A Reforma

Part 7

Chapter 73,609 wordsPublic domain

=Na Dinamarca.=—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.

A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição vem exposta no _Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ et Norwegeæ_, de Bugenhagen. O rei possuia o _jus episcopale_, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.

=Na Suecia.=—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.

N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio da Reforma lutherana.

Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.

É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já andavam pela Suecia.

Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações, contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen, sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro, «que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos antes.».

Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.

Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.

A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico, com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas, que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.

D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz. Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém, ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531. Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da Concordata.

II PARTE

A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS

CAPITULOS:

I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO.

II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO.

III—A REFORMA EM FRANÇA.

IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS.

V—A REFORMA NA ESCOCIA.

CAPITULO I

A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO

As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa, pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag. 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.

=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento, o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros, tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja, podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do que as de Luthero e de Melanchthon.

Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de aquella em que os seus antepassados a faziam.

É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja, referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que constituiam, realmente, a egreja de Deus.

Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.

Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas universidades e nas côrtes dos principes allemães.

=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes, ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema governativo differente.

Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»

Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.

Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.

No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.

=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da Suissa.

Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.

O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.

Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no seu nome».

Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.

Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.

Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.

A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.

A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da egreja.

O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.