A Reforma

Part 23

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Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.

Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.

Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos ritualistas anglicanos.

Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é, sob o systema puritano, romanista e anglicano.

A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.

Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado estas duas calamidades.

IV PARTE

OS PRINCIPIOS DA REFORMA

CAPITULOS:

I—OS PRINCIPIOS DA REFORMA.

II—COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA.

III—A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES.

IV—OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS.

CAPITULO I

OS PRINCIPIOS DA REFORMA

A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag. 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis, pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.

=A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes.=—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em que a Reforma appareceu.

A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.

As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha um caminho especial a percorrer.

O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.

Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.

Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser agitadas por elles.

Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e tirou d’ellas mesmas a sua força.

=Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.=—O que mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença divina.

Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que Deus dá gratuitamente.

Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima de S. João, beneficiando o proximo.

A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para acabar de encher os seus cofres.

A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e obstaculos.

=Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.=—É natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma idéa geral do que se passou.

«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.

A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um homem era chamado _santo_ se pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia ao outro; um frade era um homem _santo_, um guarda do imperador era um homem secular. Um campo era _santo_ se um papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.

A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.

=Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de Christo.=—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.

=Francisco de Assis.=—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.

Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a da _imitação de Christo_; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e individual separação do mundo, muito differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos de Christo.»

Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza, castidade e obediencia.

O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais genuina imitação de Christo.

=Os Mysticos medievaes.=—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.

=A significação do perdão, segundo a Reforma.=—Todos estes movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.

Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a Reforma effectuou.