# A Relíquia

## Part 6

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Era tambem intoleravelmente vaidoso da sua patria. Sem cessar, erguendo o bico, sublimava a Allemanha, mãi espiritual dos povos; depois ameaçava-me com a irresistibilidade das suas armas. A omnisciencia da Allemanha! A omnipotencia da Allemanha! Ella imperava, vasto acampamento entrincheirado d'in-folios, onde ronda e falla d'alto a Metaphysica armada! Eu, brioso, não gostava d'estas jactancias. Assim, quando no _Hotel das Pyramides_ nos apresentaram um livro para n'elle registarmos nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo traçou o seu «Topsius», ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como galuchos:--«Da Imperial Allemanha.» Arrebatei a penna; e recordando o barbudo João de Castro, Ormuz em chammas, Adamastor, a capella de S. Roque, o Tejo e outras glorias, escrevi largamente em curvas mais enfunadas que velas de galeões:--«Raposo, Portuguez, d'Áquem e d'Álém-mar.» E logo, do canto, um moço magro e murcho, murmurou, suspirando e a desfallecer:

--Em o cavalheiro necessitando alguma coisa, chame pelo Alpedrinha.

Um patricio! Elle contou-me a sua sombria historia, desafivelando a minha maleta. Era de Trancoso e desgraçado. Tivera estudos, compuzera um negrologio, sabia ainda mesmo de cór os versos mais doloridos «do nosso Soares de Passos.» Mas apenas sua mamãsinha morrêra, tendo herdado terras, correra á fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na travessa da Conceição uma hespanhola deleitosissima, do adocicado nome de Dulce; e largou com ella para Madrid, n'um idyllio. Ahi o jogo empobreceu-o, a Dulce trahiu-o, um _chulo_ esfaqueou-o. Curado e macilento passou a Marselha; e durante annos arrastou como um frangalho social, através de miserias inenarraveis. Foi sacristão em Roma. Foi barbeiro em Athenas. Na Morêa, habitando uma choça junto a um pantano, empregára-se na pavorosa pesca das sanguesugas; e de turbante, com ôdres negros ao hombro, apregoou agua pelas viellas de Smyrna. O fecundo Egypto attrahira-o sempre, irresistivelmente... E alli estava no _Hotel das Pyramides_, moço de bagagens e triste.

--E se o cavalheiro trouxesse por ahi algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a Politica.

Concedi-lhe generosamente todos os _Jornaes de Noticias_ que embrulhavam os meus botins.

O dono do hotel era um grego de Lacedemonia, de bigodes ferozes, e que _hablaba un poquitito el castellano_. Respeitosamente elle proprio, têso na sua sobrecasaca preta ornada d'uma condecoração, nos conduziu á sala do almoço--_la más preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros_!

Sobre a mesa murchava um ramo grosso de flôres escarlates: no frasco do azeite fluctuavam familiarmente cadaveres de moscas; as chinelas do criado topavam a cada instante um velho _Jornal dos Debates_, manchado de vinho, rojando alli desde a vespera, pisado por outras chinelas indolentes: e no tecto, a fumaraça fetida dos candieiros de latão juntára nuvens pretas ás nuvens côr de rosa onde esvoaçavam anjos e andorinhas. Por baixo da varanda uma rebeca e uma harpa tocavam a _Mandolinata_. E emquanto Topsius se alagava de cerveja, eu sentia estranhamente crescer o meu amor por esta terra de preguiça e de luz.

Depois do café, o meu sapientissimo amigo, com o lapis dos apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus. Eu, accendendo um charuto, reclamei Alpedrinha; e confiei-lhe que desejava, sem tardança, ir rezar e ir amar. Rezar era por intenção da tia Patrocinio, que me recommendára uma jaculatoria a S. José, apenas pisasse esse sólo do Egypto, tornado, desde a fuga da Santa Familia em cima do seu burrinho, chão devoto como o d'uma Sé. Amar era por necessidade do meu coração, ancioso e ardido. Alpedrinha, em silencio, ergueu as persianas, e mostrou-me uma clara praça, ornamentada ao centro por um heroe de bronze, cavalgando um corcel de bronze: uma aragem quente levantava poeiradas lentas por sobre dois tanques seccos; e em redor perfilavam-se no azul altos predios, hasteando cada um a bandeira da sua patria como cidadellas rivaes sobre um sólo vencido. Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina, onde uma velha vendia canas d'assucar, a tranquilla rua das Duas Irmãs. Ahi (murmurou elle) eu veria, pendurada sobre a porta d'uma lojinha discreta, uma pesada mão de pau, tosca e rôxa--e por cima, em taboleta negra, estes dizeres convidativos a ouro: «Miss Mary, Luvas e Flores de Cera.» Era esse o refugio que elle aconselhava ao meu coração. Ao fundo da rua, junto d'uma fonte chorando entre arvores, havia uma capella nova onde a minha alma acharia consolação e frescura.

--E diga o cavalheiro a miss Mary que vai de mandado do _Hotel das Pyramides_.

Puz uma rosa ao peito--e sahi, ovante. Logo da entrada das Duas Irmãs avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente sob os platanos, ao rumor meigo da agua. Mas o amantissimo patriarcha S. José estava certamente, a essa hora, occupado em receber jaculatorias mais instantes, e evoladas de labios mais nobres: não quiz importunar o bondosissimo santo;--e parei diante da mão de pau, pintada de rôxo, que parecia estar alli esperando, alongada e aberta, para empolgar o meu coração.

Entrei, commovido. Por traz do balcão envernizado, junto a um vaso de rosas e magnolias, ella estava lendo o seu _Times_, com um gato branco no collo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azues-claros, d'um azul que só ha nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabellos, crespos, frisadinhos como uma carapinha d'ouro, tão dôces e finos que appetecia ficar eternamente e devotamente a mexer-lhes com os dedos tremulos; e era irresistivel o profano nimbo luminoso que elles punham em torno da sua face gordinha, d'uma brancura de leite onde se desfez carmezim, toda tenra e succulenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me se eu queria _pellica_ ou _Suecia_.

Eu murmurei, roçando-me sôfregamente pelo balcão:

--Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.

Ella escolheu entre o ramo um timido botão de rosa, e deu-m'o na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade d'esta caricia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a face--e chamou-me baixo «mausinho!» Esqueci S. José e a sua jaculatoria--e as nossas mãos, um momento unidas para ella me calçar a luva clara, não se desenlaçaram mais, n'essas semanas que passei, na cidade dos Lagidas, em festivas delicias musulmanas!

Ella era d'York, esse heroico condado da velha Inglaterra, onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus jardins reaes. Por causa da sua meiguice e do seu riso d'ouro quando lhe fazia cocegas, eu puzera-lhe o nome galante e cacarejante de _Maricoquinhas_. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe «a nossa symbolica Cleopatra.» Ella amava a minha barba negra e potente: e, só para não me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a vêr o Cairo, o Nilo, e a eterna Esphinge, deitada á porta do deserto, sorrindo da Humanidade vã...

Vestido de branco como um lirio, eu gozava manhãs ineffaveis, encostado ao balcão da Mary, amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ella era silenciosa: mas o seu simples sorrir com os braços cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o _Times_, saturava o meu coração de luminosa alegria. Nem precisava chamar-me «seu portuguezinho valente, seu bibichinho.» Bastava que o seu peito arfasse:--só para vêr aquella dôce onda languida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos, eu teria vindo de tão longe a Alexandria, iria mais longe, a pé, sem repouso, até onde as aguas do Nilo são brancas!

De tarde, na caleche de chita com o nosso doutissimo Topsius, davamos lentos, amorosos passeios á beira do canal Mamoudieh. Sob as frondosas arvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnolias, e outros calidos perfumes que não conhecia. Por vezes uma leve flôr rôxa ou branca cahia-me sobre o regaço: com um suspiro eu roçava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ella, sensivel, estremecia. Na agua jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e bemfazejo, ancorando junto ás ruinas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde cahia. Vagarosamente rolavamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarello--como feitas em relevo de bronze sobre uma lamina d'ouro.

Maricocas jantava sempre comnosco no _Hotel das Pyramides_; e diante d'ella Topsius desabrochava todo em flôres d'erudição amavel. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canopia: ambas as margens resplandeciam de palacios e de jardins; as barcas, com toldos de sêda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes d'Osiris, cobertos de pelles de leopardo, dançavam sob os laranjaes; e nos terraços abrindo os véos, as damas d'Alexandria bebiam á Venus Assyria, pelo calice da flôr do lotus. Uma voluptuosidade esparsa amollecia as almas. Os philosophos mesmo eram frascarios.

--E, dizia Topsius requebrando o olho, em toda a Alexandria só havia uma dama honesta que commentava Homero e era tia de Seneca. Só uma!

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver n'essa Alexandria, e navegar para Canopia, n'uma barca toldada de sêda!

--Sem mim? gritava eu, ciumento.

Ella jurava que sem o seu portuguezinho valente não queria habitar nem o céo!

Eu, regalado, pagava o _champagne_.

E os dias assim foram passando, leves, flaccidos, gostosos, repicados de beijos--até que chegou a vespera sombria de partirmos para Jerusalem.

--O cavalheiro, dizia-me n'essa manhã Alpedrinha engraxando os meus botins, o que devia era ficar aqui na Alexandriasinha, a refocilar...

Ah! se pudesse! Mas irrecusaveis eram os mandados da titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha d'ir á negra Jerusalem, ajoelhar diante de oliveiras seccas, desfiar rosarios piedosos ao pé de frios sepulchros...

--Tu já estiveste em Jerusalem, Alpedrinha? perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.

--Não senhor, mas sei... Peor que Braga!

--Irra!

A nossa cêa com Maricocas, á noite, no meu quarto, foi cortada de silencios, de suspiros: as velas tinham a melancolia de tochas: o vinho anuviava-nos como aquelle que se bebe nos funeraes. Topsius offertava consolações generosas.

--Bella dama, bella dama, o nosso Raposo ha de voltar... Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Syria, da terra da Venus e da Esposa dos Cantares, uma chamma no seu coração mais fogosa e mais moça...

Eu mordia o beiço, suffocado:

--Pois está visto! Ainda havemos d'andar de caleche pelo Mamoudieh... Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvario... Até me faz bem... Volto como um touro.

Depois do café fomos encostar-nos á varanda a olhar, calados, aquella sumptuosa noite do Egypto. As estrellas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sósinho pelas estradas do céo. O silencio tinha uma solemnidade de sacrario. Nos escuros terraços, em baixo, uma fórma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras creaturas estavam alli, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral: e n'esta diffusa religiosidade, igual á d'uma multidão pasmando para os lumes d'um altar-mór, eu sentia subir aos labios irresistivelmente a doçura d'uma Ave-Maria...

Ao longe o mar dormia. E, á quente irradiação dos astros, eu podia distinguir, n'um pontal de arêa, mergulhando quasi n'agua, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poetica entre duas palmeiras... Então comecei a pensar que, mal a titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse dôce retiro, forral-o de lindas sêdas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquietações da civilisação. Desaggravos ao Sagrado Coração de Jesus ser-me-hiam tão indifferentes como as guerras que entre si travassem os Reis. Do céo só me importaria a luz anilada que banhasse a minha vidraça; da terra só me importariam as flôres abertas no meu jardim para aromatisar a minha alegria. E passaria os dias n'uma fôfa preguiça oriental, fumando o puro Latakié, tocando viola franceza, e recebendo perpetuamente essa impressão de felicidade perfeita que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamar-me «seu portuguezinho valente.»

Apertei-a contra mim n'um desejo de a sorver. Junto á sua orelha, d'uma brancura de concha branca, balbuciei nomes ineffaveis: disse-lhe _rechonchudinha_, disse-lhe _riquiquitinha_. Ella estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada d'ouro.

--Que d'estrellas! Deus queira que ámanhã o mar esteja manso!

Então, á idéa d'essas longas ondas que me iam levar á rispida terra do Evangelho, tão longe da minha Mary, um pezar infinito afogou-me o peito--e irrepressivelmente se me escapou dos labios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terraços adormecidos da musulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrellas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos--suspirei o _fado_ mais sentido da saudade portugueza:

Co'a minh'alma aqui te ficas, Eu parto só com os meus ais, E tudo me diz, Maricas, Que não te verei nunca mais.

Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quiz saber se estes dôces versos eram de Luiz de Camões. Eu, choramigando, disse-lhe que estes--ouvira-os no Dáfundo ao _Calcinhas_.

Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta _Calcinhas_. Eu fechei a vidraça: e depois d'ir ao corredor fazer ás escondidas um rapido signal da cruz, vim desapertar sôfregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do collete da minha saborosa bem-amada.

Breve, avaramente breve, foi essa noite estrellada do Egypto!

Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemonia avisar-me que já fumegava na bahia, aspera e cheia de vento, _el paquete_, ferozmente chamado o _Caimão_, que me devia levar para as tristezas d'Israel.

_El señor D. Topsius_, madrugador, já estava em baixo a almoçar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da commoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a nevoa das lagrimas. A minha solida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda accommodando, á pressa, a roupa suja dentro do sacco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente á borda do leito, com o seu gentil chapéo enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas--contemplava aquelle enfardelar de flanellas, como se fossem bocados do seu coração atirados para o fundo do sacco, para partirem e não voltarem mais!

--Levas tanta roupa suja, Theodorico!

Balbuciei, dilacerado:

--Manda-se lavar em Jerusalem com a ajuda de Nosso Senhor!

Deitei os meus bentinhos ao pescoço. N'esse instante Topsius assomava á porta, cachimbando, com a barraca do seu guardasol fechada sob o braço, de galochas anchas para a humidade do tombadilho--e um volume da Biblia enchumaçando-lhe a rabona d'alpaca. Ao vêr-me sem collete, reprehendeu a minha amorosa preguiça.

--Mas comprehendo, bella dama, comprehendo! acudiu elle, ás cortezias a Mary, esgrouviado e onduloso, d'oculos na ponta do bico. É doloroso deixar os braços de Cleopatra... Já Antonio por elles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha missão, com recantos crepusculares da Historia a alumiar, levo gratas memorias d'estes dias de Alexandria... Deliciosissimos os nossos passeios pelo Mamoudieh!... Permitta-me que apanhe a sua luva, bella dama!... E se voltar jámais a esta terra dos Ptolomeus, não me esquecerá a rua das _Duas irmãs_... «Miss Mary, luvas e flôres de cêra.» Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha _Historia dos Lagidas_... Ha detalhes muito picantes... Quando Cleopatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judêa...

Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava, alvoroçado:

--Cavalheiro! Ainda ha aqui roupa suja!

Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de sêda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e d'amor... Ai! era a camisa de dormir da Mary, quente ainda dos meus abraços!

--Pertence á snr.^a D. Mary! É a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensorios.

A minha luveirinha ergueu-se, tremula, descórada--e teve um poetico rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-m'a para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse tambem o seu coração.

--Dou-t'a, Theodorico! Leva-a, Theodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ella ao teu lado, como se fosse commigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatoria!

Correu á mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia á titi a historia edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquella preciosa reliquia d'amor. As malas estavam fechadas. O sacco de lona estalava, repleto.

Topsius, impaciente, tirára das profundezas do seio o seu relogio de prata. O nosso Lacedemonio, á porta, rosnava:

--_D. Theodorico, es tarde, es mui tarde_...

Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ella traçára, largas, impetuosas e francas como o seu amor: «_Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembrança do muito que gozámos_!»

--Oh, riquinha! E onde hei de eu metter isto? Eu não hei de levar a camisa nos braços, assim núa e ao léo!

Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o sacco. Então Maricoquinhas, com uma inspiração delicada, agarrou uma folha de papel pardo, apanhou do chão um nastro vermelho; e as suas habilidosas mãos de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, commodo e gracioso--que eu metti debaixo do braço, apertando-o com avara, inflammada paixão.

Depois foi um murmurio arrebatado de soluços, de beijos, de doçuras...

--Mary, anjo querido!

--Theodorico, amor!...

--Escreve-me para Jerusalem...

--Lembra-te da tua bichaninha bonita...

Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeára, enlaçado com Mary, por sob os arvoredos aromaticos do Mamoudieh--lá partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde o meu coração deitára raizes, agora despedaçadas e gottejando sangue no silencio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guardasol verde, recomeçára, impassivel, a murmurar coisas de velha erudição. Sabia eu por onde iamos rodando? Por sobre a nobre calçada dos Sete-Stados, que o primeiro dos Lagidas construira para communicar com a ilha de Pharos, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debruçado para traz, na caleche, agitando o lenço molhado da minha saudade. A dôce Maricoquinhas, á porta do Hotel, ao lado d'Alpedrinha, linda sob o chapéo florido de papoulas, fazia esvoaçar tambem o seu lenço amoroso e acariciador: e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos corações. Depois eu cahi sobre a almofada de chita como cae um corpo morto...

Apenas embarcado no _Caimão_, corri a esconder no beliche a minha dôr. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sitios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de marmore onde ancoravam as galeras de Cleopatra. Fugi; na escada esbarrei, quasi rolei sobre uma Irmã da Caridade, que subia timidamente com as suas contas na mão. Rosnei um «desculpe, minha santinha.» E tombando emfim no catre, deixei escapar o pranto á larga, por cima do embrulho de papel pardo: elle era tudo que me restava d'essa paixão de incomparavel esplendor, passada na terra do Egypto.

Dois dias e duas noites o _Caimão_ arquejou e rolou nos vagalhões do mar de Tyro. Enrodilhado n'um cobertor, sem largar do peito o embrulhinho da Mary, eu recusava com odio as bolachas que de vez em quando me trazia o humanissimo Topsius; e desattento ás coisas eruditas que elle imperturbavelmente me contava d'estas aguas chamadas pelos egypcios o _Grande Verde_, rebuscava debalde na memoria bocados soltos de uma oração que ouvira á titi para amansar as vagas iradas.

Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir sob as chinelas um chão firme, chão de rocha, onde cheirava a rosmaninho: e achei-me incomprehensivelmente a subir uma collina agreste de companhia com a Adelia, e com a minha loura Mary--que sahira de dentro do embrulho, fresca, nitida, sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapéo! Depois, por traz d'um penedo, surgiu-nos um homem nú, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como vidros redondos de lanternas; e com o rabo infindavel ia fazendo no chão o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas seccas. Sem nos cortejar, impudentemente, poz-se a marchar ao nosso lado. Eu percebi bem que era o Diabo; mas não senti escrupulo, nem terror. A insaciavel Adelia atirava olhadellas obliquas á potencia dos seus musculos. Eu dizia-lhe, indignado: «Porca, até te serve o Diabo?»

Assim marchando, chegámos ao alto do monte--onde uma palmeira se desgrenhava sobre um abysmo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós, muito longe, o céo desdobrava-se como um vasto estofo amarello: e sobre esse fundo vivo, côr de gema d'ovo, destacava um negrissimo outeiro, tendo cravadas no alto tres cruzinhas em linha, finas e d'um só traço. O Diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: «A do meio é a de Jesus, filho de José, a quem tambem chamam o Christo; e chegamos a tempo para saborear a Ascensão.» Com effeito! A cruz do meio, a do Christo, desairragada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca, começou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céo. E logo de todo o espaço voaram bandos de anjos, a sustel-a, apressados como as pombas quando acodem ao grão; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de sêda; outros, de baixo, empurravam-na--e nós viamos o esforço entumecido dos seus braços azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gotta de sangue: um seraphim recolhia-a nas mãos e ia collocal-a sobre a parte mais alta do céo, onde ella ficava suspensa e brilhando com o resplendor d'uma estrella. Um ancião enorme de tunica branca, a que mal distinguiamos as feições, entre a abundancia da coma revolta e os flocos de barbas nevadas, commandava, estirado entre nuvens, estas manobras da Ascensão, n'uma lingua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente tudo desappareceu. E o Diabo, olhando para mim, pensativo: «_Consummatum est_, amigo! Mais outro Deus! Mais outra Religião! E esta vai espalhar em terra e céo um inenarravel tedio.»

