Part 3
Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe algum tanto o poder.
=O estado politico da Allemanha.=—A Allemanha, no tempo da Reforma, não tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta, era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de 1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln. As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições iam diminuindo o poder imperial.
Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos; III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo, tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes e pelos barões.
A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar. Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras, mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos, chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc. Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o feudalismo, de se tornarem proprietarios.
O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de Luthero continuava agitando os espiritos.
=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes, porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se, e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado, de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo junto de si um monte de dinheiro.
Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho, ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma, replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões, ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms, e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi reconduzido á casa onde se hospedára.
Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez, mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto, prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada. «Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo», retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen». Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte, sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos os seus esforços.
Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa: quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem. Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o salvo-conducto mencionava.
=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg; e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se, sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio, onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba, vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez mezes n’aquelle seu esconderijo.
Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens difficeis.
Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos, homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram, chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta, de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma lingua barbara».
A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã, pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto, tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz, e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação que passou depois por toda a Allemanha.
=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo, andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria. Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente longe; foi o que succedeu na Allemanha.
Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge, ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus conterraneos, que os pozeram fóra.
Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.
Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo, e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava. Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de Storch, e do seu companheiro Münzer.
Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais em conformidade com as Escripturas.
=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero, pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha, deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados a desposar a causa do papa.
Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524, o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte. Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações, insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os quaes se baseou a condemnação de Luthero.
Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido, annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero; e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na Dinamarca e nos Paizes Baixos.
=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz, por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias reformas.
Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles, supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.
A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo, probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam, realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.
O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms, Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta. Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem ajudado e instigado esta guerra civil.
De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna, ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma. O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.
=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação; deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma; a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas, sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma; esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser preciso metter a mão á bolsa.
A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido, sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma ovelha, ou até a propria cama.