A Relíquia

Part 20

Chapter 20 3,783 words Public domain Markdown

Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu collarinho:

--De se deixarem lá os miolos, Justininho!

As suas pupillas faiscaram como as de um gato em janeiro; a chicara ficou-lhe tremelicando na mão.

E eu, pensativo, repenetrando na luz:

--Sim, bonita noite... Mas não são aquellas estrellinhas santinhas que nós viamos lá no Jordão!...

Então padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a sua chalada, veio timidamente bater-me no hombro... Lembrára-me eu, n'essas Santas Terras, com tantas distracções, do seu frasquinho d'agua do Jordão?...

--Oh padre Pinheiro, pois está claro!... Trago tudo! E o raminho do Monte Olivete para o nosso Justino... E a photographia para o nosso Margaride... Tudo!

Corri ao quarto, a buscar essas dôces «lembrancinhas» da Palestina. E ao regressar sustentando pelas pontas um lenço repleto de devotas preciosidades, estaquei por traz do reposteiro ao sentir dentro o meu nome... Suave gozo! Era o inestimavel dr. Margaride que afiançava á titi, com a sua tremenda auctoridade:

--D. Patrocinio, eu não lh'o quiz dizer diante d'elle... Mas isto agora é mais do que ter um sobrinho e um cavalheiro! Isto é ter, de casa e pucarinho, um amigo intimo de Nosso Senhor Jesus Christo!...

Tossi, entrei. Mas a snr.^a D. Patrocinio ruminava um escrupulo ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ella) que se repartissem estas Reliquias minimas antes de lhe ser entregue a ella, como senhora e como tia, na capella, a Grande Reliquia...

--Porque saibam os meus amigos, annunciou ella com o seu chatissimo peito impando de satisfação, que o meu Theodorico trouxe-me uma Santa Reliquia, com que eu me vou apegar nas minhas afflicções, e que me vai curar dos meus males!

--Bravissimo! gritou o impetuoso dr. Margaride. Com quê, Theodorico, seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se esses sepulchros?... Bravissimo! É de generoso romeiro!

--É de sobrinho, como já o não ha no nosso Portugal! acudiu padre Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a lingua saburrenta...

--É de filho, é de filho! proclamava o Justino, alçado na ponta dos botins.

Então o Negrão, mostrando os dentes famintos, babujou esta coisa vilissima:

--Resta saber, cavalheiros, de que Reliquia se trata.

Tive sêde, ardente sêde do sangue d'aquelle padre! Trespassei-o com dois olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em braza:

--Talvez v. s.^a, se é um verdadeiro sacerdote, se atire de focinho para baixo a rezar, quando apparecer aquella maravilha!...

E voltei-me para a snr.^a D. Patrocinio, com a impaciencia de uma nobre alma offendida que carece de reparação:

--É já, titi! Vamos ao Oratorio! Quero que fique tudo aqui assombrado! Foi o que disse o meu amigo allemão: «Essa reliquia, ao destapar-se, é de ficar uma familia inteira azabumbada!...»

Deslumbrada, a titi ergueu-se de mãos postas. Eu corri a prover-me d'um martello. Quando voltei, o dr. Margaride, grave, calçava as suas luvas pretas... E atraz da snr.^a D. Patrocinio, cujos setins faziam no sobrado um ruge-ruge de vestes de prelado, penetrámos no corredor onde o grande bico de gaz silvava dentro do seu vidro fôsco. Ao fundo a Vicencia e a cozinheira espreitavam com os seus rosarios na mão.

O Oratorio resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas chammas das velas de cera, punham no fundo do altar um brilho branco de Gloria. Sobre a candidez das rendas lavadas, entre a neve fresca das camelias--as tunicas dos Santos, azues e vermelhas, com o seu lustre de sêda, pareciam novas, especialmente talhadas nos guarda-roupas do céo para aquella rara noite de festa... Por vezes o raio d'uma aureola tremia, despedia um fulgor, como se na madeira das imagens corressem estremecimentos de jubilo. E na sua cruz de pau preto, o Christo, riquissimo, macisso, todo d'ouro, suando ouro, sangrando ouro, reluzia preciosamente.

--Tudo com muito gosto! Que divina scena! murmurou o dr. Margaride, deliciado na sua paixão de grandioso.

Com piedosos cuidados colloquei o caixote na almofada de velludo: vergado, rosnei sobre elle uma _Ave_; depois, ergui a toalha que o cobria, e com ella no braço, tendo escarrado solemnemente, fallei:

--Titi, meus senhores... Eu não quiz revelar ainda a Reliquia que vem aqui no caixotinho, porque assim m'o recommendou o snr. Patriarcha de Jerusalem... Agora é que vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a pêllo explicar que tudo cá n'esta Reliquia, papel, nastro, caixotinho, prégos, tudo é santo! Assim por exemplo os préguinhos... são da Arca de Noé... Póde vêr, snr. padre Negrão, póde apalpar! são os da Arca, até ainda enferrujados... É tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além d'isso quero declarar diante de todos que esta Reliquia pertence aqui á titi, e que lh'a trago para lhe provar que em Jerusalem não pensei senão n'ella, e no que Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta pechincha...

--Commigo te has de vêr sempre, filho! tartamudeou a horrenda senhora, enlevada.

Beijei-lhe a mão, sellando este pacto de que a Magistratura e a Egreja eram veridicas testemunhas. Depois, retomando o martello:

--E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é a Reliquia...

Tossi, cerrei os olhos:

--É a Corôa d'Espinhos!

Esmagada, com um rouco gemido, a titi aluiu sobre o caixote, enlaçando-o nos braços tremulos... Mas o Margaride coçava pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profundidade dos seus collarinhos; e o ladino Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, d'onde sahia assombro e indignação! Justos céos! Magistrados e Sacerdotes evidenciavam uma incredulidade--terrivel para a minha fortuna!

Eu tremia, com suores--quando padre Pinheiro, muito sério, convicto, se debruçou, apertou a mão da titi a felicital-a pela posição religiosa a que a elevava a posse d'aquella Reliquia. Então, cedendo á forte auctoridade liturgica de padre Pinheiro, todos, em fila, n'uma muda congratulação, estreitaram os dedos da babosa senhora.

Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei á beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martello em triumpho...

--Theodorico! Filho! berrou a titi, arripiada, como se eu fosse martellar a carne viva do Senhor.

--Não ha receio, titi! Aprendi em Jerusalem, a manejar estas coisinhas de Deus!...

Despregada a táboa fina, alvejou a camada d'algodão. Ergui-a com terna reverencia: e ante os olhos extaticos surgiu o sacratissimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.

--Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! suspirou a titi a esvaír-se de gosto beato, com o branco do olho apparecendo por sobre o negro dos oculos.

Ergui-me, rubro de orgulho:

--É á minha querida titi, só a ella, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho!...

Acordando do seu langor, trémula e pallida, mas com a gravidade d'um pontifice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, collocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho appareceu... A titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente--e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camelias, aos pés da Cruz--espalhou-se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!

A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada préga fedendo a peccado! A camisa de dormir da Mary! E pregado n'ella por um alfinete, bem evidente ao clarão das velas, o cartão com a offerta em letra encorpada:--«_Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembrança do muito que gozámos_!» Assignado, _M. M._... A camisa de dormir da Mary!

Mal sei o que occorreu no florido Oratorio! Achei-me á porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, n'um desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as accusações do Negrão bradadas contra mim junto á touca da titi:--«Deboche! escarneo! camisa de prostituta! achincalho á snr.^a D. Patrocinio! profanação do Oratorio!» Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam, afflictas. E, ensopado em suor, entre as prégas da cortina, percebi a titi caminhando para mim, lenta, livida, hirta, medonha... Estacou. Os seus frios e ferozes oculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:

--Porcalhão!

E sahiu.

Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado. Um rumor d'escandalo acordára o casarão severo. E a Vicencia surgiu diante de mim, enfiada, com o seu avental branco na mão:

--Menino! Menino! A senhora manda dizer que sáia immediatamente para o meio da rua, que o não quer nem mais um instante em casa... E diz que póde levar a sua roupa branca e todas as suas porcarias!

Despedido!

Ergui a face molle da travesseira de rendas. E a Vicencia, atontada, torcendo o avental:

--Ai, menino! Ai, menino! se não sae já para a rua, a senhora diz que manda chamar um policia!

Escorraçado!

Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma escova de dentes: topando nos moveis, procurei as chinelas que embrulhei n'um numero da _Nação_. Sem reparo, agarrei d'entre as malas um caixote com bandas de ferro:--e em ponta de botins desci a escada da titi, encolhido e rasteiro, como um cão tinhoso vexado da sua tinha.

Mal transpuz o pateo, a Vicencia, cumprindo as ordens sanhudas da titi, bateu-me nas costas com o portão chapeado de ferro--desprezivelmente e para sempre!

Estava só na rua e na vida! Á luz dos frios astros contei na palma o meu dinheiro. Tinha duas libras, dezoito tostões, um duro hespanhol e cobres... E então descobri que a caixa, apanhada tontamente entre as malas, era a das Reliquias menores. Complicado sarcasmo do Destino! Para cobrir meu corpo desabrigado--nada mais tinha que taboinhas aplainadas por S. José, e cacos de barro do cantaro da Virgem! Metti no bolso o embrulho das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos á casa de minha tia, marchei a pé, com o caixote ás costas, na noite cheia de silencio e d'estrellas, para a Baixa, para o _Hotel da Pomba d'Ouro_.

* * * * *

Ao outro dia, descórado e miserrimo á mesa da _Pomba_, remexia uma sombria sôpa de grão e nabo--quando um cavalheiro, de collete de velludo negro, veio occupar o talher fronteiro, junto d'uma garrafa d'agua de Vidago, d'uma caixa de pilulas e d'um numero da _Nação_. Na sua testa, immensa e arqueada como um frontão de capella, torciam-se duas veias grossas: e sob as ventas largas, ennegrecidas de rapé, o bigode era um tufo curto de pêllos grisalhos, duros como cêrdas d'escova. O gallego, ao servir-lhe o nabo e grão, rosnou com estima: «Ora seja bem apparecidinho o snr. Lino!»

Ao cozido este cavalheiro, abandonando a _Nação_ onde percorrêra miudamente os annuncios, pousou em mim os olhos amarellentos de bilis e baços, e observou que estavamos gozando desde os Reis um tempinho d'appetite...

--De rosas, murmurei com reserva.

O snr. Lino entalou mais o guardanapo para dentro do collarinho lasso:

--E v. s.^a, se não é curiosidade, vem das provincias do Norte?

Passei vagarosamente a mão pelos cabellos:

--Não, senhor... Venho de Jerusalem!

D'assombrado o snr. Lino perdeu a garfada de arroz. E, depois de ter ruminado mudamente a sua emoção, confessou que lhe interessavam muito todos esses lugares santos porque tinha religião, graças a Deus! E tinha um emprego, graças tambem a Deus, na Camara Patriarchal...

--Ah, na Camara Patriarchal! acudi eu. Sim, muito respeitavel... Eu conheci muito um Patriarcha... Conheci muito o snr. Patriarcha de Jerusalem. Cavalheiro muito santo, muito catita... Até nos ficamos tratando de _tu_!

O snr. Lino offereceu-me da sua agua de Vidago--e conversámos das terras da Escriptura.

--Que tal Jerusalem, como lojas?...

--Como lojas?... Lojas de modas?

--Não, não! atalhou o snr. Lino. Quero dizer lojas de santidade, de reliquiarias, de coisinhas divinas...

--Sim... Menos mau. Ha o Damiani na Via Dolorosa que tem tudo, até ossos de Martyres... Mas o melhor é cada um esquadrinhar, escavar... Eu n'essas coisas trouxe maravilhas!

Uma chamma de singular cubiça avivou as pupillas amarelladas do snr. Lino, da Camara Patriarchal. E de repente, com uma decisão d'inspirado:

--Andrésinho, a pinguinha de Porto... Hoje é brodio!

Quando o gallego pousou a garrafa, com a sua data traçada á mão n'um velho rotulo de papel almasso--o snr. Lino offertou-me um calice cheio.

--Á sua!

--Com a ajuda do Senhor!... Á sua!

Por cortezia, rilhado o queijo, convidei aquelle homem que graças a Deus tinha religião, a entrar no meu quarto e admirar as photographias de Jerusalem. Elle aceitou, com alvoroço: mas, apenas transpôz a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito--onde jaziam espalhadas algumas das Reliquias que eu desencaixotára essa manhã.

--O cavalheiro aprecia? indaguei, desenrolando uma vista do monte Olivete, e pensando em lhe offertar um rosario.

Elle revirava em silencio, nas mãos gordas e de unhas roidas, um frasco d'agua do Jordão. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas na vastissima fronte:

--Tem attestado?

Estendi-lhe a certidão do frade Franciscano, garantindo como authentica e sem mistura a agua do rio baptismal. Elle saboreou o venerando papel. E enthusiasmado:

--Dou quinze tostões pelo frasquinho!

Foi, no meu intellecto de Bacharel, como se uma janella se abrisse e por ella entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clarão forte, a natureza real d'essas medalhas, bentinhos, aguas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu considerára até então um lixo ecclesiastico esquecido pela vassoura da Philosophia! As Reliquias eram _valores_! Tinham a qualidade omnipotente de _valores_! Dava-se um caco de barro--e recebia-se uma rodella d'ouro!... E, illuminado, comecei insensivelmente a sorrir, com as mãos encostadas á mesa como a um balcão de armazem:

--Quinze tostões por agua pura do Jordão! Boa! Em pouca conta tem v. s.^a o nosso S. João Baptista... Quinze tostões! Chega a ser impiedade!... V. s.^a imagina que a agua do Jordão é como agua do Arsenal? Ora essa!... Tres mil reis recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manhã, ahi, ao pé d'essa cama...

Elle fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:

--Dou quatro mil reis.

--Vá lá, por sermos companheiros na _Pomba_!

E quando o snr. Lino sahiu do meu quarto, com o frasco do Jordão embrulhado na _Nação_, eu, Theodorico Raposo, achava-me fatalmente, providencialmente, estabelecido vendilhão de reliquias!

D'ellas comi, d'ellas fumei, d'ellas amei, durante dois mezes, quieto e aprazido na _Pomba d'Ouro_. Quasi sempre o snr. Lino surdia de manhã no meu quarto, de chinelos, escolhia um caco do cantaro da Virgem ou uma palhinha do Presepio, empacotava na _Nação_, largava a pecunia e abalava assobiando o _De Profundis_. E evidentemente o digno homem revendia as minhas preciosidades com gordo provento--porque bem depressa, sobre o seu collete de velludo preto, rebrilhou uma corrente d'ouro.

No emtanto, muito habil e fino, eu não tentára (nem com supplicas, nem com explicações, nem com patrocinios) amansar as beatas iras da titi e repenetrar na sua estima. Contentava-me em ir á egreja de Sant'Anna, todo de negro, com um ripanço. Não encontrava a titi, que tinha agora de manhã no Oratorio missa do torpissimo Negrão. Mas lá me prostrava, batendo contritamente no peito, suspirando para o Sacrario--certo que, pelo Melchior sacristão, as novas da minha devoção inalteravel chegariam á hedionda senhora.

Muito manhoso, tambem não procurára os amigos da titi--que deviam prudentemente partilhar as paixões da sua alma para lograrem os favores do seu testamento: assim poupava embaraços angustiosos a esses benemeritos da Magistratura e da Egreja. Sempre que encontrava padre Pinheiro ou dr. Margaride, cruzava as mãos dentro das mangas, baixava os olhos, evidenciando humildade e compunção. E este retrahimento era decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha barba, depois de se ter assegurado da solidão da rua:

--Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se ha de arranjar... Que ella por ora está uma fera... Oh diabo, ahi vem gente!

E abalou.

No emtanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava reliquias. Bem depressa porém recordado dos compendios de _Economia Politica_, reflecti que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor pio.

Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas com listas e preços de Reliquias. Mandei propostas d'ossos de Martyres a egrejas de provincia. Paguei copinhos d'aguardente a sacristães para que elles segredassem a velhas com achaques--«P'ra coisas de Santidade não ha como o snr. dr. Raposo, que vem fresquinho de Jerusalem!...» E bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a agua do Jordão, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chammas: vendi d'esta agua para baptisados, para comidas, para banhos: e durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e limpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente n'um quarto da _Pomba d'Ouro_. Imaginativo, introduzi _novidades_ rendosas e poeticas: lancei no commercio com efficacia «o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora ia á fonte»: fui eu que acreditei na piedade nacional «uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Familia.» Agora quando o Lino de chinelos batia á porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do Presepio alternavam com as pilhas de taboinhas de S. José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:

--Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-me ahi um caixotinho da Terra Santa...

As veias frontaes do capacissimo homem inchavam n'uma indignação de intermediario espoliado.

Todas as minhas Reliquias eram acolhidas com o mais forte fervor--porque provinham «do Raposo, fresquinho de Jerusalem.» Os outros Reliquistas não tinham esta esplendida garantia d'uma jornada á Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrêra esse vastissimo deposito de santidade. Só eu de resto sabia lançar na folha sebacea de papel que authenticava a reliquia--a firma floreada do snr. Patriarcha de Jerusalem.

Mas bem cedo reconheci que esta profusão de Reliquilharia saturára a devoção do meu paiz! Atochado, empanturrado de Reliquias, este catholico Portugal já não tinha capacidade--nem para receber um d'esses raminhos seccos de flôres de Nazareth, que eu cedia a cinco tostões!

Inquieto, baixei melancolicamente os preços. Prodigalisei, no _Diario de Noticias_, annuncios tentadores--«_Preciosidades da Terra Santa, em conta, na tabacaria Rego, se diz_...» Muitas manhãs, com um casacão ecclesiatico e um _cache-nez_ de sêda disfarçando a minha barba, assaltei á porta das egrejas velhas beatas: offerecia pedaços da tunica da Virgem Maria, cordeis das sandalias de S. Pedro: e rosnava com ancia, roçando-me pelos manteletes e pelas toucas: «Baratinhos, minha senhora, baratinhos... Excellentes para catarrhos!...»

Já devia uma carregada conta na _Pomba d'Ouro_; descia as escadas sorrateiramente, para não encontrar o patrão; chamava com sabujice ao gallego--«meu André, meu catitinha...»

E punha toda a minha esperança n'um renovamento da Fé! A menor noticia de festa de egreja me regosijava como um acrescimo de devoção no povo. Odiava ferozmente os republicanos e os philosophos que abalam o Catholicismo--e portanto diminuem o valor das reliquias que elle instituiu. Escrevi artigos para a _Nação_, em que bradava: «Se vos não apegaes aos ossos dos Martyres, como quereis que prospere este paiz?» No café do Montanha dava murros sobre as mesas: «É necessario Religião, caramba! Sem Religião nem o bifezinho sabe!» Em casa da Benta Bexigosa ameaçava as raparigas, se ellas não usassem os seus bentinhos e os seus escapularios, de não voltar alli, de ir a casa da D. Adelaide!... A minha inquietação pelo «pão de cada dia» foi mesmo tão aspera que de novo solicitei a intervenção do Lino--homem de vastas relações ecclesiasticas, parente de capellães de convento. Outra vez lhe mostrei o meu leito juncado de reliquias. Outra vez lhe disse, esfregando as mãos: «Vamos a mais negocio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco, chegadinho de Sião!»

Mas, do digno homem da Camara Patriarcal, só colhi recriminações acerbas...

--Essa léria não péga, senhor! gritou elle, com as veias a estalar de cólera na fronte esbrazeada. Foi v. s.^a que estragou o commercio!... Está o mercado abarrotado, já não ha maneira de vender nem um cueirinho do menino Jesus, uma reliquia que se vendia tão bem! O seu negocio com as ferraduras é perfeitamente indecente... Perfeitamente indecente! É o que me dizia n'outro dia um capellão, primo meu: «São ferraduras de mais para um paiz tão pequeno!...» Quatorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe v. s.^a quantos prégos, dos que pregaram Christo na cruz, v. s.^a tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!... Não lhe digo mais nada... Setenta e cinco!

E sahiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.

Venturosamente, n'essa noite, encontrei o _Rinchão_ em casa da Benta Bexigosa, e recebi d'elle uma consideravel encommenda de reliquias. O _Rinchão_ ia desposar uma menina Nogueira, filha da snr.^a Nogueira, rica beata de Beja e rica proprietaria de porcos: e elle «queria dar um presente catita á carola da velha, tudo coisinhas da Cartilha e do Santo Sepulchro.» Arranjei-lhe um lindo cofre de reliquias (ahi colloquei o meu septuagesimo sexto prégo) ornado das minhas graciosas flôres seccas de Galilêa. Com a generosa pecunia que me deu o _Rinchão_ paguei á _Pomba d'Ouro_; e tomei prudentemente um quarto na casa d'hospedes do Pitta, á travessa da Palha.

Assim, diminuia a minha prosperidade. O meu quarto agora era nos altos, no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona vetusta cujo miôlo de estopa fetida rompia entre a chita esgaçada. Como unico ornato pendia sobre a commoda, n'um caixilho enfeitado de borlas, uma lithographia de Christo crucificado, a côres; nuvens negras de tormenta rolavam-lhe aos pés; e os seus olhos claros, arregalados, seguiam e miravam todos os meus actos, os mais intimos, mesmo o delicado aparar dos callos.

Havia uma semana que, assim installado, farejava Lisboa á busca do pão incerto, com botas a que se começava a romper a sola, quando uma manhã o André da _Pomba d'Ouro_ me trouxe uma carta que lá fôra deixada na vespera, com a marca «urgente». O papel tinha tarja preta: o sinete era de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assignatura do Justino.

«Meu querido amigo. É meu penoso dever, que cumpro com lagrimas, participar-lhe que sua respeitavel tia e minha senhora inesperadamente succumbiu...»

Caramba! A velha rebentára!

Anciosamente saltei através das linhas tropeçando sobre os detalhes--«congestão dos pulmões... Sacramentos recebidos... Todos a chorar... O nosso Negrão!...» E empallidecendo, n'um suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha:--«do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Theodorico o oculo que se acha pendurado na sala de jantar...»

Desherdado!

Agarrei o chapéo, corri aos encontrões pelas ruas até ao cartorio do Justino, a S. Paulo. Achei-o á banca, com uma gravata de lucto e a penna atraz da orelha, comendo fatias de vitella sobre um velho _Diario de Noticias_.

--Com que, o oculo...?--balbuciei, esfalfado, arrimado á esquina d'uma estante.

--É verdade. O oculo!--murmurou elle, com a bôca atulhada.

Fui tombar, quasi desmaiado, sobre o canapé de couro. Elle offereceu-me vinho de Bucellas. Bebi um calice. E passando a mão tremula sobre a face livida:

--Então dize lá, conta lá tudo, Justininho...