Part 19
Longas horas nos detivemos á mesa--onde a travessa d'arroz dôce ostentava as minhas iniciaes, debaixo d'um coração e d'uma cruz, desenhadas a canella pela titi. E, inesgotavelmente, narrei a minha santa jornada. Disse os devotos dias do Egypto, passados a beijar uma por uma as pégadas que lá deixára a Santa Familia na sua fuga; disse o desembarque em Jaffa com o meu amigo Topsius, um sabio allemão, doutor em theologia, e a deliciosa missa que lá saboreáramos; disse as collinas de Judá cobertas de Presepes onde eu, com a minha egoa pela redea, ia ajoelhar, transmittindo ás Imagens e ás Custodias os recados da tia Patrocinio... Disse Jerusalem, pedra a pedra! E a titi, sem comer, apertando as mãos, suspirava com devotissimo pasmo:
--Ai que santo! ai que santo ouvir estas coisas! Jesus! até dá uns gostinhos por dentro!...
Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ella me parecia outra Patrocinio das Neves. Os seus fundos oculos negros, que outr'ora reluziam tão asperamente, conservavam um contínuo embaciamento de ternura humida. Na voz, que perdera a rispidez silvante, errava, amollecendo-a, um suspiro acariciador e fanhoso. Emmagrecera: mas nos seus sêccos ossos parecia correr emfim um calor de medulla humana! Eu pensava--«Ainda a hei de pôr como um velludo.»
E, sem moderação, prodigalisava as provas da minha intimidade com o Céo.
Dizia:--«Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar, passou de repente um anjo...» Dizia:--«Tirei-me dos meus cuidados, fui ao tumulo de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para dentro...»
Ella pendia a cabeça, esmagada, ante estes privilegios prodigiosos, só comparaveis aos de Santo Antão ou de S. Braz.
Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus terrificos jejuns. Em Nazareth, ao pé da fonte onde Nossa Senhora enchia o cantaro, rezára mil Ave-Marias, de joelhos á chuva... No deserto, onde vivera S. João, sustentára-me como elle de gafanhotos...
E a titi, com baba no queixo:
--Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!... E que gosto para o nosso rico S. João!... Como elle havia de ficar! E olha, filho, não te fizeram mal?
--Se até engordei, titi! Nada, era o que eu dizia ao, meu amigo allemão: «Já que a gente veio a uma pechincha d'estas, é aproveitar, e salvar a nossa alminha...»
Ella virava-se para a Vicencia--que sorria, pasmada, no seu pouso tradicional entre as duas janellas, sob o retrato de Pio IX e o velho oculo do commendador G. Godinho:
--Ai Vicencia, que elle vem cheiinho de virtude! Ai que vem mesmo atochadinho d'ella!
--Parece-me que Nosso Senhor Jesus Christo não ficou descontente commigo! murmurava eu, estendendo a colhér para o dôce de marmelo.
E todos os meus movimentos (até o lamber da calda) os contemplava a odiosa senhora, venerandamente, como preciosas acções de santidade.
Depois, com um suspiro:
--E outra coisa, filho... Trazes de lá algumas orações, das boas, das que te ensinassem por lá os patriarchas, os fradesinhos?...
--Trago-as de chupeta, titi!
E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, efficazes para todos os achaques! Tinha-as para tosses, para quando os gavetões das commodas emperram, para vesperas de loteria...
--E terás alguma para caimbras? Que eu ás vezes, de noite, filho...
--Trago uma que não falha em caimbras. Deu-m'a um monge meu amigo a quem costuma apparecer o Menino Jesus...
Disse--e accendi um cigarro.
Nunca eu ousára fumar diante da titi! Ella detestára sempre o tabaco, mais que nenhuma outra emanação do peccado. Mas agora arrastou gulosamente a sua cadeira para mim--como para um milagroso cofre, repleto d'essas rezas que dominam a hostilidade das coisas, vencem toda a enfermidade, eternisam as velhas sobre a terra.
--Has de m'a dar, filho... É uma caridade que fazes!
--Oh, titi, ora essa! Todas! E diga, diga lá... Como vai a titi dos seus padecimentos?
Ella deu um ai, d'infinito desalento. Ia mal, ia mal... Cada dia se sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer... Emfim já não morria sem aquelle gostinho de me ter mandado a Jerusalem visitar o Senhor; e esperava que elle lh'o levasse em conta, e as despezas que fizera, e o que lhe custára a separação... Mas ia mal, ia mal!
Eu desviára a face, a esconder o vivo e escandaloso lampejo de jubilo que a illuminára. Depois animei-a, com generosidade. Que podia a titi recear? Não tinha ella agora, «para se apegar», vencer as leis da decomposição natural, aquella reliquia de Nosso Senhor?...
--E outra coisa, titi... Os amiguinhos, como vão?
Ella annunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato, o delicioso Casimiro, recolhera á cama no domingo com as «perninhas inchadas...» Os doutores affirmavam que era uma anasarca... Ella desconfiava d'uma praga que lhe rogára um gallego...
--Seja como fôr, o santinho lá está! Tem-me feito uma falta, uma falta... Ai filho, nem tu imaginas!... O que me tem valido é o sobrinho, o padre Negrão...
--O Negrão? murmurei, estranho ao nome.
Ah! eu não conhecia... Padre Negrão vivia ao pé de Torres. Nunca vinha a Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxação... Só por ella, e para a ajudar nos seus negocios, é que o santinho condescendera em deixar a sua aldeia. E tão delicado, tão serviçal... Ai! era uma perfeição!
--Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho... Só o que elle tem rezado por ti, para que Deus te protegesse n'essas terras de turcos... E a companhia que me faz! Que todos os dias o tenho cá a jantar... Hoje não quiz elle vir. Até me disse uma coisa muito linda: «não quero, minha senhora, atalhar expansões.» Que lá isso, fallar bem, e assim coisas que tocam... Ai, não ha outro... Nem imaginas, até regala... É de appetite!
Sacudi o cigarro, seccado. Porque vinha aquelle padre de Torres, contra os costumes domesticos, comer _todos os dias_ o cozido da titi? Resmunguei com auctoridade:
--Lá em Jerusalem os padres e os patriarchas só vêm jantar aos domingos... Faz mais virtude.
Escurecera. A Vicencia accendeu o gaz no corredor: e como breve chegariam os dilectos amigos, avisados pela titi para saudar o Peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca preta.
Ahi, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente e pensei:--«Ah Theodorico, venceste!»
Sim, vencera! Como a titi me tinha acolhido! com que veneração! com que devoção!...--E ia mal, ia mal!... Bem depressa eu sentiria, com o coração suffocado de gozo, as martelladas sobre o seu caixão. E nada podia desalojar-me do testamento da snr.^a D. Patrocinio! Eu tornára-me para ella S. Theodorico! A hedionda velha estava emfim convencida que deixar-me o seu ouro--era como doal-o a Jesus e aos Apostolos e a toda a Santa Madre Egreja!
Mas a porta rangeu--a titi entrou, com o seu antigo chale de Tonkin pelos hombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D. Patrocinio das Neves d'outro tempo, hirta, agreste, esverdeada, odiando o amor como coisa suja, e sacudindo de si para sempre os homens que se tinham mettido com saias! Com effeito! Os seus oculos, outra vez sêccos, reluziam, cravavam-se desconfiadamente na minha mala... Justos céos! Era a antiga D. Patrocinio. Lá vinham, as suas lividas, aduncas mãos, cruzadas sobre o chale, arrepanhando-lhe as franjas, sôfregas de esquadrinhar a minha roupa branca! Lá se cavava, aos cantos dos seus labios sumidos, um rigido sulco d'azedume!... Tremi: mas visitou-me logo uma inspiração do Senhor. Diante da mala, abri os braços, com candura:
--Pois é verdade!... Aqui tem a titi a maleta que lá andou por Jerusalem... Aqui está, bem aberta, para todo o mundo vêr que é a mala d'um homem de religião! Que é o que dizia o meu amigo allemão, pessoa que sabia tudo: «Lá isso, Raposo, meu santinho, quando n'uma viagem se peccou, e se fizeram relaxações, e se andou atraz de saias, trazem-se sempre provas na mala. Por mais que se escondam, que se deitem fóra, sempre lá esquece coisa que cheire a peccado!...» Assim m'o disse muitas vezes, até uma occasião diante d'um Patriarcha... E o Patriarcha approvou. Por isso, eu cá, é malinha aberta, sem receio... Póde-se esquadrinhar, póde-se cheirar... A que cheira é a religião! Olhe, titi, olhe... Aqui estão as ceroulinhas e as piuguinhas. Isso não póde deixar de ser, porque é peccado andar nú... Mas o resto, tudo santo! O meu rosario, o livrinho de missa, os bentinhos, tudo do melhor, tudo do Santo Sepulchro...
--Tens alli uns embrulhos! rosnou a asquerosa senhora, estendendo um grande dedo descarnado.
Abri-os logo, com alacridade. Eram dois frascos lacrados d'agua do Jordão! E muito sério, muito digno, fiquei diante da snr.^a D. Patrocinio com uma garrafinha do liquido divino na palma de cada mão... Então ella, com os oculos de novo embaciados, beijou penitentemente os frascos: uma pouca da baba do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois, á porta, suspirando, já rendida:
--Olha, filho, até estou a tremer... E é d'estes gostinhos todos!
Sahiu. Eu fiquei coçando o queixo. Sim, ainda havia uma circumstancia que me escorraçaria do testamento da titi! Seria apparecer diante d'ella, material e tangivel, uma evidencia das minhas relaxações... Mas como surgiria ella jámais n'este logico Universo? Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos d'uma fogueira apagada que nenhum esforço póde novamente condensar. E o meu derradeiro peccado--saboreado tão longe, no velho Egypto, como chegaria jámais á noticia da titi? Nenhuma combinação humana lograria trazer ao campo de Sant'Anna as duas unicas testemunhas d'elle--uma luveira occupada agora a encostar as papoilas do seu chapéo aos granitos de Raméses em Thebas, e um Doutor encafuado n'uma rua escolastica, á sombra d'uma vetusta Universidade da Allemanha, escarafunchando o cisco historico dos Herodes... E, a não ser essa flôr de deboche e essa columna de sciencia, ninguem mais na terra conhecia os meus culpados delirios na cidade amorosa dos Lagidas.
Demais, o terrvel documento da minha juncção com a sordida Mary, a camisa de dormir aromatisada de violeta, lá cobria agora em Sião uma languida cinta de circassiana ou os seios côr de bronze d'uma nubia de Koskoro: a compromettedora offerta «_ao meu portuguezinho valente_» fôra despregada, queimada no brazeiro: já as rendas se iriam esgaçando no serviço forte do amor; e rôta, suja, gasta, ella bem depressa seria arremessada ao lixo secular de Jerusalem! Sim, nada se poderia interpôr entre a minha justa sofreguidão e a bolsa verde da titi. Nada, a não ser a carne mesma da velha, a sua carcassa rangente, habitada por uma teimosa chamma vital, que se não quizesse extinguir!... Oh fado horrivel! Se a titi, obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem os cravos do outro anno! E então não me contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente, em toda a ancia do meu desejo:
--Oh Santa Virgem Maria, faze que ella rebente depressa!
N'esse momento soou a grossa sineta do pateo. E foi-me grato reconhecer, depois da longa separação, as duas badaladas curtas e timidas do nosso modesto Justino: mais grato ainda sentir, logo após, o repique magestoso do dr. Margaride. Immediatamente a titi escancarou a porta do meu quarto, n'uma penosa atarantação:
--Theodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar... Parece-me que para destapar a reliquia é melhor esperar até que se vão logo embora o Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga d'elles, são pessoas de muita virtude... Mas acho que para uma ceremonia d'estas é melhor que estejam só pessoas d'egreja...
Ella, pela sua devoção, considerava-se pessoa d'egreja. Eu, pela minha jornada, era quasi pessoa do céo.
--Não, titi... O Patriarcha de Jerusalem recommendou-me que fosse diante de todos os amigos da casa, na capella, com velas... É mais efficaz... E olhe, diga á Vicencia que me venha buscar as botas para limpar.
--Ai eu lh'as dou!... São estas? Estão sujinhas, estão! Já cá te vêm, filho, já cá te vêm!
E a snr.^a D. Patrocinio das Neves agarrou as botas! E a snr.^a D. Patrocinio das Neves levou as botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho, cravando no setim da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava que desde esse dia ia reinar alli, no campo de Sant'Anna, de cima da minha santidade, e que para apressar a obra lenta da morte--talvez viesse a espancar aquella velha.
Foi-me dôce, ao penetrar na sala, encontrar os dilectos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A titi pousava no sofá, têsa, desvanecida, com setins de festa e com joias. E ao lado, um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito--mostrando n'uma face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dois dedos, sêccamente:
--Estimo vê-lo por cá...
--Grandissima honra para este seu servo! ciciou elle, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o _abat-jour_ do candieiro--para que a luz me banhasse, e se pudesse vêr na madureza do meu semblante a efficacia da minha peregrinação.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
--Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
--Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
--Mais homem!
O onduloso padre Negrão revirou-se, arqueado para a titi como para um Sacramento entre os seus mólhos de luzes:
--E com um todo d'inspirar respeito! Inteiramente digno de ser o sobrinho da virtuosissima D. Patrocinio!...
No emtanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: «E a saudinha?» «Então, Jerusalem?» «Que tal, as comidas?...»
Mas a titi bateu com o leque no joelho, n'um receio que tão familiar alvoroço importunasse S. Theodorico. E o Negrão acudiu, com um zelo mellifluo:
--Methodo, meus senhores, methodo!... Assim todos á uma não se goza... É melhor deixarmos fallar o nosso interessante Theodorico!...
Detestei aquelle _nosso_, odiei aquelle padre. Porque corria tanto mel no seu fallar? Porque se privilegiava elle no sofá, roçando a sordida joelheira da calça pelos castos setins da titi?
Mas o dr. Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o methodo seria mais proficuo...
--Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Theodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negrão, com uma escandalosa privança, correu dentro a colhêr um copo d'agua e assacar para me lubrificar as vias. Estendi o lenço sobre o joelho. Tossi--e comecei a esboçar a soberba jornada. Disse o luxo do _Malaga_; Gibraltar e o seu môrro encarapuçado de nuvens; a abundancia das «mesas redondas» com puddings e aguas-gazosas...
--Tudo á grande, á franceza! suspirou padre Pinheiro, com um brilho de gula no olho amortecido. Mas naturalmente, tudo muito indigesto...
--Eu lhe digo, padre Pinheiro... Sim, tudo á grande, tudo á franceza: mas coisas saudaveis, que não esquentavam os intestinos... Bello rosbeef, bello carneiro...
--Que não valiam decerto o seu franguinho de cabidella, excellentissima senhora! atalhou unctuosamente o Negrão, junto do hombro agudo da titi.
Execrei aquelle padre! E, remexendo a agua com assucar, decidi em meu espirito que, mal eu começasse a governar ferreamente o campo de Sant'Anna--não mais a cabidella da minha familia escorregaria na guela aduladora d'aquelle servo de Deus.
No emtanto o bom Justino, repuxando o collarinho, sorria para mim, embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria? Havia uma assembléa, onde espairecesse? Conhecia eu alguma familia considerada, com quem tomasse uma chavena de chá?...
--Eu lhe digo, Justino... Conhecia. Mas, a fallar verdade, tinha repugnancia em frequentar casas de turcos... Sempre é gente que não acredita senão em Mafoma!... Olhe, sabe o que fazia á noite? Depois de jantar ia a uma egrejinha cá da nossa bella religião, sem estrangeirices, onde havia sempre um Santissimo d'appetite... Fazia as minhas devoções: depois ia-me encontrar com o allemão, o meu amigo, o lente, n'uma grande praça que dizem lá os de Alexandria que é muito melhor que o Rocio... Maior e mais abrutada talvez seja. Mas não é esta lindeza do nosso Rocio, o ladrilhinho, as arvores, a estatua, o theatro... Emfim, para meu gosto, e para um regalinho de verão prefiro o Rocio... E lá o disse aos turcos!
--E fica-lhe bem ter levantado assim as coisas portuguezas! observou o dr. Margaride, contente e rufando na tabaqueira. Direi mais... É acto de patriota... Nem d'outra maneira procediam os Gamas e os Albuquerques!
--Pois é verdade... Ia-me encontrar com o allemão; e então para espairecer um bocado, porque emfim uma distracção sempre é necessaria quando se anda a viajar, iamos tomar um café... Que lá isso, sim! Lá café fazem-n'o os turcos que é uma perfeição!
--Bom cafésinho, hein? acudiu padre Pinheiro, chegando a cadeira para mim com interesse sôfrego. E forte, forte? Bom aroma?
--Sim, padre Pinheiro, de consolar!... Pois tomavamos o nosso cafésinho, depois vinhamos para o hotel, e ahi no quarto, com os santos Evangelhos, punhamo-nos a estudar todos aquelles divinos lugares na Judêa onde tinhamos d'ir rezar... E como o allemão era lente e sabia tudo, eu era instruir-me, instruir-me!... Até elle ás vezes dizia: «Vossê, Raposo, com estas noitadas, vai d'aqui um chavão...» E lá isso, o que é de coisas santas e de Christo, sei tudo... Pois, senhores, assim passavamos á luz do candieiro até às dez, onze horas... Depois chásinho, terço, e cama.
--Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito fructuosas! declarou, sorrindo para a titi, o estimavel dr. Margaride.
--Ai, isso fez-lhe muita virtude! suspirava a horrenda senhora. Foi como se subisse um bocadinho ao céo... Até o que elle diz cheira bem... Cheira a santo.
Modestissimamente, baixei a palpebra lenta.
Mas Negrão, com sinuosa perfidia, notou que mais proveitoso seria, e de maior unção repassaria as almas--escutar coisas de festas, de milagres, de penitencias...
--Estou seguindo o meu itinerario, snr. padre Negrão, repliquei asperamente.
--Como fez Chateaubriand, como fazem todos os famosos auctores! confirmou Margaride, approvando.
E foi com os olhos n'elle, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria n'uma tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa irmã da Caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira fallar da virtude da titi) me salvára das aguas salgadas um embrulho em que eu trazia terra do Egypto, da que pisára a Santa Familia: a nossa chegada a Jaffa, que, por um prodigio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéo alto e pensando na titi, se coroára de raios de sol...
--Magnifico! exclamou o dr. Margaride. E diga, meu Theodorico... Não tinham comsigo um sabio guia, que lhes fosse apontando as ruinas, lhes fosse commentando...
--Ora essa, dr. Margaride! Tinhamos um grande latinista, o padre Potte!
Remolhei o labio. E disse as emoções da gloriosa noite em que acampáramos junto a Ramleh, com a lua no céo alumiando coisas da religião, beduinos velando de lança ao hombro, e em redor leões a rugir...
--Que scena! bradou o dr. Margaride, erguendo-se arrebatadamente. Que enorme scena! Não estar eu lá! Parece uma d'estas coisas grandiosas da Biblia, do _Eurico_! É d'inspirar! Eu por mim, se tal visse, não me continha!... Não me continha, fazia uma ode sublime!
O Negrão puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:
--É melhor deixar fallar o nosso Theodorico, para podermos todos saborear...
Margaride, abespinhado, franziu as sobrancelhas temerosas e mais negras que o ebano:
--Ninguem n'esta sala, melhor que eu, snr. padre Negrão, saboreia o grandioso!
E a titi, insaciavel, batendo com o leque:
--Está bem, está bem... Conta, filho, não te fartes! Olha, conta assim uma coisa que te acontecesse com Nosso Senhor, que nos faça ternura...
Todos emmudeceram, reverentes. Eu então disse a marcha para Jerusalem com duas estrellas na frente a guiar-nos, como acontece sempre aos peregrinos mais finos e de boa familia: as lagrimas que derramára, ao avistar, n'uma manhã de chuva, as muralhas de Jerusalem: e na minha visita ao Santo Sepulchro, de casaca, com padre Potte, as palavras que balbuciára diante do Tumulo, por entre soluços e no meio d'acolytos--«Oh meu Jesus, oh meu Senhor, aqui estou, aqui venho da parte da titi!...»
E a medonha senhora, suffocada:
--Que ternura que faz!... Diante do tumulosinho!...
Então passei o lenço pela face excitada, e disse:
--N'essa noite recolhi ao hotel para rezar... E agora, meus senhores, ha aqui um pontosinho desagradavel...
E contritamente confessei que, forçado pela Religião, pelo nome honrado de Raposo, e pela dignidade de Portugal--tivera um conflicto no hotel com um grande inglez de barbas.
--Uma bulha! acudiu com perversidade o vil Negrão, ancioso por empanar o brilho de santidade com que eu deslumbrava a titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Christo! Ora essa! Que desacato!
Com os dentes cerrados encarei o torpissimo padre:
--Sim senhor! um chinfrim!... Mas fique v. s.^a sabendo que o snr. patriarcha de Jerusalem me deu toda a razão, até me bateu no hombro e me disse: «Pois Theodorico, parabens, vossê portou-se como um pimpão!» Que tem agora v. s.^a a piar?
Negrão curvou a cabeça, onde a corôa punha uma lividez azulada de lua em tempo de peste:
--Se Sua Eminencia approvou...
--Sim senhor! E aqui tem a titi porque foi a bulha!... No quarto ao lado do meu havia uma ingleza, uma hereje, que mal eu me punha a rezar, ahi começava ella a tocar piano, e a cantar fados e tolices e coisas immoraes do _Barba-Azul_, dos theatros... Ora imagine a titi, estar uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: «Oh Santa Maria do Patrocinio, faze que a minha boa titi tenha muitos annos de vida»--e vir lá de traz do tabique uma voz d'excommungada a ganir: «_Sou o Barba-Azul, olê! ser viuvo é o meu filé_!...» É d'encavacar!... De modo que uma noite, desesperado, não me tenho em mim, sáio do corredor, atiro-lhe um murro á porta, e grito-lhe para dentro: «Faz favor d'estar calada, que está aqui um christão que quer rezar!...»
--E com todo o direito, affirmou o dr. Margaride. Vossê tinha por si a lei!
--Assim, me disse o Patriarcha! Pois senhores, como ia contando, grito isto para dentro á mulher, e ia recolher muito sério ao meu quarto, quando me sae de lá o pai, um grande barbaças, de bengalorio na mão... Eu fui muito prudente: cruzei os braços e, com bons modos, disse-lhe que não queria alli escandalos ao pé do tumulo de Nosso Senhor, e o que desejava era rezar em socego... E vai que me ha de elle responder? Que se estava a... Emfim, nem eu posso repetir! Uma coisa indecente contra o tumulo de Nosso Senhor... E eu, titi, passa-me uma oura pela cabeça, agarro-o pelo cachaço...
--E magoaste-o, filho?
--Escavaquei-o, titi!
Todos acclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro citou leis canonicas auctorisando a Fé a desancar a Impiedade. Justino, aos pulos, celebrou esse John Bull desmantelado a sólida murraça lusitana. E eu, excitado pelos louvores como por clarins d'ataque, bradava de pé, medonho:
--Lá impiedades diante de mim, não! Arrombo tudo, esborracho tudo... Em coisas de religião sou uma fera!
E aproveitei esta santa cólera para brandir, como um aviso, diante do queixo sumido do Negrão, o meu punho cabelludo e pavoroso. O macilento e esgrouviado servo de Deus encolheu. Mas n'esse instante a Vicencia entrava com o chá, nas pratas ricas de G. Godinho.
Então os dilectos amigos, com a torrada na mão, romperam em ardentes encomios:
--Que instructiva viagem! É como ter um curso!
--E que bello bocadinho de noite aqui se tem passado!... Qual S. Carlos! Isto é que é gozar!
--E como elle conta! Que fervor! que memoria!...
Lentamente o bom Justino, com a sua chavena fornecida de bolos, acercára-se da janella, como a espreitar o céo estrellado: e d'entre as franjas das cortinas os seus olhinhos luzidios e gulosos chamavam-me confidencialmente. Fui, trauteando o _Bem-dito_; ambos mergulhámos na sombra dos damascos; e o virtuoso tabellião, roçando o labio pelas minhas barbas:
--Oh amiguinho, e de mulheres?