# A Relíquia

## Part 12

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--Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ella é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: «Eu sou Jehovah, o eterno, o primeiro e o ultimo, o que não transmitte a outros nem o seu nome, nem a sua gloria: antes de mim não houve Deus algum, não existe Deus algum ao meu lado, não haverá Deus algum depois de mim...» Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: «Se pois entre vós apparecer um propheta, um visionario que faça milagres e queira introdizir outro Deus e chame os simples ao culto d'esse Deus,--esse propheta e visionario morrerá!» Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazareth proclamou-se Deus em Galilêa, nas synagogas, nas ruas de Jerusalem, nos pateos santos do Templo... O Rabbi deve morrer.

Mas o formoso Manassés, cujo languido olhar entenebrecia como um céo onde vai trovejar, interpoz-se entre o Doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repelliu a letra cruel da Doutrina:

--Não, não! Que importa que a lampada d'um sepulchro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os braços e grite que é um Deus? As nossas leis são suaves: por tão pouco não se vai buscar o carrasco ao seu covil a Gareb...

Eu, caridosso, ia louvar Manassés. Mas já elle bradava com violencia e fervor:

--Todavia esse Rabbi de Galilêa deve decerto morrer, porque é um mau cidadão e um mau judeu! Não o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a Cesar? O Rabbi estende a mão a Roma, o romano não é o seu inimigo. Ha tres annos que préga, e ninguem jámais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o Estrangeiro. Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, nescio e verboso, declara que traz só o _pão da verdade_! Quando ha um pretor romano em Jerusalem, quando são lanças romanas que velam ás portas do nosso Deus, a que vem esse visionario fallar do pão do céo e do vinho da verdade? A unica verdade util é que não deve haver romanos em Jerusalem!...

Osanias, inquieto, olhou a janella cheia de luz, por onde as ameaças de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discipulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paixão:

--Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céo é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra, para esta terra d'Israel que está em ferros, e chora e não quer ser consolada! O Rabbi é traidor á patria! O Rabbi deve morrer!

Tremulo, agarrára a espada: e o seu olhar alargava-se, com uma fulguração de revolta, como chamando avidamente os combates e a gloria dos supplicios.

Então Osanias ergueu-se apoiado a um bastão que rematava n'uma pinha d'ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuvear a sua velhice leviana. E começou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do Enthusiasmo e da Doutrina aponta o mandado inilludivel da Necessidade:

--Decerto, decerto, pouco importa que um visionario se diga Messias e filho de Deus, ameace destruir a Lei e destruir o Templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade... Mas, oh Manassés, as nossas leis são suaves; e não creio que se deva ir acordar o carrasco a Gareb, porque um Rabbi de Galilêa, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudencia e malicia nas relações com o romano! Ó Manassés, robustas são as tuas mãos: mas pódes tu com ellas desviar a corrente do Jordão da terra de Canaan para a terra da Trakaunitida? Não. Nem pódes tambem impedir que as legiões de Cesar, que cobriram as cidades da Grecia, venham cobrir o paiz de Judá! Sabio e forte era Judas Macchabeo, e fez amizade com Roma... Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando elle vem, o insensato offerece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe á sua morada e está quieto. Indomavel era a Galacia; Filippe e Perseu tinham exercitos na planicie; Antiochus o Grande commandava cento e vinte elephantes e carros de guerra innumeraveis... Roma passou; d'elles que resta? Escravos, pagando tributos...

Curvára-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miudos que dardejavam um brilho inexoravel e frio, proseguiu, sempre de manso e subtil:

--Mas em verdade vos digo, que esse Rabbi de Galilêa deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas apagar depressa com a sandalia, sobre as lages da eira, a fagulha que ameaça inflammar-lhe a mêda... Com o romano em Jerusalem, todo aquelle que venha e se proclame Messias, como o de Galilêa, é nocivo e perigoso para Israel. O romano não comprehende o Reino do céo que elle promette: mas vê que essas prédicas, essas exaltações divinas agitam sombriamente o povo dentro dos porticos do Templo... E então diz: «na verdade este Templo, com o seu ouro, as suas multidões, e tanto zelo, é um perigo para a auctoridade de Cesar na Judêa...» E logo, lentamente, annulla a força do Templo diminuindo a riqueza, os privilegios do seu sacerdocio. Já para nossa humilhação, as vestes pontificaes são guardadas no erario da Torre Antonia: ámanhã será o Candelabro d'ouro! Já o Pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corban! Ámanhã os dizimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da offrenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituaes, todos os haveres do sacerdocio, até as viandas dos sacrificios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bordão para irmos mendigar nas estradas de Samaria, á espera dos mercadores ricos da Decapola... Em verdade vos digo, se quizermos conservar as honras e os thesouros, que são nossos pela antiga Lei, e que fazem o esplendor d'Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um Templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabbi deve morrer!

Assim diante de mim fallou Osanias, filho de Beothos, e membro do Sanhedrin.

Então o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverencia as mãos sobre o peito, saudou tres vezes aquelles homens facundos. Gad, immovel, orava. No azul da janella uma abelha côr d'ouro zumbia em torno da flôr de madresilva. E Topsius dizia com pompa:

--Homens que me haveis acolhido, a verdade abunda nos vossos espiritos como a uva abunda nas videiras! Vós sois tres torres que guardaes Israel entre as nações: uma defende a unidade da Religião, outra mantem o enthusiasmo da Patria: e a terceira, que és tu, venerando filho de Beothos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão, protege uma cousa mais preciosa que é a Ordem!... Vós sois tres torres: e contra cada uma o Rabbi de Galilêa ergue o braço e lança a primeira pedrada! Mas vós guardaes Israel e o seu Deus e os seus bens, e não vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconheço, Jesus e o Judaismo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara fragil, disse, mostrando os dentes brancos:

--Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e silvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, suffocado, a manga do douto historiador:

--Topsius! Thopsius! quem é esse Rabbi que prégava em Galilêa, e faz milagres e vai ser crucificado?

O sabio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que d'além dos montes traz a luz da manhã. Depois, seccamente:

--Rabbi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazareth em Galilêa, a quem alguns chamam Jesus e outros tambem chamam o Christo.

--O nosso! gritei, vacillando, como um homem atordoado.

E os meus joelhos catholicos quasi bateram as lages, n'um impulso de ficar alli cahido, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chammejou por todo o meu sêr o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortaes no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!... E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha n'um aspero vento, tremia a minha alma n'um terror sombrio:--o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado com jejuns e terços para affrontar a face fulgurante do meu Deus? Não! Oh mesquinha e amarga deficiencia da minha devoção! Eu não beijára jámais, com sufficiente amor, o seu pé dorido e rôxo na sua igreja da Graça! Ai de mim! Quantos domingos, n'esses tempos carnaes em que a Adelia, sol da minha vida, me esperava na travessa dos Caldas, fumando e em camisa--não maldissera eu a lentidão das Missas e a monotonia dos Septenarios! E sendo assim do craneo á sola dos pés uma crosta de peccado, como poderia meu corpo não tombar, já reprobo, já tisnado, quando os dois globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céo, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas _vêr_ Jesus! Vêr como eram os seus cabellos, que pregas fazia a sua tunica, e o que acontecia na terra quando os seus labios se abriam!... Para além d'esses eirados onde as mulheres atiravam grão ás pombas; n'uma d'essas ruas d'onde me chegava claro e cantado o pregão dos vendedores de pães azymos--ia passando talvez n'esse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas mãos. A lenta aragem que balançava na janella o ramo de madresilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensanguentada d'espinhos! Era só empurrar aquella porta de cedro, atravessar o pateo onde gemia a mó do moinho domestico,--e logo, na rua, eu poderia _vêr_ presente e corporeo o meu Senhor Jesus tão realmente e tão bem como o viram S. João e S. Matheus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco--onde cahiria tambem a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem--beijaria a pégada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as mãos o barulho do meu coração,--eu poderia surprehender, sahido da sua bocca ineffavel, um ai, um soluço, um queixume, uma promessa! Eu saberia então uma palavra nova do Christo, não escripta no Evangelho;--e só eu teria o direito pontifical de a repetir ás multidões prostradas. A minha auctoridade surgia, na Igreja, como a d'um Testamento novissimo. Eu era uma testemunha inedita da Paixão. Tornava-me S. Theodorico Evangelista!

Então, com uma desesperada anciedade que espantou aquelles Orientaes de maneiras mesuradas, eu gritei:

--Onde o posso vêr? Onde está Jesus de Nazareth, meu Senhor?

N'esse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandalias, veio cahir de bruços nas lages, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da tunica, as suas costellas magras arquejavam; por fim murmurou, exhausto:

--Amo, o Rabbi está no Pretorio!

Gad emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em tôrno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabellos revoltos. Topsius traçára a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solemnidade d'um marmore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel á d'Abrahão, bradou-me triumphantemente:

--Ao Pretorio!

* * * * *

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalem, n'uma caminhada offegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passámos junto a um jardim de rosas, do tempo dos Prophetas, esplendido e silencioso, que dois levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatisada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de taboletas em fórma de flôres e d'almofarizes: um toldo de esteiras finas assombreava as portas, o chão estava regado e juncado d'herva dôce e de folhas d'anemonas: e pela sombra preguiçavam moços languidos, de cabellos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas d'anneis, as sêdas roçagantes das tunicas côr de cereja e côr d'ouro. Além d'essa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam: solitaria, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, immovel e como de bronze: e ao fundo, negrejavam na luz as columnatas de granito do velho palacio de Herodes. Ahi era o Pretorio.

Defronte do arco d'entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionarios da Syria--um bando de raparigas, tendo detraz da orelha uma rosa e no regaço coifas d'esparto, apregoavam os pães azymos. Sob um enorme guardasol de pennas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com taboas sobre os joelhos e balanças trocavam a moeda romana. E os vendedores d'agua, com os seus ôdres felpudos, lançavam um grito tremulo. Entrámos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pateo, aberto sob o azul, ladeado de marmore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do Palacio, estendia-se um velario, d'um estofo escarlate franjado d'ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura: dois mastros de pau de sycomoro sustentavam-n'o, rematados por uma flôr de lotus.

Ahi apertava-se um magote de gente--onde se confundiam as tunicas dos Phariseus orladas d'azul, o rude saião d'estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galilêa, e a capa carmezim de grande capuz dos mercadores de Tiberiade; algumas mulheres já fóra do abrigo do velario, alçavam-se na ponta das chinelas amarellas, estendendo por cima do rosto contra o sol, uma dobra do manto ligeiro: e d'aquella multidão sahia um cheiro morno de suor e de myrrha. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres d'uma toga pretexta, e mais immovel que um marmore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha: os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos: uma fita escarlate prendia-lhe os cabellos: e por traz, sobre um pedestal que fazia espaldar á sua cadeira curul, a figura de bronze da Loba Romana abria de travez a guela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquelle magistrado melancolico.

--Um certo Poncius, chamado Pilatus, que foi Prefeito em Batavia.

Lentamente caminhei pelo pateo, procurando, como n'um templo, fazer mais subtil e respeitoso o ruido das minhas solas. Um grave silencio cahia do céo rutilante: só, por vezes, rompia do lado dos jardins, aspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto á balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma columna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lages.

Subitamente, alguem familiar tocou no hombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com elle vinha um velho magnifico, d'uma nobreza de Pontifice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da simarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa d'oleo, cahia-lhe até á faxa que o cingia; e os hombros largos desappareciam sob a esparsa abundancia dos cabellos alvos, sahindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reaes. Uma das mãos, cheia de anneis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pallida, que tinha os olhos mais bellos que estrellas, e semelhava junto ao ancião um lirio á sombra d'um cedro.

--Subi á galeria, disse-nos Manassés. Tereis lá repouso e frescura...

Seguimos o Patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.

--Rabbi Robam, murmurou com veneração o meu douto amigo. Uma luz do Sanhedrin, facundo e subtil entre todos, e confidente de Kaipha...

Reverente, saudei tres vezes Rabbi Robam--que se sentára n'um banco de marmore, pensativo, aconchegando sobre o seu vasto peito ancestral a cabeça da criança mais loura que os milhos de Joppé. Depois continuámos devagar pela galeria sonora e clara: na sua extremidade brilhava uma porta sumptuosa de cedro com chapas de prata lavradas: um Pretoriano de Cesarêa guardava-a, somnolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Ahi, commovido, caminhei para o parapeito: e logo meus olhos mortaes encontraram lá em baixo--a fórma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpreza da alma variavel, não senti extasis nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memoria longos, laboriosos seculos de Historia e de Religião. Nem pensei que aquelle homem sêcco e moreno fosse o Remidor da Humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já não era Theodorico Raposo, christão e bacharel: a minha individualidade como que a perdera, á maneira d'um manto que escorrega, n'essa carreira anciosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antiguidade das coisas ambientes me penetrára, me refizera um _sêr_; eu era tambem um antigo. Era Theodoricus, um Lusitano, que viera n'uma galera das praias resoantes do Promontorio Magno, e viajava, sendo Tiberio imperador, em terras tributarias de Roma. E aquelle homem não era Jesus, nem Christo, nem Messias,--mas apenas um moço de Galilêa que, cheio d'um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céo, e encontra a uma esquina um Nethenim do Templo que o amarra e o traz ao Pretor, n'uma manhã d'audiencia, entre um ladrão que roubára na estrada de Sichem e outro que atirára facadas n'uma rixa em Emath!

N'um espaço ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do Pretor sob a Loba Romana--Jesus estava de pé, com as mãos cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no chão. Um largo albornoz de lã grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azues, cobria-o até aos pés, calçados de sandalias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. Não lhe ensanguentava a cabeça essa corôa inhumana de espinhos, de que eu lêra nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito d'uma longa faxa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os hombros; um cordel amarrava-lh'o por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabellos sêccos, passados por traz das orelhas, cahiam-lhe em anneis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sob sobrancelhas densas, unidas n'um só traço, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. Não se movia, forte e sereno diante do Pretor. Só algum estremecimento das mãos presas trahia o tumulto do seu coração; e ás vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galilêa, suffocasse entre aquelles marmores, sob o pesado velario romano, na estreiteza formalista da Lei.

A um lado, Sarêas, o vogal do Sanhedrin, tendo deposto no chão o seu manto e o seu baculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, n'um murmurio cantado e dormente. Sentado n'um escabello, o Assessor romano, suffocado pelo calor já aspero do mez de Nizam, refrescava com um leque de folhas d'heras sêccas a face rapada e branca como um gesso: um escriba, velho e nedio, n'uma mesa de pedra cheia de tabularios e de regras de chumbo, aguçava miudamente os seus calamos: e entre ambos o interprete, um phenicio imberbe, sorria com a face no ar, com as mãos na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado sobre a jaqueta de linho um papagaio vermelho. Em torno ao velario, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galilêa preso, diante do Pretor de Roma...

No emtanto Sarêas, tendo enrolado em torno á haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo para marcar nos seus labios o sêllo da verdade,--e immediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Fallava do Tetrarca de Galilêa, o nobre Antipas; louvava a sua prudencia; celebrava seu pai Herodes o Grande, restaurador do Templo... A gloria d'Herodes enchia a terra; fôra terrivel, sempre fiel aos Cesares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria elle estranhava que o Tetrarca se recusasse a confirmar a sentença do Sanhedrin que condemnava Jesus á morte... Não fôra essa sentença fundada nas Leis que dera o Senhor? O justo Hanan interrogára o Rabbi, que emmudecera, n'um silencio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sabio, ao puro, ao piedoso Hanan? Por isso um zeloso, sem se conter, atirára a mão violenta á face do Rabbi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a veneração do Pontificado?

A sua voz cava e larga rolava, infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós dois homens encruzados nas lages comiam tamaras de Bethabara que traziam no saião, bebendo d'uma cabaça. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava somnolentamente os seus borzeguins escarlates picados de estrellas d'ouro.

E Sarêas agora proclamava os direitos do Templo. Elle era o orgulho da nação, a morada eleita do Senhor! Cesar Augusto offertára-lhe escudos e vasos de ouro... E esse Templo, como o respeitára o Rabbi? Ameaçando destruil-o! «Eu derrocarei o templo de Jehovah e edifical-o-hei em tres dias!» Testemunhas puras ouvindo esta rude impiedade tinham coberto a cabeça de cinza para afastar a cólera do Senhor... Ora a blasphemia atirada ao santuario resaltava até ao seio de Deus!...

Sob o velario, os Phariseus, os Escribas, os Nethenins do Templo, escravos sordidos, susurravam como arbustos agrestes que um vento começa a agitar. E Jesus permanecia immovel, abstrahidamente indifferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das coisas duras e vãs que o maculavam. Então o Assessor romano ergueu-se, depôz no escabello o seu leque de folhas, traçou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou tres vezes o Pretor,--e a sua mão delicada começou a ondear no ar, fazendo scintillar uma joia.

--Que diz elle?...

--Coisas infinitamente habeis, murmurou Topsius. É um pedante, mas tem razão. Diz que o Pretor não é um judeu; que nada sabe de Jehovah, nem lhe importam os prophetas que se erguem contra Jehovah; e que a espada de Cesar não vinga deuses que não protegem Cesar!... O romano é engenhoso!

Offegando, o Assessor recahiu languidamente no escabello. E logo Sarêas volveu a arengar, sacudindo os braços para a multidão dos Phariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua força. Agora, mais retumbante, accusava Jesus, não da sua revolta contra Jehovah e o Templo, mas das suas pretenções como principe da casa de David! Toda a gente em Jerusalem o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta d'Ouro, n'um falso triumpho, entre palmas verdes, cercado d'uma multidão de galileus, que gritavam--«Hossana ao filho de David, Hossana ao rei d'Israel!...»

--Elle é o filho de David, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gad, cheia de persuasão e d'amor.

Mas de repente Sarêas collou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lança: o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachaço reverente e nedio: o Assessor sorria, attento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabbi: e eu, tremendo, vi um Legionario empurrar Jesus que ergueu a face...

Debruçado de leve para o Rabbi, com as mãos abertas que pareciam soltar, deixar cahir todo o interesse por esse pleito ritual de sectarios arguciosos, Poncius murmurou, enfastiado e incerto:

--És tu então o rei dos judeus?... Os da tua nação trazem-te aqui!... Que fizeste tu?... Onde é o teu reino?

O interprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de marmore, repetiu muito alto estas coisas na antiga lingua hebraica dos Livros Santos: e, como o Rabbi permanecia silencioso, gritou-as na falla chaldaica que se usa em Galilêa.

Então Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

--O meu reino não é d'aqui! Se por vontade de meu Pai eu fosse rei de Israel, não estaria diante de ti com esta corda nas mãos... Mas o meu reino não é d'este mundo!

Um grito estrugiu, desesperado:

--Tirai-o então d'este mundo!

