A Reforma

Part 9

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Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus _Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.

Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja Catholica, e da sua natureza e distinctivos.

A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.

=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.

Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_: «Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas.... Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter. E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que projectava.»

Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade. Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.

Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem, que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze, apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas, as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes, encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis, commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.

Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os habitantes de Genebra.

Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim, exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor, para evitar que esta fosse profanada.

No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.

Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham contribuido para o avanço da Reforma.

O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista, e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira, noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas, mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e punil-os mediante a perda dos sacramentos.

Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.

=Calvino é expulso de Genebra.=—Expulso de Genebra, Calvino foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.

=Genebra não pode passar sem Calvino.=—No entretanto, Genebra continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.

A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.

Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente á causa publica.

Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.

Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados da chamada theocracia genebrense.

É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias se enchiam até á porta.

=As ordenanças ecclesiasticas.=—O que effectuou tudo isto foram as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.

Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores, presbyteros e diaconos.

Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.

Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina. Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.

A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia o _Consistorio_, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja. O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na qualidade de magistrados.

Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente nomeados pela junta.

O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_, mas differe d’elles em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo elle fosse obra do Reformador.

Nos _Institutos_ expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja, e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro. Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.

=As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos principios expostos nos Institutos.=—Calvino combateu sempre energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente separadas uma da outra. Nas _Ordenanças_ não se mantem esta separação. A censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa, de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino, só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.

Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as _Ordenanças_ um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado. Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia, incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.

Não obstante, os pontos em que as _Ordenanças_ divergiam dos principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_ deram occasião a esses caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos, bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as _Ordenanças Ecclesiasticas_ as leis foram applicadas com um rigor anteriormente desconhecido.

O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas, as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão. Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi castigado por não comer carne á sexta-feira.