Part 8
=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.
Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.
Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.
=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.
Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto vivessem.
A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.
A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.
=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de Basiléa.
A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel começaram a prégar contra a superstição.
=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.
Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.
=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas provincias communs como nos territorios independentes as congregações determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou abolidas.»
Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos, e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista. O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.
=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer, a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar. Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o movimento lutherano.
Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado, o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um governo secular que lhe fosse hostil.
CAPITULO II
A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO
Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84.
=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.
Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente em guerra.
Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante francez, os huguenotes.
A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em Genebra.
=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito opiniões desencontradas.
Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.
O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os reformadores.
O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas reformadas da Europa.
=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.
Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, Ignacio de Loyola.
Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, nem fez voto de celibato.
Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira juridica.
Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella corresse.
Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.
[1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos, um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim. Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo, e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas phrases eram breves exposições das verdades evangelicas, ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88 annos.
=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.
Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da superficie da terra».
Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os romanistas.