A Relíquia

Part 14

Chapter 14 3,828 words Public domain Markdown

E soluçando sumiu-se entre a turba--que agora de todo o atrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.

Um silencio cahiu, tão attento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um sêllo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor... Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nú, confirmou em nome de Cesar a «sentença do Sanhedrin, que julga em Jerusalem...»

Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a acclamação forense dos romanos: «_Bene et belle_! _Non potest melius_!»

Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera, surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os braços cercados de manilhas de coral:

--Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso... O Pretor propõe-vos o perdão d'este... Escutai ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados... O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes, outro sentenciado á morte...

Hesitou,--e debruçado do escabello interrogava de novo o escriba que remexia n'uma atarantação os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua oração, ficára assombrado para o Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha:

--Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que ahi tendes, e que se disse filho de David... É esse que propõe o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionario traiçoeiramente, n'uma rixa, ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás... Escolhei!

Um grito brusco e roufenho partiu d'entre os Phariseus:

--Bar-Abbás!

Aqui e além, pelo atrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um escravo do Templo, de saião amarello, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas côxas:

--Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!

A haste d'um legionario fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multidão, mais leve e facil d'inflammar do que a palha na meda, clamava por Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandalias e os cajados ferrados como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhões do Templo, rancorosos, sacudindo as balanças de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldições ao Rabbi: «Bar-Abbás é o melhor!» E até as prostitutas de Tiberiade, pintadas de vermelhão como idolos, feriam o ar de gritos silvantes:

--Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Raros alli conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, não odiavam o Rabbi--mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, n'essa reclamação do preso que atacára Legionarios, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto, indifferente, traçava letras n'uma vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadencia, como malhos n'uma eira:

--Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Então Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquelle mundo duro e revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no fugitivo tremor dos seus labios, só transpareceu n'esse instante uma mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens... Com os pulsos presos, limpou uma gotta de suor: depois ficou diante do Pretor, tão imperturbado e quêdo, como se já não pertencesse á terra.

O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, tres vezes bradára o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se: e grave, sem trahir impaciencia ou cólera, lançou, sacudindo a mão, o mandado final:

--Ide e crucificai-o!

Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.

Oito soldados da cohorte Syriaca appareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da _posca_. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de Jesus, entregou-o ao decurião: um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de lã: e eu vi o dôce Rabbi de Galilêa dar o seu primeiro passo para a morte.

Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palacio de Herodes por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas gradeadas d'onde vinha um canto triste de escravos encarcerados... Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro d'um jardim todo plantado de cyprestes. Dois dromedarios deitados no pó ruminavam, junto d'um montão d'hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo, quando, sob as ruinas d'um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno d'um Essenio, cujas mangas d'alvo linho batiam o ar como as azas d'um passaro irritado.

Era Gad, rouco d'indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

--Não fui eu, não fui eu...

--Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandalia na terra. Conheço-te bem. Tua mãi é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!...

O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado á força:

--Não fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos me conheceram são e forte como a palmeira nova!

--Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho d'um cão! gritou Gad. Vi-te bem... Foi em Capárnaum, na viella onde está a fonte, ao pé da Synagoga, que tu appareceste a Jesus, Rabbi de Nazareth! Beijavas-lhe as sandalias, dizias «Rabbi, cura-me! Rabbi, vê esta mão que não póde trabalhar!» E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, secca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no Sabbath: estavam os tres chefes da Synagoga, e Elzear, e Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se elle ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabbi repelliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho d'um cão! O Rabbi, indifferente ás accusações da Synagoga, e só escutando a sua misericordia, disse-te: «estende a mão!» Tocou-a, e ella reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmurio d'enlevo correu entre a multidão, maravilhada pelo dôce milagre. E o Essenio exclamava, com os braços tremulos no ar:

--Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te elle a ponta do manto, como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um siclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e agil, gritando para o lado da tua casa: «Oh mãi, oh mãi, estou curado!...» E foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! Não negues, bocca immunda; eu ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do pescoço com o furor da tua ingratidão!

Alguns, escandalisados, gritavam: «maldito! maldito!» Um velho, com justiceira gravidade, apanhára duas grossas pedras. E o homem de Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

--Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramah!

Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:

--N'esse braço, quando o arregaçaste diante do Rabbi, todos te viram duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!... E tu vaes mostral-as agora, cão e filho d'um cão!

Despedaçou-lhe a manga da tunica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lividas no pêllo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo--que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas...

Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Elle, acalmado, estendera as mãos a um vendedor d'agua, que lh'as purificava com um largo jorro do seu ôdre felpudo: depois limpando-as á toalha de linho que lhe pendia do cinto:

--Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor concedeu-lh'o... Esperai-me á nona hora romana no pateo de Gamaliel... Onde ides?

Topsius confessou que iamos ao Templo, por motivos intellectuaes d'arte, d'archeologia...

--Vão é aquelle que admira pedras! rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bençãos do povo que crê e ama os Essenios.

* * * * *

Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte do Xistus, tomámos duas liteiras--das que um liberto de Poncius ultimamente alugava, junto ao Pretorio, «á moda de Roma».

Cançado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas seccas que cheirava a murta: e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretorio me roçára de leve como a aza arripiada d'uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre n'esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de Raposo, de catholico, de bacharel, contemporaneo do _Times_ e do Gaz--para me tornar um homem da Antiguidade classica, coevo de Tiberio? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á minha patria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?...

Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da collina mais fresca uma edificação de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo pequeno de Apollo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado onde estão os legionarios; e em redor a villa lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim encontraria a minha patria. E que faria lá, pobre, solitario? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo, racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?... Miseria incomparavel!

Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria n'esta sombria, devota cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo preguiçar nos atrios do Templo, seguindo as lições d'um Rabbi, e passeando ás tardes, com um bastão dourado, nos jardins de Gareb entre os tumulos?... E esta existencia igualmente me parecia pavorosa!... Não! a ficar encarcerado no mundo antigo com o doutissimo Topsius, então deveriamos galopar n'essa mesma noite, ao erguer da lua, para Joppé; de lá embarcar em qualquer trirema phenicia que partisse para Italia; e ir habitar Roma, ainda que fosse n'uma das escuras viellas do Velabro, n'uma d'essas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados d'alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.

Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a abobada da porta de Huldah; e fômos logo detidos emquanto os guardas do Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de prégos com que elle queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao d'uma selva ou d'um grande mar irritado...

E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o braço magro do Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar molle, irradiado dos claros marmores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pateos que eu de manhã vira desertos, alvejando como a agua quieta d'um lago, desappareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromaticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam roucos mugidos de bois. E perennemente os fumos votivos se sumiam na refulgencia do céo...

--Caramba! murmurei, enfiado. Isto são magnificencias de entupir!

Fômos penetrando sob os Porticos de Salomão, onde resoava o profano tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades, desde as macissas rodellas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como «notas» nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia d'um pomar: as romãs, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortelões com um ramo d'amendoeira preso ao carapuço apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sêde.

Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubiça, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que vôa na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas flôres côr de sangue... Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.

Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apreçando um esplendido bastão de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de violetas seccas e de folhas de baccaris...

Entrámos então na galeria chamada _Real_, toda votada á Doutrina e á Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia, sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no chão, com as sandalias ao pescoço, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames balançando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. «Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal começa a Resurreição?» O philosophico Topsius ria, disfarçado n'uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam _racca_! _racca_! mergulhando a mão no seio da tunica á procura d'um ferro escondido.

A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade--uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do peccado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, d'olhos fechados, para não vêr as fórmas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estomago--em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um carão livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre saccos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar--quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crianças riam.

Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com paixão: e, para nos acercarmos do «atrio d'Israel», fomos penosamente fendendo a multidão que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara... O rude saião de pelles dos pegureiros das Idumêas roçava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores. Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lagôas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões dôces da Syria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos marmores. E não era menos estranho ir eu, Theodorico Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.

Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada «A Bella», que dava accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia, mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um collar de gloria sobre o pescoço forte d'um heroe! Mas diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: _que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer_!

Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pateo, descalço, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle vinha um homem nedio e risonho, de face côr de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de palpebras cerradas:

--Sêde bemvindos... Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: «sahi das vossas habitações, vinde a mim com as primicias dos vossos fructos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos...» Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e sabio entre todos nas coisas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho: e atraz d'elle pisámos com as nossas solas gentilicas o Adro interdicto de Judá.

Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se era remota a minha patria e perigosos os seus caminhos...

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

--Sim... Chegamos de Jerichó.

--Boa, por lá, a colheita do balsamo?

--Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que n'este seu anno de graça estamos lá abarrotadinhos de balsamo!

Elle pareceu regosijado. E revelou-me então que era um dos Medicos que residem no Templo--onde os Sacerdotes e os Sacrificadores soffrem perennemente «dissabores intestinaes», por pisarem suados e descalços as lages frias dos Adros.

--Por isso, murmurou elle com uma faisca alegre no olho benigno, o povo em Sião nos chama _Doutores da Tripa_!

Torci-me de riso, de gozo, com aquella jocosidade assim susurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinaes em Jerichó, por muito amar os divinos e perfidos melões da Syria--perguntei ao amavel Physico se n'essas occorrencias elle preconisava o bismutho...

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparavel:

--Tomai gomma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus... Misturai, cozei... Deixai esfriar n'um vaso de prata... Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol...

Mas emmudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado «Pateo das Mulheres»: e n'esse instante terminavam as Bençãos que á sexta hora um sacerdote vem alli derramar do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze--ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco--uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...

A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a cabeça escondida sob os mantos e sob os véos: e com as côres festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flôres e folhagens, n'uma manhã de triumpho, para passar Salomão!

Com a barba aguda e dura levantada aos céos--o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol--e com o fumo branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a benção do Muito-Forte. Então os levitas, unisonamente, feriram as cordas das lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os braços ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.