Part 4
A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava para o pobre camponez e sua familia.
Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.
Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em summa, exigir d’elles o que quizesse.
N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e luxuosamente.
Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto, e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os impostos.
Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas associações era a de Bundschuh, isto é, a _do sapato atado_. A liga de Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms, quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.
A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau, mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em 1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma propagou-se em todas as direcções.
Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam, talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos, e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o ensino da Palavra de Deus:
1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.
2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros, comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios, seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus creou os animaes para uso do homem.
3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são livres.
4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus creou as aves e os peixes para uso de todos.
5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa, que impeçam qualquer acto de vandalismo.
6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido pelos antigos costumes.
7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.
8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo, e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.
9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes, ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.
10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.
11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).
12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.
Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar, ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim, vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.
Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram, intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha centuplicado mediante a paz futura.
«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes, porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos tinha a dizer.
«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes, haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais. Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia, até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é applicavel ao vosso caso».
E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»
O seu alvitre não foi acatado.
Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho, deixou de se interessar pelos revoltosos.
Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos massacrados.
Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.
Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido, e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.
Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia, havia morrido.
Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco depois, tendo sido sacramentado, falleceu.
=As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.=—O imperador ainda não havia voltado á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms. Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França, desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.
As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.
Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem. Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.
O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.
Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe, mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização ecclesiastica.
Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o systema _Consistorial_ do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.
Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta importancia o guardar-se a chamada _disciplina_ da egreja. Deus quer que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia, encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios, e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.
Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude. Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero, Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.
Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava, para esmagar a heresia na Allemanha.
Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526, e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido de celebrar missa.
Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.» «Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo, Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia, Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St. Gall, Weissenburgo e Windsheim.
Foi d’este protesto que se originou o termo _protestantes_.