# A Relíquia

## Part 2

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Nós moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os peitos nús, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A claridade d'aquella nudez fazia-me pensar na ingleza do snr. barão: e esse aroma, que tanto me perturbára no corredor da estalagem, respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua cheia de sol, pelas sêdas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.

A titi, em casa, estendia-me a mão a beijar: e toda a manhã eu ficava folheando volumes do _Panorama Universal_, na saleta d'ella, onde havia um sofá de riscadinho, um armario rico de pau preto, e lithographias coloridas, com ternas passagens da vida purissima do seu favorito santo, o patriarcha S. José. A titi, de lenço rôxo carregado para a testa, sentada á janella por dentro dos vidros, com os pés embrulhados n'uma manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas.

Ás tres horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o _Credo_, desfiando os _Mandamentos_, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e adocicado a rapé e a formiga.

Aos domingos vinham jantar comnosco os dois ecclesiasticos. O de cabellinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da titi: dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar _arbor arboris, currus curri_; proclamava-me com affecto «talentaço.» E o outro ecclesiastico elogiava o collegio dos Isidoros, formosissimo estabelecimento de educação, como não havia nem na Belgica. Esse chamava-se padre Pinheiro. Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por diante d'um espelho, deitava a lingua de fóra, e alli se esquecia a estical-a, a estudal-a, desconfiado e aterrado.

Ao jantar o padre Casimiro gostava de vêr o meu appetite.

--Vai mais um bocadinho da vitellinha guisada? Rapazes querem-se alegres e bem comidos!...

E padre Pinheiro, palpando o estomago:

--Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitella!

Elle e a titi fallavam então de doenças. Padre Casimiro, córadinho, com o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio, o copo cheio, sorria beatificamente.

Quando, na praça, entre as arvores, começavam a luzir os candieiros de gaz, a Vicencia punha o seu chale velho de xadrez e ia levar-me ao collegio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada e vastos collarinhos, que era o snr. José Justino, secretario da confraria de S. José, e tabellião da titi, com cartorio a S. Paulo. No pateo, tirando já o seu paletot, fazia-me uma festa no queixo, e perguntava á Vicencia pela saude da snr.^a D. Patrocinio. Subia; nós fechavamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente--porque me entristecia aquelle casarão com os seus damascos vermelhos, os santos innumeraveis, e o cheirinho a capella.

Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis annos, da Misericordia. Assim eu fui sabendo que ella padecia do figado; tinha sempre muito dinheiro em ouro n'uma bolsa de sêda verde; e o commendador Godinho, tio d'ella e da minha mamã, deixára-lhe duzentos contos em predios, em papeis, e a quinta do _Mosteiro_ ao pé de Vianna, e pratas e louças da India... Que rica que era a titi! Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!

Á porta do collegio a Vicencia dizia «Adeus, amorzinho,» e dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu pensava na Vicencia, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e brancos como leite. E assim, foi nascendo no meu coração, pudicamente, uma paixão pela Vicencia.

Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio _lambisgoia_. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Chrispim sahira dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela Vicencia desappareceu um dia, insensivelmente, como uma flôr que se perde na rua.

E os annos assim foram passando: pelas vesperas de Natal accendia-se um brazeiro no refeitorio, eu envergava o meu casacão forrado de baeta e ornado d'uma gola d'astrakan; depois chegavam as andorinhas aos beiraes do nosso telhado, e no oratorio da titi, em lugar de camelias, vinham braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés d'ouro de Jesus; depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava á titi um gigo d'uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar rhetorica.

* * * * *

Um dia o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatorios em Coimbra, na casa do dr. Rôxo, lente de Theologia. Fizeram-me roupa branca. A titi deu-me n'um papel a oração que eu diariamente devia rezar a S. Luiz Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa, para que elle conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre Casimiro foi-me levar á cidade graciosa onde dormita Minerva.

Detestei logo o dr. Rôxo. Em sua casa soffri vida dura e claustral; e foi um ineffavel gosto quando, no meu primeiro anno de Direito, o desagradavel ecclesiastico morreu miseravelmente d'um anthraz. Passei então para a divertida hospedagem das Pimentas--e conheci logo, sem moderação, todas as independencias, e as fortes delicias da vida. Nunca mais rosnei a delambida oração a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camellas; affirmei a minha robustez esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carne com saborosos amores no Terreiro da Herva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de _Raposão_. Todos os quinze dias porém escrevia á titi, na minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade dos meus estudos, o recato dos meus habitos, as copiosas rezas e os rigidos jejuns, os sermões de que me nutria, os dôces desaggravos ao Coração de Jesus á tarde, na Sé, e as novenas com que consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados...

Os mezes de verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sahir, mesmo a espontar o cabello, sem implorar da titi uma licença servil. Não ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente á noitinha: e antes de me deitar tinha de rezar com a velha um longo terço no oratorio. Eu proprio me condemnára a esta detestavel devoção!

--Tu lá nos estudos costumas fazer o teu terço? perguntára-me, com seccura, a titi.

E eu, sorrindo abjectamente:

--Ora essa! É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico terço!...

Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste, queixava-se agora do coração, e um pouco tambem da bexiga. E havia outro commensal, velho amigo do commendador Godinho, fiel visita das Neves, o Margaride, o que fôra delegado em Vianna, depois juiz em Mangualde. Rico por morte de seu mano Abel, secretario da Camara Patriarchal, o doutor aposentára-se, farto dos autos, e vivia em ocio, lendo os periodicos, n'um predio seu na Praça da Figueira. Como conhecêra o papá, e muitas vezes o acompanhará ao _Mosteiro_, tratou-me logo com authoridade e por _você_.

Era um homem corpulento e solemne, já calvo, com um carão livido, onde destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras vezes penetrava na sala da titi sem atirar, logo da porta, uma noticia pavorosa. «Então, não sabem? Um incendio medonho, na Baixa!» Apenas uma fumaraça n'uma chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, n'um sombrio accesso d'imaginação, compuzera duas tragedias; e d'ahi lhe ficára este gosto morbido d'exagerar e d'impressionar. «Ninguem como eu, dizia elle, saborêa o grandioso...»

E, sempre que aterrava a titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma pitada.

Eu gostava do dr. Margaride. Camarada do papá em Vianna, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao violão, a xacara do conde Ordonho. Tardes inteiras vagueára com elle poeticamente, pela beira da agua, no _Mosteiro_, quando a mamã fazia raminhos silvestres á sombra dos amieiros. E mandou-me as amendoas mal eu nasci, á noitinha, em sexta-feira de Paixão. Além d'isso, mesmo na minha presença, elle gabava francamente á titi o meu intellecto, e a circumspecção dos meus modos.

--O nosso Theodorico, D. Patrocinio, é moço para deleitar uma tia... V. exc.^a, minha rica senhora, tem aqui um Telemaco!

Eu córava, modesto.

Ora foi justamente passeando com elle no Rocio, n'um dia d'agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do commendador G. Godinho. O dr. Margaride apresentou-m'o, dizendo apenas:--«o Xavier, teu primo, moço de grandes dotes.» Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que fôra galante e desbaratára furiosamente trinta contos, herdados de seu pai, dono d'uma cordoaria em Alcantara. O commendador G. Godinho, mezes antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade á secretaria da Justiça, com vinte mil reis por mez. E o Xavier agora vivia com uma hespanhola chamada Carmen, e tres filhos d'ella, n'um casebre da rua da Fé.

Eu fui lá n'um domingo. Quasi não havia moveis; a bacia da cara, a unica, estava entalada no fundo rôto da palhinha d'uma cadeira. O Xavier toda a manhã deitára escarros de sangue pela bocca. E a Carmen, despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada n'um trapo e com a cabecinha coberta de feridas.

Immediatamente o Xavier, tratando-me por _tu_, fallou-me da tia Patrocinio... Era a sua esperança, n'aquella sombria miseria, a tia Patrocinio! Serva de Jesus, proprietaria de tantos predios, ella não podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se alli n'aquelle casebre, sem lençoes, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar por pão. Que custava á tia Patrocinio estabelecer-lhe, como já fizera o Estado, uma mesadinha de vinte mil reis?

--Tu é que lhe devias fallar, Theodorico! Tu é que lhe devias dizer... Olha essas crianças. Nem meias teem... Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao tio Theodorico. Que comeste hoje ao almoço?... Um bocado de pão d'hontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida, Theodorico! Olha que é duro, menino!

Enternecido, prometti fallar á titi.

Fallar á titi! Eu nem ousaria contar á titi que conhecia o Xavier, e que entrava n'esse casebre impuro onde havia uma hespanhola, emmagrecida no peccado.

E para que elles não percebessem o meu ignobil terror da titi, não voltei á rua da Fé.

No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo dr. Barroso que o primo Xavier, quasi a morrer, me queria fallar em segredo.

Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Concha, na cozinha, conversava por entre soluços com outra hespanhola, magrita, de mantilha preta e corpetesinho triste de setim côr de cereja. Os pequenos, no chão, rapavam um tacho d'açorda. E na alcova o Xavier, enrodilhado n'um cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de escarros de sangue, tossia, despedaçadamente:

--És tu, rapaz?

--Então que é isso, Xavier?

Elle exprimiu, n'um termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de costas, com um brilho secco nos olhos, fallou-me logo da titi. Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o coração: a fera não respondera. E, agora, ia mandar para o _Jornal de Noticias_ um annuncio, a pedir uma esmola, assignando «Xavier Godinho, primo do rico commendador G. Godinho.» Queria vêr se D. Patrocinio das Neves deixaria um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na pagina d'um jornal.

--Mas é necessario que tu me ajudes, rapaz, que a enterneças! Quando ella lêr o annuncio, conta-lhe esta miseria! Desperta-lhe o brio. Dize-lhe que é uma vergonha vêr morrer ao abandono um parente, um Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos trouxe ahi quatro corôas... Vê tu a que eu cheguei!

Ergui-me, commovido.

--Conta commigo, Xavier.

--Olha, se tens ahi cinco tostões que te não façam falta, dá-os á Concha.

Dei-lh'os a elle: e sahi, jurando-lhe que ia fallar á titi, solemnemente, em nome dos Godinhos e em nome de Jesus!

Depois do almoço, ao outro dia, a titi, de palito na bocca, e vagarosa, desdobrou o _Jornal de Noticias_. E decerto achou logo o annuncio do Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira pagina onde elle negrejava, afflictivo, vergonhoso, medonho.

Então pareceu-me vêr, voltados para mim, lá do fundo nú do casebre, os olhos afflictos do Xavier; a face amarella da Concha, lavada de lagrimas; as pobres mãosinhas dos pequenos, magras, á espera da côdea de pão... E todos aquelles desgraçados anciavam pelas palavras que eu ia lançar á titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o primeiro pedaço de carne d'aquelle verão de miseria. Abri os labios. Mas já a titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:

--Que se aguente... É o que succede a quem não tem temor de Deus e se mette com bebedas... Não tivesse comido tudo em relaxações... Cá para mim, homem perdido com saias, homem que anda atraz de saias, acabou... Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que tambem Nosso Senhor Jesus Christo padeceu!

Baixei a cabeça, murmurei:

--E ainda nós não padecemos bastante... Tem a titi razão. Que se não mettesse com saias!

Ella ergueu-se, deu as graças ao Senhor. Eu fui para o meu quarto, fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda regeladas e ameaçadoras, as palavras da titi, para quem os homens «acabavam quando se mettiam com saias.» Tambem eu me mettera com saias, em Coimbra, no Terreiro da Herva! Alli, no meu bahú, tinha eu documentos do meu peccado, a photographia da Thereza dos Quinze, uma fita de sêda, e uma carta d'ella, a mais dôce, em que me chamava «unico affecto da sua alma» e me pedia dezoito tostões! Eu cosera essas reliquias dentro do fôrro d'um collete de pano, receando as incessantes rebuscas da titi, por entre a minha roupa intima. Mas lá estavam, no bahú de que ella guardava a chave, dentro do collete, fazendo uma dureza de cartão que qualquer dia poderiam palpar os seus dedos desconfiados... E eu acabava logo para a titi!

Abri devagarinho o bahú, descosi o fôrro, tirei a carta deliciosa da Thereza, a fita que conservára o aroma da sua pelle, e a sua photographia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei tudo, amabilidades e feições: e sacudi desesperadamente para o saguão as cinzas da minha ternura.

N'essa semana não ousei voltar á rua da Fé. Depois, um dia que choviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um visinho, vendo-me espreitar de longe as janellas negras e mortas do casebre, disse-me que o snr. Godinho, coitado, fôra para o hospital n'uma maca.

Desci, triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepusculo humido, tendo roçado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente o meu nome de Coimbra, lançado com alegria.

--Oh, Raposão!

Era o Silverio, por alcunha o _Rinchão_, meu condiscipulo, e companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu tio, ricaço illustre, o barão d'Alconchel. E agora, de volta, ia vêr uma Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa côr de rosa, com roseirinhas á varanda.

--Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita, a Adelia... Tu não conheces a Adelia? Então que diabo, vem vêr a Adelia... É um mulherão!

Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher religiosamente ás oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão fallou da brancura dos braços da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do Rinchão, enfiando as luvas pretas.

Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira, encontrámos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque. E a Adelia, estendida no sofá, de chambre e em saia branca, com os chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos. Só quando o Silverio e Ernestina correram dentro á cozinha, abraçados, a buscar copos para o Madeira, ousei perguntar á Adelia, córando:

--Então a menina d'onde é?

Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro, cortezmente, dizendo-me--o _cavalheiro_. Apreciei estes modos. As mangas largas do seu roupão, escorregando descobriam braços tão brancos e macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.

Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina collocára os pasteis. Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu coração, enrodilhar-se no meu.

--Porque é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva alli a um canto? disse-me ella, rindo.

O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim uma flôr de madrigal.

--É para não me tirar d'aqui d'ao pé da menina nem um instantinho que seja.

Ella fez-me uma cocega lenta no pescoço. Eu, aboborado de gôzo, bebi o resto do Madeira que ella deixára no calice.

A Ernestina, poetica, e cantando o _fado_, aninhou-se nos joelhos do Rinchão. Então a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face--e os meus labios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido, mais profundo que até ahi abalára o meu sêr.

N'esse dôce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do mogno, d'entre dois vasos sem flôres, começou a dar dez, horas, fanhoso, ironico, pachorrento.

Jesus! era a hora do chá em casa da titi! Com que terror eu trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e fuzilando. Ainda balbuciei:

--Titi...

Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.

--Relaxações em minha casa não admitto! Quem quizer viver aqui ha de estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, emquanto eu fôr viva! E quem não lhe agradar, rua!

Sob a rajada estridente da indignação da snr.^a D. Patrocinio, padre Pinheiro e o tabellião Justino tinham dobrado a cabeça embaçados. O dr. Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador, influente e suave.

--D. Patrocinio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa... Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios...

Exclamei amargamente:

--Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma tia, uma commendadeira... Estivemos á espera, a passear no pateo... A irmã vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que ella está... Eu morto por me safar, mas com ceremonia do rapaz, que é sobrinho do barão d'Alconchel... E elle zás, zás, a fallar da irmã, e do namoro, e das cartas...

A tia Patrocinio uivou de furor.

--Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa para o pateo d'uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão...

Então o dr. Margaride estendeu a mão pacificadora e solemne:

--Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio onde esteve é respeitavel... E eu conheço o barão d'Alconchel. É um cavalheiro da maior circumspecção, e um dos mais abastados do Alemtejo... Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal... O mais rico, direi!... Mesmo lá fóra não haverá fortuna territorial que lhe exceda. Nem que se lhe compare!... Só em porcos! Só em cortiça! Centenares de contos! milhões!

Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras d'ouro. E o bom Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:

--Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia que a tia não deseja senão o seu bem...

Puxei, com a mão a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a nascer, forte, respeitavel e negra.

Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G. Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi! Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!...

Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.

* * * * *

Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao sêllo dentro do seu relicario.

--Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê não lhe faltes...

Corri logo ao oratorio, com o canudo na mão, agradecer ao Christo de ouro o meu glorioso grau de bacharel.

Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e a esfregar as mãos.

--Boa nova vos trago aqui, snr. doutor Theodorico!...

E depois de me acariciar, segundo o seu affectuoso costume, com palmadinhas dôces nos rins, o santo procurador revelou-me que a titi, satisfeita commigo, decidira comprar-me um cavallo para eu dar honestos passeios, e espairecer por Lisboa.

--Um cavallo! Oh, padre Casimiro!

Um cavallo. E além d'isso, não querendo que seu sobrinho, já barbado, já letrado, soffresse um vexame, por lhe faltar ás vezes um troco para deitar na salva de Nossa Senhora do Rosario, a titi estabelecia-me uma mezada de tres moedas.

Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amoravel intenção da titi era que eu não tivesse outra occupação além de cavalgar por Lisboa, e lançar pratinhas na salva de Nossa Senhora.

--Olhe, Theodorico, eu parece-me que a titi não quer que você tenha outro mister senão temer a Deus... O que lhe digo é que o amigo vai passal-a boa e regalada... E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e diga-lhe uma coisinha mimosa.

Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarcha S. José, a titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia, com um chale de Tonkin pelos hombros.

--Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer...

--Está bom, vai com Deus.

Então, devotamente, beijei-lhe a franja do chale. A titi gostou. Eu fui com Deus.

