Part 22
O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.
Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.
Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.
Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base catholica romana.
Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada _Os Onze Artigos_. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».
=Os trinta e nove artigos.=—Este curto formulario de doutrinas foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos _Quarenta e dois Artigos_ de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.
=O puritanismo e as vestimentas clericaes.=—A rainha não gostava dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.
Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano. Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não criam.
A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal, e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com os usos estabelecidos.
A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão, que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas estabelecidas.
O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia. Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.
O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador, e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox, escreveram um folheto moderado—_Uma advertencia ao parlamento_—sobre a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos quaesquer. Cartwright escreveu uma _Segunda Advertencia_ em defeza dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575, havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.
=A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.=—Ha alguma desculpa para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra», exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.
Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia determinado conservar em paz o seu paiz.
Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil, o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França, Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de proteger perseguidos correligionarios.
=Luctas intestinas com o catholicismo romano.=—A politica da côrte romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que advertissem Isabel da sorte que a esperava.
A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno inglez.
Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia, foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.
É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.
Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino, reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a Hespanha.
Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas. E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria Stuart no throno de Inglaterra.
Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um facto consumado.
=A Armada hespanhola.=—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no sentido de subjugar a Inglaterra.
A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham, apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.
O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando comsigo a flôridas tropas hespanholas.
Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas. Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra; e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.
Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel vencer a Inglaterra.
É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum, e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.
=As prophecias.=—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto. A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os «Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles, chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via, mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros se deviam limitar a ler as _Homilias_ ás congregações. O arcebispo Grindal era favoravel a estas _Prophecias_, e quando a rainha lhe ordenou para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.
=Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.=—Quando Grindal morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos. Surgiram as seitas não-conformistas.
Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano, e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido. Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido, rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie de opusculos chamados _Anti-prelaticios_. Esses opusculos atacavam o systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.
=A Reforma ingleza= ficou firmemente estabelecida depois da derrota da Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua posição.
A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na doutrina quer no culto.
Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.
Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado protestante.
Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.
Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
Os bispos prepararam os _Os trinta e nove Artigos_, que o bispo Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra e Canterbury.