A Relíquia

Part 13

Chapter 13 3,968 words Public domain Markdown

E logo, como lenha preparada que uma faisca inflamma, o furor dos Phariseus e dos serventes do Templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

--Crucificai-o! crucificai-o!

Pomposamente o interprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lançados na lingua syriaca que falla o povo em Judêa... Poncius bateu o borzeguim sobre o marmore. Os dois lictores ergueram ao ar as varas rematadas n'uma figura d'aguia: o escriba gritou o nome de Caio Tiberio: e logo os braços frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da magestade do Povo Romano.

De novo Poncius fallou, lento e vago:

--Dizes então que és rei... E que vens tu fazer aqui?

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandalia pousou fortemente sobre as lages como se tomasse posse suprema da terra. E o que sahiu dos seus labios tremulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros sahiu.

--Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quizer pertencer á verdade tem de escutar a minha voz!

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois encolhendo os hombros:

--Mas, homem, o que é a verdade?

Jesus de Nazareth emmudeceu--e no Pretorio espalhou-se um silencio como se todos os corações tivessem parado, cheios subitamente de incerteza...

Então, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze;--e precedido dos lictores, seguido do Assessor, penetrou no Palacio, por entre, o rumor d'armas dos legionarios que o saudavam batendo o ferro das lanças sobre o bronze dos escudos.

Immediatamente elevou-se por todo o pateo um aspero e ardente susurro como de abelhas irritadas. Sarêas perorava, brandindo o baculo, entre os Phariseus que apertavam as mãos n'um terror. Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande velho, com um manto negro que esvoaçava, corria n'uma ancia o Pretorio, por entre os que dormiam, ao sol, por entre os vendedores de pães azymos, gritando: «Israel está perdido!» E eu vi Levitas fanaticos arrancarem as borlas das tunicas, como n'uma calamidade publica.

Gad surgiu diante de nós, erguendo os braços triumphantes:

--O Pretor é justo e liberta o Rabbi!...

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a doçura da sua esperança! O Rabbi, apenas solto, deixaria Jerusalem--onde as pedras eram menos duras que os corações. Os seus amigos armados esperavam-no em Bethania: e partiriam ao romper da lua para o oasis d'Engaddi! Lá estavam aquelles que o amavam. Não era Jesus o irmão dos Essenios? Como elles o Rabbi prégava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que são pobres, a incomparavel belleza do reino de Deus...

Eu, credulo, regosijava-me--quando um tumulto invadiu a galeria que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos Phariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabbi Robam conversava com Manassés, enrolando dôcemente nos dedos os cabellos da criança, mais louros que os minhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sarêas, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem intíma, dizia:

--Rabbi Robam, é necessário que vás fallar ao Pretor e salvar a nossa lei!

E logo, de todos os lados, foi um supplicar ancioso:

--Rabbi, falla ao Pretor! Rabbi, salva Israel!

Lentamente o velho erguia-se, magestoso como um grande Moysés. E diante d'elle um Levita, muito pallido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

--Rabbi, tu és justo, sabio, perfeito e forte diante do Senhor!

Rabbi Robam levantou as duas mãos abertas para o céo: e todos se curvaram como se o espirito de Jehovah, obedecendo á muda invocação, tivesse descido para encher aquelle coração justo. Depois, com a mão da criança na sua, poz-se a caminhar em silencio; atraz a turba fazia um rumor de sandalias lassas sobre as lages de marmore.

Parámos, amontoados, diante da porta de cedro--onde o pretoriano cruzára a lança, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do Palacio acudiu tendo na mão um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se pallidamente uma estatua de Augusto, com o pedestal juncado de corôas de louro e de ramos votivos: dois grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

Nenhum dos judeus entrou--porque pisar em dia paschal um sólo pagão era coisa impura diante do Senhor. Sarêas annunciou altivamente ao Tribuno que «alguns da nação d'Israel, á porta do Palacio de seus paes, estavam esperando o Pretor.» Depois pesou um silencio, cheio d'anciedade...

Mas dois lictores avançaram: e logo atraz, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos appareceu.

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judêa. Elle parára junto á estatua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de marmore, estendeu a mão que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

--Que a paz seja comvosco e com as vossas palavras... Fallai!

Sarêas, vogal do Sanhedrin, adiantando-se, declarou que os seus corações vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo o Pretor deixado o Pretorio sem confirmar nem annullar a sentença do Sanhedrin que condemnava Jesus-ben-José--elles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem seccar e sem amadurecer!

Poncius pareceu-me penetrado d'equidade e clemencia.

--Eu interroguei o vosso preso, disse elle; e não lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judêa... Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratíca a vossa Lei e ora no vosso Templo, interrogou-o tambem e nenhuma culpa n'elle encontrou... Esse homem diz apenas coisas incoherentes como os que fallam em sonhos... Mas as suas mãos estão puras de sangue; nem ouvi que elle escalasse o muro do seu visinho... Cesar não é um amo inexoravel... Esse homem é apenas um visionario.

Então, com um sombrio murmurio, todos recuaram, deixando Rabbi Robam só no limiar da sala romana. Um brilho de joia tremia na ponta da sua tiára: as suas cans cahindo sobre os vastos hombros coroavam-no de magestade como a neve faz aos montes: as franjas azues do seu manto solto rojavam nas lages, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a Lei aos seus discipulos, ergueu a mão e disse:

--Official de Cesar, Poncius, muito justo e muito sabio! O homem que tu chamas visionario, ha annos que offende todas as nossas leis e blasphema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando t'o trouxemos nós? Sómente quando o vimos entrar em triumpho pela Porta d'Ouro, acclamado como rei da Judêa. Porque a Judêa não tem outro rei senão Tiberio: e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra Cesar, apressamo-nos a castigal-o. Assim fazemos nós, que não temos mandado de Cesar, nem cobramos do seu erario: e tu, official de Cesar, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?...

A face larga de Poncius, que uma somnolencia amollecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquella tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zêlo ruidoso por Cesar para poderem, em nome da sua auctoridade, saciar um odio sacerdotal--revoltou a rectidão do Romano: e a audaciosa admoestação foi intoleravel ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

--Cessai! Os procuradores de Cesar não vêm aprender a uma colonia barbara da Asia os seus deveres para com Cesar!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabbi proseguiu, mais indifferente á ira de Poncius do que ao balar d'um anho que arrastasse ás aras:

--Que faria o procurador de Cesar em Alexandria se um visionario descesse de Bubastes proclamando-se rei do Egypto? O que tu não queres fazer n'esta terra barbara da Asia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem n'ella e que a vindimem? Para que estás então na Judêa, para que está a sexta legião na torre Antonia? Mas o nosso espirito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Poncius, para que Cesar a ouça!...

Poncius deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados n'aquelles judeus que astutamente o iam enlaçando na trama subtil dos seus rancores religiosos:

--Eu não receio as vossas intrigas! murmurou surdamente. Elius Lamma é meu amigo!... E Cesar conhece-me bem!

--Tu vês o que não está nos nossos corações! disse Rabbi Robam, calmo como se conversasse á sombra do seu vergel. Mas nós vemos bem o que está no teu, Poncius! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilêa?... Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como pódes querer salvar um propheta cujas prophecias não crês?... A tua malicia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!

Um estremecimento de cólera, de paixão devota, passou entre os Phariseus: alguns palpavam o seio da tunica como procurando uma arma. E Rabbi Robam continuava, denunciando o Pretor, com serenidade e lentidão:

--Tu queres deixar impune o homem que prégou a insurreição, declarando-se rei n'uma provincia de Cesar, para tentar, pela impunidade, outras ambições mais fortes e levar outro Judas de Gamala a atacar as guarnições de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judêa. Tu queres uma revolta para a afogares em sangue, e apresentar-te depois a Cesar como soldado victorioso, administrador sabio, digno d'um proconsulado ou d'um governo na Italia! É a isso que chamaes a fé romana? Eu não estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé punica... Não nos supponhas porém tão simples como um pastor d'Idumêa! Nós estamos em paz com Cesar, e cumprimos o nosso dever condemnando o homem que se revoltou contra Cesar... Tu não queres cumprir o teu, confirmando essa condemnação? Bem! Mandaremos emissarios a Roma, levando a nossa sentença e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante Cesar a nossa responsabilidade, mostraremos a Cesar como procede na Judêa aquelle que representa a lei do Imperio!... E agora, Pretor, pódes voltar ao Pretorio.

--E lembra-te dos Escudos Votivos, gritou Sarêas. Talvez novamente vejas a quem Cesar dá razão!

Poncius baixára a face, perturbado. Decerto imaginava já vêr além, n'um claro terraço junto ao mar de Capreia, Sejanus, Cesonius, todos os seus inimigos, fallando ao ouvido de Tiberio e mostrando-lhe os emissarios do Templo... Cesar, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto d'elle com esse «rei dos Judeus» para sublevarem uma rica provincia imperial... E assim a sua justiça e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judêa! Orgulho e justiça foram então na sua alma frouxa como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os braços, como trazido por um impulso magnanimo de conciliação--e começou a dizer, mais branco que a sua toga:

--Ha sete annos que governo a Judêa. Encontrastes-me jámais injusto, ou infiel ás promessas juradas?... Decerto as vossas ameaças não me movem... Cesar conhece-me bem... Mas entre nós, para proveito de Cesar, não deve haver desaccordo. Sempre vos fiz concessões! Mais que nenhum outro Procurador desde Coponius tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram os dois homens de Samaria polluir o vosso Templo, não os fiz eu suppliciar? Entre nós não deve haver dissenções, nem palavras amargas...

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as mãos, e sacudindo-as, como molhadas n'uma agua impura:

--Quereis a vida d'esse visionario? Que me importa? Tomai-a... Não vos basta a flagellação? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas não sou eu que derramo esse sangue!

O levita macilento bradou com paixão:

--Somos nós, e que esse sangue cáia sobre as nossas cabeças!

E alguns estremeceram--crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as coisas pensadas.

Poncius deixára a sala: o Decurião, saudando, cerrou a porta de cedro. Então Rabbi Robam voltou-se, sereno, resplandecente como um justo: e adiantando-se por entre os Phariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da tunica--murmurava com uma grave doçura:

--Antes soffra um só homem do que soffra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emoção me alagára a testa, cahi, tremulo, sobre um banco. E, através da minha lassidão, confusamente distinguia no Pretorio dois legionarios, de cinturão desapertado, bebendo n'uma grande malga de ferro que um negro ia enchendo com o ôdre suspenso aos hombros; adiante uma mulher bella e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dois peitos nús; mais longe um pegureiro envolto em pelles, rindo e mostrando o braço manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixára na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim roçou-me um somno ligeiro... Quando despertei a cadeira curul permanecia vazia--com a almofada de purpura em frente, sobre o marmore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multidão mais densa enchia, n'um longo rumor de arraial, o velho atrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas d'estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lages d'uma praça. Alguns traziam balanças na mão, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sordidas e macilentas, atiravam de longe com o braço fremente maldições ao Rabbi. Outros no emtanto, caminhando na ponta das sandalias, apregoavam baixo coisas infimas e ricas, mettidas no seio entre as dobras dos saiões--grãos d'aveia torrada, potes de unguentos, coraes, braceletes de filigrana de Sidon. Interroguei Topsius: e o meu douto amigo, limpando os oculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na vespera de Paschoa, erguendo um bastão, reclamára a estreita applicação da Lei que interdiz traficos profanos no Templo, fóra dos porticos de Salomão...

--Outra imprudencia do Rabbi, D. Raposo! murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como cahira a sexta hora judaica e findára o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias visinhas, ennodoados de escarlate ou azul; escribas das synagogas apertando debaixo dos braços os seus tabularios; jardineiros com a fouce a tiracollo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha... Tocadores phenicios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro: e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberiade, com perucas amarellas, mostrando a ponta da lingua e sacudindo a roda da tunica d'onde voava um cheiro de mangerona. Os legionarios, com as lanças atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus: e eu, agora, mal podia distinguir o Rabbi através d'essa multidão susurrante, em que as consoantes asperas de Moab e do deserto se chocavam por sobre a molleza grave da falla chaldaica...

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortelão que offerecia n'um cabaz d'esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Bephtagé. Debilitado pelas emoções, perguntei-lhe, debruçado no parapeito, o preço d'aquelle mimo dos vergeis que os Evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os braços como se encontrasse o esperado do seu coração:

--Entre mim e ti, ó creatura d'abundancia que vens d'além do mar, que são estes poucos figos? Jehovah manda que os irmãos troquem presentes e bençãos! Estes fructos colhi-os no horto, um a um, á hora em que o dia nasce no Hebron; são succulentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hannan!... Mas que valem vãs palavras entre mim e ti se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Syria, e que o Senhor cubra de bens aquella que te creou!

Eu sabia que esta offerta era uma cortezia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri tambem o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra... Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:

--Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se elle o manda, eu devo pôr um preço a estes fructos da sua bondade, mais dôces que os labios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom _traphik_.

Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha patria! Bradei-lhe:--«Irra, ladrão!» Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as mãos ao seio da tunica, para a despedaçar na immensidade da sua humilhação. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos--quando o sapiente Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella de ferro que tinha por cunho um lirio aberto:

--Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ôdre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este _meah_. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do Templo, e sei onde as aguas dôces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!

O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!

Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no regaço, reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus--quando elle, mergulhando a mão tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representações do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus... Depois ficou com os braços cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e descanso.

Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que vão descalços até ao Egypto, com fachos accesos, salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou, horrorisado--e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhára no Templo e nas construcções que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O açoite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois a doença levára-lhe a força como a geada sécca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes--e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu pão!...

--Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dôr d'esse Rabbi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?

--Então vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.

--Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol... Decerto, eu não tinha direito de pôr alli tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregôam á sombra, debaixo do portico, sobre taboleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu não podia com crianças em casa sem pão... Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio. Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:--«está bem, ficai, comtanto que não apregoeis alto.» Porque todos sabiam que eramos pobres, não podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crianças com fome... Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demonio... Ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!...

Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

--Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquella «era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!...» E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até, indignado, disse ao Rabbi:--«És bem duro com os pobres. Que auctoridade tens tu?» E o Rabbi fallou «de seu pai», e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabeça... E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi... Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!... E agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, não póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu pão juntava-as para aquelles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas lustraes... Em verdade Jehovah é grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!

Calou-se--e as suas mãos magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violencia do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flôr isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem d'ella ficasse uma queixa na terra--paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perdôe a minha!) atirando para o saião do velho moedas consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos d'Augusto, até uma grossa peça da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este thesouro um lepta de cobre--que tem em Judêa o valor d'um grão de milho...

O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro n'uma dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou timida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

--Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o pão de longos dias!...