Part 16
Topsius pediu ao velho a sua historia. Elle contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo d'Hercules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heroes; e só havia festas e offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a Tiberiade: os homens ahi não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o pão duro tocára a cythara grega nos funeraes dos barbaros. Agora errava alli, n'essa cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua patria, sentir o fino murmurio das aguas do Meandro, poder palpar os marmores santos do templo de Phebo Dydimeo--onde elle em criança levára n'um cesto e cantando os primeiros anneis dos seus cabellos...
As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruinas. E a minha piedade foi grande por aquelle Rapsodo das ilhas da Grecia, perdido tambem na dura cidade dos judeus, envolto pela influencia sinistra d'um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Elle desceu a collina, apoiado ao hombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e muda e mal segura do cinto a lyra heroica de cinco cordas.
No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fômos encontrar a gente do Templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo d'ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o Centurião a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se applicasse aos crucificados, se ainda viviam, o _crurifragio_ romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indifferença do Centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria elle macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.
--O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima d'uma pedra um levita, aterrado.
--Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos languidos, movendo os braços cheios de manilhas d'ouro:
--Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!
O Centurião, que espreitava o alto da torre Marianna onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro--acenou devagar com a espada. Dois Legionarios, lançando pesadamente ao hombro as barras de ferro, marcharam com elle para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centurião parou, erguendo a mão...
O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade d'um adormecimento: os pés empoeirados, que ha pouco a dôr torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão como se o fossem em breve pisar: e a face não se via, tombada para traz mollemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céo onde elle puzera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei tambem o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...
--Quem reclamou o corpo d'este homem? gritou, procurando para os lados, o Centurião.
--Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto d'elle depoz logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruinas do casebre onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.
E por traz de nós, Phariseus e Sadduceus que se tinham juntado estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin, assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em torno as flautas e os prantos d'um funeral... Um d'elles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias d'oleo, affirmava que sempre conhecera José de Ramatha inclinado para todos os innovadores, todos os sediciosos... Mais d'uma vez o vira fallar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros... E com elles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que estão d'ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica...
Outro, rubicundo e molle, gemeu:
--Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para todos!...
--Raça de Messias! bradou o mais moço com furor, atirando o bastão contra as urzes. Raça de Messias, perdição d'Israel!
Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras sagradas:
--Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor... No Templo e no Conselho não faltarão jámais homens fortes que mantenham a velha Ordem; e em cima dos calvarios, felizmente, hão de sempre erguer-se as cruzes!...
E todos susurraram:
--Amen!
No emtanto o Centurião, com os soldados atraz levando ao hombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados, vivos e cheios d'agonia pediam agua--um pendido e gemendo, outro torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: «É tempo, vamos.»
Com os olhos alagados d'agua amarga, tropeçando nas pedras, desci ao lado do fecundo critico a collina de Immolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma pensando n'essas cruzes vindouras, annunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura miseria! Sim! d'ora ávante, por todos os seculos a vir, iria sempre recomeçando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto ás escadas das forcas--este affrontoso escandalo de se juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e Mercadores para matarem ferozmente no alto d'um morro o justo que penetrado do esplendor de Deus ensine a Adoração em Espirito, ou cheio do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!
Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem--emquanto as aves, mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb...
* * * * *
Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de Gamaliel: no pateo, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amavel physico Eliezer de Silo.
Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os pés nús, as largas mangas arregaçadas e pregadas no hombro--e ao lado um bordão de viagem, uma cabaça d'agua e uma trouxa, emblemas rituaes da sahida do Egypto. Defronte d'elle, n'uma mesa incrustada de madreperola, entre vasos de barro com flôres pintadas, açafates de filigrana de prata transbordando de fruta e pedaços scintillantes de gelo, erguia-se um candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pallida chamma azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as mãos cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno «Doutor da Tripa», sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto d'elle dois escabellos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e pelo sagaz Historiador.
--Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes são as maravilhas de Sião, deveis vir esfomeados...
Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.
A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um bôlo de farinha branco, fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um montão de cigarras fritas; no chão jarros com agua de rosa. Cumprimos as abluções: e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um pedaço de gêlo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o môlho d'açafrão e saumura.
Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades...
Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:
--Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...
--No centro da Terra!... murmurou o Historiador, com douto espanto.
Sim! E, ensopando um pedaço de bôlo no môlho d'açafrão, o profundo Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um coração cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céo, sonoro e solido.
--Solido!... balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.
Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarella da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabôr, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construcção do céo.
Elle é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de crystal; por cima d'ellas constantemente rolam as grandes aguas; sobre as aguas fluctua n'um fulgôr o espirito de Jehovah... Estas laminas de crystal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica dôce e lenta que os prophetas mais queridos por vezes ouviam... Elle mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altissimo essa harmonia, tão penetrante e suave que as lagrimas uma a uma lhe cahiam nas mãos abertas... Ora nos mezes de Kisleu e de Tebeth os furos das laminas coincidem, e por elles cahem sobre a Terra as gotas das aguas eternas que fazem crescer as searas!
--A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.
--A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus oculos d'ouro que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava sobre a face, emmagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetravel. Então o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do esclarecido Physico por que tinham os crystaes do céo essa côr azul que enleva a alma...
Eliezer de Silo elucidou-o:
--Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a occidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverberação banha o crystal do céo e anila-o.
É talvez n'essa montanha que vivem as almas dos justos!...
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: «Bebamos, louvando o Senhor!».
Ergueu uma taça cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ella uma benção--passou-m'a, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: «Á sua, muitos e felizes!» E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu--«á prosperidade d'Israel, á sua força, ao seu saber!»
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tunica amarella, que fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida paschal--as hervas amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicorea, macella, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solemnemente, como cumprindo um rito. Ellas representavam as amarguras de Israel no captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes amollecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquencia, lhe enervam o heroismo: e com torrencial erudição citou logo Theophrasto, Eubulo, Nicandro na segunda parte do seu _Diccionario_, Phenias no seu _Tratado das Plantas_, Dephilo e Epicharmo!...
Gamaliel, seccamente, condemnou a inanidade d'essa sciencia--porque Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua _Descripção da Asia_, encerra cincoenta e tres erros, quatorze blasphemias e cento e nove omissões... Assim dizia o leviano grego que a tamara, maravilhoso dom do Altissimo, enfraquece o intellecto!...
--Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece Xenophonte no livro segundo do _Anabasis_! E Xenophonte...
Gamaliel rejeitou a auctoridade de Xenophonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquencia de Xenophonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia por Socrates!... E emquanto eu partia um empadão de Commagenia, os dois facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel affirmava que as _vozes secretas_ ouvidas por Socrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmurios distantes que lhe chegavam da Judêa, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por Jehovah! Ora lérias!
No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentilicos iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que derramava Jerusalem:--porque a reverencia pelos Deuses apparecia em Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amavel e cheia de serenidade; em Euripides, superficial e cheia de duvida... E cada um dos Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!
--Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que possues a verdade, para que dás accesso no teu espirito aos pagãos?
Gamaliel respondeu:
--Para os desprezar melhor dentro em mim!
Farto de tão classica controversia, acheguei a Eliezer um covilhete de mel do Hebron--e contei-lhe quanto me agradára o caminho do Gareb entre jardins. Elle concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era dôce á vista como a fronte da noiva toucada d'anemonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios d'açougues, junto ao môrro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrancia de Siloeh...
--Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanhedrin...
Eliezer, com oriental cortezia, bateu no peito demonstrando mágua. E quiz saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhára commigo o pão de alliança, esse Jesus que eu fôra assistir na sua morte d'escravo.
Eu considerei-o, assombrado:
--É o Messias!
E elle considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.
Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Physico do Sanhedrin, não conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa atulham Jerusalem (confessou elle) não fôra ao Xistus, nem á loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da apparição d'um Messias...
De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se _Manahem_ «o consolador», porque traria a consolação a Israel. E haveria dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o segundo, filho de David e cheio de força, venceria Magog. Antes d'elle nascer começariam sete annos de maravilhas: haveria mares evaporados, estrellas despregadas do céo, fomes e taes farturas que até as rochas dariam fructo: no ultimo anno correria sangue entre as nações: emfim resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!...
Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca d'um figo. Depois com um suspiro:
--Ora ainda nenhuma d'essas maravilhas, meu filho, annunciou a consolação!...
E atolou os dentes no figo.
Então fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas dôces e as coisas fortes: as tres claras estrellas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as aguas de Galilêa; o coração dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...
--Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!
Doutor Eliezer, volvendo a remexer o açafate de figos, murmurou pensativamente:
--Triste, triste!... Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lançado tres sentenças de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com prophetas!... Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos de Bephtagé não valem os meus de Silo!
Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:
--Socrates é a semente; Platão a flôr; Aristoteles o fructo... E d'esta arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!
Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com effusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:
--Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!
Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio d'Ophel... O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia--d'onde sahiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.
Que dôce ar no terraço! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas illuminações rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em oleo lançavam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um collar de joias no pescoço d'uma negra. O ar estava dôcemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoaçar, claras e curtas, as tunicas de gregos dançando a _callabida_. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.
Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite paschal. Havia luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.
Só uma collina, além do Gareb, permanecera em treva. N'essa hora, por baixo d'ella, n'uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres com um ruido secco de ferros entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso envolucro d'um espirito perfeito, jazia resguardado n'um tumulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canella e de nardo. Assim o tinham deixado n'essa noite, a mais santa d'Israel, aquelles que o amavam--e que desde então para todo o sempre mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos--alguma havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consolação. Ahi o lar esfriára, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha não havia agua, porque ninguem fôra á fonte; e sentadas na esteira, com os cabellos cahidos, aquellas que o tinham seguido de Galilêa fallavam d'elle, das primeiras esperanças, das parabolas contadas por entre os trigaes, dos tempos suaves á beira do lago...
Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalem--quando no terraço surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canella e de nardo. Pareceu-me que d'ella irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lages--e o meu coração tremeu! Mas d'entre os pallidos panos uma benção sahiu, grave e familiar:
--Que a paz seja comvosco!
Ah! que allivio! Era Gad.
--Que a paz seja comtigo!
O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, immovel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:
--A lua vai nascer... Todas as coisas esperadas se estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardal-o até ao oasis d'Engaddi?
Ergui-me, atirando os braços ao ar, n'um terror!... Acompanhar o Rabbi! Elle não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, n'uma horta do Qareb?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e á sua auctoridade...
O meu douto amigo parecia enleado n'uma pesada incerteza:
--Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além d'isso não temos armas!
--Vinde commigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa d'alguem que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!...
Ainda trémulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei balbuciar:
--E Jesus?... Onde está?
--Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda como o avaro que falla d'um thesouro. Para que nada suspeitasse a gente do Templo, mesmo na presença d'elles depositámos o Rabbi no tumulo novo que está no horto de José. Tres vezes as mulheres choraram sobre a pedra que segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o tumulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns serventes do Templo olharam, e disseram: «Está bem.» Cada um recolheu á sua morada... Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salomão fazel-o reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o soffrimento... Vinde pois, vós que o amaes tambem e crêdes n'elle!...
Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa: e descemos, n'um cauto silencio, pela escada que do terraço levava um caminho de pedra miuda collado á muralha nova d'Herodes.
Longo tempo marchámos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do Essenio. D'entre casebres em ruinas, por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma arvore, triste e molle como se sahisse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas d'alho que fôssemos dormir ao seu leito que ella perfumára de nardo.
Parámos finalmente diante d'um muro, a que uma esteira grossa d'esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava agua levou-nos a um pateo rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o chão molle como lodo abafava o rumor das nossas solas.
Gad, tres vezes espaçadas, soltou o grito dos chacaes. Nós esperavamos no meio do pateo, á borda d'um poço, coberto com tábuas: o céo, por cima, guardava a escuridão dura e impenetravel d'um bronze. A um canto, emfim, sob a varanda, um clarão vivo de lampada surgiu--alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lançára sobre a cabeça a ponta d'um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sôpro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.
Gad cortou a desolada mudez:
--Que a paz seja comtigo, irmão! Estamos promptos.
O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do poço, e disse:
--Tudo está consummado.
Gad, estremecendo, gritou:
--O Rabbi?