar e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborinos e dançando á maneira de Babylonia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodiade e de seu marido Filippe, que ella educára secretamente em Cesarea, n'um bosque, junto do Templo d'Hercules. Salomé dançou, núa e deslumbrante. Antipas Herodes, inflammado, estonteado de desejo, promette dar tudo o que ella pedisse pelo beijo dos seus labios... Ella toma um prato d'ouro, e tendo olhado a mãi, pede a cabeça do Baptista. Antipas, aterrado, offerece-lhe a cidade de Tiberiade, thesouros, as cem aldeias de Genesareth... Ella sorriu, olhou a mãi: e outra vez, incerta e gaguejando pediu a cabeça de Iokanan... Então todos os convivas, Saducceus, Escribas, homens ricos da Decapola, mesmo Vitellius e os romanos, gritaram alegremente: «Tu prometteste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!» Momentos depois, D. Raposo, um negro da Idumea entrou, trazendo n'uma das mãos um alfange, na outra presa pelos cabellos a cabeça do propheta. E assim acabou S. João, por quem se canta e se queimam fogueiras n'uma dôce noite de junho...

Escutando, embevecidos e a passo, estas coisas tão antigas--avistámos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da côr do bronze. Potte gritou: «o Jordão! o Jordão!» E arrebatadamente galopámos para o rio da Escriptura.

O festivo Potte conhecia, á beira da corrente baptismal, um sitio deleitosissimo para uma sesta christã: e ahi passamos as horas quentes, recostados n'um tapete, languidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas aguas do rio santo. Elle faz alli um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrazada jornada que traz, através do deserto, desde o lago de Galilêa: e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto--alli preguiça, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparencia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sitios mais frescos, immovel e verde, á sombra dos tamarindos... Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Persia: entre as hervas balançavam-se flôres desconhecidas, das que toucavam outr'ora as tranças das virgens de Canaan em manhãs de vindima; e na escuridão fofa das ramagens, onde já as não vinha assustar a voz terrivel de Jehovah, gorgeavam pacificamente as toutinegras. Defronte elevavam-se azues e sem mancha, como feitas d'um só bloco de pedra preciosa, as montanhas de Moab. O céo branco, mudo, recolhido, parecia descançar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando alli vivia, entre preces e mortandades, o sombrio Povo de Deus: e onde constantemente batiam as azas dos Seraphins, e fluctuavam as roupagens dos prophetas arrebatados pelo Altissimo, era calmante vêr agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares d'Engaddi.

Obedecendo á recommendação da titi, despi-me, e banhei-me nas aguas do Baptista. Ao principio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete d'um altar-mór: e de braços cruzados, nú, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em S. Joãosinho, susurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquella bucolica banheira entre arvores; Potte atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas aguas sagradas, trauteando o _fado_ da Adelia.

Ao refrescar, quando montavamos a cavallo, uma tribu de beduinos, descendo das collinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camêlos a beber ao Jordão; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lança alta, soltando gritos de batalha, galopavam, n'um amplo esvoaçar d'albornozes; e era como se resurgisse em todo o valle, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade biblica, quando Agar era moça! Teso na sella, com as redeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroismo; ambicionava uma espada, uma Lei, um Deus por quem combater... Lentamente alargara-se pela planicie sacra um silencio enlevado. E o mais alto cerro de Moab cobriu-se de um fulgor raro, côr de rosa e côr d'ouro, como se n'elle de novo, fugitivamente, ao passar, se reflectisse a face do Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:

--Aquelle cimo illuminado, D. Raposo, é o Moriah, onde morreu Moysés!

Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas d'essas aguas, d'esses montes, sentia-me forte--e igual aos homens fortes do Exodo. Pareceu-me ser um d'elles, familiar de Jehovah, e tendo chegado do negro Egypto com as minhas sandalias na mão... Esse alliviado suspiro que trazia a briza vinha das tribus d'Israel, emergindo emfim do deserto! Pelas encostas além, seguida d'uma escolta d'anjos, a Arca dourada descia balançada sobre os hombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez nas seccas areias reverdecia a terra da Promissão. Jericó branquejava entre as seáras: e através dos palmares cerrados já resoavam em marcha os clarins de Josué!

Não me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaan este urro piedoso:

--Viva Nosso Senhor Jesus Christo! Viva toda a Côrte do Céo!

* * * * *

Cedo, ao outro dia, domingo, o incansavel Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguardasolado, a estudar as ruinas de Jericó, essa velha Cidade das Palmeiras que Herodes cobrira de thermas, de templos, de jardins, d'estatuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleopatra... E eu, á porta da tenda, escarranchado n'um caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacificos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depennava frangos; o beduino triste areava á beira d'agua o seu pacato alfange; o nosso lindo arrieiro esquecia a ração ás egoas para seguir no céo, d'um brilho de saphira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para a Samaria.

Depois puz o capacete, fui vadiar na doçura da manhã, de mãos nos bolsos, cantarolando um _fado_ meigo. E ia pensando na Adelia e no snr. Adelino... Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando _carola_, emquanto eu passeava alli, nos retiros da Escriptura! Áquella hora a titi, de mantelete preto, com o seu ripanço, sahia para a missa de Sant'Anna: os creados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares: e o dr. Margaride, á janella, na praça da Figueira, pondo os oculos, abria o _Diario de Noticias_. Ó minha dôce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egypto, a minha Maricoquinhas n'esse instante estava enchendo o vaso do balcão com magnolias e rosas; o seu gato dormia no velludo da cadeira; ella suspirava pelo «seu portuguezinho valente...» Suspirei tambem: mais triste nos labios se me fez o _fado_ triste.

E de repente, olhando, achei-me, como perdido, n'um sitio de grande solidão e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromaticos arbustos de flôr amarella; já não via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, livido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros d'um poço--tão lugubres que a luz loura da quente manhã do Oriente desmaiava alli, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-folio junto de uma caveira. Mas nenhum solitario aniquilava alli a carne em heroica penitencia. Sómente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de reliquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de Sacrario--erguia-se uma arvore tão repellente, que logo me fez morrer nos labios o resto do _fado_ triste...

Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raizes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia: a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pelle negra: e da sua cabeça entumecida, de um tom de tição apagado--rompiam, como longas pernas d'aranha, oito galhos que contei, pretos, molles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos... Depois de olhar em silencio para aquelle monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:

--Para que viva!

É que me encontrava certamente diante d'uma arvore illustre! Fôra um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outr'ora em fórma de corôa por um centurião romano da guarnição de Jerusalem, ornára sarcastimente, no dia do suplicio, a cabeça de um carpinteiro de Galilêa, condemnado... Sim, condemnado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pateos do Templo, dizendo-se filho de David e dizendo-se filho de Deus, a prégar contra a velha Religião, contra as velhas Instituições, contra a velha Ordem, contra as velhas Fórmas! E eis que esse galho por ter tocado os cabellos incultos do rebelde torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lagedo, á sua passagem, as multidões enternecidas...

No collegio dos Isidoros, ás terças e sabbados, o sebento padre Soares dizia esfuracando os dentes--«que havia, meninos, lá n'um sitio da Judêa...» Era alli! «...uma arvore que segundo dizem os authores é mesmo d'arripiar...» Era aquella! Eu tinha ante meus frivolos olhos de Bacharel a sacratissima Arvore d'Espinhos!

E logo uma idéa sulcou-me o espirito com um brilho de visitação celeste... Levar á titi um d'esses galhos, o mais pennugento, o mais espinhoso, como sendo a reliquia fecunda em milagres a que ella poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiaes! «Se entendes que mereço alguma coisa pelo que tenho feito por ti, traze-me então d'esses santos lugares uma santa reliquia...» Assim dissera a snr.^a D. Patrocinio das Neves na vespera da minha jornada piedosa, enthronada nos seus damascos vermelhos, diante da Magistratura e da Igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus oculos austeros. Que lhe podia eu offerecer mais sagrado, mais enternecedor, mais efficaz, que um ramo da Arvore d'Espinhos, colhido no valle do Jordão, n'uma clara, rosada manhã de missa?

Mas de repente assaltou-me uma aspera inquietação... E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras d'aquelle tronco? E se a titi começasse a melhorar do figado, a reverdecer, mal eu installasse no seu oratorio, entre lumes e flôres, um d'esses galhos erriçados de espinhos? Ó miserrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o principio milagroso da Saude, e a tornava rija, indestructivel, ininterravel, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver--quando ella começasse a morrer!

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá... Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração--não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi--então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!... Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos--então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram... Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio--como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Mas era esta realmente a Arvore d'Espinhos? A rapidez da sua condescendencia fazia-me suspeitar a excellencia da sua divindade. Resolvi consultar o solido, sapientissimo Topsius.

Corri á fonte de Elyseo, onde elle rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa Cidade das Palmeiras. Avistei logo o luminoso historiographo acocorado junto a uma poça d'agua, com os oculos sôfregos, esgarafunhando um pedaço de pilastra negra, meia enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da herva tenra, contemplava philosophicamente e com melancolia o afan, a paixão d'aquelle sabio, de rastos no chão, á procura das Thermas de Herodes.

Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza... Elle ergueu-se logo, serviçal, zeloso, presto ás lides do Saber.

--Um arbusto d'espinhos? murmurava, estancando o suor. Ha de ser o _Nabka_... Banalissimo em toda a Syria! Hasselquist, o botanico, pretende que d'ahi se fez a Corôa d'Espinhos... Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em fórma de coração, como as da hera... Ah, não tem? Perfeitamente, então é o _Lycium Spinosum_. Foi o que serviu, segundo a tradição latina, para a Corôa d'Injuria... Que quanto a mim a tradição é futil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!

Abalámos. No ermo, ante a arvore medonha, Topsius, alçando cathedraticamente o bico, recolheu um momento aos depositos interiores do seu saber--e depois declarou que eu não podia levar a minha tia devotissima nada mais precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os instrumentos da Crucificação (disse elle, floreando o guardasol), os Pregos, a Esponja, a Cana Verde, um momento divinisados como materiaes da Divina Tragedia, reentraram pouco a pouco, pelas urgencias da civilisação, nos usos grosseiros da vida... Assim, o Prego não ficou _per eternum_ na ociosidade dos altares, memorando as Chagas Sacratissimas: a humanidade, catholica e commerciante, foi gradualmente levada a utilisar o prego como uma valiosa ferragem: e tendo trespassado as mãos do Messias, elle hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões impurissimos... Os mais reverentes irmãos do Senhor dos Passos empregam a Cana para pescar; ella entra na folgante composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso em materia religiosa) assim a usa em noites alegres de nova Constituição ou em festivos delirios pelas bodas de Principes... A Esponja, outr'ora embebida no vinagre de sarcasmo e offerecida n'uma lança, é hoje aproveitada n'esses irreligiosos ceremoniaes da limpeza--que a Igreja sempre reprovou com odio... Até a Cruz, a Fórma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A christandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é breloque; pende nos collares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho;--e a Cruz realmente n'este soberbo seculo pertence mais á Ourivesaria do que pertence á Religião...

--Mas a Corôa d'Espinhos, D. Raposo, essa não _tornou a servir para mais nada_!

Sim, _para mais nada_! A Igreja recebeu-a das mãos de um proconsul romano--e ella ficou isoladamente e para toda a eternidade na Igreja, commemorando o Grande Ultraje. Em todo este vario Universo ella só encontra um lugar congenere na penumbra das capellas; o seu unico prestimo é persuadir á contrição. Nenhum joalheiro jámais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado loiro; ella é só Instrumento de Martyrio; e com salpicos de sangue, sobre os caracoes frisados das imagens, inspira infinitamente as lagrimas... O mais astuto Industrial, depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituil-a-hia aos altares como coisa inutil na Vida, no Commercio, na Civilisação; ella é só attributo da Paixão, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ella, entre os accessorios da Escriptura, provoca sinceramente a oração. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de Padre-Nossos, diante d'uma esponja cahida n'uma tina, ou d'uma cana á beira d'um regato?... Mas para a Corôa d'Espinhos erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação da sua deshumanidade passa ainda na melancolia dos Misereres!

Que maior maravilha podia eu levar á titi?...

--Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres são d'oiro puro... Mas a outra, a verdadeira, _a que serviu_, teria sido tirada d'aqui, d'este tronco? Hein, amiguinho?

O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de quadrados: e declarou (contra a futil tradição latina e contra o ignarissimo Hasselquist) que a Corôa d'Espinhos fôra arranjada d'uma silva, fina e flexivel, que abunda nos valles de Jerusalem, com que se accende o lume, com que se erriçam as sebes, e que dá uma flôrzinha rôxa, triste e sem cheiro...

Eu murmurei, succumbido:

--Que pena! A titi fazia tanto gosto que fosse d'aqui, Topsius! A titi é tão rica!...

Então este sagaz philosopho comprehendeu que ha Razões de Familia como ha Razões d'Estado--e foi sublime. Estendeu a mão por cima da arvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua sciencia--e disse estas palavras memoraveis:

--D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Póde pois afiançar á senhora sua tia da parte d'um homem que a Allemanha escuta em questões de critica archeologica, que o galho que lhe levar d'aqui, arranjado em corôa, foi...

--Foi?--berrei ancioso.

--Foi o mesmo que ensanguentou a fronte do rabbi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus do Nazareth, e outros tambem chamam o Christo!...

Fallára o alto saber germanico! Puxei o meu navalhão sevilhano, decepei um dos galhos. E emquanto Topsius voltava a procurar pelas hervas humidas a cidadella de Cypron e outras pedras de Herodes--eu recolhi ás tendas, em triumpho, com a minha preciosidade. O prazenteiro Potte, sentado n'um sellim, estava moendo café.

--Soberbo galho! gritou elle. Quer-se arranjadinho em corôa... Fica d'uma devoção!

E logo, com a sua rara destreza de mãos, o jocundo homem entrelaçou o galho rude em forma de corôa santa. E tão parecida! tão tocante!...

--Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! murmurava eu, enternecido. Jesus! o que a titi se vai babar!