Part 18
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no hombro, chamou-me seu filho, lembrou-me que se fechava o Santo Horto e que lhe seria grata a minha esmola... Dei-lhe uma placa: e recolhi regalado a Jerusalem, devagar, pelo valle de Josaphat, cantarolando um _fado_ meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a Novena na egreja da Flagellação quando a nossa caravana se formou á porta do _Hotel do Mediterraneo_, para partirmos de Jerusalem. Os caixões das reliquias iam sobre o macho, entre os fardos. O beduino, mais encatarrhoado, abafára-se n'um ignobil _cachenez_ de sacristão. Topsius montava outra egoa, séria e pachorrenta. E eu, que por alegria puzera uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao pisarmos pela vez derradeira a Via Dolorosa:--«Fica-te, possilga de Sião!»
Já chegávamos á porta de Damasco quando um grito esbaforido resoou, no alto da rua, á esquina do convento dos Abyssinios:
--Amigo Potte, doutor, cavalheiros!... Um embrulho! Esqueceu um embrulho...
Era o negro do Hotel, em cabello, agitando um embrulho que logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha de dormir da Mary! E recordei que com effeito, ao emmalar, eu não o vira no guarda-roupa, no seu ninho de piugas.
Esfalfado, o servo contou que depois de partirmos, varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e aranhas, detraz da commoda; limpára-o carinhosamente; e como fôra sempre seu afan servir o fidalgo lusitano, abalára, mesmo sem a jaleca...
--Basta! rosnei eu, sêcco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E pensava: «Como rolou elle para traz da commoda?» Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o tirára do seu ninho de piugas... Pois antes lá permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! eu amava a Mary. A esperança que em breve na terra do Egypto seria apertado pelos seus braços gordinhos ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer perennemente á garupa a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta bretanha atraz de mim, pelas ruas de Jerusalem, querendo installar-se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me á minha patria?
E era essa idéa de patria que me torturava, emquanto nos afastavamos das muralhas da Cidade Santa... Como poderia eu jámais penetrar com este pacote lubrico na casa ecclesiastica da tia Patrocinio? Constantemente a titi se encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, aspera e avida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas... Que cólera a esverdearia se n'uma noite de pesquizas ella encontrasse estas rendas babujadas pelos meus labios, fedendo a peccado, com a offerta em letra cursiva «_Ao meu portuguezinho valente_!»
«Se soubesse que n'esta santa viagem te tinhas mettido com saias, escorraçava-te como um cão!» Assim o dissera a titi, em vesperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Egreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a reliquia d'uma luveira, perder a amizade da velha que tão caramente conquistára com terços, pingos d'agua benta e humilhações da razão liberal? Jámais!... E, se não afoguei logo o embrulho funesto na agua d'um charco, ao atravessarmos as choças de Kolonieh, foi para não revelar ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas decidi que mal penetrassemos com a noite nas montanhas de Judá, retardaria o passo á egoa, e longe dos oculos do Historiador, longe das solicitudes de Potte, arrojaria a um barranco a terrivel camisa da Mary, evidencia do meu peccado e damno da minha fortuna. E que bem depressa os dentes dos chacaes a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o tumulo de Samuel por traz dos rochedos d'Emmaus, já para sempre Jerusalem desapparecera aos meus olhos, quando a egoa de Topsius, avistando uma fonte, n'um valle cavado junto á estrada, deixou a caravana, deixou o dever--e trotou para a agua, com impudencia e com alacridade. Estaquei, indignado:
--Puxe-lhe a redea, doutor! Olha que descaro d'egoa! Ainda agora bebeu... Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe toque, homem!
Mas debalde o philosopho, com os cotovêlos sahidos, as pernas esticadas, lhe repuxava bridões e clinas. A cavalgadura abalou com o philosopho.
Corri tambem á fonte, para não abandonar n'aquelle ermo o precioso homem. Era um fio d'agua turva, escorrendo d'uma quelha, sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé branquejava, já partida, a grande carcassa d'um dromedario. Os ramos d'uma mimosa, alli solitaria, tinham sido queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha escarnada d'uma collina, um pastor, negro no céo opalino, ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança pousada ao hombro. E na sombria mudez de tudo a fonte chorava.
Aquella quebrada era tão deserta que me lembrou deixar alli a desfazer-se, como a ossada do dromedario, o embrulhinho da Mary... A egoa do Historiador beberava com pachorra. E eu procurava aqui, além, um barranco ou um charco--quando me pareceu que junto da fonte, e misturado ao pranto d'ella, corria tambem um pranto humano.
Torneei um penedo que avançava soberbamente como a prôa d'uma galera--e descobri, agachada e refugiada entre as pedras e os cardos, uma mulher que chorava, com uma criancinha no regaço: os seus cabellos crespos espalhavam-se pelos hombros e pelos braços, que os trapos negros mal cobriam: e sobre o filho, que dormia no calor do collo, o seu chôro corria, mais contínuo, mais triste que o da fonte, e como se não devesse findar jámais.
Gritei pelo jocundo Potte. Quando elle trotou para nós, agarrando a coronha prateada da sua pistola, suppliquei que perguntasse á mulher a causa d'essas longas lagrimas. Mas ella parecia entontecida pela miseria: fallou surdamente d'um casebre queimado, de cavalleiros turcos que tinham passado, do leite que lhe seccava... Depois apertou a criança contra a face--e suffocada, sob os cabellos esguedelhados, recomeçou a chorar.
O festivo Potte deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou, para a sua severa conferencia sobre a _Judêa Musulmana_, um apontamento d'aquelle infortunio. E eu, commovido, procurava na algibeira o meu cobre--quando me recordei que o dera n'um punhado ao negro do _Hotel do Mediterraneo_. Mas tive uma util inspiração. Atirei-lhe o perigoso embrulho da camisinha da Mary; e a meu pedido o risonho Potte explicou á desventurada que qualquer das peccadoras que habitam junto á torre de David, a gorda Fatmé ou Palmira a _Samaritana_, lhe daria duas piastras d'ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilisação.
Trotámos para a estrada. Atraz de nós a mulher lançava-nos, por entre soluços e beijos ao filho, todas as bençãos do seu coração: e a nossa caravana retomou a marcha--emquanto o arrieiro adiante, escarranchado sobre as bagagens, cantava á estrella de Venus que se erguera esse canto da Syria, aspero, alongado e dolente, em que se falla d'amor, de Allah, d'uma batalha com lanças, e dos rosaes de Damasco...
* * * * *
Ao apearmos de manhã no _Hotel de Josaphat_, na vetusta Jaffa--prodigiosa foi a minha surpreza vendo, pensativamente sentado no pateo, com um bojudo turbante branco, o mofino Alpedrinha!... Fiz-lhe ranger os ossos n'um abraço voraz. E quando Topsius e o jocundo Potte partiram, debaixo do guardasol de paninho, a colher novas do paquete que nos devia levar á terra do Egypto--Alpedrinha contou-me a sua historia, escovando o meu albornoz.
Fôra por tristeza que deixára a «Alexandriasinha». O _Hotel das Pyramides_, as maletas carregadas, tinham já saturado a sua alma d'um tedio insondavel: e o nosso embarque no _Caimão_ para Jerusalem dera-lhe a saudade dos mares, das cidades cheias d'historia, das multidões desconhecidas... Um judeu de Keshan, que ia fundar uma estalagem em Bagdad com bilhar, alliciára-o para «marcador». E elle, mettendo n'um sacco as piastras juntas nas amarguras do Egypto, ia tentar essa aventura do Progresso junto ás aguas lentas do Euphrates, na terra de Babylonia. Mas, cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro Jerusalem, insensivelmente, levado talvez pelo Espirito como o Apostolo, para descansar com as mãos quietas a uma esquina da Via Dolorosa...
--E o cavalheiro recebeu alguns jornaes da nossa Lisboa? Gostava de saber como vai por lá a rapaziada...
Emquanto elle assim balbuciava, triste e com o turbante á banda, eu revia risonhamente a terra quente do Egypto, a rua clara das _Duas Irmãs_, a capellinha entre platanos, as papoilas do chapéo da Mary... E mais agudo me picava outra vez o desejo da minha loira luveira. Que dôce grito de paixão nos seus beiços gordinhos, quando uma tarde, queimado pelo sol da Syria e mais forte, eu surgisse diante do seu balcão espantando o gato branco! E a camisinha?... Bem! contaria que uma noite, junto d'uma fonte, m'a tinham roubado cavalleiros turcos com lanças.
--Dize lá, Alpedrinha! Tenl-a visto, a Maricoquinhas? Que tal está? hein? Rechonchudinha?
Elle baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivára duas rosas.
--Já não está... Foi para Thebas!
--Para Thebas? Onde ha umas ruinas?... Mas isso é no alto Egypto! Isso é em cascos de Nubia! Ora essa!... Que foi ella lá fazer?
--Alindar as vistas, murmurou Alpedrinha com desolação.
Alindar as vistas! Só comprehendi quando o patricio me contou que a ingrata rosa d'York, adorno d'Alexandria, fôra levada por um italiano de cabellos compridos, que ia a Thebas photographar as ruinas d'esses palacios onde viviam face a face Rameses, rei dos homens, e Amnon, rei dos Deuses... E Maricoquinhas ia amenisar «as vistas», apparecendo n'ellas, á sombra austera dos granitos sacerdotaes, com a graça moderna do seu guardasolinho fechado e do seu chapéo de papoilas...
--Que descarada! gritei eu, varado. Então com um italiano? E gostando d'elle? Ou só negocio?... Hein, gostando?
--Babadinha, balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o _Hotel de Josaphat_. Perante este _ai_, repassado de tormento e de paixão, relampejou-me n'alma uma suspeita abominavel.
--Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui ha perfidia, Alpedrinha!
Elle baixou a fronte tão contritamente que o turbante lasso rolou nos ladrilhos. E antes que elle o levantasse já eu lhe empolgára com sanha o braço molle.
--Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hein? Tambem petiscaste?
A minha face barbuda chammejava... Mas Alpedrinha era meridional, das nossas terras palreiras da vangloria e do vinho. O medo cedeu á vaidade,--e revirando para mim o bugalho branco do olho:
--Tambem petisquei!
Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de nojo. Tambem aquella--com aquelle! Oh, a Terra! a Terra! que é ella senão um montão de coisas pôdres, rolando pelos céos com basofias d'astro?
--E dize lá, Alpedrinha, dize lá, tambem te deu uma camisa?
--A mim um chambresinho...
Tambem a elle--roupa branca! Ri, acerbamente, com as mãos nas ilhargas.
--E ouve lá... Tambem te chamava «seu portuguezinho valente?»
--Como eu servia com turcos, chamava-me seu «moirosinho catita».
Ia rebolar-me no divan, rasgal-o com as unhas, rir sempre, n'um desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Potte appareceram alvoroçados.
--Então?...
Sim, chegára de Smyrna um paquete que levantava n'essa tarde ferro para o Egypto, e que era o nosso dilecto _Caimão_!
--Ainda bem! gritei, atirando patadas ao ladrilho. Ainda bem, que estava farto do Oriente!... Irra! que não apanhei aqui senão soalheiras, traições, sonhos medonhos e botas pelos quadris! Estava farto!
Assim eu bramava, sanhudo. Mas n'essa tarde, na praia, diante da barcaça negra que nos devia levar ao _Caimão_, entrou-me n'alma uma longa saudade da Palestina, e das nossas tendas erguidas sob o esplendor das estrellas, e da caravana marchando e cantando por entre as ruinas de nomes sonoros.
O labio tremeu-me, quando Potte commovido me estendeu a sua bolsa de tabaco d'Alepo:
--D. Raposo, é o ultimo cigarro que lhe dá o alegre Potte.
E a lagrima rolou por fim quando Alpedrinha, em silencio, me estendeu os braços magros.
Da barcaça, acocorado sobre os caixões das Reliquias, ainda o vi na praia, sacudindo para mim um lenço triste de quadrados--ao lado de Potte que nos atirava beijos, com as grossas botas mettidas n'agua. E já no _Caimão_, debruçado na amurada, ainda o avistei immovel sobre as pedras do molhe, segurando com as mãos, contra a brisa salgada, o seu vasto turbante branco.
Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade, comprehendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro Lusiada, da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes que iam nas armadas á India! A mesma sêde divina do desconhecido te levára, como elles, para essa terra de Oriente, d'onde sobem ao céo os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei. Sómente não tendo já, como os velhos Lusiadas, crenças heroicas concebendo empresas heroicas, tu não vaes como elles, com um grande rosario e com uma grande espada, impôr ás gentes estranhas o teu rei e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata, Alpedrinha! nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas occupações unicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusiadas--descansar encostado ás esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios...
As rodas do _Caimão_ bateram a agua. Topsius ergueu o seu boné de sêda--e gravemente gritou para o lado de Jaffa, que escurecia na pallidez da tarde, sobre os seus tristes rochedos, entre os seus pomares verde-negros:
--Adeus, adeus para sempre, terra da Palestina!
Eu acenei tambem com o capacete:
--Adeusinho, adeusinho, coisas de Religião!
Afastava-me devagar da amurada quando roçou por mim a longa capa de lustrina d'uma Religiosa; e d'entre a sombra pudica do capuz, que se voltou de leve, um fulgor de olhos negros procurou as minhas barbas potentes. Oh maravilha! Era a mesma santa irmã que levára nos seus castos joelhos, através d'estas aguas da Escriptura, a camisa immunda da Mary!
Era a mesma! Porque collocava novamente o destino junto a mim, no estreito tombadilho do _Caimão_, este lirio de capella ainda fechado e já murcho? Quem sabe! Talvez para que ao calor do meu desejo elle reverdecesse, désse flôr, e não ficasse para sempre esteril e inutil, tombado aos pés do cadaver de um Deus!... E não vinha agora guardada pela outra Religiosa, rechonchuda e de luneta! A sorte abandonava-m'a indefesa, como a pombinha no êrmo.
Rompeu-me então n'alma a fulgurante esperança d'um amor de monja mais forte que o medo de Deus, d'um seio magoado pela estamenha de penitencia cahindo, todo a tremer e vencido, entre os meus braços valentes!... Decidi segredar-lhe logo alli: «Oh minha irmãsinha, estou todo lamecha por si!» E inflammado, torcendo os bigodes, caminhei para a dôce Religiosa, que se refugiára n'um banco, passando os dedos pallidos pelas contas do seu rosario...
Mas, bruscamente, o taboado do _Caimão_ fugiu sob meus pés ovantes. Estaquei, enfiado. Oh miseria! humilhação! Era a vaga enjoadora... Corri á borda; sujei immundamente o azul do mar de Tyro; depois rolei para o beliche--e só ergui do travesseiro a face mortal quando senti as correntes do _Caimão_ mergulharem nas calmas aguas onde outr'ora, fugindo d'Accio, cahiram á pressa as ancoras douradas das galeras de Cleopatra!
E outra vez, estremunhado e esguedelhado, te avistei, terra baixa do Egypto, quente e da côr d'um leão! Em torno aos finos minaretes voavam as pombas serenas. O languido palacio dormia á beira da agua entre palmeiras. Topsius sobraçava a minha chapeleira, serrazinando coisas doutissimas sobre o antigo Pharol. E a pallida Religiosa já deixára o _Caimão_, pomba do êrmo escapada ao milhafre--porque o milhafre no seu vôo fechára a aza, sordidamente enjoado!
N'essa mesma tarde, no _Hotel das Pyramides_, soube com jubilo que um vapor de gado, _El Cid Campeador_, partia de madrugada para as terras bemditas de Portugal! Na caleche de riscadinho, só com o douto Topsius, dei o derradeiro passeio nas sombras olorosas do Mamoudieh. E passei a curta noite n'uma rua deleitosa. Oh meus concidadãos, ide lá, se appeteceis conhecer os deleites asperos do Oriente... Os bicos de gaz sem globo assobiam largamente, torcidos ao vento: as casas baixas, de pau, são apenas fechadas por uma cortina branca, atravessada de claridade: tudo cheira a sandalo e alho: e mulheres sentadas sobre esteiras, em camisa, com flôres nas tranças, murmuram suavemente:--_Eh môssiu_! _Eh milord_!... Recolhi tarde, exhausto. Ao passar na rua das _Duas Irmãs_ avistei sobre a porta d'uma loja cerrada a mão de pau, pintada de rôxo, que empolgára o meu coração. Atirei-lhe uma bengalada. Este foi o ultimo feito das minhas longas jornadas.
De manhã, o fiel e douto Topsius veio, de galochas, acompanhar-me ao barracão da alfandega. Enlacei-o longamente nos braços tremulos:
--Adeus, companheiro, adeus! Escreva... Campo de Sant'Anna, 47...
Elle murmurou, estreitado commigo:
--Aquelles trinta mil reis, lá mandarei...
Apertei-o generosamente, para abafar essa explicação de pecunia. Depois, já com a bota na prôa do bote que me ia levar ao _Cid Campeador_:
--Então, posso dizer á titi que a corôasinha d'espinhos é a mesma...
Elle ergueu as mãos, solemne como um pontifice do saber:
--Póde dizer-lhe em meu nome que foi a _mesmissima_, espinho por espinho...
Baixou o bico de cegonha ornado d'oculos--e beijámo-nos na face como dois irmãos.
Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os joelhos, o caixote da suprema Reliquia. Mas quando o meu bote, á vela, fendia a agua azul--passou rente d'outro bote lento, levado a remos para o lado do palacio que dormia entre palmeiras. E n'um relance vi o habito negro, o capuz descido... Um largo, sequioso olhar, pela vez derradeira, procurou as minhas barbas. De pé, ainda gritei: «Oh filhinha, oh magana!» Mas já o vento me levára. Ella, no seu bote, sumia a face contrita--e sobre o delicado peito que ousára arfar decerto a cruz pesou mais forte, ciumenta e de ferro!
Fiquei môno... Quem sabe? Era aquelle talvez em toda a vasta terra o unico coração em que o meu poderia repousar, como n'um asylo seguro... Mas quê! Ella era só monja, eu só sobrinho. Ella ia para o seu Deus, eu ia para a minha tia. E quando n'estas aguas os nossos peitos se cruzavam, e sentindo a sua concordancia batiam mudamente um para o outro--o meu barco corria com vela alegre para Occidente, e o barco que a levava, lento e negro, ia a remos para Oriente... Desencontro contínuo das almas congeneres--n'este mundo de eterno esforço e de eterna imperfeição!
V
Duas semanas depois, rolando na tipoia do _Pingalho_ pelo campo de Sant'Anna, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o estribo, avistei entre as arvores sem folhas o portão negro da casa da titi! E, dentro d'esse duro calhambeque, eu resplandecia mais que um gordo Cesar, coroado de folhagens d'ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses.
Era decerto em mim o deleite de revêr, sob aquelle céo de janeiro tão azul e tão fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas côr de caliça suja, e aqui e além as taboinhas verdes descidas nas janellas como palpebras pesadas de langor e de somno. Mas era sobretudo a certeza da gloriosa mudança que se fizera na minha fortuna domestica e na minha influencia social.
Até ahi, que fôra eu em casa da snr.^a D. Patrocinio? O menino Theodorico que, apesar da sua carta de Doutor e das suas barbas de Raposão, não podia mandar sellar a egoa para ir espontar o cabello á Baixa, sem implorar licença á titi... E agora? O nosso dr. Theodorico, que ganhára no contacto santo com os lugares do Evangelho uma auctoridade quasi pontifical! Que fôra eu até ahi, no Chiado, entre os meus concidadãos? O Raposito, que tinha um cavallo. E agora? O grande Raposo, que peregrinára poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand, e que pelas remotas estalagens em que pousára, pelas roliças Circassianas que beijocára, podia parolar com superioridade na Sociedade de Geographia ou em casa da Benta _Bexigosa_...
O _Pingalho_ estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da Reliquia estreitado ao coração... E, ao fundo do pateo triste, lageado de pedrinha, vi a snr.^a D. Patrocinio das Neves, vestida de sêdas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no carão livido, sob os oculos defumados, as dentuças risonhas para mim!
--Oh, titi!
--Oh, menino!
Larguei o caixote santo, cahi no seu peito sêcco; e o cheirinho que vinha d'ella a rapé, a capella e a formiga, era como a alma esparsa das coisas domesticas que me envolvia, para me fazer reentrar na piedosa rotina do lar.
--Ai filho, que queimadinho que vens!...
--Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor...
--Da-m'as todas, dá-m'as todas!...
E retendo-me, cingido á dura táboa do seu peito, roçou os beiços frios pelas minhas barbas--tão respeitosamente como se fossem as barbas de pau da imagem de S. Theodorico.
Ao lado, a Vicencia limpava o olho com a ponta do avental novo. O _Pingalho_ descarregára a minha mala de couro. Então, erguendo o precioso caixote de pinho de Flandres benzido, murmurei, com uma modestia cheia de unção:
--Aqui está ella, titi, aqui está ella! Aqui a tem, ahi lh'a dou, a sua divina Reliquia, que pertenceu ao Senhor!
As emaciadas, lividas mãos da hedionda senhora tremeram ao tocar aquellas táboas que continham o principio miraculoso da sua saude e o amparo das suas afflicções. Muda, têsa, estreitando sôfregamente o caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou a sala de Nossa Senhora das Sete-Dôres, enfiou para o oratorio. Eu atraz, magnifico, de capacete, ia rosnando: «ora vivam! ora vivam!»--á cozinheira, á desdentada Eusebia, que se curvavam no corredor como á passagem do Santissimo.
Depois, no oratorio, diante do altar juncado de camelias brancas, fui perfeito. Não ajoelhei, não me persignei: de longe, com dois dedos, fiz ao Jesus d'ouro, pregado na sua cruz, um aceno familiar--e atirei-lhe um olhar, muito risonho e muito fino, como a um velho amigo com quem se têm velhos segredos. A titi surprehendeu esta intimidade com o Senhor:--e quando se rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de velludo verde) foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho que levantou as mãos adorabundas.
Findos os Padre-nossos de graças pelo meu regresso, ella, ainda prostrada, lembrou com humildade:
--Filho, seria bom que eu soubesse que reliquia é, para as velas, para o respeito...
Acudi, sacudindo os joelhos:
--Logo se verá. Á noite é que se desencaixotam as reliquias... Foi o que me recommendou o patriarcha de Jerusalem... Em todo o caso accenda a titi mais quatro luzes, que até a madeirinha é santa!
Accendeu-as, submissa: collocou, com beato cuidado, o caixote sobre o altar: depôz-lhe um beijo chilreado e longo: estendeu-lhe por cima uma esplendida toalha de rendas... Eu então, episcopalmente, tracei sobre a toalha com dois dedos uma benção em cruz.
Ella esperava, com os oculos negros postos em mim, embaciados de ternura:
--E agora, filho, agora?
--Agora o jantarinho, titi, que tenho a tripa a tinir...
A snr.^a D. Patrocinio logo, apanhando as saias, correu a apressar a Vicencia. Eu fui desafivelar a maleta para o meu quarto--que a titi esteirára de novo: as cortinas de cassa tufavam, têsas de gomma; um ramo de violetas perfumava a commoda.