A Reforma

Part 25

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Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus _Institutos_ diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel, introduzidas.

=A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.=—Os cabeças da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.

Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.

Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario, _communhão com os santos_. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.

CAPITULO IV

OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA

Os principios _formaes_ e _materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma, pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da _Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_ da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_. Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia, pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.

=Os principios formaes e materiaes da Reforma.=—Os principios theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos _formaes_ e a outra pelos _materiaes_.

O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o movimento reformista com muita clareza e energia na sua _Historia da Theologia Protestante_. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de Deus é o principio _formal_ da theologia da Reforma, e a doutrina da Justificação pela Fé é o principio _material_ da mesma.

O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo. Aquillo a que se tem chamado os principios, _formaes_ e _materiaes_, da Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no _sacerdocio de todos os crentes_—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes, todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em santidade.

=O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.=—Quando Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava, mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados. Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle, insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados, dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas, o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.

Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão, por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.» Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença de Deus por determinação de quaesquer outros homens.

Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.

=O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada da Escriptura.=—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações, inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.

=O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a doutrina reformada da justificação pela fé.=—A doutrina da justificação pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento. Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de Deus.

=A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.=—A doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas, pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é a religião dos protestantes.

Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo, portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina reformada da Escriptura.

A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A _summula da theologia_, que todo o circulo da doutrina christã se apoia na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa; é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra de Deus.

=A doutrina medieval da Escriptura.=—Os theologos medievaes faziam, comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais nada.

Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis, mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus; podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o Seu povo de que a Biblia faz menção.

=O quadruplo sentido da Escriptura.=—Esta noção medieval ácerca da Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes. Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido _historico_ da passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O _allegorico_, o _moral_ e o _anagogico_. Estes varios sentidos differiam do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor fez de Capernaum a Naim.

É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome n’um sentido mystico, ou allegorico.

=Definição medieval da fé salvadora. A interpretação infallivel.=—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia, e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.

É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento, o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu. As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.

Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação entre o crente e a Biblia.

Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o arbitro supremo em todas as controversias.

=Os reformadores e a Biblia.=—Deram á Biblia a significação que ella realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal, que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar. A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo, promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil; pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.

Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa. A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se lhes dirigia por meio da Biblia.

Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.

A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e ouvirem as Suas palavras de conforto.

=A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.=—O segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na Palavra de Deus, á Sua presença.

Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos distinctos pelos dois disputantes.