A Reforma

Part 5

Chapter 53,749 wordsPublic domain

=O imperador pretende subjugar a Reforma.=—Este protesto tornou ainda mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo, conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva. Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia. Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço collectivo, a Reforma teria soffrido muito.

A que se deve attribuir este procedimento de Luthero? Repugnava-lhe a rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes. Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso. Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa, com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava, e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.

=A Conferencia de Marburgo.=—Pode-se imaginar o que seria aquella reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se mostravam mais inquietos.

Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união. Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em coisa alguma.

=A controversia entre Luthero e os suissos.=—O thema do debate era este. Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.

Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face um do outro durante um momento, mediante a missa.

Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.

A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia, operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda, posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.

Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a fé era indispensavel.

Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento, não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.

Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a Sua presença e tirava o beneficio inherente.

Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento, colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu sobre a cruz.

Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes, fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.

Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras palavras, ensinaram que a palavra _presença_ significava duas coisas differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa. A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados, empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas, o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto, porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era transportado da dextra de Deus para os elementos.

Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.

Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle, segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e sangue de Christo nos elementos do sacramento.

E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras HOC EST CORPUS MEUM (Isto é o meu corpo).

Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira», «Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.

=A Dieta de Augsburgo.=—O imperador tinha sido victorioso em toda a parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa conseguiu n’esse sentido.

O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como conselheiro theologico.

Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos; Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade. Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma era de paz e concordia.

Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia. Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça, não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto, se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras intenções depressa se tornaram manifestas.

Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e, inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de _Corpus Christi_. Seria condescender com a idolatria, seria prestar adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador? Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram passando os dias.

Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon, apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.

Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes artigos da sua fé. Era esta a famosa _Confissão de Augsburgo_ (_Confessio Augustana_), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante, «nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que recebeu dos principes esse encargo.

=A Confissão de Augsburgo.=—A primeira parte d’esta nobre confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra de Deus não está presa».

Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas ministerial.

A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.

O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias cessaram.

=A liga protestante de Schmalkald.=—Os principes sabiam que o imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem por liquidar.

Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante, de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos, viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.

O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da Barbaria.

A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a, e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o papa nem o rei de França.

Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.