A Reforma

Part 24

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Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.

A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.

=Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.=—Sendo este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.

Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora que Elle revelou em Christo.

CAPITULO II

COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA

O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De Monarchia_ de Dante e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua, pag. 218.

=O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca.=—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.

A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante, levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades. Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos, dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros. Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis concernentes á propriedade.

A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento, ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões juridicas deu logar a Reforma.

Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal. E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a dignidade das esposas e dos filhos.

Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e a da hereditariedade.

=A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.=—Segundo as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa; era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.

Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado, n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão, o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.

Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.

=Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.=—As idéas medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de _Proemunire_, que prohibe appellações para Roma, significava que existia no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar; e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida, segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno do imperador ou da cadeira do papa.

Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior, uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder ecclesiastico.

A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo; tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização. Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.

Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade de povos.

=A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de Marcello de Padua.=—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.

Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e das nações europeas, escreveu a sua _De Monarchia_ para mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este livro é o epitaphio do medievalismo.

Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o seu livro, o _Defensor Pacis_, que explicava como a verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da actualidade.

Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para dentro.

CAPITULO III

A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES

Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.

=Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.=—Nenhum dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus desde a infancia.

Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até aos seus dias.

A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?

=Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do Imperio medieval.=—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos privilegios da Egreja.

Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.

O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava no Imperio Romano.

Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.

=A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.=—O imperio medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»

Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar. Intitulou-o _Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da escravidão.

A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.