Part 8
Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas lages escuras, tão polida e reluzindo com um tão dôce brilho de nacar que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquelle pedaço de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de José d'Arimathêa...
--Bem sei, bem sei... Beijo, Topsius?
--Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes. Não se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.
Não beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, tão esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lanças d'uma grade, riscavam a sombra em redor--cada uma picada pela mancha vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore--com lavores e com florões: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada por um trapo côr de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.
Potte puxou-me outra vez pela manga:
--O tumulo!
Oh minha alma piedosa! Oh titi! Ahi estava pois, ao alcance dos meus labios, o tumulo do meu Senhor!--E immediatamente rompi como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com pennas de gaivota! Longamente, errei estonteado... Ora esbarrava n'um franciscano cingido na sua corda d'esparto; ora me arredava diante d'um padre copta, deslisando como uma sombra tenue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo d'Osiris. Aqui topava n'um montão de roupagens brancas, cahido nas lages como um fardo, d'onde se escapavam gemidos de contrição; adiante tropeçava n'um negro, todo nú, estirado ao pé d'uma columna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro d'um orgão resoava, rolava pelos marmores da nave, morria com um susurro de vaga espraiada: e logo mais longe um canto armenio, tremulo e ancioso, batia os muros austeros como a palpitação das azas d'uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto d'um altar apartei dois gordos sacristães, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de _birbantes_, esbrazeados, cheirando a cebola: e fui d'encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Caspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que não ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as mãos, d'onde lhes pendiam grossos rosarios de vidro. Crianças, em farrapos, brincavam na escuridão das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso suffocava; e padres de cultos rivaes puxavam-me pela rabona para me mostrarem reliquias rivaes, heroicas ou divinas--uns as esporas de Godofredo, outros um pedaço da Cana Verde.
Atordoado, enfileirei-me n'uma procissão penitente--onde eu julgára entrevêr, brancas, altivas, entre véos pretos d'arrependimento, as duas pennas de gaivota. Uma carmelita, á frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados n'um assombro devoto, á porta de capellas cavernosas, dedicadas á Paixão--a do _Improperio_ onde o Senhor foi flagellado, a da _Tunica_ onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na mão, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha...--E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagellando os peitos, clamando pelo Senhor, lugubre e delirante. Estavamos sobre a Pedra do Calvario.
Em torno a capella que a abriga resplandecia com um luxo sensual e pagão. No tecto azul-ferrete brilhavam soes de prata, signos do Zodiaco, estrellas, azas d'anjos, flôres de purpura: e, d'entre este fausto sideral, pendiam de correntes de perolas os velhos symbolos da Fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros d'Astarté e de Baccho d'ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Christo tosco pintado a ouro--que parecia vibrar, viver através do fulgor diffuso dos mólhos de lumes, da faiscação das alfaias, do fumo dos aromaticos ardendo em taças de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas d'ebano, reflectiam as joias dos retabulos, a refulgencia das paredes revestidas de jaspe, de nacar e de agatha. E no chão, em meio d'este clarão precioso de pedraria e luz, emergindo d'entre as lages de marmore branco--destacava um bocado de rocha bruta e brava com uma fenda alargada e polida por longos seculos de beijos e de afagos beatos. Um archidiacono grego, de barbas esqualidas, gritou: «N'esta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kirie Eleison! Christo! Christo!» As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluços. Um cantico dolente balançava-se, ao ranger dos incensadores. Kirie Eleison! Kirie Eleison! E os diaconos perpassavam rapidamente, sôfregamente, com vastos saccos de velludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as offrendas dos simples.
Fugi, aturdido e confuso. O sabio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar humido. De novo nos accommetteu o bando esfaimado dos vendilhões de reliquias. Repelli-os rudemente: e sahi do Santo Lugar como entrára--em peccado e praguejando.
No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impressões do Sepulchro de Jesus; eu fiquei no pateo cervejando e cachimbando com o aprazivel Potte. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já resonava, com a vela accesa--e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no paiz do Evangelho, o _Homem dos tres calções_. Descalçando os botins, sujos da lama veneravel da Via-Dolorosa--eu pensava na minha Cybele. Em que sacratissimas ruinas, sob que arvores divinisadas por terem dado sombra ao Senhor, passára ella essa tarde nevoenta de Jerusalem? Fôra ao valle do Cedron? Fôra ao branco tumulo de Rachel?...
Suspirei, amoroso e moído: e abria os lençoes bocejando--quando distinctamente, através do tabique fino, senti um ruido d'agua despejada n'uma banheira. Escutei, alvoroçado: e logo n'esse silencio negro e magoado que sempre envolve Jerusalem, me chegou, perceptivel, o som leve d'uma esponja arremessada na agua. Corri, collei a face contra o papel de ramagens azues. Passos brandos e nús pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a agua rumorejou, como agitada por um dôce braço despido que lhe experimentava o calor. Então, abrazado, fui ouvindo todos os rumores intimos de um longo, lento, languido banho: o espremer da esponja; o fôfo esfregar da mão cheia de espuma de sabão; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a caricia da agua tepida, tocada d'uma gotta de perfume... A testa, tumida de sangue, latejava-me: e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumal-o com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da caliça... Outra vez a agua cantou, escoando da esponja:--e eu, tremendo todo, julgava vêr as gottas vagarosas a escorrer entre o rego d'esses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja...
Não resisti: descalço, em ceroulas, sahi ao corredor adormecido; e cravei á fechadura, da sua porta um olho tão esbugalhado, tão ardente--que quasi receava feril-a com a devorante chamma do seu raio sanguineo... Enxerguei n'um circulo de claridade uma toalha cahida na esteira, um roupão vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pescoço, esperava que ella atravessasse, núa e esplendida, n'esse disco escasso de luz--quando senti de repente, por traz, uma porta ranger, um clarão banhar a parede. Era o barbaças, em mangas de camisa, com o seu castiçal na mão! E eu, miserrimo Raposo, não podia escapar. D'um lado estava elle, enorme. Do outro o topo do corredor, maciço.
Vagarosamente, calado, com methodo, o Hercules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu rugi: «bruto!» Elle ciciou: «silencio!» E outra vez, tendo-me alli acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nadegas, canellas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquillamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, livido, em ceroulas, disse-lhe com immensa dignidade:
--Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do tumulo do Senhor, e eu não querer dar escandalos por causa de minha tia... Mas se estivessemos em Lisboa, fóra de portas, n'um sitio que eu cá sei, comia-lhe os figados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os figados!
E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.
Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, não podendo montar a cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o _Homem dos tres calções_. E até para evitar o affrontoso barbaças não desci ao refeitorio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de Tyro--estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha no Bairro dos Armenios um dôce pombal de pombas: e nós iamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a _Flôr de Jerichó_, a saracotear essa dansa da _Abelha_, que esbrazêa os mais frios e deprava os mais puros...
A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos, magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as tranças, os braços nús--tendo cada um a cicatriz escura de um bubão de peste. Tomou-me submissamente a mão, levou-a á testa oleosa, levou-a aos labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci, ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e cheirando a rosa.
Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodão vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da Persia pousava um brazeiro de latão, apagado, sob o montão de cinzas; ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas. Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade, pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.
Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos braços, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente Topsius appareceu, descorçoado, dizendo que não podiamos saborear a famosa dansa da _Abelha_! A _Rosa de Jerichó_ fôra bailar diante de um principe de Allemanha, chegado n'essa manhã a Sião, a adorar o tumulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o coração, invocava Allah, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A _Rosa de Jerichó_ fôra para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos Germanos!...
Eu, despeitado, observei que não era um principe: mas minha tia tinha luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo. Se _Flôr de Jerichó_ estava ajustada para regosijar meus olhos catholicos, era uma desconsideração tel-a cedido ao romeiro couraçado que viera da hereje Allemanha...
O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulancia, que a Allemanha era a mãi espiritual dos povos...
--O brilho que sae do capacete allemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!
--Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alemtejo!... Ninguem me guia senão Nosso Senhor Jesus Christo... E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o Herculano... Sebo!
Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte acudiu:
--Paz, christãos e amigos, paz!
Topsius e eu reencruzámo-nos logo no divan--tendo apertado as mãos, galhardamente e com honra.
Fatmé, no emtanto, jurava que Allah era grande e que ella era a nossa escrava. E, se nós a quizessemos mimosear com sete piastras d'ouro, ella em compensação da _Rosa de Jerichó_ offerecia-nos uma joia inapreciavel, uma Circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lirios que nascem em Galgalá.
--Venha a Circassiana! gritei, excitado. Caramba, eu vim aos Santos Lugares para me refocilar... Venha a Circassiana! Larga as piastras, Potte! Irra! Quero regalar a carne!
Fatmé sahiu, recuando: o festivo Potte reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve: e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de sêda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozêlos, onde franziam, fixos por uma liga d'ouro; os seus pésinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarello; e através do véo de gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços--brilhavam recamos d'ouro, scentelhas de joias, e as duas estrellas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, tumido de desejo.
Por traz d'ella Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véo devagar, devagar--e d'entre a nuvem de gaze surgiu um carão côr de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor nescio do sorriso... Potte pulou do divan, injuriando Fatmé: ella gritava por Allah, batendo nos seios, que soavam mollemente como odres mal cheios.
E desappareceram, assanhados, levados n'uma rajada de ira. A Circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso putrido, veio estender-nos a mão suja, a pedir «presentinhos» n'um tom rouco d'aguardente. Repelli-a com nojo. Ella coçou um braço, depois a ilharga; apanhou tranquillamente o seu véo, e sahiu arrastando as chinelas.
--Oh Topsius! rosnei eu. Isto parece-me uma grande infamia!
O sabio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ella é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...
--Qual alma! não ha alma! O que ha é um eminentissimo desaforo! Na rua do Arco do Bandeira, esta Fatmé tinha já dois murros na bochecha... Irra!
Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Potte reappareceu, cofiando os bigodões, dizendo que por mais nove piastras d'ouro Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Nubia, bella como a noite mais bella do Oriente. E elle vira-a, afiançava-a, valia o tributo d'uma fertil provincia.
Fragil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras d'ouro tiniram na mão gordufa de Fatmé.
De novo a porta caiada rangeu, ficou, cerrada--e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez côr de bronze, uma esplendida femea, feita como uma Venus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz o pelos homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ageis: os cabellos hirsutos, lustrosos d'oleo, com sequins d'ouro entreleçados, cahiam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ebano. De repente soltou convulsamente, repicando a lingua, uma ululação desolada: _Lu_! _lu_! _lu_! _lu_! _lu_! Atirou-se de bruços para o divan: e estirada, na attitude d'uma Esphinge, ficou dardejando sobre nós, séria e immovel, os seus grandes olhos tenebrosos.
--Hein? dizia Potte, acotovelando-me. Veja-lhe o corpo... Olhe, os braços! Olhe a espinha como arqueia! É uma panthera!
E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos--exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor d'aquella Nubia... Certo, pela persistencia do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham captivado, desenrosquei-me do divan, fui-me acercando, devagar, como para uma preza certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe «minha lindinha», acariciei-lhe o hombro frio: e logo ao contacto da minha pelle branca a Nubia recuou, arripiada, com um grito abafado de gazella ferida. Não gostei. Mas quiz ser amavel. Disse-lhe paternalmente:
--Ah! se tu conhecesses a minha patria!... E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dáfundo, cêa-se no Silva... Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas, dá-se-lhes consideração, os jornaes fallam d'ellas, casam com proprietarios...
Murmurava-lhe ainda outras coisas profundas e dôces. Ella não comprehendia o meu fallar: e nos seus olhos esgazeados fluctuava a longa saudade da sua aldêa da Nubia, dos rebanhos de bufalos que dormem á sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruinas das Religiões e os tumulos das Dynastias...
Imaginando então despertar o seu coração com a chamma do meu, puxei-a para mim lascivamente. Ella fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cahir a cabeça entre as mãos começou a chorar, longamente.
--Olha que massada! gritei, embaçado.
E agarrei o capacete, abalei, esgaçando quasi no meu furor o pano preto franjado d'ouro. Parámos n'uma cella ladrilhada onde cheirava mal. E ahi bruscamente foi entre Potte e a nedia matrona uma bulha ferina sobre a paga d'aquella radiante festa do Oriente: ella reclamava mais sete piastras d'ouro: Potte, de bigode erriçado, cuspia-lhe injurias em arabe, rudes e chocando-se como calhaus que se despenham n'um valle. E sahimos d'aquelle lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos amaldiçoava, e a nossos paes, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerára, e o pão que comiamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dois cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.
Entrei no _Hotel do Mediterraneo_, afogado em saudades da minha terra risonha: os gozos de que me via privado n'esta lobrega, inimiga Sião, faziam-me anciar mais inflammadamente pelos que me daria a facil, amoravel Lisboa, quando, morta a titi, eu herdasse a bolsa sonora de sêda verde!... Lá não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! Lá nenhum corpo barbaro fugiria, com lagrimas, á caricia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da titi, o meu amor não seria jámais ultrajado, nem a minha concupiscencia jámais repellida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse pela minha santidade captivar a titi!...--E logo, abancando, escrevi á hedionda senhora esta carta ternissima:
«Querida titi do meu coração! Cada vez me sinto com mais virtude. E attribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo tumulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina Paixão e a pensar na titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! É uma rua tão benta, tão benta, que até tenho escrupulo de a pisar com os botins; e n'outro dia não me contive, agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quasi toda a rezar á Senhora do Patrocinio que todo o mundo aqui em Jerusalem respeita muitissimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem razão tinha a minha boa tia (como tem razão em tudo) quando dizia que lá para festas e procissões não ha como os nossos portuguezes. Pois esta noite, assim que ajoelhei deante da capella da Senhora, depois de seis Salve-Rainhas, voltei-me para a bella imagem e disse-lhe:--Ai, quem me dera saber como está minha tia Patrocinio!--E quer a titi acreditar? Pois olhe, a Senhora com a sua divina bocca disse-me, palavras textuaes, que até, para não me esquecerem, as escrevi no punho da camisa:--A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz!--E isto não é milagre extraordinario, porque me contam aqui todas as familias respeitaveis com quem vou tomar chá que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas reliquias, uma palhinha do presepio, e uma taboinha aplainada por S. José. O meu companheiro allemão, que, como mencionei á titi na minha carta de Alexandria, é de muita religião e muito sabio, consultou os livros que traz e affirmou-me que a taboinha era das mesmas que, segundo está provado, S. José costumava aplainar nas horas vagas. Emquanto _á grande reliquia_, aquella que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salvação á sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, _essa espero em breve obtel-a_. Mas por ora não posso dizer nada... Recados aos nossos amigos em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a titi deite a sua benção ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saude--_Theodorico_.--P.S. Ai, titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse á Santa Veronica que a titi tinha muita devoção com ella. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada... É o que eu digo aqui a todos estes ecclesiasticos e aos patriarchas:--É necessario conhecer-se a titi para se saber o que é virtude!»
Antes de me despir, fui escutar, collada a orelha ao tabique de ramagens. A ingleza dormia serena, insensivel: eu resmunguei brandindo para lá o punho fechado:
--Besta!
Depois abri o guarda-roupa, tirei o dilecto embrulho da camisinha da Mary, depuz n'elle o meu beijo repenicado e grato.
Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordão.
* * * * *
Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as collinas de Judá! Ellas succedem-se, lividas, redondas como craneos, resequidas, escalvadas por um vento de maldição: só a espaços n'alguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibração inexoravel da luz parece de longe um bolor de velhice e de abandono. O chão faisca, côr de cal. O silencio radiante entristece como o que cae da aboboda de um jazigo. No fulgor duro do céo rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre... Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruinas de Jericó.
Saboroso foi então descançar sobre macios tapetes, bebendo devagar limonada, na doçura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da flôr que elles davam, amarella como a da giesta; adiante verdejava um prado de hervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, languidos lirios; junto d'agua passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o monte da Quarentena, torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitencia; e para as bandas de Moab os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaan, areal cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha d'uma raça esquecida, até ás solidões do Mar Morto.