A Reforma

Part 21

Chapter 213,859 wordsPublic domain

Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante. Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.

Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.

A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.

=O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria (1553).=—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.

Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.

Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva a supremacia real.

Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á politica ecclesiastica.

=A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.=—Maria subiu ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.

Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe, herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer as pazes com o papa.

O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado; mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos até a Inglaterra se achar preparada para o receber.

=Como Maria se firmou no throno.=—Ao principio fel-o com bastante facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha, por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume. Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições em que Henrique VII a havia deixado.

=A alliança hespanhola.=—O povo inglez não via com bons olhos a alliança hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação, tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento, redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.

O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir, bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com a Hespanha.

=A reconciliação com Roma.=—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano. Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente. Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares. Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e, por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e restituil-as á Egreja.

Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.

O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em 1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas. A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.

=Porque não foi bem succedida a reacção.=—No espaço de dois annos a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como se operou esta transformação?

É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.

=As perseguições no reinado de Maria.=—Os protestantes que existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.

A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.

E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.

Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com satisfação.

=As terras da Egreja.=—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?

O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.

=O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.=—Os theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.

O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.

=A morte de Maria.=—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo dezeseis.

CAPITULO III

A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL

A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag. 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag. 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag. 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os _conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_, pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.

=A sucessão de Isabel.=—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.

A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.

A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.

Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real, posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» (Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação d’elles, adoptada.

A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e fazer-se egualmente protestante.

=Como se liquidou a questão religiosa.=—Isabel não era, de maneira nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.

Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu caminho.

Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.